Sustentabilidade da Sala de Aula: Ressignificando o Ensino de Ciências nas Séries Iniciais

Sustentabilidade da Sala de Aula: Ressignificando o Ensino de Ciências nas Séries...

(Parte 1 de 6)

SUSTENTABILIDADE DA SALA DE AULA: Ressignificando as Ciências nas Séries Iniciais Através da Educação Ambiental

Ao analisar um projeto de Educação Ambiental Escolar, o presente artigo se aproxima de uma metodologia de ensino a partir da pesquisa. Enfatizando o encontro entre Educação Ambiental e ciências, a formação de professores para estas áreas temáticas se configura como um caminho para a superação das deficiências percebidas no ensino de ciências ao longo da história da educação no Brasil, sobretudo para as Séries Iniciais do Ensino Fundamental.

Com a formação inicial aquém das exigências impostas pela legislação educacional e pelas demandas da sociedade, a formação continuada se mostra como uma importante ferramenta para uma mudança necessária dos sistemas de ensino. Porém tal formação deve envolver o educador na reconstrução de sua prática pedagógica, ressignificando para o aluno os conteúdos curriculares apresentados no cotidiano escolar.

Entende-se que uma formação continuada para a Educação Ambiental

Escolar, onde o professor recebe subsídios metodológicos para atuar como um professor-pesquisador, tem o potencial de contribuir para o desenvolvimento qualitativo das aulas de ciências nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental, promovendo um ensino mais significativo, crítico e criativo.

PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental; Ensino pela Pesquisa; Professorpesquisador

By analyzing a Project for Environmental Education in Schools, this article pretends to be closer to a teaching methodology that starts on research. Emphasizing the neighborhood of Environmental Education and Science, the teacher training for such thematic areas is a way to overcome perceived deficiencies in teaching Science throughout education’s History in Brazil, especially for early elementary school.

With an initially poor conformation doe to educational laws and forced by the social demands, continuous training is a very important complement for the changes expected of the present school system. Otherwise, such training has to involve teachers in a reconstruction of their pedagogical practice, reframe the contents of a curriculum that’s present on an everyday school.

It’s understood that a continuous training for an Environmental Education in Schools, in which teachers become methodological elements for to act as a researcher-teacher, has the capability to concur for a qualitative development of Science classes in the early elementary school, promoting more significant, critical and creative lessons.

KEY WORDS: Environmental Education; Teaching by Research; Researcherteacher.

I – Educação Ambiental Escolar nas Séries Iniciais: Uma Introdução

Um projeto de Educação Ambiental Escolar tem o potencial de agregar os componentes curriculares das Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Porém, é comum tal área estar relacionada ao conteúdo de ciências. Como a formação inicial para as Séries Iniciais do Ensino Fundamental está longe de preparar completamente o professor, diante das diretrizes para a docência em constante evolução, a necessidade de uma formação continuada na área se faz urgente em uma realidade que exige a inserção transversal da Educação Ambiental no currículo desta etapa escolar. Para tanto, a busca por cursos, palestras, eventos, leituras e trocas de experiências, são tentativas de superar as inconsistências da formação inicial dos professores destas séries, em busca de um trabalho que seja mais significativo para os alunos em início de escolarização formal.

Enquanto a sociedade percebia a necessidade de uma nova forma de educar, as temáticas ambientais apareciam como um importante ingrediente para a construção de uma sociedade mais cidadã. Foi na década de 60 que a sociedade brasileira, em consonância com os movimentos sociais internacionais, iniciaram uma crítica radical à sociedade capitalista industrial de consumo, questionando o modelo de desenvolvimento econômico vigente. Neste contexto, a ciência ecológica que crescia se agregava à agenda de lutas sociais em um movimento que buscava novos valores éticos, políticos e existenciais para a vida individual e coletiva.

A partir das práticas sociais e das possibilidades de estilos de vida que incluíam preocupações ambientais, a Educação Ambiental foi se constituindo como ações educativas/escolares para o meio ambiente, levando às instituições formais de ensino preceitos de vida integrados à manifestações da natureza. Desta forma, a escola começou a incorporar questões do campo ambiental, transformando-as em objetos de estudo. Assim, os educadores que incluíram este ideário ecológico em suas práticas pedagógicas, passaram a assumir a posição de educadores ambientais.

Atualmente, a Educação Ambiental está bem difundida no contexto escolar. Existe legislação, programas e projetos diversos que estimulam a relação entre princípios da sustentabilidade e a educação. Porém, muito se fala sobre a temática, mas nem sempre as ações condizem com as necessidades urgentes que enfrentamos. Diante da escassez de recursos econômicos, humanos e de tempo para estudo, investigação e experimentações, necessários para um trabalho abrangente e de qualidade, a Educação Ambiental se resume, muitas vezes, a um grupo de atividades lançadas nas escolas, sem o devido contexto e integração curricular. Além disso, temos toda uma cultura de consumo que minimiza as ações ambientais que se ocupam da transformação da sociedade em busca de uma vida mais ética, democrática, plural, tolerante e ecológica.

A formação para a docência nas cinco séries iniciais do ensino fundamental, responsáveis pela alfabetização e letramento dos alunos, se dá preferencialmente em nível superior, no curso de Pedagogia, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96 (BRASIL, 1996). E as exigências presentes no currículo desta etapa escolar envolvem a integração das diferentes áreas do conhecimento, introduzindo para estes alunos conceitos-chave que os mesmos devem desenvolver até o final da educação básica (ensino fundamental e ensino médio).

Porém, o professor nunca estará completamente pronto para a docência.

Desta forma, se torna cada vez mais necessária a presença dos estágios e das observações durante a formação inicial para o ensino. Mais importante é a formação continuada de um professor, na busca da superação de questões conceituais e metodológicas envolvendo sua prática pedagógica. Acima de tudo, deve-se ter em mente que se aprende a ser professor unindo o estudo à experiência pedagógica, ou seja, se aprende a ser professor sendo professor, enquanto realiza uma reflexão sistemática diante de suas vivências em sala de aula.

Mas, o que é ser um bom professor? Sobretudo, que conjunto de características um professor deve reunir para realizar um trabalho que esteja de acordo com o que é esperado pela sociedade? A diversidade de concepções pedagógicas faz com que não exista uma resposta definitiva e universal para tais questionamentos. Entretanto, é necessário que cada professor se posicione diante das questões que surgirem no decorrer de um ano letivo. A tradição pedagógica mostra a predominância de influências externas ao trabalho docente, marcando a formação de professores ao longo do tempo. NÓVOA (2013) defende que devemos “instituir práticas profissionais como lugar de reflexão e formação” (NÓVOA, 2013, p. 4), ou seja, o profissional docente usando sua prática – e a dos colegas – para realizar reflexões teóricas e metodológicas em busca da qualificação de seu trabalho, reforçando a profissionalização do professor, como alguém que passou por um processo de formação complexo e que precisa ser valorizado como tal.

Desta forma, para fazer Educação Ambiental, precisei me posicionar diante da paisagem que coletei com meus sentidos. Vivencio meu trabalho em um local que carrega o nome da natureza (Roselândia – Novo Hamburgo/RS), mas que traz a marca da degradação ambiental (o bairro foi o lixão da cidade até a década de 90). A história das famílias dos meus alunos está impregnada de questões ambientais globais e, por isso, os tenho conduzido entre os princípios planetários e as situações particulares que enfrentamos diariamente na escola, no bairro e no município.

Ser Educadora Ambiental me permitiu reconstruir minha relação com o ambiente ao meu redor. Desde então, tenho buscado o ambiente que habita em mim através de reflexões e ações relacionadas à forma como me posiciono diante dos espaços onde transito diariamente. Sob o olhar sempre atento dos alunos da minha escola, vou seguindo um caminho entre a ciência e a arte, onde a pesquisa, a experimentação e a sensibilização se configuram como uma metodologia de vida e de trabalho, tendo como referência a coerência diante do que aprendo e ensino a cada momento.

Quando iniciei minhas atividades profissionais em Novo Hamburgo/RS, em 2010, tive uma aproximação com a Educação Ambiental, me envolvendo no projeto de sustentabilidade da EMEF Maria Quitéria1, escola na qual atuo desde então. Encontrei, na Rede Municipal de Ensino de Novo Hamburgo/RS, condições de desenvolver minha formação nesta área, através da participação do Coletivo Educador de Novo Hamburgo2.

A partir do projeto de formação de Agentes Ambientais Escolares para as escolas da Rede Municipal de Novo Hamburgo/RS, pude utilizar a sistemática da pesquisa, desenvolvida em minha formação inicial3, oferecendo subsídios teóricos e

1Esta escola atende alunos da Faixa Etária 5 até o 5º anos, sendo responsável para formação final da

Educação Infantil e das Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Ela está localizada o bairro Roselândia, em uma região socialmente frágil com altos índices de criminalidade.

2Grupo de professores formado por representantes das escolas da Rede Municipal de Ensino de Novo

Hamburgo, que se reúnem mensalmente durante o ano letivo, onde buscam a formação continuada na área de Educação Ambiental através da participação em cursos, palestras, seminários e outros.

3No Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre 2003 e 2008. 3 metodológicos para a construção do projeto “Escola Sustentável: ecolúdica e amiga da natureza”4, implementado na EMEF Maria Quitéria durante o ano de 2013. Tal projeto de Educação Ambiental Escolar virou referência para o Coletivo Educador de Novo Hamburgo.

A experiência vivenciada, à luz das reflexões desenvolvidas sobre a prática pedagógica no curso de especialização “CPEaD – Espaços e Possibilidades da Formação Continuada”, oferecido pelo Instituto Federal Sul-Rio-Grandense de Pelotas, foram determinantes para a construção deste artigo monográfico. Aqui, apresento as relações existentes entre uma formação continuada na área da Educação Ambiental e o desenvolvimento do ensino nas séries iniciais do ensino fundamental. Para tanto, observa-se o potencial desta formação, tendo como base o ensino pela pesquisa, para a ressignificação do ensino de ciências nesta etapa escolar.

4Projeto financiado pelo Fundo Municipal em Defesa da Educação Ambiental de Novo Hamburgo. 4

I- No meio do caminho tinha uma sala de aula: Problematização e Justificativa

Na educação, “há um excesso de discursos redundantes e repetitivos, que se traduz numa pobreza de práticas” (NÓVOA, 2013, p.2), pois estamos em um momento onde o efeito discursivo, os modismos e as conceituações inócuas resultam em um “discurso gasoso” (NÓVOA, 2013, p.2) que só prejudica o fazer pedagógico. NÓVOA (2013) começa seu ensaio com este triste diagnóstico, porém, ao invés de se perder em um discurso determinista, ele anuncia o século XXI como o tempo dos professores na educação, ou seja, o momento em que a formação pedagógica será o ponto de transformação da educação.

Para começar a definir o ideal de uma formação – inicial e continuada –,

NÓVOA (2013) aponta que um “bom professor” é aquele que integra o saber, com o saber-fazer e o saber-ser. Desta forma, o autor nos convida a pensar nas relações existentes entre a profissionalidade docente e a pessoalidade do professor, onde o conhecimento, a cultura profissional, o tato pedagógico, o trabalho em equipe e o compromisso social devem fazer parte de um professor completo.

Diante da ideia de que “a competência coletiva é mais do que o somatório das competências individuais” (NÓVOA, 2013, p. 7), o autor defende uma proposta de projetos escolares, onde todo o trabalho pedagógico se desenvolve sob uma ideia comum. Como um projeto coletivo deve se sustentar em uma elaboração coletiva, fruto de trabalho investigativo e reflexivo por parte do corpo docente, tal prática reforça a necessidade da inserção de princípios da pesquisa na atividade docente.

Partindo do princípio de que a pesquisa é uma atividade humana voltada para a solução de problemas relacionados à realidade, com objetivo de produção de conhecimentos que visem à superação dos questionamentos motivadores deste ato, a presença de uma formação voltada para a pesquisa é fundamental para o professor comprometido com a aprendizagem de seus alunos.

Atualmente, as formações pedagógicas já envolvem os profissionais da escola em situações de pesquisa. Porém, a metodologia vigente nos meios acadêmicos aponta um rigor científico que distancia o fazer pedagógico investigativo do ato de pesquisar. Ao professor de sala de aula, é direcionada cada vez mais a exigência de pesquisa bibliográfica, análise da realidade escolar e projetos de aprendizagem que visem à superação das limitações pedagógicas percebidas. Portanto, um planejamento consistente, preocupado com a aprendizagem crítica e criativa dos educandos, deve ser pautado em princípios da pesquisa científica.

Dentro da realidade educacional, é comum encontrarmos um distanciamento entre o professor e o pesquisador. Entretanto, através de uma formação inicial qualificada e, principalmente, da formação continuada, o professor pode encontrar meios que o aproximem cada vez mais de situações onde é necessário identificar situações, levantar hipóteses, analisar dados, elaborar questionamentos, realizar leituras e observações, para a produção de conhecimento. Porém aqui importa mais a pesquisa direcionada à transformação da prática pedagógica do professor, que não exige necessariamente o rigor acadêmico, mas que precisa de organização, análise sistemática, registro e avaliação constante. Nesse sentido, se torna importante refletir sobre a relação entre uma formação docente pautada na pesquisa para a Educação Ambiental e o ensino das ciências nas séries iniciais do ensino fundamental. Para que tal relação se mostre mais claramente, tomaremos a experiência vivida na EMEF Maria Quitéria, no município de Novo Hamburgo, para referência.

A motivação dos alunos deve ser a síntese entre o retorno esperado pelos pais, professores e sociedade em relação à sua aprendizagem e o interesse em responder a questões próprias. Esse ponto de encontro, da motivação extrínseca com a intrínseca, permite uma aprendizagem mais significativa. Portanto o professor deve oferecer aos estudantes a oportunidade de formular suas próprias perguntas, inserindo-os em um processo de pesquisa, que envolve entrar em contato com o que já foi produzido pela humanidade para que construam suas próprias conclusões.

(Parte 1 de 6)

Comentários