regime chuva diferenciado piauí - rbgfe

regime chuva diferenciado piauí - rbgfe

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Revista Brasileira de

Geografia Física Homepage: w.ufpe.br/rbgfe

Virgínia Mirtes de Alcântara Silva1 , Raimundo Mainar de Medeiros2

, Daris Correia dos

Santos3 Manoel Francisco Gomes Filho4

1 Bióloga, Mestranda em Recursos Naturais da Universidade Federal de Campina Grande-UFCG, Campina Grande,

Paraíba, Brasil. virginia.mirtes@ig.com.br

2 Doutorando em Meteorologia do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Campina

Grande, UFCG, Campina Grande - PB, Brasil. mainarmedeiros@gmail.com

3Mestranda em Meteorologia,UFCG, dariscorreia@gmail.com

4 Prof. Associado do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Campina Grande, UFCG,

Campina Grande – PB, Brasil. mano@dca.ufcg.edu.br Artigo recebido em 12/06/2013 e aceito em 27/06/2013

O estado do Piauí tem condições climáticas diferenciadas, com oscilação nos índices pluviométricos cuja origem é bastante individualizada, apresentando também temperaturas médias anuais relativamente variáveis. As precipitações pluviométricas apresentam grande variabilidade espacial e temporal, mostrando dois regimes chuvosos: no sul do Estado chove de novembro a março; no centro e norte, a estação chuvosa tem inicio em dezembro, prolongando-se até maio. Os índices pluviométricos variam entre 700 m e 1.300 m na região sul, entre 500 m e 1.450 m na região central e entre 800 m e 1.680 m no norte do Estado. Objetivou-se analisar as variabilidades pluviométricas municipais entre os diferentes regimes pluviométricos para o estado do Piauí (regiões Norte; Central e Sul), e comprovar que se têm áreas comuns de ocorrências de chuvas com os seus respectivos sistemas provocadores e inibidores. Na região Norte os índices pluviométricos têm uma distribuição mais regular que nas áreas Central e Sul, evidenciando os aspectos fisiográficos, relevo, fauna, flora e distância do mar. Devido à grande variação na pluviometria ao longo dos anos, pode-se observar que os fenômenos de macro, meso e micro escalas são de grande importância para os regimes de chuvas do estado do Piauí, os quais seguem tempo cronológico de suas atividades e duração.

Palavras-chave: precipitação, variabilidade, índice pluviométrico.

A B S T R A C T The state of Piauí has different climatic conditions, with variation in rainfall whose origin is very individualized, with average annual temperatures also relatively variable. Rainfall exhibit great spatial and temporal variability, showing two rainy regimes: in the southern state rains from November to March, in the center and north, the rainy season has started in December and lasted until May. The rainfall varies between 700 m and 1,300 m in the south, between 500 m and 1,450 m in the central region and between 800 m and 1,680 m in the northern state. This study aimed to analyze the local rainfall variability between different rainfall regimes for the state of Piauí (North, Central and South), and check that they have common areas of occurrence of rains with their respective systems provocateurs and inhibitors. In the northern region the rainfall have a more even distribution than in central and southern areas, showing the physiographic aspects, relief, fauna, flora and distance from the sea. Due to the large variation in rainfall over the years, one can observe that the phenomena of macro, meso and micro scales are of great importance to the rainfall regimes of the state of Piauí, which follows a chronological time and duration of their activities.

Keywords: rainfall, variability, rainfall index.

* E-mail para correspondência: virginia.mirtes@ig.com.br (Silva, V.M. A).

Introdução

O Brasil, por ser um país de grande extensão territorial, possui diferenciados regimes de precipitação e temperatura. De norte a sul encontra-se uma grande variedade de climas com distintas características regionais. No norte do país verifica-se um clima equatorial chuvoso, praticamente sem estação seca. No Nordeste a estação chuvosa, com baixos índices pluviométricos, restringese a poucos meses, caracterizando um clima semi-árido. As Regiões Sudeste e Centro- Oeste sofrem influência tanto de sistemas tropicais como de latitudes médias, com estação seca bem definida no inverno e estação chuvosa de verão com chuvas convectivas. O sul do Brasil, devido à sua localização latitudinal, sofre mais influência dos sistemas de latitudes médias, onde os sistemas frontais são os principais causadores de chuvas durante o ano. (QUADROS et al, 2010).

A variação sazonal dos ventos na costa é outro fator importante, pois está relacionado à posição da alta pressão subtropical do Atlântico Sul. Segundo Hastenrath e Lamb (1977) a alta subtropical começa a se intensificar nas estações frias alcançando o máximo em julho. O estudo dos ventos sobre o Atlântico Sul feito por Servain e Lukas (1990) mostrou que os ventos na costa do nordeste são de leste/nordeste no começo do ano e de sudeste durante o período de abril a julho, o que coincide com a época chuvosa no leste da região. Portanto, durante a estação chuvosa de outono/inverno sobre o leste do NE, os ventos sopram perpendiculares à costa, de sudeste. Estes ventos parecem favorecer a ocorrência da zona de convergência noturna associada à brisa terrestre.

O Piauí é um Estado cuja localização está na parte oeste do Nordeste Brasileiro

(NEB), com uma área de 252.385 Km2 , representando 2,95 % do total do território nacional. Suas maiores altitudes são registradas no platô da Serra das Mangabeiras, com 880 metros acima do nível do mar. A maior distância (em linha reta) é de 887 km de norte a sul e de 618 km de leste a oeste.

A região de estudo está situada entre o meio norte úmido e o nordeste semiárido, estabelecendo particulares condições geoambientais. Em acréscimo, apresenta variações altimétricas diferenciadas com as altas chapadas se estendendo do sul ao sudoeste do estado, em torno de 600 metros, decrescendo à proporção que se aproxima do norte até chegar a valores mínimos no litoral. Ao longo desse trajeto têm-se as chapadas tubulares com vertentes íngremes, vales interplanálticos e superfícies de erosão. Em função de seu posicionamento, o estado apresenta significativas diferenças climáticas entre algumas regiões; clima quente e úmido no norte, sul e sudoeste, e clima semi-árido no leste, centro-sul e sudeste, e ainda uma região semi-árida que abrange também o estado de Pernambuco.

Os fatores provocadores e/ou inibidores dos índices pluviométricos em todo o território piauiense estão delimitados na Figura 1.

Para melhor analisar o clima de uma região torna-se necessário uma caracterização de seus elementos constituintes, tais como: temperatura do ar, precipitação, umidade relativa do ar, radiação solar, velocidade e direção predominante do vento. De acordo com Vianello e Alves (2002), o clima é uma generalização ou a integração, o sequenciamento das condições do tempo para um período maior ou igual a 30 anos e o tempo é a descrição instantânea do estado da atmosfera.

Molion (1985) defende que para compreender a formação do clima de uma região é preciso considerar alguns fatores fundamentais como é o caso da circulação geral da atmosfera (resultado do aquecimento diferencial entre o equador e os pólos), a distribuição assimétrica dos continentes e oceanos e o ciclo hidrológico, especialmente no que se refere à distribuição da precipitação pluvial, por ser também um dos elementos de maior influência sobre as atividades humanas.

A dinâmica atmosférica, resultado de várias interações, a exemplo das trocas de calor, forma componentes do sistema climático terrestre. No Nordeste Brasileiro (NEB) os principais mecanismos causadores de chuvas são os Sistemas Frontais, a Zona de

Convergência Intertropical (ZCIT) e as perturbações ondulatórias no campo dos ventos alísios (Molion & Bernardo, 2002).

Vários trabalhos evidenciam que as anomalias na variabilidade interanual do clima nas Américas estão intimamente relacionadas às condições atmosféricas e oceânicas de grande escala que se processam (conjuntamente ou não) sobre os Oceanos Pacífico e Atlântico Tropicais (Hastenrath & Greischar, 1993; Nobre & Shukla, 1996).

A pluviometria representa um atributo fundamental na análise dos climas tropicais, refletindo a atuação das principais correntes de circulação atmosférica. Na região sul do estado do Piauí as chuvas determinam o regime dos rios perenes, dos córregos e riachos, os níveis dos lagos e lagoas e a atividade de ocupação do solo, sendo imprescindível o conhecimento da sua dinâmica ao planejamento de qualquer atividade.

A precipitação pluvial passa a ser a única fonte de suprimento de água. Por isso, ao escoar superficialmente, a água é barrada em pequenos açudes e usada para o abastecimento. Além disso, muitas vezes, uma pequena fração é captada e armazenada em cisternas para fins potáveis. No entanto, este elemento climático é extremamente variável tanto em magnitude quanto em distribuição espaço-temporal para qualquer região e, em especial, no NEB (Almeida & Silva, 2004; Almeida & Pereira, 2007).

A distribuição espacial da precipitação pluvial em uma determinada região é um dos fatores que refletem diretamente os diferentes níveis de desenvolvimento regional, principalmente o agrícola, pois dentre todas as atividades produtivas a agricultura é a que apresenta uma maior dependência da ocorrência das chuvas, sendo esta a principal responsável pela alternância nas produções agrícolas anuais de uma região (MORAIS et al. 2001)

Figura 1. Delimitações dos regimes pluviométricos e dos fatores meteorológicos provocadores de chuva. Fonte: MEDEIROS, 2007 A distribuição espaço-temporal das precipitações é um dos fatores que condicionam o clima e que estabelecem o tipo de vida (animal e vegetal) de uma região. Dessa maneira, estudos sobre precipitação são de relevante importância para a sociedade. Assim, essa variável meteorológica é decisiva na caracterização do regime hídrico de uma região, fazendo-se necessário, muitas vezes, um estudo estatístico abrangente que objetive compreender o melhor possível o regime de distribuição de chuvas mensal e anual de uma localidade.

A dinâmica da atmosfera se processa em diferentes escalas de espaço e de tempo, em função da ocorrência de fenômenos que operam em escala global tais como as grandes células de circulação meridional, El Niño/La Niña e Oscilação Sul (ENOS), Dipolo do Atlântico e em fenômenos que se processam regionalmente como no caso das massas de ar e sistemas atmosféricos secundários que são capazes de alterar o funcionamento habitual da circulação geral da atmosfera (Varejão- Silva, 2006; Aragão, 1998; França et. al., 2000).

A climatologia é uma ciência indispensável para muitas outras áreas do conhecimento e em diversas atividades: zoneamento de biomas de acordo com as características climáticas, gerenciamento entre a sociedade e o meio ambiente, planejamento urbano, dentre outros usos, sendo seus métodos e aplicações inteiramente indutivos. Segundo Mendonça (2009) “a climatologia compõe o campo das ciências humanas e tem como propósito o estudo do espaço geográfico a partir da interação da sociedade com a natureza”. Este conceito evidencia mais ainda a importância da climatologia para com a sociedade.

Nos estudos de cotas pluviométricas,

Thorntwaite & Mather (1948, 1955) deram uma importante contribuição para a criação de índices (aridez, umidade e hídrico) onde são analisadas as deficiências e os excedentes hídricos de acordo com a pluviosidade e a temperatura mensal. Segundo Souza e Azevedo (2012), a partir destes índices podem concluir, portanto, se uma região ou um local é potencialmente seco ou úmido. O estado do Piauí tem condições climáticas diferenciadas, com oscilação nos índices pluviométricos cuja origem é bastante individualizada, apresentando também temperaturas médias anuais relativamente variáveis. As precipitações pluviométricas apresentam grande variabilidade espacial e temporal, mostrando dois regimes chuvosos: no sul do Estado chove de novembro a março; no centro e norte, a estação chuvosa tem inicio em dezembro, prolongando-se até maio.

Os índices pluviométricos variam entre 700 m e 1.300 m na região sul, entre 500 m e 1.450 m na região central e entre 800 m e 1.680 m no norte do Estado, as temperaturas são elevadas, apresentando média anual de 27,3°C. A umidade relativa do ar média anual é de 64,5%.

Em função de sua situação geográfica entre os três grandes biomas brasileiros – o Nordeste semi-árido, a Amazônia úmida e os cerrados brasileiros – o Piauí, apresenta diferenças climáticas entre suas regiões: clima quente e úmido, nas regiões norte, sul e sudoeste do Estado, e clima semi-árido, nas regiões leste, centro sul, e sudeste, segundo a classificação descrita por Köeppen. Existe ainda o fator biogeográfico que tanto pode influenciar, como pode ser influenciado pelo clima local. No caso da região estudada, a cobertura vegetal é diferenciada nos nove municípios em destaque, as formações vegetais do Piauí sofrem a influência dos domínios da Amazônia, do Planalto Central e do Nordeste.

Portanto, essa região caracteriza-se por uma diversidade de ecossistemas, já que é uma zona ecotonal entre a floresta amazônica, os cerrados e o trópico semi-árido. As principais formações vegetais do Piauí são: Cerrados, Caatinga, Transição Cerrados/Caatinga, Floresta Semidecídua, Transição Floresta Semidecídua/Cerrados, Vegetação Litorânea. A incorporação de cenários pluviométricos (anos secos,regulares e chuvosos) a estudos dessa natureza é desejável, por promover um salto de qualidade à metodologia clássica,tornando-os mais ajustados e adequados à variabilidade natural das precipitações e às expectativas pluviométricas dos modelos numéricos de previsão climatológica em uso no Brasil (Varejão-Silva e Barros,2001).

Assim, este trabalho objetiva analisar o comportamento das chuvas em três regiões diferentes no estado do Piauí, bem como detectar fatores responsáveis pelo aumento ou diminuição dessas perturbações, apresenta-se um estudo da variabilidade dos totais anuais da precipitação histórica, dos índices máximos de precipitação e dos valores absolutos máximos anuais das chuvas ao longo dos últimos 94 a 98 anos de dados para um total de nove municípios no estado do Piauí.

Os resultados alcançados refletem não só do ponto de vista físico e natural, mas também humano, ou seja, com tais resultados pode-se chegar, por exemplo, à mitigação dos efeitos de desastres naturais e à prevenção de acidentes e transtornos em meios urbanos e, por isso, se torna interesse de todos que os estudos climatológicos sejam efetivados.

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