Lixo marinho em área de reprodução de tartarugas marinhas

Lixo marinho em área de reprodução de tartarugas marinhas

(Parte 1 de 3)

Revista da Gestão Costeira Integrada 8(2):221-231 (2008)

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Lixo marinho em área de reprodução de tartarugas marinhas no

Estado da Paraíba (Nordeste do Brasil) * Marine debris at a sea turtles nesting area at Paraiba State, Brazilian Northeast

Rita Mascarenhas 1, 2, 3, Clenia, P. Batista 2, Isa F. Moura, Allinne R. Caldas 2, 3, José M. da Costa Neto 2, 3, Mônica Q. Vasconcelos 2, 3, Sulia S. Rosa 2, 3, Taíssa V. S. de Barros 2, 3

A praia de Intermares, (Paraíba – Brasil), apesar da intensa urbanização, é importante área de reprodução de tartarugas marinhas no nordeste brasileiro. A contaminação deste ambiente por lixo pode implicar na perda de hábitat reprodutivo para as tartarugas. Conhecer o perfil do lixo neste bolsão de reprodução é fundamental para o aprimoramento de planos de gestão e conservação. Para tal foi feito um levantamento do perfil do lixo encontrado na praia durante a estação reprodutiva de 2006. Para cada um dos três pontos de coleta (extremos e centro da praia) foram construídas faixas de 50 m2 a partir da linha de maré, onde dois indivíduos com esforço de 1 hora/dia realizaram 26 coletas durante 2 meses da estação seca. Para observar a deposição de lixo a cada 24 horas, as coletas foram realizadas em 3 dias consecutivos, sendo o primeiro, posterior ao dia da limpeza pública. Do total de 78 amostras obteve-se 6.556 itens que foram classificados em plástico (80%), restos de alimentos (19,4%), metal (0.5%) e vidro (0,4%). Não houve diferença significativa entre os tipos de itens encontrados por ponto, porém, o ponto 3 apresentou a maior concentração de lixo (47% do total). Pequenos fragmentos de plástico (com cerca de 1,5 cm) denominados plástico mole e plástico duro foram abundantes na linha de deixa, sugerindo que seu aporte seja dado pela ação das marés e se trate de lixo proveniente do continente por meio dos rios e drenagem pluvial. Restos de alimentos e embalagens de biscoitos e lanches (26% do total de plástico) são provavelmente depositados pelos usuários da praia e são mais encontrados nos pontos acima da linha de maré. O item monofilamento de nylon foi mais abundante no ponto 1 com 49% das unidades coletadas e a maioria se encontrava enredado em algas e junto com outros itens relacionados á pesca correspondeu a 12,8% do total de itens coletados. Tartarugas marinhas, por

1 autor correspondente: rita.mascarenhas@gmail.com 2 Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Departamento de Sistemática e Ecologia, Universidade Federal da Paraíba, Campus I, João Pessoa, Paraíba, 58059-900 Brazil 3 Associação Guajiru: Ciência – Educação – Meio Ambiente, Rua Golfo do Sião, 384, Ponta de Campina – Cabedelo, Paraíba, 58310-0 Brasil

* Submissão – 17 Julho 2008; Avaliação – 25 Agosto 2008; Recepção da versão revista – 10 Outubro 2008; Disponibilização on-line - 23 Dezembro 2008

Rita Mascarenhas, Clenia, P. Batista, Isa F. Moura / Revista de Gestão Costeira Integrada 8(2):221-231 (2008) utilizarem também o ambiente terrestre, são duplamente afetadas pela presença de lixo. Nas areias das praias, o lixo pode afetar o sucesso reprodutivo destes animais, pois, pode impedir o acesso de fêmeas aos locais adequados de desovas, bem como impedir os neonatos de emergirem dos ninhos e alcançarem o mar. Restos de alimentos podem atrair animais nocivos como ratos que comem os ovos e os neonatos, além de serem vetores de doenças para a fauna nativa e seres humanos. Em seis anos de atividades a Associação Guajiru monitorou 670 ninhos da tartaruga-de-pente, em 180 deles (27%) foi encontrado plástico e matéria orgânica. Pelo perfil dos itens encontrados, pode-se afirmar que os neonatos de tartarugas são os mais afetados, pois fragmentos de plásticos e monofilamentos têm a capacidade de obstruir a abertura da câmara de ovos e/ou impedir a chegada ao mar. Ações de mitigação e extirpação do lixo no ambiente marinho e costeiro deveriam ser adotadas de forma integrada entre os municípios que pertençam a uma mesma bacia hidrográfica.

Palavras-chave: lixo marinho, tartarugas marinhas, área de desova, praias urbanas.

The works about marine debris and its interaction with endangered species are rare. Most of the works about such interaction is information about approach or stranding of dead or alive animals in the beach. There are no studies about debris carried to the beach and its effects on the fauna that have part or all its life cycle in these environments. In general, studies about debris in beach discuss mostly about its social and economic aspects, its esthetic misdeeds that cause economic and social value depletion of the environment, or its effects to human health. Intermares beach (Paraiba – Brazil), even having an intense urbanization, is an important nesting area for sea turtles in Brazilian north-east coast. Environment contamination by debris may imply in loss of reproductive habitat to sea turtles. Know the debris profile in this reproductive pool is crucial to improve gesture and conservation plans. And for such reason it has been done a research about the profile of the debris found in the beach during the reproductive season in 2006. Three collect points were selected, corresponding to the center and the edges of the beach. For each one of the points, was set up a 50 square meters area from the tide line, were two people with 1 hour/day effort, realized 26 collections per area during two months of the dry season. To observe the debris deposition each 24 hours, the collections were realized 3 days in a row, being the first one the day after the public cleaning. From the total of 78 samples, it has been obtained 6556 items, classified in plastic (80%) organic matter (19.4%) metal (0.5%) and glass (0.4%). In a more detailed way, the classification had 19 categories according to its use and material, resulting in 56 products. There was no significant difference between the types of items found in each point, but the point 3 presented biggest debris concentration (47% of total). Organic matter had the biggest distribution homogeneity, with average of 424.7 (± 21.1) units per point, except for coal, more concentrated in point 3, with 58.4% of collected units. Small plastic fragments (around 1.5 cm) called soft or hard plastic were abundant in strandline, suggesting that it amount is given by tide action and its origin l from continent, dragged by rivers and pluvial draining. Food leftovers, snacks and cookies packages (26% of plastic) are most likely deposited by beach visitors and are mostly found in points over the tide line. Monofilament line was more abundant in point 1 (49% of collected units) and were found mostly entangled to sea weed, and, with other fishing related items, corresponded to 12.8% of total collected items. Sea turtles are double affected by debris presence, because they also use terrestrial environment. In the beach, debris can affect the reproductive success of these animals, because it can obstruct the access of the females to adequate nestling area, as much as block neonate’s emergency and their way to sea. Food leftovers can attract noxious animals as rats, which eat eggs and neonates of sea turtles; they also can bring diseases to the fauna and human beings. In 6 years of activity, Associação Guajiru monitored 670 hawksbill nests, in 180 (27%) of them, there were found plastic and organic matter. By the found items profile, it can be attested that sea turtle neonates are the most affected, because nylon strings and plastic fragments can obstruct the egg chamber passageway and/or block their sea finding. Debris mitigation and extirpation actions from sea and coastal environment should be adopted in an integrated way by municipalities localized in same hydrographic basins.

Keywords: marine debris, sea turtles, urban beach.

O lixo marinho é atualmente um dos principais problemas nos ambientes costeiros em todo o mundo (Tudor et al., 2002). É esteticamente desagradável, difícil e caro de se remover, causa a morte de espécies da fauna e é potencialmente tóxico, principalmente no caso de itens de origem hospitalar, militar e industrial. (Frost & Cullen, 1997). Estudos revelam que a presença de lixo marinho é comum tanto em regiões costeiras próximas a centros urbanos quanto em regiões isoladas da presença humana (Convey et al., 2002). A descarga de lixo no ambiente marinho pode ocorrer acidental ou deliberadamente seja por atividades humanas diretas nestes ambientes como a

Rita Mascarenhas, Clenia, P. Batista, Isa F. Moura / Revista de Gestão Costeira Integrada 8(2):221-231 (2008) pesca, navios de comércio, de cruzeiro e barcos de recreação, ou a partir do continente pela drenagem de rios ou carreados pelos ventos (Gilligan et al., 1992; Laist et al., 1999).

Historicamente, o lixo era composto por materiais que se decompunham ou afundavam, mas, com o crescimento do uso de materiais derivados do petróleo que flutuam e tem longa durabilidade o lixo já não mais permanece escondido, podendo ser carreado por centenas de quilômetros desde seu ponto de entrada no mar e circular nos oceanos do mundo todo por muitos anos (Laist, 1999; Ribic & Ganio, 1996). Devido a todos esses fatores dados da literatura não deixam dúvida de que o plástico é o item mais encontrado nos estudos sobre lixo marinho em todo o mundo (Derraik, 2002).

Com grandes efeitos sobre a biodiversidade o lixo marinho, afeta em ampla escala indivíduos de uma significante porcentagem de espécies da fauna marinha. As interações entre lixo marinho e fauna marinha podem ser de dois tipos: por emalhe ou ingestão. Considerando estes dois tipos principais de interação, o lixo marinho é conhecido para afetar ao menos 267 espécies de animais marinhos em todo o mundo, incluindo 86% de todas as espécies de tartarugas marinhas, 4% de todas as espécies de aves marinhas e 43% de todas as espécies de mamíferos marinhos e muitas espécies de peixes e crustáceos. (Laist, 1997).

Apesar da relevância científica e importância para o manejo costeiro e prevenção de poluição, estudos sobre o lixo são escassos tanto no Brasil quanto nas demais regiões costeiras do mundo (Sul & Costa, 2007; Santos et al., 2005). São ainda mais raros os trabalhos sobre o lixo marinho tentando relacionar a presença de lixo no mar com espécies marinhas ameaçadas. A maioria dos trabalhos sobre essa interação é informação sobre animais vivos ou mortos que se aproximam ou encalham nas praias, ou seja, relatam as relações da fauna com o lixo encontrado na água. Não há estudos sobre o lixo que é carreado para as praias e seus efeitos sobre a fauna que tem seu ciclo de vida desenvolvido total ou parcialmente nestes ambientes. Em termos gerais, ao ser encontrado nas praias o lixo passa a ser discutido, sobretudo, do ponto de vista social e econômico, seus malefícios estéticos que acarretam na diminuição do valor econômico e social do ambiente, ou seu efeito sobre a saúde humana (Sul & Costa, 2007).

Tartarugas marinhas, por utilizarem também o ambiente terrestre, são duplamente afetadas pela presença de lixo. Nas areias das praias, o lixo pode afetar o sucesso reprodutivo destes animais, pois, pode impedir o acesso de fêmeas aos locais adequados de desovas resultando em alta incidência de subidas falsas (emergências sem desovas) (National Research Council, 1990). Entretanto, não há estudos sobre os efeitos do lixo no desenvolvimento dos ovos e seu sucesso de eclosão e performance dos neonatos após a emersão.

O presente trabalho é parte do Projeto Tartarugas

Urbanas da organização não governamental Associação Guajiru: Ciência – Educação – Meio Ambiente, que monitora áreas de reprodução e alimentação de tartarugas marinhas no estado da Paraíba (Nordeste do Brasil) (Mascarenhas et al., 2003, 2004 e 2005), e tem como objetivos traçar um perfil do lixo encontrado nestas áreas a fim de criar ações de controle e soluções, para a proteção dessas áreas consideradas prioritárias para a conservação.

As praias de Intermares (município de Cabedelo) e Bessa (município de João Pessoa), totalizando cerca de 6 km de extensão, são praias totalmente urbanizadas, com uma população permanente de cerca de 30 mil pessoas na faixa de 1000 metros a partir da preamar (Figura 1). O trecho mais conservado é a praia de Intermares onde se manteve a vegetação fixadora de dunas, poucas edificações sobre a praia e concentra a maioria dos ninhos de tartarugas marinhas. A presença humana é constante principalmente por ser a única praia urbana no estado com perfil para a prática de surf.

2.MATERIAL E MÉTODOS

Uma extensão de praia de 3 km foi escolhida para o estudo de quantificação, qualificação e estimativa da origem do lixo marinho encontrado na faixa de areia. No período de 01 de abril a 28 de maio de 2006, foram determinados três pontos de coleta sendo os pontos 1 e 3 referentes aos extremos da área e o ponto 2 a parte central da mesma (P1: S 07º02’0.0” W 34º49’58.4” , P2: S 07º 02’30.6” W 34º50’2.3” e P3: S 07º04’02.1” W 34º50’17.2”). As coletas foram feitas sempre ás sete horas da manhã a partir da linha

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Figura 1. Mapa da área de estudo e localização dos pontos de coleta (1, 2 e 3) nas praias do Bessa e Intermares, Paraíba, Brasil. Figure 1. Map of the area and location of the sampling points (1, 2 and 3) at Bessa and Intermares Beach, Paraiba State, Brazil.

da maré encontrada no dia. Da linha de maré em direção à vegetação, mediu-se uma linha de 5 metros e desta uma outra linha paralela de 10 metros, desenhando, então, uma faixa de 50 m2. Em cada faixa dois indivíduos fizeram a coleta com tempo de esforço de 1 hora, três vezes por semana em dias consecutivos. Para evitar assimetria amostral o primeiro dia de coleta, foi posterior ao dia da coleta feita pelo serviço de limpeza pública municipal, deixando então um intervalo de 24 horas de deposição entre cada coleta. Algas marinhas e vegetação de mangue não foram aqui consideradas por se tratarem de aporte natural de matéria orgânica para a praia. Todo o material foi separado por tipo de acordo com Moore et al. (2001).

3. RESULTADOS

Foram realizadas 78 coletas em 26 dias dando um total de 6.556 (20.230 g) itens divididos em: plásticos (80%), matéria orgânica (19,4%) metais (0,5%) e vidros (0,4%) (Figura 2). Houve uma média de 2.185, 3 (± 769,8) unidades por ponto amostral, sendo o ponto 3 aquele com a maior porcentagem de itens (Figura 3). Os itens foram agrupados em 19 categorias, que totalizam 56 diferentes tipos, de acordo com seu uso ou materiais (Tabela 1) e depois analisados quanto sua distribuição ao longo dos pontos amostrais (Tabela 2).

Não houve diferença entre os tipos de itens por ponto amostral, sendo que o ponto 3 para 24 dos itens listados apresentou 57,7% mais unidades que os pontos 1 e 2 somados.

Rita Mascarenhas, Clenia, P. Batista, Isa F. Moura / Revista de Gestão Costeira Integrada 8(2):221-231 (2008)

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