artigo metaprojeto

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Resumo

O metaprojeto é um espaço de refl exão disciplinar e de elaboração dos conteúdos da pesquisa projetual. O metaprojeto nasce da necessidade de uma “plataforma de conhecimentos” (pack of tools) que sustenta e orienta a atividade projetual em um cenário fl uido de constante mutação. Pelo seu caráter dinâmico, o metaprojeto desponta como um modelo projetual que considera todas as hipóteses possíveis dentro da potencialidade do design, mas que não produz outputs como modelo projetual único e soluções técnicas pré-estabelecidas. O metaprojeto, como é observado neste artigo, é uma alternativa posta ao design, que contrapõe a metodologia convencional, ao se constituir como espaço de refl exão e suporte ao desenvolvimento do projeto em um cenário mutante e complexo.

Palavras-chave: metaprojeto, metadesign, novo modelo projetual, design e complexidade, gestão da complexidade.

Abstract

The metaproject is a space for disciplinary refl ection and analysis of project research contents. It originates from the necessity of a “knowledge platform” (pack of tools) that sustains and guides the projectual activity in a fl uid scenery of constant mutation. Because of its dynamism, the metaproject emerges as a “projectual model” which takes into account all the possible hypothesis in design but that not produces output as a unique projectual model, neither presettled technical solutions. The metaproject, as considered in this article, is an alternative that opposes the customary methodology in design, placing itself as a refl ection space and as a support to the project development in a complex and mutable scenery.

Key words: metaproject, metadesign, new projectual model, design and complexity, management and complexity.

Strategic Design Research Journal, 3(2): 62-68 maio-agosto 2010 ©2010 by Unisinos - doi: 10.4013/sdrj.2010.32.05

Metaprojeto como modelo projetual Metaproject as a projectual model

Dijon De Moraes moraes@uemg.br Universidade do Estado de Minas Gerais. Rua Rio de Janeiro, 1801, Lourdes, 30160-042, Belo Horizonte, MG, Brasil..

Introdução

Design e complexidade

Antes da globalização de fato, época reconhecida por diversos autores como a da “primeira modernidade” (Beck, 1999; Bauman, 2002; Branzi, 2006), tudo que se produzia era facilmente comercializado, uma vez que a demanda era reconhecidamente maior que a oferta, e o mercado, de abrangência regional. Vários estudiosos definiram esse período como uma época do “cenário estático” (Levitt, 1990; Mauri, 1996; Klein, 2001; Finizio, 2002), quando prevaleciam mensagens de fáceis entendimentos e de previsíveis decodificações.

O nivelamento da capacidade produtiva entre os paises, somados à livre circulação das matérias-primas no mercado global e à fácil disseminação tecnológica reafirmaram o estabelecimento de um novo cenário mundial, promovendo, por consequência, uma produção industrial de bens de consumo esteticamente massifica- dos, compostos de signos imprevisíveis e repletos de conteúdos frágeis. Tal fato contribuiu decisivamente para a instituição de uma nova ordem: a do “cenário dinâmico”.

O desafio dos produtores e designers, na atualidade, ao atuarem em cenários mutantes e complexos, deixa de ser o âmbito tecnicista e linear e passa à arena ainda pouco conhecida e decodificada dos atributos intangíveis e imateriais dos bens de produção industrial. Tudo isso faz com que o design interaja, de forma transversal, com disciplinas cada vez menos objetivas e exatas. Dessa forma, conflui com outras áreas disciplinares que compõem o âmbito do comportamento humano, como as dos fatores estésicos e psicológicos, até então pouco considerados na concepção dos artefatos industriais.

Essa complexidade também se caracteriza pela interrelação recorrente entre a abundância das informações hoje facilmente disponíveis e desconectadas. Para melhor entendimento sobre o fenômeno de complexidade e a sua influência no design, é preciso, primeiro, entender a realidade do cenário (ou cenários) que hoje se

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Dijon De Moraes posiciona(m) como vetor(es) mutante(s) no modelo de globalização estabelecido. O cenário se caracteriza como o panorama e a paisagem em que se vive (o cenário existente) ou o em que se viverá (cenário futuro); é ele que determina as diretrizes para as novas realidades vindouras e as alternativas da nossa cena cotidiana (produtiva e mercadológica). Define, assim, os papéis das pessoas como agentes e atores sociais (Finizio, 2002; Manzini e Jégou in Bertola e Manzini, 2004).

Na verdade, o cenário previsível e estático, dentro da lógica do progresso estabelecida na primeira modernidade, refletia, por consequência da concepção vigente então, os ideais do projeto moderno com suas formulas pré-estabelecidas que determinavam um melhor ordenamento da organização social e almejavam o alcance da felicidade para todas as pessoas. Essa noção de projeto, com seus conceitos bem coerentes e estruturados, norteou a evolução industrial e tecnológica bem como parte da ética e da estética de grande parte do pensamento do século X. Nesse sentido, Bauman (1999, p. 102) descreve: “O fato de tornar a ação de supervisionar uma atividade profissional de alta competência eram traços que uniam uma serie de invenções modernas, como as escolas, as casernas militares, os hospitais, as clínicas psiquiátricas, os hospícios, os parques industriais e os presídios”.

Havia a previsão de que a humanidade, uma vez inserida nesse projeto linear e racional, seria guiada com segurança rumo à felicidade. É interessante notar que o conceito de segurança previsto no modelo moderno referia-se, de forma acentuada, à estabilidade no emprego junto ao conceito de um núcleo familiar consistente. Tudo indicava que esse teorema, uma vez resolvido, teria na garantia do emprego, somada à coesão familiar, a chave de sucesso do projeto moderno. Entretanto, também merece a nossa atenção o fato de que, por trás desse aparente simples projeto, existia o incentivo ao consumo dos bens materiais disponibilizados pela crescente indústria moderna mediante o seu avanço tecnológico e a sua expansão produtiva pelo mundo ocidental. Essa estratégia instituída pelo modelo capitalista industrial, aliada à estabilidade do emprego e à solidez do núcleo familiar traria, por conseguinte, a felicidade coletiva almejada. Isso, no decorrer dos tempos, mostrou-se bastante frágil, pois, dentre outros motivos, a mesma sociedade que alcançou o emprego proporcionado pelo progresso da indústria, sentia-se, ao mesmo tempo, prisioneira nos seus locais de trabalho cada vez mais controlados pelo cartão de ponto, pela folha de presença e pela rígida hierarquia funcional.

A verdade é que esse projeto moderno de previsível controle sobre o destino da humanidade, em busca de uma vida melhor, parece mesmo ter-se deteriorado. O sonho de um mundo que seguia uma lógica clara e objetiva pré-estabelecida, em que todas as pessoas podiam ter acesso a uma vida mais digna e feliz, demonstra-se, paradoxalmente, na atualidade fragmentada. É oportuno perceber que, nos dias atuais, em vista da rápida automação industrial, ‘a garantia no emprego e a carteira assinada’ tornaram-se cada vez mais escassos, reduzindo, por isso, o número de operários nos parques produtivos. Além disso, a realidade da educação a distância começa rapidamente a se disseminar como um modelo de ensino possível, o serviço militar como referência de ordem deixa de ser obrigatório em diversos países ocidentais, os portadores de distúrbios mentais são agora tratados em suas próprias casas e os prisioneiros ganham liberdade condicional. Por fim, o conceito de família, contrariando os dogmas católicos, estende-se hoje aos casais homossexuais. Essa nova realidade, portanto, colocou em cheque a lógica objetiva e linear moderna, deixando órfãos milhares de cidadãos que foram educados e preparados para viver em outro cenário, diferente deste pós-moderno e pós-industrial que se prefigura. Para Branzi (2006, p. 106), “o mundo material que nos circunda é muito diferente daquele que o Movimento moderno tinha imaginado; no lugar da ordem industrial e racional as metrópoles atuais apresentam um cenário altamente complexo e diversificado”.

São essas lógicas produtivas e sistemas linguísticos opostos, apontados por Branzi (2006), que ajudam a configurar esta realidade de cenário complexo. Embora seja uma fotografia da realidade, a atualidade, com o forte dinamismo, as demandas distintas, as necessidades e as expectativas diversas, tornou-se um grande desafio à decodificação a priori do cenário, tanto em nível micro, quanto em nível macroambiental. De acordo com Mauri (1996, p. XI), “o sonho de um desenvolvimento contínuo e linear se fragmentou diante de emergências que não foram previstas, e que se demonstraram imprescindíveis”.

A comunicação, que se tornou global graças às novas tecnologias informatizadas, como a Internet, abreviou o tempo de vida das ideias e das mensagens. O tempo de metabolização das informações também foi drasticamente reduzido, contribuindo, em muito, para a instituição do cenário denominado por Bauman como sendo “dinâmico”, e por Branzi como “fluido”. Dentre os estudiosos que se interessam pelo argumento da complexidade e sua influência no design, Manzini (Bertola e Manzini, 2004, p. 10) demonstra sua tentativa de aproximação com os cenários complexos da seguinte maneira: “no mundo sólido do passado, existiam containers disciplinares e seguros nos quais qualquer um poderia se posicionar. Agora não é mais assim: no ‘mundo fluido contemporâneo’ os containers foram abertos e as suas paredes não são mais protegidas”.

Diferentemente da solidez moderna, em que o próprio cenário nos dava uma resposta ou, pelo menos, fortes indícios de qual caminho seguir, na atualidade, a estrada deve ser sempre projetada e a rota, muitas vezes, redefinida durante o percurso. Tudo isso exige dos designers e produtores maior capacidade de gestão e maior habilidade na manipulação das informações e mensagens disponíveis.

O design em cenário fl uido e dinâmico

Hoje, com o cenário cada vez mais complexo, fluido e dinâmico, é necessário estimular e alimentar constantemente o mercado por meio da inovação e diferenciação pelo design e pela inovação. Isso se deve à drástica mudança de cenário, que, de estático, passou a ser imprevisível e repleto de códigos, isto é: tornou-se dinâmico, complexo e de difícil compreensão. Somam-se a

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Metaprojeto como modelo projetual tudo isso a ruptura da dinâmica da escala hierárquica das necessidades humanas e a visível mutação no processo de absorção e valorização dos valores subjetivos, tidos, até então, como atributos secundários para a concepção dos produtos industriais, como as questões das relações afetivas, psicológicas e emocionais. Hoje, é necessário que o processo de inserção desses valores em escala produtiva industrial seja, portanto, “projetável”, de maneira que possibilite o aumento do significado do produto (conceito) e a sua significância (valor). De acordo com Celaschi (2000, p. 150), “o designer tornou-se um operador chave no mundo da produção e do consumo, cujo saber empregado é tipicamente multidisciplinar pelo seu modo de raciocinar sobre o próprio produto”.

O nivelamento da capacidade produtiva entre os países, a livre circulação das matérias-primas no mercado global e a fácil disseminação tecnológica reafirmaram o estabelecimento dessa nova realidade complexa contemporânea, promovendo uma produção industrial de bens de consumo massificados, compostos de estéticas híbridas e de conteúdos frágeis. Essa nova realidade coloca em cheque os conceitos de estilo e de estética, nos moldes até então empregados. Para tanto, essas áreas do conhecimento passaram a ter mais afinidade com disciplinas de abrangência do âmbito comportamental, em detrimento daquelas que consideravam o estudo da coerência, da composição e do equilíbrio que predominaram no ensinamento estético da primeira modernidade.

A estética, nesse contexto, situa-se diretamente atrelada à ética, aqui entendida no sentido de comportamento coletivo social. No que concerne às questões industrialização, meio ambiente e consumo, ressalta-se a importância e o papel que passou a ter o consumidor para o sucesso da sustentabilidade ambiental do planeta. Muitos chegam a apregoar a necessidade de uma nova estética que deve ser absorvida pelos consumidores na atualidade. Nesse novo modelo estético, que vai ao encontro da sustentabilidade ambiental, isto é, de uma ética em favor do meio ambiente, têm lugar, também, as imperfeições de produtos feitos de novos e diferentes tipos de matérias-primas, produzidos com tecnologia de baixo impacto ambiental ou mesmo semiartesanal. Ao aceitarmos de forma pró-ativa os produtos desenvolvidos dentro desse modelo, e, por consequência, a sua nova ordem plástica, nós, consumidores, podemos legitimar uma nova estética possível, em nome de um planeta sustentável, e, assim, cumprimos nosso papel ético na trilogia produção, ambiente e consumo.

Nesse sentido, algumas disciplinas da área do conhecimento humano, sustentadas em interpretações sólidas advindas do cenário estático existente, com dados previsíveis e exatos, entraram em conflito com a realidade do cenário mutante atual, que se apresenta permeado de mensagens híbridas e códigos passíveis de interpretações. Entre essas áreas do conhecimento, se destacam o marketing, a arquitetura, o design e a comunicação. O problema com que o marketing hoje se defronta não consiste mais na recolha de dados estatísticos, mas na sua capacidade interpretativa em que o consumidor pesquisado demonstra uma grande variedade de demandas e desejos distintos, oriunda da quantidade de informações efêmeras e recicladas que recebe cotidianamente e que vem aumentando a complexidade dentro do referido fenômeno mercado, produto e consumo. Para Zurlo (in Bertola e Manzini, 2004, p. 79), “pela maneira fluida com que algumas situações mudam; podemos entender que cada decisão não é simplesmente o resultado de um cálculo, mas de uma interpretação, na qual existe sempre uma situação de risco”. Os dados obtidos em pesquisas de mercado e demandas de consumo são cada vez mais passíveis de interpretações, mas quais ferramentas vêm postas à disposição de designers e empreendedores para a necessária interpretação além da falível intuição?

Com a realidade do cenário dinâmico, múltiplas realidades distintas passam a conviver de forma simultânea e cada indivíduo, a partir de sua potencialidade e competência como comprador, usuário e consumidor, traz, intrínsecas ao seu mundo pessoal, suas experiências de afeto, de concessão e de motivação. Isso, simultânea e consequentemente, tende a conectar-se com a multiplicidade dos valores e dos significados da cultura a que pertence, em suma, com seu meio social. Tal realidade transforma o consumidor em uma incógnita e, por isso, exige das pesquisas mercadológicas maior capacidade de interpretação, em detrimento dos simples aspectos técnicos de obtenção de dados estatísticos. Esse fato nos tem exigido uma crescente capacidade de construir relações, propor associações e promover novas interações possíveis, o que pode culminar no surgimento de uma verdadeira plataforma de inter-relações no mercado atual.

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