A CRIANÇA E A MAGIA DA LINGUAGEM

A CRIANÇA E A MAGIA DA LINGUAGEM

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A criança e a magia da linguagem

Conselho Editorial Acadêmico Responsável pela publicação desta obra

Anise de Abreu Gonçalves D’Orange Ferreira

Arnaldo Cortina

Cristina Martins Fargetti

Renata Maria Facuri Coelho Marchezan Rosane de Andrade Berlinck

AlessAndrA del ré a criança e a magia da linguagem um estudo sobre o discurso humorístico

© 2011 Editora UNESP Cultura Acadêmica

Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 w.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br

CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

D375c

Del Ré, Alessandra, 1972- A criança e a magia da linguagem : um estudo sobre o discurso humorístico / Alessandra Del Ré. – São Paulo : Cultura Acadêmica, 2011. 310p. : il.

Inclui bibliografia ISBN 978-85-7983-221-5

1. Aquisição de linguagem. 2. Crianças – Linguagem. 3. Crianças – Humor, sátira, etc. I. Título.

1-8070. CDD: 401.9 CDU: 81.42

Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP)

G – Entrou uma abelha no nosso quartoum
monte de abelhae ela tem ferrão... tem ferros...

G (4; 1 anos) – Uma abelha entra em seu quarto: tem ferro de passar roupa. (risos)

E (3; 2 anos) – Enquanto seu pai lia:

P (lendo) – Mas não é que um dia escutou outro barulhinho! Era uma lagarta preta e cabeluda, que parecia tão preguiçosa...

E – Olha, Tetê (irmã), toda pretuda, toda cabe luda. (risos)

Ao meu querido marido, Alex, aos meus avós, Rosa e Tommaso, aos meus pais, Catarina e Nélio, à minha irmã, Adriana, às crianças e a todos os meus amigos.

Sumário

2 Revisitando algumas teorias sobre o estatuto linguístico e discursivo do humor infantil 71

4 Por uma metodologia discursiva no estudo sobre o humor na linguagem infantil 179

5 Análise e interpretação do efeito humorístico na fala da criança 207

Prefácio

Este livro é resultado da minha tese de doutorado, defendida em 2003, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, com o auxílio dos órgãos de fomento CNPq e Capes.

De lá para cá, deixei o tema em suspenso por um tempo e só o retomei recentemente, em 2008, graças ao incentivo da minha colega e amiga, Aliyah Morgenstern, professora da Université Paris 3. De fato, trata-se de um tema pouco explorado na área de Aquisição da Linguagem, sobretudo no Brasil, e concordei com ela que seria importante divulgá-lo, de forma integral.

Este trabalho, apesar de o tema sugerir algo leve, prazeroso, enfrentou muitas dificuldades no momento de sua elaboração, justamente porque um trabalho sério deveria ser empreendido a partir de um tema que se supõe divertido. Nesse sentido, agradeço imensamente aos professores/pesquisadores Christian Hudelot, Frédéric François, Marie-Thérèse Vasseur e Anne Salazar-Orvig pe las discussões teóricas que contribuíram para o meu amadurecimento e possibilitaram o delineamento metodológico-analítico deste trabalho.

Sobre o título do livro, alguém poderia se perguntar o porquê da palavra “magia” num estudo que pretende ser científico e que vai tratar do discurso humorístico. Eu diria que existem duas razões que justificam a “alquimia” contida neste trabalho: uma “concreta” e outra, claro, “mágica”...

A palavra “concreta” significaria, para mim, aquilo que posso “ver”, que se baseia em algo “palpável”, e, aqui, uma primeira explicação dessa natureza pode ser encontrada no início desta pesquisa, mais especificamente na escolha do material usado na coleta de dados: trata-se do livro Trucks, de Eva Furnari, um livro cujas imagens mostram uma bruxinha que, a fim de exercitar seus poderes, usa seu amigo dragão como cobaia de seus feitiços; e do livro com rostos de palhaços que deveriam ser preenchidos com adesivos pelas crianças e que trazem à tona toda a magia do circo. Esses livros, eu diria, foram o ponto de partida para realizar a presente pesquisa.

Em seguida, foram as próprias crianças e suas produções que proporcionaram uma atmosfera “mágica” para a realização do trabalho, e não apenas as crianças que participaram direta ou indiretamente da pesquisa, mas as crianças de um modo geral, já que todas têm essa capacidade de “enfeitiçar” e “encantar” as pessoas – razão “mágica”.

Nesse percurso, surgiria, então, a magia da cidade de Paris, local onde realizei parte do doutorado,1 refletindo-se diretamente neste trabalho, em especial na definição de algumas categorias de análise, que se apresentaram como que por “encanto”2 e que me nortearam no momento da análise dos dados.

Diante disso, achei que o título deveria refletir essa sensação de magia que permeava o trabalho. Mas precisava de mais elementos que fundamentassem aquilo que até o momento não passava de mera intuição...

Coincidentemente, enquanto experimentava o aspecto “mágico” do discurso das crianças e o incorporava ao texto deste trabalho, eis que, “como num passe de mágica”, me deparo, na minha

estante de livros, com a obra Les genres du discours, de Todorov, e descubro em seu interior uma parte cujo título era justamente “o discurso da magia”.

Nesse estudo estrutural (e de retórica geral, como o denomina o próprio autor) dos discursos mágicos, encontrei muitas pistas que me ajudaram a elucidar algumas impressões retidas até então. O objetivo não era entrar em contato com análises de rituais, poções mágicas ou afins, mas de investigar a “palavra mágica”,3 a palavra que age sobre as coisas e que é, desde cedo, manipulada pela criança, seja para solicitar a presença do adulto (mãe ou pai), por exemplo, seja para pedir comida, ou ainda para fazer o outro – e muitas vezes ela própria – rir. E como ela sempre parece conseguir o que quer em qualquer uma dessas situações, tem-se a impressão de que ela lançou um “feitiço”...

Mas, para isso, para se ter esse “domínio” sobre as coisas e a confiança nas relações interpessoais, é preciso conhecer as palavras. No caso das crianças pequenas e, mais especificamente, das crianças desta pesquisa, esse processo de conhecimento está em fase de aquisição, o que significa que elas ainda não possuem o “domínio” que os adultos têm, por assim dizer, mas se esforçam por construí- -lo, e aí está toda a magia delas, na maneira única e singular com que fazem uso da língua(gem).

Em qualquer discurso, toda palavra é ação no que se refere ao efeito por ela produzido – são “efeitos enfeitiçadores da linguagem”, como assim denomina Wittgenstein –, e é nesse sentido que a fórmula mágica, tal como ela vem descrita em livros de feitiços, designa uma ação virtual, não real, que ainda não foi consumada, mas que deve sê-lo. Contudo, tal fórmula em si não tem poderes mágicos. Ela só adquire poder em uma situação determinada e quan do pronunciada por alguém que possui poderes ou direitos sobre ela: a magia não está num enunciado, mas na sua enunciação (i.e., na conjunção do enunciado, dos interlocutores, das circuns-

3. Todorov, nessa mesma obra, fala em verbe magique.

tâncias ou dos contextos espaçotemporais). Além disso, o simples fato de dese jar provocar uma ação através da palavra não lhe garante um caráter mágico: tudo depende do agente dessa ação.

Na magia praticada pelas “feiticeiras”, como no humor, o gesto tem um papel importante. Quer se trate de um ritual mágico ou lúdico, as fórmulas utilizadas em sua composição são ricas em uma significação – o sentido referencial não parece ter muita importância nelas – que se perderia caso dependesse de uma simples análise dos elementos do enunciado. É o que acontece com as rimas, os trocadilhos, as brincadeiras com a sonoridade da língua, entre outros, que acompanham os jogos infantis, pois se trata de jogos que “associam o gesto à palavra num cenário imutável” (Yaguello, 1997, p.107).

Todo gesto ritual contém uma frase porque há sempre um mínimo de representação expressa ao menos na linguagem interior. Por essa razão, nenhum ritual é mudo de verdade, porque, embora haja um silêncio aparente, permanece o encantamento subentendido – no pensar –, que é a consciência do desejo. Nesse sentido, o gesto ritual é apenas a tradução desse encantamento mudo, é um sinal (signo) e uma linguagem.

Além dos gestos, é possível identificar no discurso mágico – proferido no momento em que um encantamento é realizado –, assim como no discurso humorístico, um objetivo comum: a adesão do interlocutor. Na medida em que ambos os tipos de discurso “embelezam” o objeto do qual falam, eles dissimulam e escondem a natureza mágica em vez de proclamá-la, na tentativa de convencer seu destinatário e de ganhar sua adesão (conivência). Os destinatários desses discursos, por sua vez, são anônimos, muitos dizem que não se deixam impressionar, mas não sabem que, no fundo, são vítimas – ou beneficiários – dessa magia.

Mas essa predisposição à magia não é algo que pertence apenas a um grupo particular (às bruxas ou às feiticeiras, por exemplo); ela está em todas as pessoas – e sobretudo nas crianças! –, mesmo que de maneiras ou estilos diferentes, visto que cada uma tenta, exercendo uma atividade simbólica (falando, por exemplo), adap tar seu dis- curso do modo que lhe convém, dependendo da situa ção de diá logo da qual participa e da interação com as pessoas nele en volvidas.

E é essa magia “poética”, tão visível e, ao mesmo tempo, tão inapreensível, presente de modo tão peculiar na criança e em sua linguagem, ainda que se trate de apenas um momento dessa aquisição, que eu gostaria de compartilhar com meus leitores...

introdução

Não são poucas as vezes em que somos surpreendidos, na fala da criança pequena, por jogos de palavras, trocadilhos e/ou enunciados com tom de piadas e brincadeiras. Estudos sobre inovações lexicais, registros hilários (Clark, 1982, p.403) e as anedotas enquanto índices interessantes e divertidos do potencial das crianças, como bem aponta Elliot (1982, p.79), ressaltam a importância de uma investigação das relações entre a aquisição da linguagem e o humor, o riso, o cômico e o jogo de palavras, entre outras categorias. Na verdade, muitos aspectos interessantes, tanto do ponto de vista linguístico quanto do discursivo, acontecem no domínio do humor, quando a criança está desenvolvendo uma atividade lúdica ou ainda nos momentos de descontração e/ou de riso.

Freud e seus discípulos, ao abordarem de modo especial a questão do humor, contribuíram muito para que o humor se tornasse um objeto de interesse. Aliás, é a partir de seus exemplos anedóticos, suas pequenas histórias ou infrações à lógica – cujo espírito se situa no tempo e no espaço – que ainda hoje divertem e servem de referência, que a maneira como o humor era percebido evoluiu.

Desde Platão, o humor é objeto de estudos, embora não existissem pesquisas a esse respeito. Aristóteles, na parte I de A poé tica, em que trata do humor, do riso e da comédia, dizia que o riso era algo próprio do homem.

A pesquisa do humor se estabeleceu, assim, como um campo multi e interdisciplinar, sendo estudado por filósofos, psicólogos, linguistas, especialistas em comunicação, etc., tornando-se inclusive objeto de um congresso internacional (International Conference on Humor), isto devido ao seu caráter complexo e mul tifacetado. O humor é “um meio, um caminho, um instrumento, uma arma usada em todas as sociedades para descobrir (através da análise crítica do homem e da vida) e revelar verdades escondidas e falsificadas, permitindo uma visão especial da vida, uma nova visão do mundo pela transposição de conceitos, uma ampliação dos contatos com nossas realidades” (Travaglia, 1989, p.67).

Existem várias razões para se eleger o humor como objeto de estudo da linguística e do presente livro. Entre elas, podemos citar, em primeiro lugar, o caráter aparentemente contraditório de uma abordagem científica (séria) a respeito de um tema que nada parece ter de sério: o humor. Mas uma pesquisa, para ser séria, não tem de ser necessariamente tediosa, nem na escolha de seu objeto, nem na maneira de tratá-lo. Em segundo lugar, é preciso dizer que ainda não se fez no Brasil uma linguística do humor infantil. Em terceiro lugar, os dados de humor mostram que o funcionamento da língua exige não apenas fatores de ordem gramatical ou cultural, ideológica, etc., mas todos eles inter-relacionados. Em quarto lugar, na medida em que esses dados revelam características da língua, eles permitem tratar diversas questões referentes à linguagem. Em quinto lugar, do ponto de vista da análise do discurso, esses dados humorísticos pressupõem um emissor e um receptor, ou melhor, falantes que obedeçam às restrições gramaticais, conversacionais e textuais, que dominem um conjunto complexo de regularidades para que seus efeitos sejam captados. Enfim, o estudo dos enunciados humorísticos – infantis, no caso – revela que as questões de discurso são antes questões de língua, “com uma condição: de que a língua seja assumida como uma quase estrutura indeterminada [...] em função do que seu exterior está umbilicalmente ligado a ela, inclusive porque ele é concebido como é, através da própria língua” (Possenti, 1991).

Diante disso, cabe perguntar: e a criança, será que ela produz humor? Ou, ainda, existe uma linguagem humorística típica da criança pequena? Alguns resultados obtidos em trabalho anterior (Del Ré, 1998) e as conversas informais que tivemos com algumas mães que relataram produções de seus filhos com tom de humor, nos levaram a crer que sim.

No que concerne ao humor da (ou na) criança, pode-se dizer que o primeiro estudo digno de registro nessa linha foi desenvolvido por Freud, em 1905 (1.ed.), com sua obra Der Witz und seine Beziehung zum unbewussten.1 Nela, o autor manifesta algumas noções que são preciosas para o estudo em questão – embora se trate de uma abordagem psicológica – tais como a relação entre o chiste e a linguagem (ver item 1.4). Para Freud, o chiste – definido no Aurélio2 como dito gracioso, pilhéria ou gracejo – se constituía basicamente dos mesmos traços da linguagem dos sonhos (linguagem do inconsciente), e é nesses chistes que Possenti (1991) acredita que os linguistas poderiam ver também as propriedades essenciais da língua, tanto no que se refere à sua estrutura quanto no que diz respeito ao seu funcionamento.

Bergson igualmente escreveu sobre o humor e o riso e, embora sua obra – anterior à de Freud – não tivesse tido a mesma repercussão, seu trabalho também trouxe contribuições para esse estudo. Além de ter escrito uma espécie de tratado sobre o riso (Le rire, 1900), ele discorre igualmente sobre a questão do nonsense como um tipo de encadeamento discursivo que, como veremos nos dados desta pesquisa, podem desencadear o cômico nos enunciados (ver item 3.2).

1. Trad. port. O chiste e sua relação com o inconsciente. 1.ed. In: Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (Rio de Janeiro: Imago, 1905/1969). 2. Aurélio B. H. Ferreira, Dicionário da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977).

Mas, segundo Raskin (1987), foi somente a partir dos anos 1970, mais especificamente a partir da Primeira Conferência Internacional sobre o Humor, em 1976, que o humor foi individualizado como objeto de estudo e que as pesquisas sobre o humor propriamente ditas começaram a se desenvolver.

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