Fundamentos de restauração ecológica

Fundamentos de restauração ecológica

(Parte 1 de 4)

Fundamentos de

Restauração Ecológica

Sociedade Internacional para Restauração Ecológica Grupo de Trabalho em Ciência & Política (Versão 2: Outubro de 2004) *

Tradução: Efraim Rodrigues, Ph.D. Revisão: Danielle Celentano efraim@efraim.com.br

Seção 1: Visão Geral3
Seção 2: Definição de Restauração Ecológica5
Seção 3: Atributos de Ecossistemas Restaurados5
Seção 4: Explicações dos Termos6
Seção 5: Ecossistemas de Referência1
Seção 6: Espécies Exóticas12
Seção 7: Monitoramentos e Avaliação13
Seção 8: Planejamento da Restauração14
Restauração ........................................................................................14
Seção 10: Relação entre Restauração e outras Atividades15
Seção 1: Integração da Restauraçao Ecológica em um Programa Amplo16

Fundamentos de Restauração Ecológica SER w.ser.org Seção 9: Relação entre a Prática da Restauração e a Ecologia da

Este documento pode ser citado como: Society for Ecological Restoration International

Science & Policy Working Group. 2004. The SER International Primer on Ecological Restoration. w.ser.org & Tucson: Society for Ecological Restoration International.

Os principais autores deste documento são André Clewell (Quincy, FL USA), James

Aronson (Montpellier, France) e Keith Winterhalder (Sudbury, ON Canada). Clewell fez a proposta inicial e escreveu seu primeiro rascunho. Aronson e Winterhalder, em colaboração com Clewell, revisaram o documento até sua for atual. Winterhalder, na posição de diretor do Grupo de Ciência e Política da SER, coordenou este esforço e convidou outros membros do grupo de trabalho para participar. Eric Higgs (Victoria, BC Canada) elaborou a seção sobre a visão geral.

Dennis Martinez (Douglas City, CA USA) contribuiui com um trabalho que se tornou a base para a o texto relacionado aos ecossistemas culturais.

Outros membros do Grupo de Trabalho ofereceram críticas e sugestões conforme o trabalho progredia, incluindo Richard Hobbs (Murdoch, WA Australia), James Harris (London, UK), Carolina Murcia (Cali, Colombia) e John Rieger (San Diego, CA USA). O grupo agradece Eric Higgs, antigo Titular do Conselho de Diretores da SER, pelo seu encorajamento e por trazer este documento perante os Diretores Internacionais da SER para sua adoção oficial no dia 6 de abril de 2002 em unanimidade.

Este documento substitui o SER In t e r n a t i o n a l’s Project Policies publicado inicialmente na revista Restoration Ecology 2(2):132-133, 1994 que foi posteriormente publicado no site da SER Internacional. Este documento também substitui o Policy on Project Evaluation publicado no mesmo site. O SER International environmental policies, publicado inicialmente na revista Restoration Ecology 1(3):206-207, 1993, permanece efetivo.

* O conteúdo desta segunda versão é exatamente o mesmo da versão publicada em 2002, exceto que “Internacional” foi anexado ao nome da SER, fotos foram adicionadas e os gráficos redesenhados. A versão 2 foi publicada simultaneamente em papel e na Internet em w.ser.org.

Fundamentos de Restauração Ecológica SER w.ser.org

Restauração Ecológica é uma atividade intencional que inicia ou acelera a recuperação de um ecossistema em relação a sua saúde, integridade e sustentabilidade. Freqüentemente, o ecossistema que necessita restauração foi degradado, perturbado, transformado ou inteiramente destruído como resultado direto ou indireto de ações humanas. Em alguns casos, estes impactos nos ecossistemas foram causados ou agravados por agentes naturais como fogo, enchentes, tempestades ou erupções vulcânicas a um ponto no qual o ecossistema não pode recuperar seu estado anterior à perturbação, ou sua trajetória histórica de seu desenvolvimento.

A restauração é uma tentativa de retornar o ecossistema à sua trajetória histórica. Portanto, as condições históricas são o ponto de partida ideal para o planejamento da restauração. O ecossistema restaurado não irá necessariamente recuperar seu estado prévio, já que as condições e limitações atuais podem ter causado seu desenvolvimento em uma trajetória alterada. A trajetória histórica de um ecossistema seriamente impactado pode ser difícil ou até impossível de ser determinada com acurácia. Não obstante, a direção geral e os limites desta trajetória podem ser estabelecidos através de uma combinação do conhecimento da estrutura do ecossistema antes de ser degradado, sua composição e funcionamento, através visão geral

Seção 1:de estudos em ecossistemas similares intactos, através de informações sobre as condições ambientais regionais e pela análise de informações de outras referências ecológicas culturais e históricas. Estas fontes combinadas permitem mapear a trajetória histórica ou condições de referência a partir dos dados ecológicos fundamentais e dos modelos preditivos. Seu uso no processo de restauração deve auxiliar a condução do ecossistema na direção de melhorar sua saúde e integridade.

A restauração representa comprometer terra e recursos por prazo longo e indeterminado e por isso exige ponderação. Decisões coletivas são mais prováveis de serem honradas e implementadas que aquelas tomadas unilateralmente. Por esta razão, é necessário que todos participantes concordem em iniciar o projeto de restauração por consenso.

Uma vez que a decisão de restaurar é tomada, o projeto exige planejamento cuidadoso e sistemático e monitoramento da recuperação do ecossistema. A necessidade de planejamento aumenta quando a unidade de restauração é uma paisagem complexa de ecossistemas contíguos.

As intervenções empregadas em restaurações variam grandemente entre projetos, dependendo da extensão e duração das perturbações passadas, condições culturais que formaram a paisagem, além das limitações e

Fundamentos de Restauração Ecológica SER w.ser.org oportunidades atuais. Na circunstância mais simples, a restauração consiste em remover ou modificar uma perturbação específica, permitindo então que os processos ecológicos realizem uma recuperação independente. Por exemplo, a remoção de uma barragem (como já aconteceu centenas de vezes nos EUA e Europa) permite o retorno do regime de inundação. Em circunstâncias mais complexas, a restauração pode também exigir a reintrodução intencional de espécies nativas que foram perdidas e a eliminação ou controle de espécies exóticas prejudiciais ao limite máximo que for praticamente possível.

Freqüentemente, a degradação ou transformação de um ecossistema foi múltipla, as causas muito antigas e os constituintes históricos foram perdidos em sua maioria.

Algumas vezes a trajetória de desenvolvimento de um ecossistema degradado está totalmente bloqueada e sua recuperação através de processos naturais parece estar atrasada indefinidamente. Em todos estes casos, no entanto, a restauração ecológica objetiva iniciar ou facilitar a retomada destes processos que irão retornar o ecossistema à trajetória pretendida.

Quando o ecossistema sob manipulação descreve a trajetória desejada, ele de não mais precisar assistência externa para assegurar suas saúde e integridade futuras, quando a restauração pode ser considerada completa. Não obstante, o ecossistema restaurado freqüentemente requer a gestão continua para neutralizar a invasão de espécies oportunistas, dos impactos de várias atividades humanas, da mudança do clima e de outros eventos imprevisíveis. Neste caso, um ecossistema restaurado não é diferente de um ecossistema similar não danificado, e ambos são passíveis de precisar de algum nível de manejo. Embora a restauração do ecossistema e o seu manejo formem um continuum e freqüentemente empreguem técnicas similares de intervenção, a restauração ecológica visa ajudar ou iniciar à recuperação, enquanto o manejo pretende garantir o bem estar continuado do ecossistema restaurado.

Alguns ecossistemas, particularmente em países em desenvolvimento, são ainda manejados por práticas tradicionais, culturalmente sustentáveis. Existe uma reciprocidade nestes ecossistemas culturais entre atividades culturais e processos ecológicos, de maneira que as ações humanas reforçam sua saúde e sustentabilidade. Muitos ecossistemas culturais têm sofrido com o crescimento demográfico e pressões externas de vários tipos e necessitam restauração. A restauração de tais ecossistemas normalmente inclui simultaneamente a recuperação de práticas indígenas de manejo de ecossistemas, incluindo o apoio à sobrevivência cultural de povos indígenas e seus idiomas como bibliotecas vivas do conhecimento ecológico tradicional. A restauração ecológica encoraja e pode até

Fundamentos de Restauração Ecológica SER w.ser.org ser dependente da participação a longo prazo das pessoas. As culturas tradicionais estão agora passando por mudanças sem precedentes em todo mundo. Para acomodar estas mudanças, a restauração ecológica pode aceitar e até encorajar novas e apropriadas culturas e práticas sustentáveis que levem em conta as condições e limitações contemporâneas. Neste aspecto, a ênfase norte americana em restaurar paisagens intocadas faz pouco ou nenhum senso em locais como a Europa onde paisagens culturais são a regra, ou em grandes partes da África, Ásia e América Latina onde a restauração ecológica é indefensável se não apoiar a base ecológica da sobrevivência humana. O que torna a restauração ecológica particularmente inspiradora é que as práticas culturais e os processos ecológicos estimulam-se mutuamente. Desta forma, não é surpresa que o interesse na restauração ecológica esteja crescendo rapidamente e que, na maior parte dos casos, as crenças e práticas culturais sejam levadas em conta para ajudar a dar forma ao que será realizado sob a rubrica de restauração.

A definição oficial da SER Internacional, apresentada na próxima página, é suficientemente geral para permitir grande variedade de enfoque de restauração, ao mesmo tempo que faz deferência à historicamente rica idéia de “recuperação”.

Restauração Ecológica é o processo de assistir a recuperação de um ecossistema que foi degradado, perturbado ou destruído.

Definição de Restauração

Ecológica

Seção 2:

Atributos de Ecossistemas

Restaurados

Seção 3:

Esta seção discute o tema do que significa a “recuperação” na restauração ecológica.

Um ecossistema foi recuperado – e restaurado – quando conta com recursos bióticos suficiente para continuar seu desenvolvimento sem mais assistência ou subsídio. Ele irá sustentar-se sozinho estrutural e funcionalmente. Ele irá mostrar resiliência às faixas normais de variação de estresse ambiental e perturbação. Ele irá interagir com ecossistemas contíguos por meio de fluxos bióticos e abióticos e interações culturais.

Os nove atributos listados abaixo são a base para determinarmos se a restauração foi completada. A expressão completa de todos estes atributos não é essencial para comprovar uma restauração. Ao contrário, estes atributos somente demonstram uma trajetória adequada do desenvolvimento do ecossistema na direção do objetivo pretendido ou referência. Alguns atributos são facilmente mensuráveis. Outros precisam ser avaliados indiretamente, incluindo a maior parte das funções de ecossistemas, que não podem ser estimadas senão com esforços de pesquisa que excedem as capacidades e orçamentos da maior parte dos projetos de restauração.

1 O ecossistema restaurado contém um conjunto característico de espécies que ocorrem em ecossistemas de referência e que provém uma estrutura de comunidade apropriada.

2 O ecossistema restaurado consiste de espécies nativas na maior extensão possível. Em ecossistemas culturais

Fundamentos de Restauração Ecológica SER w.ser.org restaurados, podem ser permitidas espécies exóticas domesticadas, ruderais não invasivas e segetais que presumivelmente coevoluíram com eles. Ruderais são plantas que colonizam áreas perturbadas e segetais tipicamente crescem junto com espécies cultivadas.

3 Todos grupos funcionais necessários para o desenvolvimento contínuo e/ou estabilidade do ecossistema restaurado são representados por ou, se não forem, os grupos faltantes têm o potencial de colonizar por meios naturais.

4 O ambiente físico do ecossistema restaurado é capaz de sustentar suficientes populações reprodutivas de espécies para sua estabilidade continuada ou desenvolvimento ao longo da trajetória desejada.

5 O ecossistema restaurado aparentemente funciona normalmente para seu estágio ecológico de desenvolvimento e não há sinais de disfunção.

6 O ecossistema restaurado é adequadamente integrado em uma ampla paisagem ou matriz ecológica que interage através de trocas e fluxos bióticos e abióticos.

7 Ameaças potenciais da paisagem circundante à saúde e integridade do ecossistema restaurado foram eliminadas ou reduzidas ao máximo possível.

8O ecossistema restaurado é

suficientemente resiliente para suportar eventos estressantes normais e periódicos no ambiente local que servem para manter a integridade do ecossistema.

9 O ecossistema restaurado é autosustentado no mesmo grau que seu ecossistema de referência e tem o potencial de persistir indefinidamente sob as condições ambientais existentes. Não obstante, aspectos da sua biodiversidade, estrutura e funcionamento podem mudar como parte do desenvolvimento normal de um ecossistema, e podem flutuar em resposta a estresses periódicos normais e perturbações ocasionais de maior conseqüência. Assim como em qualquer ecossistema intacto, a composição de espécies e outros atributos de ecossistemas restaurados pode evoluir conforme mudem as condições ambientais.

Outros atributos ganham relevância e deverão ser adicionados a esta lista se eles forem identificados como metas para projetos de restauração. Por exemplo, uma das metas de restauração pode ser oferecer bens naturais específicos e serviços para benefício social. Neste caso, o ecossistema restaurado serve como um capital natural para o aumento destes bens e serviços. Outra meta poderia ser que o ecossistema restaurado provenha habitat para espécies raras ou para proteger um conjunto gênico diverso de espécies selecionadas. Outras metas possíveis de restauração podem incluir a oferta de serviços estéticos ou a acomodação de atividades de conseqüência social, tais como o fortalecimento da comunidade através da participação de pessoas em projetos de restauração.

Vários termos técnicos são introduzidos ao longo deste documento. Alguns deles podem ser pouco familiares para os leitores não-ecologistas, enquanto outros tem múltiplos significados em diferentes usos. Para reduzir o potencial de mal entendidos, os termos chave são explicados nos modos em que eles são usados neste documento.

Explicação dos termos

Seção 4:

Fundamentos de Restauração Ecológica SER w.ser.org

Um ecossistema consiste de biota (plantas, animais, microorganismos) em determinada área, o ambiente que sustenta ele, e suas interações. Populações de espécies que compõe a Biota são coletivamente chamadas de comunidade biótica.

A comunidade é freqüentemente analisada em base de seu status taxonômico (por exemplo, a comunidade de insetos) ou forma de vida (por exemplo, a comunidade de árvores).

Conjuntos de organismos podem também ser reconhecidos por seus papéis funcionais no ecossistema (por exemplo produtores primários, herbívoros, carnívoros, decompositores, fixadores de nitrogênio, polinizadores) no caso conhecidos como grupos funcionais. O ambiente físico ou abiótico que sustenta a biota de um ecossistema inclui o solo ou substrato, o meio aquático ou atmosférico, hidrológico, tempo e clima, relevo e orientação, regime de nutrientes e regime de salinidade. Habitat se refere ao local de moradia de um organismo ou comunidade que provê as condições necessárias para os processos vitais

(Parte 1 de 4)

Comentários