Comunicação e mobilidade - aspectos socio - ANDRE LEMOS

Comunicação e mobilidade - aspectos socio - ANDRE LEMOS

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Comunicação e mobilidade aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil

Reitor Naomar Monteiro de Almeida Filho

Vice-Reitor Francisco José Gomes Mesquita

Diretora Flávia Goullart Mota Garcia Rosa

Conselho Editorial

Titulares

Ângelo Szaniecki Perret Serpa

Caiuby Alves da Costa Charbel Ninõ El-Hani

Dante Eustachio Lucchesi Ramacciotti

José Teixeira Cavalcante Filho Alberto Brum Novaes

Suplentes

Antônio Fernando Guerreiro de Freitas

Evelina de Carvalho Sá Hoisel

Cleise Furtado Mendes Maria Vidal de Negreiros Camargo

Comunicação e mobilidade aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no Brasil

EDUFBA Salvador, 2009

Organizadores

©2009 by Organizadores Direitos de edição cedidos à

Editora da Universidade Federal da Bahia - EDUFBA Feito o depósito legal

Normalização Adriana Caxiado

Flávia Garcia Rosa

Editoração eletrônica e Capa Rodrigo Oyarzábal Schlabitz

Rua Barão de Jeremoabo, s/n - Campus de Ondina, 40170-115 Salvador-BA Tel/fax: (71) 3283-6164 w.edufba.ufba.br edufba@ufba.br

Comunicação e mobilidade : aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação no
Brasil / André Lemos, Fabio Josgrilberg organizadores. - Salvador : EDUFBA, 2009.
156 p.
ISBN 978-85-232-0658-1

Sistema de Bibliotecas - UFBA

Mídia digital - Aspectos sociais - Brasil. 4. Tecnologia da informação - Aspectos sociais –
Brasil. I. Lemos, André. I. Josgrilberg, Fabio.

1. Comunicação de massa - Aspectos sociais - Brasil. 2. Comunicação e cultura - Brasil. 3. CDD - 302.230981

APRESENTAÇÃO07

SUMÁRIO André Lemos, Fabio Josgrilberg

COMUNICAÇÃO MÓVEL NO CONTEXTO BRASILEIRO1

Eduardo Campos Pellanda

cidade19

REDES MUNICIPAIS SEM FIO: o acesso à internet e a nova agenda da Fabio B. Josgrilberg

NO BRASIL37

ESPECTRO ABERTO E MOBILIDADE PARA A INCLUSÃO DIGITAL Sérgio Amadeu da Silveira

IDENTIDADE, VALOR E MOBILIDADE: Motoboys em São Paulo51

Gilson Schwartz

JORNALISMO69

TECNOLOGIAS MÓVEIS COMO PLATAFORMAS DE PRODUÇÃO NO Fernando Firmino da Silva

ARTE E MÍDIA LOCATIVA NO BRASIL89

André Lemos

LOCATIVAS109

APROXIMAÇÕES ARRISCADAS ENTRE SITE-SPECIFIC E ARTES Lucas Bambozzi

REVISITANDO O CORPO NA ERA DA MOBILIDADE123

Lucia Santaella

VÍDEO-VIGILÂNCIA E MOBILIDADE NO BRASIL137

Fernanda Bruno

SOBRE OS AUTORES......................................................................................153

André Lemos Fabio Josgrilberg

A história deste livro, de alguma maneira, é um registro das posssibilidades do atual período técnico. Os textos foram reunidos em movimento e a distância.

Para registrar o tal do “zero fictício” de uma narrativa histórica, poderíamos situar o início da empreitada no convite feito a nós por Kim Sawchuk, editora do Wi-Journal of Mobile Media (http://wi.hexagram.ca), para coeditar uma edição especial sobre mídias móveis no Brasil. No início do trabalho editorial, tratava-se de um conexão Canadá-Inglaterra-Brasil. Kim, na Universidade Concordia, André como pesquisadorvisitante nas Universidades de Alberta e McGill, todas instituições canadenses e, do outro lado, Fabio como pesquisador-visitante na London School of Economics and Political Science, em Londres. Depois de algumas discussões, chegamos aos nomes dos autores que estão aqui neste livro. Todos eles de diferentes partes do Brasil, com suas respectivas atividades e instituições.

Durante o primeiro semestre de 2009, reunimos os textos e discutíamos com Kim, em ano sabático, mas participando do processo colaborativo. Kim em deslocamentos para uma série de conferências e reuniões pelos Estados Unidos, Itália e Polônia. O projeto de edição seria concluído após a volta de André e Fabio ao Brasil, no segundo semestre de 2008. Continuamos a trabalhar, André e Fabio na Bahia e em São Paulo, respectivamente, como bases, mas também em viagens pelo Brasil. Fechamos tudo com uma visita de Kim a São Paulo e o recebimento dos artigos enviados pelos autores. Depois veio o processo de avaliação dos textos por pareceristas canadenses e brasileiros e a publicação da versão em inglês do projeto no Wi-Journal of Mobile Media em agosto de 2009. Os textos aqui reunidos e apresentados são versões em português desse material, em alguns casos com adaptações para o público brasileiro.

celulares, laptops, redes Wi-FiForam inúmeros e-mails de aeroportos,
cafés, hotéis, universidadesA obra que o leitor tem em mãos discute o

Por mais que isso seja comum nos dias de hoje, não deixa de ser fascinante o fato de que todo o projeto de edição se desdobrou com apenas uma única reunião presencial em São Paulo, de cerca de duas horas, e que a maior parte do processo colaborativo tenha ocorrido pela internet, com os organizadores em viagens e deslocamentos os mais diversos. Este livro foi construído utilizando as tecnologias da mobilidade: papel cultural, sociocomunicacional e artístico das tecnologias da mobilidade; sendo feito, ele mesmo, em mobilidade. Este livro foi produzido em movimento, cheio de trajetórias inusitadas que não impediram o encontro de ideias, projetos e sonhos.

Mas falar de tecnologias móveis, mídias móveis, espaço urbano e mobilidade no Brasil exige uma visão aguçada e atenta aos diversos paradoxos deste país. É isso que nos explica Eduardo Pellanda em seu texto. Apesar do imenso mercado interno, temos um dos mais caros serviços de telecomunicações do mundo (telefonia fixa, telefonia móvel e banda larga). O custo médio desse pacote coloca o país na 91ª posição no ranking geral (price basket) da International Telecommunications Union, ocupando a 114ª posição no custo da telefonia móvel, 77ª posição no custo da banda larga. O ranqueamento é feito do mais barato para o mais caro entre 150 países – nem entramos aqui no custo dos terminais de acesso móvel (smartphones, notebooks, etc.). Diante de tal cenário, números oficiais indicavam em junho de 2009 a existência de 159.613.507 acessos ao Serviço Móvel Pessoal (SMP), sendo 130.596.366 (81,82%) na modalidade pré-pago e 29.017.141 (18,18%) pós-pago. Do total de acessos (pré e pós), 1.903.030 operavam com o padrão WCDMA (3G). Por outro lado, dados de 2008 indicam apenas 20% de acesso domiciliar à internet em áreas urbanas.

Os paradoxos do mercado de telecomunicações brasileiro são apenas alguns dos problemas tratados neste livro. Outros desafios locais também foram motivo de atenção, em especial a questão da vigilância nas sociedades atuais, em texto de Fernanda Bruno, ou a gestão do espectro eletromagnético, tratada por Sérgio Amadeu da Silveira, tendo em vista a questão da inclusão digital. Nesse mesmo ponto, Fabio B. Josgrilberg mostra os dilemas e tendências da entrada de governos municipais na oferta de redes sem fio de acesso à internet.

Contudo, apesar das dificuldades econômicas, políticas e tecnológicas, as mídias móveis alimentaram diversos projetos inovadores e criativos no Brasil. As possibilidades das mídias locativas foram exploradas por André Lemos e Lucas Bambozzi, mais no contexto da arte eletrônica com as mídias locativas, e também por Gilson Schwartz, que aborda o projeto dos Motoboys em São Paulo, mostrando como as mídias móveis podem ajudar a reinventar as relações sociais no espaço urbano, mais precisamente no tráfego caótico de São Paulo.

Fernando Firmino da Silva, por sua vez, discute como as recentes formas de comunicação móvel provocam mudanças no jornalismo, tanto na prática dos jornalistas como na estrutura organizacional das redações e das empresas jornalísticas. Assim como as tecnologias da mobilidade exigem novos esforços teóricos para pensar o jornalismo, o texto de Lucia Santaella amplia o debate e trata dos possíveis desenvolvimentos teóricos que se fazem necessários frente às novas relações humanas com as mídias móveis.

O leque de discussão é amplo. Reunimos neste livro o que há de melhor no Brasil na área das tecnologias móveis de comunicação. Alguns pesquisadores importantes ficaram de fora, mas novos livros virão.

outros fórunssempre em movimento.

Tentamos, nesse primeiro movimento, reunir um conjunto de pesquisadores, e suas respectivas instituições, que tem, no campo da comunicação, desenvolvido um pensamento de ponta, inovador, de pesquisa e formação de recursos humanos no país na área das mídias móveis. Precisamos, efetivamente, enfrentar esta que é a nova onda da revolução da informática no campo social: os serviços e tecnologias baseados em mobilidade e localização. Por fim, gostaríamos de agradecer ao corpo editorial do Wi-Journal of Mobile Media pelo suporte dado para a versão inglesa do projeto, em especial à Kim Sawchuk, a primeira pessoa a vislumbrar esta pequena coleção de textos. Desejamos a todos uma excelente leitura, ansiosos por manter o debate sobre os temas aqui tratados em

ANATEL. Telefonia celular alcança 159,6 milhões de assinantes em junho. Disponível em: <http://w.anatel.gov.br/Portal/ exibirPortalinternet.do#>. Acesso em: 24 jul. 2009

COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Pesquisa sobre o uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil: TIC Domicílios e TIC Empresas 2008. São Paulo: Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação, 2009. Disponível em: <http:// w.cetic.br/tic/2008/index.htm>. Acesso em: 20 out. 2009.

INTERNATIONAL TELECOMMUNICATIONS UNION-ITU. Measuring the information society. Geneva, 2009. Disponível em: <http:// w.itu.int/ITU-D/ict/publications/idi/2009/material/ IDI2009_w5.pdf>. Acesso em: 20 out. 2009.

Eduardo Campos Pellanda

O presente texto é uma abordagem sucinta sobre o impacto da comunicação móvel no Brasil. Primeiramente, é discutida a relação entre os espaços reais e virtuais e seus desdobramentos no campo da mobilidade. Posteriormente, há um contraste com os números e peculiaridades no Brasil e uma contextualização com a comunicação móvel.

É digno de registro como o tópico da comunicação móvel vem crescendo em complexidade no momento em que penetra em diferentes culturas e classes sociais. Em países como o Brasil, isso provoca um grande impacto em diferentes camadas econômicas. O aumento de conexões resultantes da tecnologia móvel no país tem proporcionado diferentes oportunidades e desafios aos hábitos sociais e aos limites entre espaços públicos e privados. O acesso always-on1 com voz e dados tem aberto caminho para um novo manancial de distribuição e colaboração de informações em um contexto onde os aparelhos são “hiper-pessoais”, pois eles são realmente usados por uma só pessoa, o que não ocorre necessariamente com o computador pessoal. À medida que esses aparelhos começam a incorporar mais funcionalidades, começam a se tornar mais parecidos com computadores. Nessa perspectiva, eles têm uma

1 Termo em inglês que significa conexão permanente.

grande relevância no processo de inclusão digital por serem mais baratos e estarem em condição ubíqua.

A voz foi um elemento essencial no início de todo o processo da comunicação móvel no Brasil, pois já possibilitou uma nova comunicação ligando diferentes lugares da cidade. Mas as mensagens de texto, ou SMS, tem rapidamente se tornado a segunda linguagem desta tecnologia, influenciando novas gerações. (RHEINGOLD, 2003) Com o início dos serviços de compartilhamento de áudio, vídeo e fotos, outras formas de comunicação afloram dessas possibilidades. O acesso à internet começa a ser o próximo canal de expansão da comunicação móvel no país à medida que as redes de telefonia vão se expandindo e os custos começam a baixar com a escala do aumento de usuários. Aparelhos como o Blackberry começam a popularizar o uso do e-mail com serviços push, que proporcionam o recebimento instantâneo de mensagens. Para a navegação em páginas web, aparatos como o iPhone começam a viabilizar o acesso ubíquo e outros smartphones seguem o caminho aumentando a competição no setor. Empresas como Google, Microsoft, HTC e Nokia estão buscando alternativas para a competição de aparelhos que possuam um custo-benefício mais eficiente. Isso nos leva a crer que a popularização dos aparelhos deve encaminhar uma maior popularização da tecnologia. Além disso, novos serviços baseados em coordenadas geográficas começam a interagir com a navegação convencional iniciando uma nova experiência de comunicação.

Desde o começo da internet comercial é senso comum que o espaço virtual é um oposto do real, físico ou atual (LÉVY, 1996) e eles não possuem uma conexão perceptível. O espaço atual é onde estão os tijolos, o concreto e toda a matéria baseada em átomos. É o lugar em que se percebem sensações na epiderme e se pode tocar nos objetos. Na aparente oposição, o espaço virtual é somente conectado com a informação que não é tangível. Nosso corpo é usualmente imaginado estar conectado ao real e atual e nossas mensagens interconectadas no virtual.

Todas essas percepções populares estão também ligadas ao modo como se percebe o uso do computador pessoal (PC) conectado à internet.

O consumo dessa mídia se dá dentro das quatro paredes de um quarto, escritório ou lan house. A informação é trocada no ambiente virtual e aplicada no real. A percepção é de que a informação se dá dentro do monitor do computador (TURKLE, 1995) e a “existência do virtual” acontece somente neste local.

As cidades e áreas urbanas estão, nesse contexto, deslocadas da informação, os átomos estão desconectados dos bits (NEGROPONTE, 1995) criando uma defasagem e ajudando a percepção equivocada de que real e virtual são opostos, quando, em um olhar mais aprofundado, eles consistem em potências bilaterais. (LÉVY, 1996) As cidades possuem guias turísticos, mapas e livros históricos que conectam informações e representações com o espaço físico. Contudo, essas referências não são atualizadas em tempo real e não estão diretamente ligadas com os ambientes urbanos.

Quando conectamos lugares físicos com o ciberespaço, temos o cruzamento de conceitos e fronteiras:

A internet nega as geometrias. Ao mesmo tempo em que ela tem uma topologia definida dos nós computacionais e irradia ruas de bits, e também as localidades dos nós e links podem ser registradas em mapas para produzir surpreendentes tipos de diagramas de Haussmann, ela é profundamente e fundamentalmente antiespacial. Nada parecida com a Piazza Navona ou a Coperly Square. Você não pode dizer ou falar para um estranho como chegar lá. A internet é ambiente [...] (MITTCHELL, 2003, p. 8)

Essa conexão se dá hoje com o suporte dos celulares, PDAs, smartphones e demais aparelhos de computação portáteis. Esses dispositivos estão imersos nas redes wireless que se expandem rapidamente em coberturas e velocidade de banda. O massivo uso de aparelhos como celulares de maneira intensiva tem transformado a relação homem/máquina em um ambiente cyborg. (MITTCHELL, 2003)

A conexão entre as pessoas cria uma rede de SmartMobs

(RHEINGOLD, 2003) onde os nós interagem e rapidamente, por exemplo, se combina um encontro em algum ponto da área urbana. Rheingold (2003) observa isso com mais profundidade em adolescentes que incorporam o uso dessas tecnologias para a conexão de suas tribos. Esta ligação entre o jovem e seu aparelho celular é tão profunda que o telejornal da TV Portuguesa SIC destacou2 uma briga entre um professor que pretendia retirar o dispositivo de uma aluna. A jovem relutou e o episódio acabou em violência física.

A cultura SmartMobs pode ser verificada também nos atos terroristas de Madrid em 2004, em que a população local se reuniu através de mensagens de texto. O resultado foi a maior manifestação pública na cidade desde a Segunda Guerra Mundial.

Nos atentados de Londres em 2005, aparelhos móveis registraram as imagens do metrô após as explosões. Estas imagens foram para as redes de televisão de todo o mundo pelo critério de informação e não de qualidade técnica. Os cidadãos estão equipados com câmeras conectadas que podem relatar fatos antes dos profissionais. (GILLMOR, 2004)

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