Regioes Deserticas - Ambientes e Depositos

Regioes Deserticas - Ambientes e Depositos

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Os ventos são causados por massas de ar que se movimentam por causa das diferenças de temperatura na superfície terrestre. Numa região de alta insolação, o ar tende a se expandir, fica mais leve e sobe devido à alta temperatura.

Deslocamentos laterais de massas de ar mais frias tendem a anular a diferença de pressão causada, e assim os ventos sopram de pontos de pressão mais alta para lugares de pressão mais baixa. A velocidade e a força do vento são proporcionais à distância e à diferença de pressão entre dois pontos.

O vento ocorre em todos os climas, porém com intensi- dades diferentes. A atividade geológica do vento é preponderante, particularmente em regiões áridas como os deser- tos, onde a evaporação é superior às precipitações ou onde a vegetação não se dá por qualquer outro motivo. Os zrandes desertos extremamente áridos encontram-se sobretudo na zona subtropical de altas pressões, ou seja, superiores a 1,019 milibar. Caracterizam-se por temperaturas de grande variação diária, com picos elevados.

Para que a ação do vento seja eficaz, tem importância não apenas o fato de não haver vegetação, mas também a constituição superficial do terreno, que nos desertos pode ser muito variável.

A atividade geológica do vento depende sobretudo da intensidade, influindo também outros fatores meteorológicos, tais como a direção e a constância dessa direcão. A velocidade diminui mais ou menos intensamente com o atrito na superfície da Terra e aumenta com a altura; é grande até uma altitude de 600 m, e depois diminui gradativamente. A velocidade do vénto na superfície é máxima quando ela é plana e lisa, como no ar, no mar e nas planícies escavadas.

Para caracterizar a intensidade do vento, emprega-se a escala de Beaufort, a qual divide a intensidade em 12 categorias, dentre as quais destacam-se as seguintes:

Calmaria - velocidade inferior a 1,6 kmIh; Brisa leve - velocidade entre 6,5 e 12 km/h;

Vento suave - velocidade entre 13 e 19,4 kmJh; Furacão - velocidade superior a 90 km/h, podendo atingir até mais de 150 km/h (efeito catastrófico).

16.2 Regiões Áridas e Semiáridas

Nessas regiões, as chuvas são insuficientes para manter cursos de água contínuos. As zonas áridas caracterizam-se por pequenas precipitações anuais, normalmente inferiores a 100 m, atingindo 500 m nas regiões semiáridas. A distribuição dessas chuvas é bastante irregular, e muitas vezes elas ocorrem sob forma de tempestades, descarregando enorme volume de água em poucas horas. A evapora- ção nessas regiões excede a precipitação, e são pequenas as quantidades de água infiltradas. A água infiltrada pode subir por capilaridade, e os sais e minerais dissolvidos se concentram na superfície enquanto a água evapora. Assim, as águas são responsáveis pela formação de uma fina película de ferro ou manganês que pode recobrir extensas superfícies desérticas. Essa película é denominada verniz do deserto. Típicas são também as concentracões de sais como, , os jazimentos de nitrato de sódio, que ocorrem comumen- te nos desertos do Chile.

Por ocasião das chuvas concentradas e fortes a ásua, e movimenta-se de forma turbulenta e o material carresa- do é malselecionado, e geralmente não sofre retrabaIbo" Assim, podem se formar grandes depósitos de sedimentos, de forma plana, com alta heterogeneidade granulométrica.

116.3 Regiões do Deserto

Desertos rochosos (hamada) A superfície rochosa encontra-se exposta. e é continua- mente afetada pela erosão eólica. As rochas mostram fei- ~ões típicas de abrasão eólica (solapamentos, pedimentos

etc.). Tal aspecto é denominado hamada, nome árabe dado para esse tipo de deserto rochoso (Fig. 16.1).

Desertos pedregosos (reg) São regiões cobertas por fragmentos de rochas, geralmente heterogêneos. As partículas arenosas menores foram levadas pelo vento, restando os seixos maiores, os quais sofrem os efeitos da abrasão eólica. Predominam assim seixos e matacães trabalhados pelos ventos, denominados veruifactos. A cobertura regional por esse material grosseiro denomina-se pavimento desértico (Fig. 16.2).

Desertos arenosos (erg) Nessas regiões ocorrem as formas de acumulação mais conhecidas - as dunas e os campos de areia. Apenas a quinta parte da área dos desertos é coberta por areia, sendo o restan- te composto por elevações rochosas e fragmentos de rochas (descritos anteriormente). Uedes é o nome que se dá aos cursos de água temporários dessas regiões (Figs 16.2 e 16.3).

Fig. 16.2 Região de contato entre o deserto de pedra e o erg arenoso. (Foto: 1. 1. Bigarella.)

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Os fatores de acumulação de areia são vários, e dependem:

da natureza do material; - das irregularidades do solo; da direção e da intensidade do vento.

Juventude Essa fase inicial dos desertos é caracterizada por grandes elevações com escarpas verticais, formando o deserto rochoso em contínua desagregação mecânica, que corresponde à hamada dos árabes. As altas elevacões atuam im- pedindo as correntes de umidade. ' ')

Maturidade Nessa fase a erosão já desgastou grande parte das rochas, suavizando o relevo e aumentando o tamanho das bacias de sedimentação. Essa fase corresponde ao reg.

Velhice É a fase final com grandes áreas aplainadas, restando elevações mais resistentes à erosão denominadas inselbergs ou montanhas isoladas. Essa fase corresponde ao ergo

Lagos desérricos (playa lake) São lagos, em geral temporários, que ocorrem frequen- temente nas depressões internas das bacias desérticas, onde o nível de base da erosão eólica atinge o nível da água subterrânea. Eles acumulam o excesso temporário da água, recebem sedimentos das correntes formadas por ocasião das raras e concentradas chuvas e são sujeitos à evaporação intensiva. Podem formar depósitos semelhantes aos varvitos (glacial). Durante a época das chuvas, as águas carregam sedimentos de cuja deposição resultam camadas rítmicas. Durante a estiagem dá-se a evaporação das águas e, em consequência, ocorre precipitação forman- do evaporitos (cloretos de sódio, carbonato, boratos etc.) (Fig. 16.4).

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Fi_ 16.4 Depósitos de sais depositados em lagos temporários. . Juan, Argentina. (Foto do Autor.)

116.4 Transportes e Erosão Eólica

Quanto mais forte o vento, maior a quantidade de partículas que ele transporta. O poder destrutivo do vento está nas partículas em suspensão e na competência de transporte, sendo, portanto, proporcional à sua velocidade e à carga. A erosão eólica processa-se por deflação e por corrosão.

Deflação. Processo de rebaixamento do terreno, remo- .~~€-ndo e.transpertando partículas incoerentes encontradas

na superfície.

Efeitos da deflação. Produz a formação de grandes depressões. Quando tais depressões atingem o nível do lençol subterrâneo, formam-se os lagos acima referidos, podendo desenvolver-se vegetação, constituindo um oásis.

A deflação é o tipo de erosão eólica mais importante devido ao vulto de seus efeitos.

Corrosão. Éproduzida pelo impacto das partículas de areia transportadas pelos ventos contra a superfície das rochas, polindo-as. O impacto dos grãos entre si, bem como contra as rochas, produz o desgaste, resultando em um alto grau de arredondamento e uma superfície fosca dos grãos que caracteriza o arenito de ambiente eólico.

Efeitos da corrosão. É maior em rochas sedimentares, principalmente as arenosas e argilosas. Rochas heterogêneas ou irregularmente cimentadas sofrem erosão diferencial, o que dá origem a formas muito curiosas. Quando o vento tem uma direção predominante formam-se sulcos orientados segundo essa direção.

Transporte eólico. O material transportado depende da velocidade do vento e do tamanho das partículas. Pode ser efetuado por suspensão, rolamento ou saltos .

Sob o efeito do vento, os grãos menores (com cerca Ci 0,125 m de diâmetro) sobem e são transportados a dis- tâncias razoáveis, dependendo da velocidade do vento. Alguns grãos médios sobem um pouco e logo descem, sendo transportados aos saltos, de acordo com as rajadas de vento. Os grãos maiores não chegam a sair do solo, deslo- cando-se apenas por rolamento por curtas distâncias. Dessa forma o material sofre urna seleção em seu transporte, o que ocasiona depósitos segundo o tamanho das partículas.

Deposição - formas de acumulação. Quando a velocidade do vento (carregado de partículas) diminui, seu poder de transporte se reduz, tendo início a deposição a partir dos grãos mais grosseiros para os mais finos. Enquanto a areia se deposita após um transporte pequeno, a poeira fina pode sofrer um transporte superior a 2.0 krn, como aquelas que provindo do Saara atingem a Europa.

Quanto à natureza, os depósitos são classificados como:

(a) provenientes de explosões vulcânicas;

(b) provenientes de áreas periglaciais (formando-se loess); (c) provenientes de praias; (d) provenientes de regiões áridas.

A zona dedenudação é a região rochosa, em geral circundante e fornecedora do material. Os depósitos de bajada têm a forma de cunha ou leque, com granulação heterogênea, e são imaturos e grosseiros como os fanglomerados. Os depósitos de playas são transportados através da zona de bajada até atingirem a parte mais baixa da bacia deposicional. São constituídos de material detrítico, principalmente de silte e argila, ou mais grosseiros (lag gravels). Em associação com o material detrítico ocorrem alternadamente sedimentos químicos que foram dissolvidos por enxurrada. São compostos principalmente de CaCO),

CaC04, NaCl, entre outros. Mais distantes dessa zona ocorrem os depósitos subaquáticos denominados playa lake

(mencionados anteriormente) que são bem classificados e compostos de uma sequência de finas lâminas. Podem conter gretas de contração e galhas de argila. No sopé das montanhas, os depósitos de cascalhos com seixos e blocos têm feições de ventifacto, ou seja, são desgastados e polidos pela ação da corrosão.

Cada região do deserto caracteriza-se pela concentração típica de depósitos e acidentes geográficos específicos:

16.5 Caracteres dos Depósitos e Ambientes Sedimentares

Depósitos de hamada Ramada, como foi visto, são as partes rochosas do deserto, constituídas de elevações e planícies, sendo estas

Depósitos de sabkhas Os desertos constituem bacias onde a água escoa para as porções centrais (drenagem centripeta). Nelas ocorrem pequenas e rasas depressões produzidas por deflação, e estas podem conter água formando lagos efêmeros (sabkhas).

Frequentemente o lago seca, deixando depósitos salinos (gipsíticos) que se encontram associados a lâminas de areia e siltito com estruturas plano-paralelas (Fig. 16.4).

Esses lagos podem estar associados a depósitos de wadi, e, nesse caso, recebemuma carga de sedimentos grosseiros trazidos por correntes efêmeras. Fig. 16.5 Dunas do tipo barcana .

fecobertas de fragmentos rochosos desde blocos aré seixos angulares. A hamada localiza-se numa bacia em deflação e para ser preservada é necessária uma mudança no senti-

!!'i do do sistema de ventos. Nesse caso poderá ocorrer a de- I posição de dunas naquelas partes, e a hamada onstimirã a base das sequências de sedimentação desértíca,

Depósitos de uiadi As esporádicas chuvas que caem nos desertos escoam sobre a superfície sob a forma de correntes efêmeras, pro- duzindo um rápido transporte de sedimento, seguido de uma perda de velocidade de fluxo e absorção da água pelo solo. Os canais são efêmeros e preenchidos pelos sedimentos disponíveis na superfície. Entre as estruturas sedimentares ocorrem marcas de ondas pequenas e "megaripples", associados à laminação cruzada e à laminação plano-paralela.

Essa sequência é normalmente seguida de uma sedimen- tação de natureza eólica que se encontra preenchendo o canal. Muitas vezes, quando o declive é mais abrupto, os depósitos tomam a forma de leques denominados depósitos de wadi.

Segundo Glennie (1970), os sedimentos de Wadi apresentam as seguintes características: os depósitos encon- tram-se no interior de canais e consistem em conglomerados com litologia muito diversificada de acordo com a áreafonte, bem como de diâmetros variáveis apresentando uma estrutura imbricada. Os seixos são pouco arredondados a angulares. Cada fase deposicional tem uma tendência gradacional, afinando em direção ao topo, onde se concentram argilas com vários decímetros de espessura, com fei- ções semelhantes a pingos de chuvas e gretas de contração preenchidas com areias eólicas bem selecionadas. Estas podem se desenvolver de forma a cobrir e preservar o depósito de wadi. As areias nesse local mostram laminação horizontal e inclinada. Em alguns casos as estruturas não são bem desenvolvidas, pois devido à umidade ocorre o desenvolvimento de vegetais cujas raízes causam biotur- bações nos sedimentos.

Por ocasião de novas chuvas, a água remove parte da cobertura eólica e tem início nova sequência de Wadi.

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Dunas

As caracrerísncas das dunas, como foi visto, dependem em grande pane das condições do ambiente.

As dunas, de um.modo geral, são formadas em todas as latitudes externas ramo como próximo à costa como em áreas interiores e sob diferentes climas, desde extremamente áridas até úmidas. As dunas desenvolvem-se onde há um considerável suprimento de areia e onde os ventos são suficientemente fortes para transportar as areias, mes- mo em áreas onde as precipitações são relativamente altas, como no sudoeste do Brasil.

Nos grandes desertos de mundo as dunas dominam a topografia e assumem formas e dimensões variadas. No deserto da Arábia muitas dunas piramidais têm entre 50 e 150 metros de altura, com um diâmetro de 1 a 2 km. Na mesma área, as dunas sigmoidais medem desde poucos metros de altura até 100 metros. As dunas são classificadas, quanto à forma, em barcanas (Fig. 16.5), transversais, parabólicas (Fig. 16.6),seif(longitudinais) (Figs. 16.7-Ae B), dômicas estrelares e reversas Mckee (1966) (1972); Glennie (1970); Wilson (1972); Bigarella. Becker e Duarte, (1969) e Bigarella (1972).

Critérios para distínguir depósitos eólicos de subaquosos A caracterização ou distinção de ambientes eólicos antigos não é tarefa fácil, porque os processos de transporte e sedimentação que ocorrem nos meios aquáticos são muito semelhantes aos eólicos. Por isso, todos os dados dispo-

Fig. 16.7- A Duna do tipo seif, construída em regime de ventos bidirecionais,

Fíg. 16.7 -B Duna longitudinal (seij) na Argélia, África. (Foto: J. J. Bigarella.) níveis devem ser levados em consideração. Trabalhos efetuados em ambientes modernos têm auxiliado muito na caracterização de ambientes eólícos antigos.

Critérios para distinguir sedimentos eólicos iI Textura

Há um consenso geral de que os sedimentos eólicos são mais bem selecionados que os aquáticos, entretanto é difícil traçar os limites entre ambos.

t l.s

Os tamanhos de grãos predominantes têm pouca significância. A seleção normalmente é boa e, em geral, melhor nas dunas que nos demais ambientes semelhantes, contu- do não é um fator confiáveL A assímetria positiva, considerada por muitos como um indicador de depósitos eólicos, ainda é uma questão aberta porque assimetrias negativas também têm sido registradas em dunas. O arredondamento dos grãos é, na maioria das vezes, mas nem sempre, mais efetivo. Nas dunas é mesmo melhor que nas areias de praia, mas esta comparação somente é significativa quando os dois ambientes encontram-se ínter-relacionados Bigarella e Popp (1966).

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