A Arte no Periodo Paleolitico

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É comum dizer-se que a arte é tão antiga quanto o Homem, ressaltando assim o seu carácter espontâneo e o papel essencial que ela desempenhou e desempenha na vida da humanidade. Contudo, se pensarmos nos dados que os cientistas apontam para a formação da espécie humana, perto de 4 milhões de anos, e na data provável das primeiras manifestações artísticas conhecidas, cerca de 38 0 anos, não podemos deixar de reparar como ela é recente em relação às nossas origens, correspondendo, assim, ao último estádio de evolução de nossa espécie, o estádio atual, o Homo sapiens sapiens.

De facto, a História remete as primeiras manifestações artísticas para o período do

Paleolítico Superior, a última etapa da evolução da espécie humana, pertence a um longuíssimo e difícil período, o do Paleolítico, também designado por “Idade da Pedra Lascada”.

O Paleolítico Superior é dividido pelos historiadores e arqueólogos, na maioria dos casos, em três períodos de evolução crescente. Aurinhacense, Solutrense e Madalenense. Esta nomenclatura é devida à localização das principais jazidas conhecidas, cujo espólio é rico em arte parietal e móvel Aurignac, Solutré e Madeleine em França. Ocorreu durante mais de 25 0 anos, quando a Europa Setentrional estava coberta por glaciares. Devido ao clima frio e rigoroso provocado pelas oscilações de Wϋrm – quarta e última glaciação ocorrida –, a fauna era constituída por mamutes, rinocerontes lanudos, bisontes, touros, veados, cavalos selvagens e renas.

O homem do Paleolítico vivia da pesca, caça e a sua economia era recolectora.

Possuía as indústrias lítica e do osso bastante aperfeiçoadas, vivia em grupos de cerca de 100 indivíduos com divisão de tarefas segundo o sexo. A mulher cuidava do fogo, das crianças, colhia frutos comestíveis e materiais para fazer cestos – a cestaria precede a cerâmica, sendo esta típica do neolítico – e homem caçava. Foi um ser religioso deu sepultura aos seus mortos, o que nos leva a afirmar que se ocupava já do mundo espiritual. E criou as primeiras manifestações artísticas com técnicas que ainda hoje utilizamos: a gravura, a escultura, a modelação e a pintura. No entanto, crê-se que os homens dos períodos anteriores, mais primitivos, pintavam o corpo com ocre e peróxido de manganês, de cor acinzentada, para os ritos da caça, da guerra, para fenómenos de iniciação e para a dança, entre outras manifestações de grupo.

As indústrias lítica e do osso, constituídas por variados utensílios, são de capital importância para a classificação e caracterização da arte deste período por se acharem, frequentemente, em conjunto.

O Homem paleolítico, mais precisamente do Aurinhacense, fez evoluir a indústria lítica produzindo objetos cada vez mais complexos, com utilizações específicas e de maior eficácia técnica. Os raspadores grossos, buris e lâminas de dorso abatido são substituídos por lâminas mais finas e de menores dimensões, chamadas micro líticas. As folhas de loureiro, possuem, também, retoque mais liso e fino.

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Os primeiros vestígios de arte da Pré-história situam-se na Europa desde a Península

Ibérica à Rússia. Os centros mais importantes que se conhecem encontram-se na Europa do Sudeste, em França e Espanha – região franco-cantábrica –, que possuem o repositório artístico mais antigo, e na Espanha oriental, ou levante Espanhol, cujo repositório é mais tardio. A arte levantina é posterior à época glaciar e compreende o final do Paleolítico Superior e o Neolítico.

As primeiras manifestações pertencem à civilização Aurinhacense e são constituídas por traços digitais, chamados meandros, gravados na argila mole das paredes das grutas. Não se pode falar verdadeiramente de uma manifestação artística, antes de um ensaio da linguagem artística, baseado possivelmente na observação de sulcos ou nas atitudes dos animais raspando os cascos no chão: pontos, linhas paralelas cruzadas… Este foram reproduzidos e mais tarde desdobrados, encontrando as leis básicas da decoração que ainda hoje são utilizadas: alternância, ritmo, simetria.

Alguns destes meandros foram feitos com dedos sujos de ocre ou argila deixando quatro linhas paralelas sobre a superfície rugosa da gruta.

utensílios

As regras de organização linear foram igualmente aplicadas à arte móvel – objetos e

A par da evolução técnica, os objetos sofreram igualmente uma evolução estética manifestada, logo no início do Paleolítico, pelo tratamento cada vês mais cuidado das formas e pelo seu aspecto decorativo. Desde cedo o Homem sentiu prazer em criar belos e eficazes utensílios, conseguindo, com os meios escassos que possuía, as formas exatas que desejava com inteira precisão. E o seu trabalho não foi automático, mas guiado por profunda e constante reflexão. O embelezamento dos utensílios foi conseguido inicialmente por meio de gravação de sinais não figurativos – pontos e linhas agrupados segundo determinadas ordens – que se mantêm a par de outro tipo de figuração posterior mais realista. No Madalenense, a simples gravação, constituída por uma fina incisão, evoluiu até ao talhe em osso, ao baixo e alto-relevo, com aproveitamento da forma dos elementos, e à escultura de vulto. Alguns destes objetos possuíam também um valor social, mágico-religioso, dentro do grupo. É o caso do bastão destinado ao feiticeiro, chefe espiritual que presidia às cerimónias mágicas.

Outras formas esquemáticas e simbólicas de forma triangula com uma linha bissectriz no ângulo inferior, representando o sexo feminino, as vulvas, são igualmente das primeiras manifestações do Homem pré-histórico.

A par da figuração simbólica, apareceu uma outra de tipo realista. São figuras de animais, muito simples, mas naturalista, gravadas ou esculpidas em pedra e marfim.

As representações animalistas apresentam apenas os contornos, algo rígido; são vistas de perfil e apresentam apenas duas patas. Os chifres são vistos de frente em cabeça de perfil, na busca de exatidão da representação. No corpo possuem, por vezes, pequenas incisões que significam as cerdas ou pelos do animal.

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Por vezes, no meio da representação animalista existem figuras antropomorfas disfarçadas de animais, talvez representação do feiticeiro ou mago, que vestia tais aparatos para a execução do ritos. A imagem realista do homem não aparece, pensa-se, para evitar influencias maléficas sobre ele.

No final do Madalenense, os relevos evoluíram no sentido de modelação naturalista, aproveitando as formas das hastes das renas, do marfim do mamute, osso e pedra. A expressão dos contornos, dos olhos e da boca ia no sentido do aproveitamento dos formas dessas matérias.

As obras gravadas ou esculpidas, talhadas num todo com buril de sílex, são de uma mestria ímpar, em formas e proporções, em forma e proporções que nunca se repetem. Apareceram apenas na região dos Pirenéus, zona particularmente rica neste tipo de arte – baixo-relevo e escultura de vulto redondo

A qualidade técnica e artística desta arte, pela justeza de proporções, pelo modelado dos músculos e vigor das formas, pelo refinamento do detalhe e pela expressão e atitudes quase patéticas, em suma, pelo seu realismo, é comparável a obras clássicas muito posterior e produzidas com técnicas e instrumentos muito mais avançados.

Estas e outras hipóteses e teorias interpretativas da arte pré-histórica são baseadas no método dos paralelos etnográficos, ou seja, comparam-se as atividades do homem pré-histórico com a de outros povos como os primitivos atuais.

A arte móvel é composta, para além dos utensílios gravados das industrias lítica e do osso, por pequenas estatuetas animalistas ou de figuração humana executada em vulto redondo.

As estatuetas humanas são figuras femininas, chamadas “vénus esteatopigias”, por apresentarem as partes do corpo ligadas à maternidade extremamente desenvolvidas: ancas, nádegas e seios. Em contrapartida, os membros, superiores e inferiores, estão apenas apontados, tal como a cabeça, que não possui os pormenores do rosto.

Considera-se que estas pequenas figuras, feitas em pedra, osso ou marfim, medindo cerca de um dezena de centímetros, são, tal como representação de vulvas, uma homenagem à fecundidade, imprescindível à tribo. O cuidado com que são feitas confirma o interesse que o homem pré-histórico atribuía à fertilidade e à consequente sobrevivência da sua espécie.

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A pintura rupestre

As primeiras imagens são de mãos humanas, espalmadas, de dedos com os contornos pintados a vermelho ou a preto com tinta soprada, de modo que aparecem em negativo. A mão é o símbolo do poder do Homem sobre as coisas, por isso as representou desde tão cedo. A par das mãos tintadas aparecem os meandros feitos com ocre e negros, aos quais estão associadas as primeiras representações animalistas onde domina o amarelo.

Estas apresentações inicialmente as mesmas características das figuras animalistas gravadas – desenho esquemático, contornos a preto, cabeça e corpo vistos de perfil, a representação de duas patas e chifres de frente –, evoluindo rapidamente no sentido da forma cada vês mais real, dada não só pela representação das quatros patas do animal, mas também através de atitudes mais livres e dinâmicas.

A silhueta é abandonada e a cor reveste agora todo o corpo do animal, com acres e vermelhos. Dá-se também a passagem da representação solitária do animal para a de grupos de animais, mais realistas e de maiores dimensões.

Sendo uma arte “magica”, ligada à vida de caçadores, a representação realista constituía a promessa de uma caçada frutuosa e a consequente sobrevivência do grupo. Esta ideia torna-se mais convincente quando analisarmos a representação dos dardos ou flechas cravados nos corpos das figurações animalistas. Antes da caçada, o animal era simbolicamente morto em efígie.

A arte parietal da cultura Madalenense chega a um realismo muito avançado. As proporções das figuras animais não estão longe da dos animais vivos e o seu interior comporta numerosos detalhes, da pelagem e do volume, representados segundo um código preciso. A observação do pormenor cada vês mais exaustiva e surge representada na anatomia dos animais, na expressão dos olhos, na agitação da crinas, da boca e no movimento dos cascos. A perspectiva torna-se real, tal como os movimentos e atitudes.

O veado, o javali, o bisonte e o touro são os animais mais representados, possuindo, alguns, cerca de um ou dois metros de comprimento. São representações policromas e de um realismo extraordinário. Estes animais apresentam-se afrontados, em friso ou em manadas, segundo organizações complexas e ritmadas.

Inicialmente, o desenho das figuras é espesso e modelado e as formas aproveitam as saliências das rochas, conferindo o volume aos corpos dos animais e casando-se com elas. No final do Madalenense aparecem figuras que utilizam o vermelhão, os tons violáceos, os alaranjados e o bistre, que serve para cercar as figuras, mas a representação dos chifres e das armações dos animais apresenta-se, ainda, de perfil.

A pintura do Madalenense constitui o epilogo de uma arte mágica, propiciatória, destinadas à caça abundante. Com as migrações dos animais para o Norte, devido à mudança do clima, que aqueceu gradualmente aproximando-se do atual, as mulheres e os homens fixaram-se, cultivando as sementes e domesticaram os animais. O Homem passou de caçador para agricultor.

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