A independência diante da história e o caráter radicalmente livre e reflexivo marcam a arte dos últimos 40 anos, implicando uma nova relação entre esta e o mundo. A arte possui sua própria filosofia e suas próprias manifestações, assumindo uma forma plural. Arthur Danto apresenta importantes considerações sobre o momento contemporâneo da arte, que ele chama de “pós-histórico”. Seu texto revela preocupação com o fim do modernismo e mostra o que significa ter prazer com a arte na realidade pós-histórica. O autor analisa a atual cena artística mundial perguntando-se como a arte se torna historicamente possível e como ela pode ser pensada criticamente.

Dant diz que a era da arte não se iniciou abruptamente em 1400 e tampouco terminou repentimantente em meados da década de 1980, com suas publicações. Eles diz que está mais relacionado a uma tomada de consciência.

A arte hoje seria feita sem o benefício de uma narrativa legitimadora. O que chegou ao fim foi a narrativa, e não o tema da narrativa. A arte contemporânea, diferente da moderna, nada tem contra o passado, não dita a libertação. A arte contemporânea apropria a arte do passado como uma arte disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar. O que não está disponível é o espírito com que essa arte foi realizada.

Arthur Danto afirma que a arte, ou pelo menos um dado “conceito de arte”, chegou ao fim. Outros autores declararam teses semelhantes a essa, como Hegel, no começo do século XIX. Ao proclamarem esse “fim da arte”, nem Hegel nem Danto estavam anunciando a abolição dos artistas ou das suas obras. Segundo Danto, essa arte que chegou ao fim seria a arte relacionada a narrativa, aquela pautada pelas noções de estilo e movimento, pautada também na crença de uma linha evolutiva entre elas. Essa “evolução” seria baseada na análise circunstancial da arte proferida, ou seja, no seu contexto histórico. O que acabou, segundo Danto, foi a ligação que existia entre a Arte e a História. Esta ligação foi a base para todos os manifestos e movimentos do século XX, até meados dos anos 60, quando o compromisso dos artistas então passou a ser com a liberdade absoluta, liberdade de repetir, colar, reler e citar, por exemplo.

“É parte do que define a arte contemporânea que a arte do passado esteja disponível para qualquer uso que os artistas queiram lhe dar. O que não lhes está disponível é o espírito em que a arte foi realizada”

Danto assume que o modelo vigente “impossibilita a definição de obras de arte com base em certas propriedades visuais que elas possam ter.” A implicação do que Danto afirma é que não existe mais critério para se estabelecer o que é ou não é arte. Um exemplo dessa implicação está no trabalho de Andy Warhol com embalagens de papelão, as “brillo box”, aceitas como arte por Danto ao contemplá-las de imediato mas que, em seguida, fizeram o filósofo questionar seu título por meio da indagação “o que as torna diferente de todas as outras embalagens do mercado”?

Se a técnica e o talento deixaram de ser importantes, não existiria diferença visível, por exemplo, entre um objeto do cotidiano e um objeto de arte – o que determina o valor do artista passa a ser sua capacidade de inserção no sistema artístico por meio de uma rede de relacionamentos com marchands, galeristas, curadores e colecionadores. Esse sistema expeliu os críticos, por se mostrarem desnecessários. Esse sistema dita o que vale e o que deixa de valer. Ao mesmo tempo, o aspecto sensorial da arte perdeu importância frente ao seu aspecto filosófico, o papel da arte passou a se refletir sobre si mesma. Danto diz que “o que quer que seja a arte, ela já não é basicamente algo para ser visto.”

Danto, junto com Hans Belting, sigere em seu livro que o fim da arte começou a acontecer nos anos 60, com a Pop Art e Andy Warhol. Até ali, as obras de arte eram pensadas e avaliadas fundamentalmente em suas bases estéticas. Toda a arte moderna apresentou questões estéticas, mesmo quando discutia as condições, meios e métodos da representação. E foi quando o predomínio da estética, por algum motivo, deixou de corresponder ao que produzia, é que o conceito de moderno também se tornou insuficiente, e se buscou um substituto: pós moderno ou contemporâneo (mas não contemporâneo no sentido puramente temporam, já que ainda existem artistas preocupados com a estética).

Danto sugere duas grandes narrativas sobre a arte; dois grandes modelos que estabeleciam como a arte deve ser: a de Giorgio Vasari, no século XVI, correspondente à arte mimética, e a de Clement Greenberg, no século XX, correspondente à arte moderna. Os dois modelos bastam para entender a arte de vários séculos. A narrativa de Greenberg, que teoriza o modernismo, teria deixado de fazer sentido para a arte dos dias atuais. Contemporâneo, segundo Danto, passou a significar a arte produzida dentro de uma estrutura de produção inédita na história da arte. Não existiria mais uma narrativa que permita compreender o passado, o presente e o futuro da arte – a não ser a narrativa do mercado.

Peregrine Honig é uma artista contemporânea nascida em 1976 em São Francisco, Califórnia, cujas obras abraçam o tema da relação entre a cultura pop, a vulnerabilidade sexual, as propriedades da luxúria e o consumismo. Suas principais obras giram em torno da ilustração, porém, um de seus quadros mais conhecidos na verdade é uma fotografia chamada de Twin Fawns. A fotografia mostra dois veados filhotes gêmeos enroscados um no outro, parecendo dormir, dentro de uma bolha de vidro. Esses filhotes foram empalhados por um taxidermista americano que encontrou a mãe dos dois atropelada numa estrada do Kansas, abriu sua barriga e descobriu os gêmeos já mortos. Peregrine fotografou os dois na vitrine circular que construiu para eles e conseguiu uma imagem que, mesmo por sua intenção artística, exprime a tristeza da morte e, ao mesmo tempo, a esperança de uma alternativa. Ela acredita que os gêmeos viverão para sempre em seu estúdio, dormindo em sua redoma, com sua aparência frágil emanando delicadeza, como um desafio à obscuridade que representa a morte.

Este quadro de Peregrine Honig não busca tematizar um estilo próprio ou desarmar um modo preciso de ver a arte. A artista estruturou sua carreira em torno da crítica da sociedade atual do consumo e da cultura pop, e relata que o Twin Fawns é o ápice de seu trabalho, onde ela critica a morte das estruturas artísticas em prol da sociedade do merchan e, ao mesmo tempo, propõe uma ótica de esperança nos novos tempos que, mesmo enlaçados pelo capitalismo que se extende à socidade da Arte, ainda abrigam artistas preocupados com o valor sentimental de sua época e seu contexto. Danto descreve como a arte atual, poluída pelos alicerces neoliberais, acabou se separando completamente da História e das sociedades, declarando sua morte em meados dos anos 60, com o fim do modernismo. O trabalho de Peregrine Honig representa tanto uma oposição quanto uma concordância com a tese de Danto. Peregrine, em suas declarações, acredita na ruina da arte perante a comunidade pop, suas obras ilustram essa percepção no desenho de formas femininas nuas, ensanguentadas por cirurgias, figuras vomitando revistas e aparelhos eletrônicos, bichos de pelúcia com anuncios publicitários e cores berrantes arbitrárias. Em Twin Fawns, ela abandona parte dessa expressividade de seus desenhos para mostrar um outro lado de suas considerações, aquele que, a despeito da crítica de Danto à arte dos dias de hoje, acredita na sutil esperança na arte atual, aquela que repousa na tenacidade em que os filhotes gêmeos dormem em sua redoma, desafiando o fim prescrito na morte.

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