Avaliação da capacidade funcional de idosos

Avaliação da capacidade funcional de idosos

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Santos GS, Cunha ICKO. Evaluation of functional...

Gerson Souza Santos1, Isabel Cristina Kowal Olm Cunha2

RESUMO Com o crescente aumento do número de idosos, cresce também a necessidade de utilização de instrumentos de avaliação da capacidade funcional para o desempenho de atividades cotidianas destes, as quais se relacionam com sua autonomia e independência funcional. Este estudo objetivou avaliar a capacidade funcional de idosos para o desempenho de atividades instrumentais da vida diária. Estudo transversal quantitativo, realizado com 340 idosos cadastrados em uma Unidade Básica de Saúde da Família no município de São Paulo. Os idosos eram, na sua maioria, mulheres, na faixa etária de 60 a 69 anos, afrodescendentes, sem cônjuge, com baixa escolaridade, aposentados, com renda de 1 a 3 salários mínimos, arranjos familiares multigeracionais, com doenças crônicas e inatividade física. Os idosos que participaram deste estudo apresentaram alto grau de dependência para as atividades instrumentais da vida diária, realizando, contudo, a maior parte das atividades com auxilio, como tomar remédios em doses e horários corretos, cuidar das finanças e realizar trabalhos manuais. Descritores: Idoso; Atividades cotidianas; Estratégia saúde da família.

ABSTRACT The significant increase in the number of elderly people determines an increasing use of functional capacity evaluation tests to assess daily living activities, which correlates with the elderly functional independence and autonomy. This study aimed at evaluating the elderly functional capacity, particularly the instrumental activities of daily living. A crosssectional quantitative study was conducted with 340 elderly people registered in a Health Primary Care Unit in the city of São Paulo. Most of them were women, aged between 60 and 69 years old, afro-descendents, single, undereducated, retired, earning 1 to 3 minimal wages, with multigenerational households, presenting chronic diseases and physical inactivity. The participants showed high level of dependence in instrumental activities of daily living, being able to perform most of those activities if assisted, specially taking medications as prescribed, managing personal finance and making hand works. Descriptors: Aged; Activities of daily living; Family health strategy.

RESUMEN Con el aumento creciente del número de ancianos, también crece la necesidad de la utilización de instrumentos de evaluación de la capacidad funcional para el desempeño de actividades cotidianas de estas personas, las cuales se relacionan con su autonomía e independencia funcional. Este estudio objetivó evaluar la capacidad funcional del anciano para el desempeño de las actividades instrumentales de la vida diaria. Estudio Transversal Cuantitativo, realizado con 340 ancianos registrados en una Unidad Básica de Salud de la Familia del Municipio de São Paulo. Los ancianos eran en su mayoría mujeres, con edad entre 60 y 69 años, afrodescendientes, sin cónyuge, con baja escolaridad, pensionados, con renta familiar de 1 a 3 salarios mínimos, composiciones familiares multigeneracionales, con enfermedades crónicas y inactividad física. Los ancianos que participaron de este estudio, presentaron alto grado de dependencia para las actividades instrumentales de la vida diaria, realizando la mayor parte de las actividades con ayuda, como tomar los medicamentos en dosis y horarios correctos, cuidados con la parte financiera y realización de trabajos manuales. Descriptores: Anciano; Actividades cotidianas; Estrategia de salud de la familia.

Mestre em Enfermagem. Doutorando e membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Administração em Saúde e Gerenciamento de Enfermagem - GEPAG da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo-EPE/UNIFESP. E-mail: enf.gerson@hotmail.com Enfermeira. Doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP). Professora Livre Docente Associada, Chefe do Departamento de Administração e Saúde Coletiva da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Email: isabelcunha@unifesp.br

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Segundo o Instituto Brasileiro de

Geografia e Estatística (IBGE), o número de idosos com 60 anos ou mais de idade passou de 14,8 milhões em 1999 para aproximadamente 20,6 milhões em 2010 (1% da população). Entre os mais velhos, o aumento é ainda maior. Em 1999, o Brasil registrava 6,4 milhões de pessoas com mais de 70 anos (3,9% da população total), enquanto a população dessa faixa etária atingiu um efetivo de 9,3 milhões de idosos em 2010, correspondendo a 5,1% dos brasileiros(1).

Certamente uma das maiores conquistas da humanidade foi o incremento na quantidade de anos vividos. Não só a proporção de idosos está aumentando progressivamente em todo o mundo, como também estes estão vivendo cada vez mais. É quase unanimidade, no entanto, que esses anos a mais vividos só valem à pena se forem vividos com boa qualidade de vida. Dentre os aspectos que estão relacionados a uma boa qualidade de vida na velhice, a capacidade funcional (CF) é apontada como uma das mais importantes, pois está associada à independência e autonomia(2).

Neste sentido, a CF é um dos atributos fundamentais do envelhecimento humano, pois trata da interação entre as capacidades física e psicocognitiva para realização de atividades no cotidiano e as condições de saúde, mediada pelas habilidades e competências desenvolvidas ao longo da vida. A funcionalidade na velhice é também influenciada pelo processo de envelhecimento fisiológico, por características de gênero, idade, classe social, renda, escolaridade, condições de saúde, cognição, ambiente, história de vida e por recursos de personalidade(2). A avaliação da CF, preconizada pela Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), é fundamental e determinará não só o comprometimento funcional do idoso, mas sua necessidade de auxilio. Pode ser compreendida como uma tentativa sistematizada de avaliar de forma objetiva os níveis no qual uma pessoa está funcionando numa variedade de áreas utilizando diferentes habilidades. Representa uma maneira de medir se uma pessoa é ou não capaz de desempenhar as atividades necessárias para cuidar de si mesma(3). Assim, a CF nessa população pode ser avaliada por intermédio de instrumentos de auto percepção e/ou por testes de desempenho físico. As escalas de auto percepção são utilizadas com mais frequência, tendo em vista a apropriação como medida de levantamentos populacionais. Há diversas escalas para avaliar a CF, porém a maior parte desses instrumentos foi desenvolvida em países com características culturais e demográficas diferentes da realidade brasileira. Portanto, é necessário que as mesmas possam ter suas características psicométricas atestadas quando utilizadas em regiões distintas daquelas onde foram originadas. Com o crescimento do contingente de idosos e o prolongamento da expectativa de vida, a preocupação em relação à CF vem aumentando em diversos campos do conhecimento. Na área da saúde, a avaliação da CF é essencial para a escolha do melhor tipo de intervenção e monitorização do estado clínico-funcional dos idosos(4-5). Este estudo teve por objetivo avaliar a capacidade funcional de idosos para o desempenho das atividades instrumentais da vida diária.

Trata-se de um estudo descritivo, transversal, de natureza quantitativa, parte integrante de Tese de Doutorado em desenvolvimento na Escola Paulista de Enfermagem - Grupo de Estudos e Pesquisas em Administração de Serviços de Saúde e

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Gerenciamento de Enfermagem (GEPAG) da Universidade Federal de São Paulo. O estudo foi realizado com uma população de 3000 idosos cadastrados em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) localizada na Zona Sul do município de São Paulo, Coordenadoria Sudeste, Vila Mariana/Jabaquara, que tem implantada a Estratégia Saúde da Família. Utilizou-se o sistema de amostragem aleatória simples, sendo esta um tipo de amostragem probabilística. Foi composta por 340 pessoas idosas selecionadas segundo os critérios de inclusão: ter idade igual ou superior a 60 anos e estar cadastrado na UBS. A coleta de dados teve inicio após a autorização dos Comitês de Ética em Pesquisa da instituição proponente de pesquisa (Parecer Nº 1012/1) e da coparticipante (Parecer Nº 378/1), e foi realizada no período de dezembro de 2011 a março de 2012. Os dados foram coletados mediante aplicação de questionário contendo informações sociodemográficas. Para identificar o grau de dependência para as atividades instrumentais da vida diária adotou-se a Escala de Lawton, que avalia: uso do telefone, fazer compras, preparo de refeição, tarefas domésticas, usar meio de transporte, manejo das medicações e controle de finanças. Estes itens são classificados quanto à necessidade de ajuda à qualidade da execução e à iniciativa, variando de 1 a 3, na qual 1 representa necessidade de ajuda total para a realização da atividade, 2 que o idoso precisa de alguma ajuda e 3 total independência para a função. A pontuação máxima é 27 pontos, e o escore tem significado apenas individualmente, como caráter comparativo para evolução do quadro geral do paciente(6). A análise de dados foi realizada por meio do SPSS® (Statistical Package for the Social Sciences) 16.0 for Windows®. Utilizou-se o teste Qui-quadrado (x2) para associação de variáveis, considerando o nível de significância de p<0,05. Dos 340 idosos entrevistados, 211 (62%) são mulheres com média de idade de 69,08 anos, variando entre 60 e 85 anos, afrodescendentes 237 (69,7%), mas a grande maioria 237 (69,7%) sem cônjuge. Tratando-se da escolaridade, 163 (48%) são analfabetos e 177 (52%) tem o ensino fundamental incompleto (1 a 4 anos de estudo). Em relação à ocupação atual, 235 (69,1%) eram aposentados. Em relação à renda familiar, 176 (51,7%) dos idosos tem de um a três salários mínimos. A maioria dos entrevistados (280; 81,8%) morava em domicílios multigeracionais, apresentando em média quatro pessoas por domicílio. Alto percentual destes idosos são portadores de doenças crônicas, com destaque para hipertensão arterial (254 74,7%) e a grande maioria (273 80,2%) não realiza nenhuma atividade física. Mostraram significância estatística as variáveis: raça referida (p-valor 0,001), idade (p-valor- <0,001), estado conjugal (p-valor- <0,001) e escolaridade (p-valor- <0,001). As demais variáveis não apresentaram significância estatística (Tabela 1). A Tabela 2 mostra os resultados da avaliação do desempenho para atividades instrumentais da vida diária, onde é possível observar que apenas 1 (32,6%) idosos conseguem usar o telefone sem ajuda. Quanto ao uso de meio de transporte 113 (3,2) realizam esta atividade de forma independente. A atividade básica de realizar compras somente 109 (32,1%) idosos consegue realizá-la sem auxílio. O preparo das refeições é uma atividade que apenas 114 (3,5%) realizam com independência. Somente 121 (35,6%) idosos consegue desempenhar a atividade de arrumar a casa, sem ajuda. Lavar roupas é uma tarefa que 93 (27,4%) fazem sem auxílio. Realizar trabalhos manuais apenas 9

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(29,1%) faz sem auxílio. Tomar medicamentos em doses e horários corretos somente 85 (25%) idosos consegue fazer de maneira independente. Em relação ao manejo das finanças somente 78 (2,9%) realizam sem auxílio.

Tabela 1- Características sociodemográficas de idosos cadastrados em uma Unidade Básica de Saúde da Família. São Paulo (SP), 2013.

FemininoMasculino Total
Idade
Estado civil
Escolaridade

Ensino Fundamental

Trabalho remunerado
Ocupação atual
Renda familiar
Arranjo domiciliar
Morbidades
Atividade física

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Tabela 2- Distribuição dos idosos segundo a avaliação das atividades instrumentais de vida, diária. São Paulo (SP), 2013.

Itens da Escala de Lawton Não consegue Com ajuda parcial Sem ajuda n % n % n %

Consegue tomar seus remédios nas doses e horários corretos 159 46,8 96 28,2 85 25,0

A proporção de idosos que apresentam comprometimento na capacidade funcional aumenta com o avançar da idade. Vários fatores estão associados ao comprometimento da capacidade funcional: idade avançada, gênero feminino, baixa renda e escolaridade, arranjo familiar multigeracional, hospitalização no último ano, visão ruim, declínio cognitivo, presença de depressão e várias comorbidades, além de baixa frequência de contatos sociais e de prática de atividade física. A idade é um dos fatores mais importantes. O risco de declínio funcional aumenta cerca de duas vezes a cada 10 anos a mais vividos. Idosos de 80 anos ou mais tem uma chance 25 vezes maior de declínio da capacidade funcional com comparação com idosos mais jovens(7-8).

Neste estudo mostra um alto percentual de idosos na faixa etária de 60 a 69 anos (210 61,7%), caracterizados como idosos jovens. A Estratégia Saúde da Família representa a porta de entrada para idosos e seus familiares, assim, pressupõe-se um olhar diferenciado dos profissionais de saúde em relação a este contingente populacional que nos próximos dez anos passarão da fase de idosos jovens para muito idosos. A literatura tem afirmado que as

(36,0%) na faixa etária de 70 a 85 anos

condições de saúde são bastante diferenciadas por gênero, as mulheres idosas experimentam uma carga maior de doenças crônicas, levando à maior prevalência de incapacidade funcional, fato que, em parte, pode ser explicado pela maior sobrevivência feminina, o que permite o desenvolvimento de condições desfavoráveis à saúde e maior vulnerabilidade em idades mais avançadas(9- 10). Das mulheres idosas que participaram deste estudo 135 (64,0%) estão na faixa etária de 60 a 69 anos e um expressivo percentual 76

divorciados

Em relação ao estado conjugal observou-se que 237 (70%) dos idosos entrevistados não tem cônjuge, considerando o percentual de solteiros, viúvos e Considera-se o fato de que esta população é constituída em sua maioria por idosos jovens, possivelmente estes ainda terão oportunidades de se casarem ou contraírem novos laços nupciais. Se por um lado ter companheiro conjugal representa alternativa de suporte ao idoso ao longo da vida, por outro lado teremos idosos cuidando de idosos quando estes se tornam dependentes de cuidados.

A escolaridade dos idosos deste estudo foi baixa, constituída por analfabetos (163 48%) e com ensino fundamental incompleto

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(177 52%), representando assim, uma condição social desfavorável, pois tal situação tem influência no acesso ao serviço de saúde, em oportunidades de participação social e na compreensão do seu tratamento e autocuidado, entre outros(10-1). A baixa escolaridade influencia diretamente no desempenho das atividades instrumentais da vida diária tais como o uso de meio de transporte, tomar medicamentos em doses e horários corretos e controlar finanças, e a falta destas tem relação direta em perda de autonomia e isolamento social. Isso porque, outras pessoas passarão a gerir a vida social do idoso e decidirão o que ele deve ou não fazer, o que resulta em alto grau de dependência.

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