A SAÚDE EM DEBATE NA EDUCAÇÃO FÍSICA

A SAÚDE EM DEBATE NA EDUCAÇÃO FÍSICA

(Parte 1 de 6)

Marcos Bagrichevsky

Adriana Estevão Alexandre Palma

A SAÚDE EM DEBATE NA EDUCAÇÃO FÍSICA VOLUME 3

Universidade Estadual de Santa Cruz

Conselho Editorial:

Maria Luiza Nora – Presidente

Antônio Roberto da Paixão Ribeiro

Elis Cristina Fiamengue

Fernando Rios do Nascimento

Jaênes Miranda Alves

Jorge Octavio Alves Moreno Lino Arnulfo Vieira Cintra

Lourice Salume Lessa Lourival Pereira Junior

Maria Laura Oliveira Gomes

Marileide Santos Oliveira

Paulo dos Santos Terra Ricardo Matos Santana

Marcos Bagrichevsky Adriana Estevão

Alexandre Palma (Organizadores)

A SAÚDE EM DEBATE NA EDUCAÇÃO FÍSICA VOLUME 3

Ilhéus - Bahia 2007

Diagramação e impressão

Equipe Editus

Jorge Moreno (Direção de Política Editorial)

Maria Luiza Nora (Revisão) Aline Nascimento (Revisão)

Adriano Lemos (Coordenador de Diagramação) Alencar Júnior (Designer Gráfico)

Conselho editorial ad hoc

Dr. Alex Branco Fraga

Dr. Edgard Matiello Júnior Dra. Maria Cecília de Paula Dr. William Waissmann

Diagramação da capa João Roberto Cortez

Ilustrações Mayrink

Diagramação Nova Letra Gráfica e Editora

Todos os direitos desta edição reservados aos organizadores da obra.

Copyright © 2007 by Marcos Bagrichevsky, Adriana Estevão e Alexandre Palma 1a Edição

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Municipal Fritz Müller

organizadores Marcos Bagrichevsky,

613.7 S255s A saúde em debate na educação física - volume 3 / Adriana Estevão, Alexandre Palma, –

Ilhéus : Editus / Ministério do Esporte, 2007. 294p. , 2007.

ISBN 978-85-7682-238-7

1. Educação Física 2. Corpo 3. Saúde Coletiva 4. Sociologia da Saúde 5. Epistemologia da Saúde 6. Saúde Pública I. Bagrichevsky, Marcos I. Estevão, Adriana I. Palma, Alexandre

Contato: E-mail: gttsaude_salus@yahoo.com.br

Sumário

Apresentação ................................................................7

Sobre os colaboradores ............................................17

Artigo 1 – Construções históricas de ideais de corpos masculinos e femininos – Carlos José Martins e Helena Altmann .........................................................................23

Artigo 2 – O corpo em Foucault entre construtivismo e fenomenologia – Francisco Ortega .............................39

Artigo 3 – Deixar de comer e/ou fazer exercício? Juventude, cuidados corporais e ‘distúrbios’ alimentares na perspectiva de gênero – José Geraldo Damico e Dagmar Estermann Meyer. ..........................................7

Artigo 4 – Medicalização da aparência: os curiosos arranjos de um discurso científico da beleza – Paulo Poli Neto e Sandra Caponi ............................................................ 105

Artigo 5 – Novos paradigmas e saúde André Martins ............................................................ 121

Artigo 6 – Reinventando o conceito de saúde – Luiz Carlos Rigo, Eliane Ribeiro e Tatiana Silveira ........................ 155

Artigo 7 – “Ministério da Saúde adverte: viver é prejudicial à saúde” – Elenor Kunz ............................................. 173

Artigo 8 – Mercadorização biopolítica: sobre escolhas saudáveis em tempos de consumo – Santiago Pich, Ivan Marcelo Gomes e Alexandre Fernandez Vaz ........... 187

Artigo 9 – Sedentário ‘sem-vergonha’, saudável ‘responsável’? Problematizando a difusão do ‘estilo de vida ativo’ no campo sanitário – Marcos Bagrichevsky, Luis David Castiel, Paulo Roberto Vasconcellos-Silva, Adriana Estevão e Alexandre Palma ....................................... 209

Artigo 10 – Comunicação e promoção da saúde no Brasil – Wilson da Costa Bueno.......................................... 231

Artigo 1 – Posicionando pessoas por meio da linguagem dos riscos: reflexões acerca do desenvolvimento de ‘habilidades’ como estratégia de promoção da saúde – Mary Jane Spink ......................................................... 253

Artigo 12 – O risco na sociedade contemporânea: relações entre ciência, cultura e saúde – Dina Czeresnia........................................................... 275

Apresentação

Vivemos em um momento histórico extravagante! Ao mesmo tempo em que temos sido levados a um movimento acelerado de buscas e acessos frenéticos a informações ilimitadas (inclusive na esfera da saúde/doença), subjaz um hedonismo do cotidiano irreprimível e poderoso nessa nova ordem societária, que sustenta o não-questionamento a tal estado de coisas e intensifica uma quase-imperceptível aversão a qualquer forma de crítica à norma social vigente. Em outras épocas essa doutrina do efêmero não só era marginalizada como também ocupava um papel subalterno.

Michel Maffesoli1 alerta que é preciso estar atento à estética desse ‘jogo das aparências’, porque produz efeitos marcantes na cultura, na política, na ciência, na comunicação, na mídia e em tantas outras macro e micro-instâncias que interferem no contexto da vida em coletividade. Ele entremea se aos processos de subjetivação que conformam sutilmente o modo como nos relacionamos no cotidiano e, as próprias referências valorativas da identidade humana.

obrigação moral do ‘dever-ser’saudável, belo(a), magro(a),

Levando em conta esse panorama, intelectuais críticos da modernidade tardia chamam atenção, de diferentes maneiras, para a metamorfose que o papel do cuidado individual com a saúde e com o corpo vem sofrendo hoje no mundo ocidentalizado. Essa mudança de sentido prolifera ênfases discursivas que fazem alusão à responsabilidade pessoal e à jovem, ativo(a)! Trata-se de uma dimensão ascética pulverizada através de recomendações sobre mudanças de comportamentos (estilos de vida) cuja circulação tem se tornado cada vez mais ampliada, a despeito das iniqüidadesineqüidades sociais que também seguem potencializadas exponencialmente em todos os cantos longínquos do planeta.

O corpo, entendido em sua perspectiva mais ampla, é um privilegiado portador de sentidos da cultura, um locus

1 MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 2005.

singular onde pulsam e tomam forma diferentes noções de saúde/doença, de resistência e de subjugação, de prazer, de sofrimento e de dor. Michel Foucault2 argumenta que “o controle da sociedade sobre os indivíduos [...] começa no corpo, com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista.”

Na ordem do pensamento dessa sociedade informacional pós-genoma, a transfiguração dos significados de saúde, doença e normalidade – especialmente ancorada na retórica dos riscos, como nunca antes – não diz respeito apenas à apologia dos ‘avanços’ hightech. Relaciona-se também aos efeitos imanentes das redes de interesses que conectam e articulam a produção de conhecimentos e práticas científicas à dinâmica política e mercadológica da economia globalizada, à manutenção da soberania de países ricos sobre nações subdesenvolvidas.

As linhas mais estruturadas de crítica a esse modelo conceitual cambiante de saúde/doença/normalidade outorgado pela racionalidade tecnocientífica, preocupam-se com as distorções inerentes, por exemplo, à determinação de ações sanitárias baseadas não mais na ocorrência concreta de problemas e sim na probabilidade estimada (cálculo dos riscos) deles virem a acontecer em algum momento no futuro. No plano pessoal, reverberam efeitos simbólicos que materializam espectros nosológicos monitoradores de nosso imaginário corpóreo. Uma espécie de estado de (auto)vigilância permanente para prevenir a condição de periculosidade da qual somos hoje portadores (queiramos ou não!), conforme enuncia a lógica da epidemiologia dos fatores de risco; que espreita com olhos ameaçadores nossas posturas habituais de vida, delatando suas supostas vicissitudes.

Adscrito em discursos de prevenção de agravos e promoção da saúde, o risco tornou-se também um dispositivo de convencimento da agenda oficial utilizado para justificar publicamente algumas formas de intervenção do/no setor saúde e, de destinação prioritária de fomentos e recursos para certas linhas de investigação científica (em detrimento da não contemplação de outras). Os discursos organizados sobre a

2 FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 1.ed. Rio de Janeiro: Graal, 1995.

idéia de risco podem tanto ser largamente utilizados para legitimar políticas, quanto para desacreditá-las; para proteger os indivíduos das instituições ou para proteger as instituições dos agentes individuais.

Manter um posicionamento crítico, interrogando permanentemente os ditames certificadores de correntes hegemônicas em pesquisa é necessidade premente, levando em conta a influência que exercem hoje no rumo das práticas e políticas sociais. Inclusive, porque se replicam a todo momento em campanhas de órgãos de amplo alcance como a Organização Mundial da Saúde (por exemplo) que, a partir de constructos epidemiológicos, têm objetivado estabelecer em nível global quais tipos de comportamento deveriam ser considerados saudáveis ou ‘de risco’ em nosso cotidiano. Contudo, mais do que recomendações ao bem-estar, tais preconizações normativas engendram aspectos descontextualizados e elitistas, pois nem sempre são factíveis a todos os países e aos diferentes estratos sociais daqueles que as adotam.

A educação física postada como uma área na qual ainda viceja um valor significativo de incursões mensurativas para classificar comportamentos ‘adequados’ e ‘impróprios’ à saúde, precisa refletir acerca de tal posicionamento. É tarefa urgente questionar com severidade todo o arsenal de discursos e estratégias moralizantes – empregado para ‘combater’ a obesidade, o sedentarismo, o tabagismo etc – cujo efeito último (indesejado) acaba sendo a estigmatização do modo de vida das pessoas, sobretudo, nas camadas sócio-econômicas mais vulneráveis. Por certo, há outras perspectivas políticas e epistemológicas valiosas para legitimar profissionais e investigadores da educação física como agentes promotores de conhecimentos e vivências corporais éticas em suas intervenções populacionais, mais afeitos à valorização de experiências ‘livres’, criativas e possíveis para cada sujeito.

Tomando esse conjunto de argumentos iniciais como referência, cabe então enunciar que a organização da obra que o/a leitor(a) tem agora em mãos, manteve-se fiel ao propósito estabelecido em nossos dois trabalhos anteriores:

conduzir uma linha editorial ‘indisciplinada’3 e rigorosamente articulada pela linha de criticidade convergente que os diferentes ensaios assumem nas respectivas abordagens sobre saúde, considerando todas as suas inúmeras e complexas interfaces temáticas afins.

Procuramos expressar e desenvolver aqui características reconhecidamente mais valorizadas nas ciências sociais e humanas e na própria saúde coletiva: a diversidade de perspectivas teórico-metodológicas; o debate interdisciplinar; a reflexão crítica; a inquietação intelectual; o cruzamento de fronteiras que dividem áreas do conhecimento; a pesquisa bem fundamentada que descortina horizontes para novas investigações; outros vôos, ousadias, releituras, leituras outras.

É nessa direção que Carlos Martins e Helena Altmann abrem o livro com o texto Ideais históricos de corpos masculinos e femininos. Os autores vislumbram a possibilidade de se pensar uma construção histórica dos corpos, para além das leis da fisiologia como explicação última da vida. Inspirados, sobretudo, na obra de Michel Foucault, se debruçam sobre o estudo do corpo numa perspectiva genealógica, que implica a apreensão das condições de possibilidade que fazem emergir, em uma dada época, as configurações corporais correspondentes às relações de força em um dado campo social. Assim, nos lembram que o corpo é algo em que se exerce um direto controle social, através da organização e regulação do tempo, do espaço e das atividades cotidianas. Ele é treinado, moldado e marcado pelo cunho das formas históricas predominantes de individualidade, desejo, sexualidade. Contudo, o poder que se estabelece não advém de uma instituição ou aparelho estatal; ocorre sim no nível microfísico. A partir dessa perspectiva, os pesquisadores buscam diagnosticar os diferentes campos que atravessam nosso presente e nos convidam a repensar sobre de que modo somos por esses constituídos e como podemos deixar de sê-lo.

3 Não esteve no horizonte de nossas preocupações estabelecer uma rigidez temática para encampar os ensaios sobre saúde dos articulistas convidados. Aliás, tem sido justamente essa liberdade (pouco ortodoxa no meio acadêmico) uma das molas propulsoras que nos estimula a continuar reunindo pesquisadores críticos qualificados de todas as áreas do conhecimento para produzir nossas obras.

Na seqüência aparece O corpo em Foucault entre construtivismo e fenomenologia, uma reflexão desafiadora elaborada por Francisco Ortega que dimensiona um panorama das convergências e tensões de idéias construtivistas e fenomenológicas acerca da corporeidade, especialmente contrastadas a partir do pensamento de Michel Foucault. Ortega evoca principalmente o filósofo francês, ora para derramar suas críticas, ora para nortear suas análises e declararse ao lado da posição que considera a dimensão encarnada e material da corporeidade, sem, no entanto, assumir uma postura essencialista ou fundacionalista.

José Geraldo Soares Damico e Dagmar Estermann

Meyer respondem pelo ensaio Deixar de comer e/ou fazer exercício? Juventude, cuidados corporais e ‘distúrbios’ alimentares na perspectiva de gênero. Tendo em vista uma perspectiva pósestruturalista de análise, realizada a partir dos depoimentos coletados em encontros com jovens de 13 a 15 anos de idade, participantes de um programa institucional, os autores debatem alguns modos pelos quais jovens mulheres significam, apreendem e vivenciam o cuidado com o corpo nos dias atuais. De forma mais pontual, problematizam o movimento paradoxal através do qual essas jovens passaram a se reconhecer e a serem reconhecidas como portadoras de anorexia nervosa (classificadas pelo discurso biomédico), uma vez que a mídia também tem deixado transparecer essa mesma conduta como produto de seus investimentos persuasivos. Isto é, estratégias de aprendizagem que configuram um jeito específico de ‘controle’ do corpo que se estabelece, principalmente, a partir de conhecimentos relacionados às dietas, à alimentação, aos exercícios físicos e ao vestuário.

A recente valorização aguda de parâmetros estéticos como critérios definidores das condições de saúde é o tema analisado por Paulo Poli Neto e Sandra Caponi no artigo Medicalização da aparência: os curiosos arranjos de um discurso científico da beleza. Os autores prendem-se às formas de transformação do discurso médico da cirurgia plástica que tem naturalizado as intervenções estéticas como processos reparadores de ‘males’ indesejados à saúde. Trata-se de um investimento maçico na patologização da exterioridade física, no qual quem dita o ‘normal’, o ‘aceitável’ é o mercado da beleza, dos cosméticos, do fitness e da medicina estética. Contudo, salientam que o discurso banalizado dos cuidados corporais permanece somente na superfície da história de cada sujeito.

Em Novos paradigmas e saúde, André Martins procura situar os estudos epistemológicos do campo da saúde dentro de uma história da filosofia e da racionalidade experimental. Por meio da apresentação de um novo paradigma científico, ontológico e epistemológico – paradigmas quântico e espinosiano, da não-separabilidade, da continuidade do descontínuo – isto é, de uma nova relação entre natureza e cultura e, por conseguinte, de uma outra concepção do ser humano, da ciência e da razão, o autor propõe uma redefinição dos conceitos de vida e morte, de saúde e doença.

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