03.08.2012 - O blog, o professor universitário e a grande matriarca virtuosa

03.08.2012 - O blog, o professor universitário e a grande matriarca virtuosa

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O blog, o professor universitário e a grande matriarca virtuosa PUBLICADO POR CEMED UFMG 03/08/2012 ⋅⋅DEIXE UM COMENTÁRIO por Edson Perini (* 1956; † desconhecida). Texto psicografado no ano 2512 pelo médium Illuminatus.)

Nós formávamos uma grande tribo. Éramos felizes, pois nossa Grande Mãe Virtuosa a todos protegia sob suas inúmeras asas, aba virtual sob as quais nos aquecíamos para escapar do frio isolamento social e da solidão. Ela era dura com todos, e exigente em suas necessidades. Precisávamos alimentá-la constantemente ou a treva era inevitável. Devidamente saciada, era justa nas suas atenções.

Nossa Mãe não era matriarca absoluta. Nos bastidores comandava seu matriarcado um Conselho de Notáveis, seleção dos melhores entre os membros da tribo. Ali estavam os mais sábios, alguns nem tanto, escolhidos entre os mais competentes na sua alimentação. O Conselho comandava com mãos de ferro não apenas a alimentação da Grande Mãe, mas a energia que dela exalava e retroalimentava a tribo. Como toda energia, essa se expressava de formas diversas, e a mais poderosa era a que alimentava o aquecimento fundamental, assim conhecido por manter aquecidos os bolsos, parte mais sensível da existência humana. Se a Grande Mãe era justa, o Conselho tinha essa característica questionada por alguns. Ele era impávido em seu colossal poder; uns assentados na fé do exercício desse poder para o benefício da nação (fé que eu respeitava muito, mas não partilhava), outros assentados na crença de que primeiro era necessário ajudar-se à exaustão para que o espírito humano se desenvolvesse como um grande coletivo de felicidade (crença que eu abominava).

Alguns na tribo eram para mim realmente sábios, e eu os admirava e confiava neles. Outros, talvez a maioria, eu os identificava com uma lei social (por eles considerada natural). Essa lei fora descoberta por um fantástico jogador de futebol, e segundo ela os humanos necessitavam levar vantagem em tudo – eu os conhecia como ‘espertos’. Eu não os considerava sábios, mas eram reconhecidos como exímios produtores de alimentos para as Grande Mãe – usavam muitas cores, flores e perfumarias. E deixavam nossa Mãe cada vez mais magnífica, com suas abas imensas. Eu não era sábio nem esperto. Tinha consciência de que nunca seria sábio, e não gostava dessa qualidade identitária dos espertos. Havia também uma categoria que eu classificava como bajuladores, que orbitavam sábios e espertos e viviam das suas migalhas. Como cães lazarentos, imploravam piedade. Eles eram muitos e realmente dignos de nossa piedade. Algumas pessoas eram espertas em um ambiente e bajuladores em outros. E eles se transformavam uns nos outros em função do tempo e da energia recebida. Era confuso.

Minha sorte era que nada disso impedia minha felicidade, baseada em certa despreocupação com a Grande Mãe e seu Conselho, e na forma como me abstraía em meus pensamentos e ideias. Embora longe de ser um sábio, gostava de ser professor. Nessa época era possível ser professor sem ser sábio. Isso atrapalhava o aprimoramento na esperteza, coisas para mim incompatíveis. Esse conflito interno foi difícil durante um tempo, pois a pressão nos levava a pensar que ou você era sábio ou esperto, ou lhe restava ser um bajulador. Mas como avançar da idade as coisas foram ficando mais claras e fui percebendo que ser sábio não era uma obrigação e não ser esperto uma satisfação. E eu odiava profundamente a bajulação. E, no fundo, minha percepção estética me dizia que a esperteza não gerava beleza, um dos aspectos fundamentais da existência. E a bajulação era mesmo horrorosa.

Não estava só! Muitos partilhavam comigo essas percepções, eu gostava de minhas companhias e acreditava nisso como o melhor da vida. Éramos conhecidos por não sermos. Os sábios viviam mais distantes pois eram mais raros, mas eu tinha amizades entre todas as categorias. Confesso que nunca deu muito certo com espertos e bajuladores. Tentava, como todos, satisfazer as necessidades da Grande Mãe, pois como todos, eu a amava, admirava suas qualidades, e a sua magnificência. Mas eu gostava de fazer coisas com as quais ela não se alimentava. Tentara cultivar flores para ela, mas me revelara um mau jardineiro. Tentara de um jeito, de outro, mas com resultados sempre pífios. A falta de aquecimento fundamental me incomodava no inverno, atrapalhava minha vida, causava-me reumatismos, mas não era o motivo de meus momentos infelizes.

A Grande Mãe me deixava viver em paz, pois era justa. E eu a amava profundamente por isso. Mesmo o Conselho de Notáveis eu admirava; eles reluziam e era um espetáculo a forma como surfavam sobre seus currículos virtuais. Os sábios eram realmente fantásticos e surfavam com naturalidade; os espertos se exibiam com certa desenvoltura, mas não era a mesma coisa. Os bajuladores… bem, esses viviam à sombra. De qualquer forma, sábios e espertos eram seres superiores e isso enchia meus olhos. Mesmo assim eu não admirava os espertos, e nunca quis ser um. Sábio, todos nós sonhávamos ser. Até mesmo, em épocas de minha vida, tentara ser esperto por imaginar o conforto do aquecimento fundamental no inverno. Mas eu gostava das coisas pequenas, simples e belas. Porém, saciar o apetite de nossa matriarca, virtual e virtuosa, voraz e insaciável, era considerado pelo Conselho mais que uma obrigação: um dever cívico. Nossa missão impossível na vida era saciá-la; nada mais interessava. Chamavam isso ‘sistema’; eu nunca entendi o porquê. Só sei que gostar de coisas pequenas, que não alimentavam a Grande Mãe, era tratado com desdém. Muitas vezes escutei: ‘isso é legal, mas o sistema é outro’. Sempre odiei essa frase! E a insistência era castigada com isolamento e solidão.

O Conselho não proibia a felicidade, mas não gostava de coisas pequenas e simples, embora belas. Ele nos classificava como portadores de deficiências diversas, relacionadas à produção. Eu acho que os membros da Câmara dos Espertos sabiam que sem nosso trabalho não podiam cultivar seus alimentos floridos, coloridos e perfumados, e por isso nos brindavam com a liberdade de sermos felizes. E a minha impressão era que usavam os bajuladores como escudeiros. Na época havia um psicoestimulante para aprimorar a base material da energia pensante, dado às crianças para evitar que crescessem como eu; mas para mim era tarde. Aliás, havia crescido em outra época, sob a égide de outro ‘sistema’, um patriarcado militar, então vencido e fora de moda, e contra o qual, no silêncio de minha timidez e em meus pequenos atos de menino, eu alimentava meu ódio e contra o qual eu havia dirigido parte da minha vida. Embora vencido e fora de moda, esse sistema rondava sempre a mente de espertos e bajuladores…

A Grande Mãe era justa, mas o Conselho aplicava regras duvidosas na divisão da energia e isso me fazia odiar a ambos. Essa tensão entre amor e ódio, desejo e repulsa foi tema de canções e era comum aos homens dessa época. Às vezes, a semelhança entre o meu ódio ao sistema sob o qual cresci, e o amor ao matriarcado virtual sob o qual vivi minha fase adulta me confundia. Cresci alerta ao perigo de me posicionar contra um sistema, e envelheci alerta ao perigo de não ser o que o novo sistema exigia; cresci sob a pressão das armas e envelheci sob a pressão da infantilização das ideias e condutas, e da confusão entre esperteza e heroísmo. Pensar nisso, e identificar os dois sistemas em tão profundas semelhanças nas suas diferenças provocava em mim ânsia de vômito e falta de ar. De alguma forma eu sempre soube que iria morrer de algum problema digestivo ou respiratório, meus pontos mais fracos.

[Uma anotação feita pelo médium, nesse ponto do texto e ao lado da página, dizia o seguinte: ‘Nesse momento fez-se silêncio na sala. O espírito calou-se e a ponta de laser caiu de minha mão sobre a mesa. Interrompi a escrita. As luzes se apagaram. Depois soube que chovera nessa hora, de forma estranha e fora das previsões.’]

Um dia o Conselho de Notáveis anunciou uma nova aba na expressão virtual de nossa Grande Mãe Virtuosa: nossa grande plataforma estava crescendo. E decidiram que essa aba seria alimentada pela divulgação do conhecimento científico para a sociedade.

Essa nova dieta prescrevia que professores e pesquisadores deveriam investir parte do tempo para dividir o alimento que forneciam à Grande Mãe com a sociedade, e por isso seriam agraciado com mais energia e quiçá maior aquecimento fundamental. Legal! – pensei. Primeiro porque isso era realmente bom, e eu acreditava na necessidade de ampliar a discussão da ciência na sociedade. Sempre achei uma forma de pensar importante. E depois, quem sabe seria essa a minha oportunidade. Como eu tinha um blog (espécie de espaço virtual na rede de computadores, não controlado por pares… onde era possível expressar pensamentos, ideias, conhecimentos, até mesmo protestar contra a fome imperial da Grande Mãe e seu Conselho – óbvio, ninguém fazia isso), a Grande Mãe agora iria ficar feliz comigo, e o Conselho me forneceria energia! Claro que eu nunca usufruiria do aquecimento fundamental, mas um pouco de energia já era muito para mim.

É necessário esclarecer que não tinha esperanças em relação ao aquecimento fundamental porque eu não produzia os dez a quinzepapers anuais mínimos necessários para alimentá-la (paper era o prato predileto da Mãe). Por isso eu era um ser invisível… Um ser que não era; não era sábio para produzir, nem esperto para fazer de conta que produzia. E não bajulava. Já me acostumara a viver assim, e até gostava do descompromisso que a invisibilidade me permitia. Ela me isentava de certas prestações de contas aos seres burogenocratas da época, seres horripilantes e amedrontadores, cuja forma era assumida por muitos professores e pesquisadores no aprimoramento de suas espertezas. Creio que o desenvolvimento da aparência burogenocrática era devido a alguns defeitos na expressão fenotípica de genes afetados pelo aquecimento fundamental, e transmissível pela postura subserviente do ato bajulador. Isso foi tema de muitas teses na área da genética e da evolução no século posterior aos fatos que agora discuto. De qualquer forma, ser reconhecido pelo Conselho era uma honra, e todos nós adorávamos esse odioso objetivo. Conflito íntimo do mestiço, diria um velho sábio da minha terra! Enfim, algo por demais humano para racionalizar.

E ai uma intensa movimentação começou a se formar entre os membros da tribo. Nova oportunidade, hora de acrescentar mais uma atividade nos currículos de neon. O caminho mais fácil para atender às necessidades da nova aba era realmente abrir um blog. Abram um blog! Diziam todos, postem qualquer coisa (não vai fazer diferença mesmo), mas façam isso para alimentar a plataforma e deixar a Mãe feliz,… e todos gritavam: hurra! Vida longa à Grande Mãe! Salve o Conselho (muitos em São Paulo emendavam esse último grito com o hino de um time de futebol muito popular, fazendo uma paródia não publicável…).

Eu assistia essas manifestações e achava estranho. Às vezes comentava, mas a resposta era sempre a mesma – essa é a regra do jogo; o sistema é assim. E uma enxurrada de blogs foi criada, com informações de todos os tipos, para todos os públicos. Era uma época de liberdade. Eu tinha um blog, mas é preciso que fique claro – o meu não era meu. Ele era do Centro de Estudos do Medicamento, uma criação coletiva dos membros do centro. Nosso objetivo era informar, mas também queríamos discutir, ter nosso espaço de posicionamentos. E, mais que tudo, ter um espaço didático (essa era outra de minhas esquisitices – eu acreditava nessas coisas). Percebia que ali o aluno construía ideias, convivia com elas em um ambiente de confronto de seus textos com as correções ou críticas que o grupo fazia no mesmo, até que todos concordassem com a forma final. Um exercício da expressão escrita – propor temas, pesquisar sobre eles, escrever e convencer seus colegas sobre sua escrita, ou criticar e corrigir os textos dos demais. Eles cresciam, preparavam-se para a vida. E eu me deliciava com isso, mas a Grande Mãe não estava preparada para se alimentar dessas coisas.

Por isso eu queria mais. Essa aba para a divulgação científica era fantástica, mas era pouco para mim. Queria que o Conselho criasse outra para professores expressarem sua dedicação ao ensino da graduação, sua dedicação à formação dos profissionais que prestavam serviços à sociedade. Enfim, o ensino que transformava as profissões e a vida de quem optava por não se transformar em professores e pesquisadores. Novas formas de ensino, experiências didáticas, processos de avaliação… e, é claro, que o Conselho acenasse aos membros de nossa tribo com energia para o aquecimento fundamental e para fomentar seus projetos de ensino. Em dois tempos nossos cursos de graduação seriam transformados, professores passariam a vê-la como algo de valor, fariam suas opções por ela, e como diria uma mulher famosa em na época, isso seria chic. E nossos alunos deixariam de ser vistos como ‘aqueles meninos vazios que nós professores precisávamos preencher com conhecimentos’, uma chatice…

Mas isso eu não pude ver. Isso era considerado o ‘feijão com arroz’; obrigação do dia a dia que não necessitava fomento. Eu até concordava que era isso mesmo, mas meu conflito íntimo em um mundo de esperteza me dizia que o sistema não funcionava assim. Era tudo realmente muito confuso. E por isso apenas presenciei a enxurrada de blogs, e outras manifestações similares. Porém, essas atividades tornaram-se mais uma tarefa para o diário compromisso de alimentar a Grande Mãe. E então professores e pesquisadores pagavam pessoas para escrever coisas, assinavam seus nomes nos textos, dividiam a autoria de escritos de seus estudantes sem mesmo ler o conteúdo, convidavam amigos ou se convidavam para dividir os blogs de amigos, escreviam qualquer coisa, dividiam textos em vários, formavam grupos para que cada um escrevesse um texto e todos assinassem, multiplicando a produção individual. Enfim, nada mudou. Não criaram novas manifestações e experiências. Não criaram novas práticas e condutas na produção. Isso não importava. Transportou-se o tempero dos papers para a nova dieta de nossa Mãe. Claro que isso fortaleceu aqueles que produziam coisas realmente belas junto à comunidade, em geral pequenas mas transformadoras. Mas foi pouco.

Naquela época havia coisas que eu considerava hilárias no mundo dessa tribo. Eu me divertia com elas. Mas na verdade, eu achava essas coisas nojentas, e aprendi com elas um pouco do significado da fala ‘Dai a César o que é de César’. Porém, percebi que só mesmo uma inteligência muito superior à minha seria capaz de uma ideia assim, e eu nunca entenderia completamente o seu significado. Frágil diante da grandeza dessa inteligência, aposentei-me e embarquei clandestino em uma nave alienígena. E sumi noutras dimensões.

Hoje, passados 500 anos, a saudade apertou, e resolvi ditar este texto à reencarnação de meu avô. Explico aos que dividiram comigo tais sentimentos porque sumi, e agradeço a existência desses que dividiram comigo tais sentimentos. Por existirem, existi e fui feliz.

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