TDAH em a

TDAH em a

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SANTO ANDRÉ 2012

Trabalho de conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Fundação Santo André para obtenção do título de Especialização em: Psicopedagogia Clínica e Institucional. Orientador(a): Profª Ivete Pellegrino Rosa.

SANTO ANDRÉ 2012

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Fundação Santo André para obtenção do título de Especialista em Psicopedagogia Clínica e

Institucional. Orientador (a): Prof. Dra. Ivete Pellegrino Rosa.

Orientador: Ivete Pellegrino Rosa Examinador: Eliana Marta Monaci

Santo André, 27 de março de 2012.

Neste trabalho de atendimento socioeducativo junto a adolescentes em tratamento por uso abusivo de SPA, estabeleceu uma extensa teia de (re)significações e vínculos. Houve momentos de angustia e alegria tão peculiar, em uma área de atuação do pedagogo tão pouco explorada.

Agradeço primeiramente a Deus pela oportunidade de trabalha com cada um dos adolescentes que convivi nestes anos, principalmente aos que compartilharam com os suas experiências para esta pesquisa: ESV, 14 anos; FHS, 17 anos e FCO, 18 anos.

Agradeço a minha filha Júlia e a sobrinha Giovana pelo apoio desta produção. Ao amigo e ex-companheiro de trabalho Rogério Gusmão que me acompanhou nesta travessia, apurando olhares e transformando escutas.

E finalmente, especialmente pela minha orientadora Ivete Rosa que desde a graduação não desistiu de mim, e nesta nova trajetória acreditou que seria possível continuar essa temática no campo da psicopedagogia.

Procurou o homem, desde a mais remota antiguidade, encontrar um remédio que tivesse a propriedade de aliviar suas dores, serenar suas paixões, trazer-lhe alegria, livrá-lo de angústias, do medo ou que lhe desse o privilégio de prever o futuro, que lhe proporcionasse coragem, ânimo para enfrentar as tristezas e o vazio da vida.

Lauro Sollero.

Os aspectos do consumo de substâncias psicoativas na população de adolescentes, com histórico de comportamento de Transtorno de Déficit de Atenção/ Hiperatividade - TDAH foi um estudo de uma realidade empírica, com o objetivo de verificar a associação entre duas variáveis nas dificuldades de aprendizagem ao uso de substâncias psicoativas: avaliar especificamente em relação ao TDAH em adolescentes que fazem uso de substâncias psicoativas e identificar possíveis intervenções Psicopedagógicas no tratamento. O método é composto por três adolescentes do sexo masculino em situação de residência em Comunidade Terapêutica - CT. Os dados foram coletados através de entrevista e de questionário denominado SNAP – IV e foi construído a partir dos sintomas do Manual de Diagnóstico e Estatística - IV - (DSM-IV) da Associação Americana de Psiquiatria. Há sugestão que o abuso de SPA seja associado dos transtornos considerados como co-morbidade do TDAH, sendo necessárias intervenções multidisciplinares.

Palavras-chave: TDAH. Substâncias Psicoativas. Adolescentes. Comunidade Terapêutica. Psicopedagogia.

The aspects of the consume of psychoactive-substance in adolescent population, with a history of behavior disorder, attention deficit / hyperactivity disorder – ADHD, was a study of an empirical reality, in order to verify the association between two variables in the difficulties of learning and the substance abuse: the assessment specifically in relation to Attention Deficit Disorder / Hyperactivity Disorder - ADHD in adolescents who use psychoactive substances and to identify possible interventions in the treatment psycho-pedagogical. The method consists of three adolescent boys who find themselves living in a therapeutic community. The informations were collected through interviews and a questionnaire called SNAP - IV and was made from the symptoms of the Diagnostic and Statistical Manual - IV (DSM-IV) of the American Psychiatric Association. There are suggestions that the abuse of SPA is associated with disorders considered as co-morbidity of ADHD, requiring multidisciplinary interventions.

Keywords: ADHD. Psychoactive Substances. Adolescents. Therapeutic Community. Psychopedagogy.

1 INTRODUÇÃO7
1.1 CARACTERIZANDO OS PARTICIPANTES DO ESTUDO9
1.2. RELAÇÃO FAMILIAR10
2 DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM12
3 USO INDEVIDO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS16
4 INTERVENÇÕES PSICOPEDAGÓGICAS19
5 CONCLUSÃO23

SUMÁRIO REFERÊNCIAS............................................................................................................. 25

7 1. INTRODUÇÃO

Nos últimos de cinco anos, tenho desenvolvido um trabalho de atendimento socioeducativo1 a adolescente com uma trajetória pessoal que se inscreve em um contexto social de extrema escassez econômica, social, cultural e educacional, predestinados a lutar contra todas as adversidades apresentadas a ele, acabam se subterfugiando naquilo que lhes está às mãos, cedendo ao aliciamento do ilusório mundo das conquistas fáceis, alimentadas pela alienação consumista da mídia.

As consequências não diferem daquilo que deparamos cotidianamente pelas emissoras de comunicação sobre a dura realidade de adolescentes usuários de substâncias psicoativas e, consequentemente, em conflito com a Lei. No inventário das histórias de vida desses, observa-se que com o levantamento das vivências, transcorre uma série de sequência de eventos desencontrados que impedem o desenvolvimento biopsicossocial saudável. Sem fazer generalizações, a maioria apresenta conflitos familiares, considerando que nesta fase é uma característica do próprio processo do adolescer.

No entanto, um dado que chama bastante atenção no convívio com esses adolescentes que apresentam um histórico de uso de SPA, é o número significativo de evasão escolar. Ao serem questionados sobre o porquê desta evasão, a maioria foi expulsa ou é repetente e reage com respostas dizendo: “não gosto de estudar!”; “não consigo aprender!”; “tive problemas na escola: não conseguia ficar quieto!”; “não conseguia decorar o que a professora ensinava!”; “os professores não gostam de mim!”; “dei muito trabalho na escola!”. Tais justificativas retratam as dificuldades que esses adolescentes encontram para adequação escolar e comumente encontramos esses tipos de manifestações presentes em alunos que sofrem de TDAH.

Conforme as ideias de Mattos (2003) e Cypel (2000), as crianças que sofrem com o

TDAH apresentam baixa tolerância à frustração, teimosia, instabilidade de humor e tendem a apresentar tendências para o isolamento e a falta de autoestima, relacionada à falta de aceitação por parte dos pais e professores que interpretam os comportamentos como voluntários, e

1 Um sistema de atendimento ao adolescente estruturado, organizado, descentralizado e qualificado; centrado na ação socioeducativa de formação e emancipação humana, capaz de suscitar um novo projeto de vida para os adolescentes; articulado com os serviços públicos das políticas sociais básicas; desenvolvido em rede e em consonância com a legislação e a normatização vigentes como: Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), recomendações do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA); gerido a partir de um modelo de gestão democrática, planejada e monitorada permanentemente, através da definição de indicadores de eficiência e eficácia.

frequentemente as crianças são submetidas à desaprovação, rejeição, castigos e punições cujos resultados não surtem o efeito esperado.

Considerando tais elementos teóricos iniciamos o estudo da relação dessas dificuldades escolares entre os adolescentes que fazem uso de SPA. A maioria dos trabalhos realizados sobre esta temática é voltada para a área da saúde mental, enquanto que estudos mostrando a articulação entre Educação e Saúde não recebem a mesma atenção de estudiosos.

O campo das aprendizagens humanas é vasto, mas a alfabetização é, sem dúvida, o momento mais importante da formação escolar de uma pessoa; contudo quando uma criança ingressa neste ambiente e “é”, por outros fatores psicossociais e/ou ambientais, uma pessoa que não corresponde com o nível “preestabelecido” de exigência para um desenvolvimento cognitivo “normal”, inicia-se uma dinâmica subjetiva de exclusão deste do ambiente escolar.

A aprendizagem é um processo de aquisição de habilidades que vem desde a infância. O comportamento vai se modificar em consequência das experiências e é um processo através do qual a criança se apropria ativamente do conteúdo da experiência humana e daquilo que seu grupo social conhece, portanto é uma ação interno e pessoal, que ocorre dentro do sujeito (PANTOJA, 2009).

Ciasca (2003) ao estudar o tema, cita as ideias de Azcoaga de 1972 e diz que o processo de aprendizagem implica em três integridades básicas, que devem estar presentes quando as oportunidades são oferecidas para sua realização da aprendizagem:

1. Função Psicodinâmica: à medida que o organismo internaliza o que foi observado ou experienciado, começa a assimilação do que já sabe com o que esta sendo aprendido; 2. Função do Sistema Nervoso Periférico: responsável pelos receptores sensoriais, que constituem canais para a aprendizagem; 3. Função do Sistema Nervoso Central: responsável pelo armazenamento, elaboração e processamento da informação.

Assim, podemos dizer que a criança está pronta para aprender quando ela apresenta um conjunto de condições, capacidades, habilidades e aptidões consideradas como pré-requisitos para o inicio de qualquer aprendizagem.

A aprendizagem ocorre em função do equilíbrio do meio interno da pessoa e do meio externo a ela. Isto também significa que a harmonia entre tais fatores oferece a oportunidade para um desenvolvimento humano ajustado.

Diante de tais considerações pretendemos neste estudo avaliar as possíveis associações das dificuldades de aprendizagem dos adolescentes usuários de SPA residentes na C.T. Também pretendemos identificar o tipo de intervenção psicopedagógica possível durante o tratamento terapêutico desses adolescentes em C.T.

1.1 CARACTERIZANDO OS PARTICIPANTES DO ESTUDO

Por uso abusivo de SPA os adolescentes pesquisados encontram-se em regime de internação em CT, localizada em região rural, há 30 km de distância do centro do município de residência da família. Tal indicação foi tomada, como medida de proteção2 pela situação de rua e uso abusivo de SPA que esses adolescentes encontravam-se e/ou pelos riscos de ameaça de morte pelas diversas circunstâncias que esses se colocavam em função da obtenção da droga. A população estudada nesse trabalho é exclusivamente masculina e o período de permanência foi de seis meses, ou de acordo com a permanência voluntária desses na CT. Esses adolescentes passaram por uma avaliação breve da equipe do Centro de Atenção Psicossocial Infanto/Juvenil - Álcool e Drogas I – CAPSi AD I, e diante das situação de risco de vida e por envolvimento ao uso de SPA a melhor opção adotada foi o encaminhamento para a CT.

O nível escolar é o mais baixo: encontra-se como último ano estudado entre o 1ª e 4ª ano do ensino fundamental I, e o inicio da experiência com o uso de drogas entre os 9 e 1 anos para os adolescentes com características comportamentais hiperativas. Contudo, os adolescentes com Déficit de Atenção, verbalizaram o início de uso de drogas a partir do 5ª ano do ensino fundamental e concomitantemente, sua ausência escolar.

Quanto à escolaridade desses, foi observado durante as entrevistas com os familiares e com os próprios adolescentes, uma sobreposição na linha do tempo: ocorrida a evasão escolar, inicia-se também maior permanência deste na rua de casa; depois pelas ruas do bairro e, finalmente pelas ruas do centro da cidade. Neste interim surgem os primeiros experimentos das SPA.

Em relação ao desempenho escolar foi levantado por parte dos adolescentes e familiares entrevistados que a responsabilidade por não estarem na escola é exclusivamente deles e não por não se adaptarem aos moldes da escola ofertada pelo sistema educacional; não

2 O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu Artigo 98, estabelece as medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados: I - por ação ou omissão da sociedade ou do Estado; I - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; II - em razão de sua conduta.

considerando suas dificuldades de aprendizagem a um ensino falho e sem atrativos que contribuem para fatores de vulnerabilidade para o consumo de drogas nesta faixa etária.

Apenas um adolescente apresentou laudo médico de TDAH com predominância em impulsividade e que, até os nove anos, foi acompanhado por uma equipe multiprofissional de uma instituição especializada em Educação Especial.

1.2 RELAÇÃO FAMILIAR

As relações intrafamiliares mostraram-se estressadas e os vínculos até rompidos por toda uma problemática apresentada pelo histórico com problemas de “indisciplina” na escola, posteriormente agravado pelo envolvimento com drogas que consequentemente gera furtos de objetos pessoais para o sustendo do vicio. Depois, com furtos na comunidade onde residem, ocasionam-se as primeiras ameaças de morte e, por fim, a constante presença da polícia trazendo o adolescente para a casa.

Nas entrevistas foi levantado um número significativo de adolescentes que residem apenas com as mães e irmãos. A figura do pai é apresentada em outras situações como desconhecidos, falecidos ou separados. As mães, por sua vez, apresentaram fazer uso de medicação psicotrópica por problemas de depressão, doenças psiquiátricas, envolvimentos com álcool ou drogas. Em um único caso de pais que vivem juntos, ambos fazem uso abusivo de álcool.

Foi levantada uma particularidade na relação entre os pais desses adolescentes.

Ainda nesta dinâmica há irmãos que também faziam uso de SPA; no entanto, os adolescentes com histórico de TDAH e uso de SPA, eram tratados com mais severidade que com os outros irmãos que somente faziam uso de SPA e não sofriam de TDAH. Os pais tendiam a focar a atenção dos problemas familiares e até justificando o uso de SPA pelos de TDAH, aumentando assim toda a cobrança que já sofriam pelo uso de drogas.

As mães entrevistadas trabalhavam fora para o sustento da casa em empregos informais como empregadas domésticas. A apenas uma mãe que trabalhava com vinculo empregatício em empresa privada na função de auxiliar de serviços gerais. Elas apresentavam dificuldades em acompanhar os adolescentes usuários nos tratamentos ambulatoriais e somente quando eram procuradas por terceiros que ameaçam seus filhos de morte, buscavam ajuda para remediar a situação; porém, o envolvimento do filho com o uso de drogas já estava bastante comprometido.

Como foi observado, a opção pela internação do adolescente parte dos pais e não da equipe da saúde, uma vez que esses pais alegam que já fizeram de tudo, mas não conseguiram obter sucesso em ajuda-los, e que, em razão de ameaça de morte, não podiam mais voltar para a casa. Por não haver uma politica de atendimento para esses casos, a CT vem sendo a opção mais viável.

Após a internação desses adolescentes inicia-se um grande desafio de convencer a se inserir em programas de apoio para co-dependentes e até mesmo de visitar os filhos nas CTs, alegam que não precisam de tratamento e, quanto às visitas, usam suas ausências como sansão por tudo que passaram com os filhos adolescentes.

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