Conceituando e Definindo o Machismo

Conceituando e Definindo o Machismo

Machismo na Sociedade Contemporânea

Conceituando e Definindo o Machismo

David Alexandre Martins

RESUMO

Este artigo é o primeiro de uma série de onze (11) artigos cujo tema central propõe e convida a uma reflexão sobre como o machismo ainda reside, resiste e se apresenta na sociedade contemporânea; em contrapartida, busca também retratar tanto os comportamentos quanto as impressões, crenças e conceitos do senso comum a respeito do tema; principalmente sob a perspectiva feminina. Através de investigações e pesquisas inter/multidisciplinares o presente tema (Conceituando e Definindo o Machismo) pretende revelar uma espécie de “fotografia” psicossocial do pensamento, atitudes internas e realidades acerca dos fatos reais que compõem essa presença sombria muitas vezes pouco vista ou percebida. Por fim, nos conduz a uma conclusão sobre a realidade por traz dos discursos e sofismas, definindo de forma técnica e clara o que realmente é o machismo na atualidade.

Palavra-Chave: Machismo, Mulher, Sociedade, Comportamento Psicossocial, Identidade.

ABSTRACT

This article is the first in a series of eleven (11) items whose central theme proposes and invites a reflection on how the machismo still resides, resists and is presented in contemporary society; however, also seeks to portray both behaviors as impressions, beliefs and concepts of common sense on the subject; mainly under female perspective. Through investigations and researches inter / multidisciplinary this topic (concept and setting the Machismo) intends to convey a kind of "snapshot" psychosocial thought, inner attitudes and realities about the real facts that make up this shadowy presence often rarely seen or perceived. Finally, it leads us to a conclusion about the reality behind the discourses and sophistry, setting technique and clearly what really is the machismo today.

Keyword: Machismo, Women, Society, Psychosocial Behavior, Identity.

Conceituando e Definindo o Machismo

Inicialmente cabe esclarecer as diferenças semânticas aqui adotadas entre os termos: conceito e definição.

Conceito entender-se-á como significado, signo dado, representação simbólica e/ou leitura semiótica; características essas, dadas por cada sociedade e cultura a determinado “objeto” concreto e/ou abstrato. Essa leitura semiótica por sua vez, contém diversas particularidades cambiantes e muitas vezes contraditórias, as quais consequentemente concatenam-se e/ou derivam direta/indiretamente de crenças, tradições e percepções do senso comum.

Definição compreende-se aqui como: por fim, de fine, definitivo, verdadeiro; descrição/determinação técnicas comprometidas com as características reais de dado “objeto” concreto e/ou abstrato; ou o mais próximo possível das mesmas; utilizando e apropriando-se de quaisquer contribuições/investigações científicas inter-relacionáveis, aplicáveis, relevantes e cabíveis.

A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial.”

Simone de Beauvoir.

Introdução

Quando perguntado a mulheres sobre o que é o machismo, as opiniões dividem-se, desdobram-se e multiplicam-se; por vezes tornando-se tão contraditórias quanto todo o cenário e crise identitária consciente ou inconsciente na qual essas mesmas mulheres se encontram atualmente inseridas.

As mais variadas conceituações/significados emergem; respostas como: “machismo é a crença de que o homem é superior à mulher” ou “machismo é o homem achar que a mulher tem que obedecê-lo” ou ainda mais comum, “machismo é o homem ganhar mais que a mulher”; em outros momentos o significado fica por conta de comportamentos atribuídos ao homem machista especificamente; personificando-se assim o conceito. Logo, surgem afirmações tais como: “machismo é quando o homem não ‘ouve’ a mulher” ou “é o homem ser egoísta; primeiro ele, depois a mulher” ou ainda: “machismo é o homem não fazer o que a mulher lhe pede, só o que ele quer”; não que as afirmações acima citadas não sejam consentâneas –, pois expressam uma parte importante das ações/atitudes resultantes e advindas do machismo – entretanto, atribuir a esses ou aos demais resultados o caráter e/ou status/qualidade de essência ignorando-se os verdadeiros fatores causais – assim como crer numa concentricidade para ambos na sociedade – soa bastante simplista.

...gostaria de mencionar outro tema central e recorrente em muitos se não a maioria dos significados de machismo: o corpo físico. Este tema se manifesta como espancamentos, proezas sexuais, consumo de bebida alcoólica, travessuras temerárias e o problema nem tão simples assim de definir as categorias de “homem” e “mulher”. Por mais confusas que as identidades de gênero possam parecer, estas geralmente compartilham relações de dependência mútua com esses âmbitos somáticos.

(Matthew Gutmann, 2013 – pag 72-73)

  1. Conceituando o Machismo.

Se por um lado boa parte da nossa sociedade acredita que estejamos evoluindo e mudando em relação ao tratamento dado às mulheres – através de avanços substanciais considerados inclusive por parte das mulheres como mais do que suficientes e até mesmo excessivos – por outro, uma parte mais atenta e perceptiva defende a existência de uma realidade ainda muito presente, porém bastante difícil de ser notada. Os fatos em si, podem até confundir e iludir as massas, pois algumas mudanças correspondem sim, a ações reais; no entanto, essas mesmas ações ao serem mais sensivelmente analisadas, demonstram claramente a onipresença silenciosa e resiliente do machismo, conduzindo o discurso popular pelas vias do sofisma; pois tais avanços não correspondem exatamente às expectativas de boa parte das mulheres pensantes e conscientes; esses avanços quando observados mais atenta e tecnicamente, diluem-se, tomando novos contornos. Tais progressos – ainda que práticos – não configuram quantitativa ou qualitativamente qualquer amadurecimento significativo se comparado proporcionalmente ao discurso que ora é difundido por homens, ora pelas próprias mulheres –, parte delas – que parecem crer piamente que o momento vivido hoje por elas é de enormes conquistas, algo como “muito próximo do ideal”; chegando ao ponto de defenderem uma perspectiva que propõe quase que uma acomodação frente ao cenário de “avanços” e “direitos iguais” que elas conquistaram.

Admiravelmente muitas das mulheres que se dizem não machistas costumam ter um discurso onde afirmam também não ser feministas, pois entendem e consideram o feminismo como uma espécie de “oposto simétrico do machismo” – o que demonstra a completa ignorância das mesmas em relação ao movimento, história e filosofia feministas. Entretanto, mais admirável ainda é constatar que parte delas afirma que homens e mulheres têm, e devem ter – em sentido biológico/evolutivo – necessariamente “lugares” específicos na vida e sociedade; algumas chegando a usar como argumento retórico analogias com o mundo animal, assim como lugares comuns do tipo: “as coisas são assim desde que o mundo é mundo, o homem é diferente da mulher, pensa com a ‘cabeça de baixo’...” ou “os homens são melhores nas tarefas profissionais” ou ainda: “o homem é o provedor, a mulher tem que cuidar da casa e dos filhos... tem que ser bonita”; após ouvir tais afirmações fica clara a existência de uma presença extremamente poderosa, silenciosa e inconscientemente enraizada, assim como internalizada; inextricável e indelével tanto no âmago da maioria das mulheres, quanto no mais profundo universo arquetípico da sociedade; onde as mulheres exercem na esmagadora maioria das vezes a função de dominadas, e algozes de si mesmas; agindo como “autômatas” cegas programadas para serem incapazes de identificar o universo de escravidão mental, identitária e existencial no qual foram laçadas e condenadas a vagar, como espécies de “zumbis” de si mesmas.

Determinadas relações reiteram, sistematizam e deslocam na esfera da existência privada uma estrutura fundamentalmente machista [ao nível do discurso], cuja origem, pode se encontrar no social [por exemplo, o culto do herói pelas mulheres, o culto da “self-made-woman]. (Mary Pimentel Drumontt, 1980, pag. 82)

Declarações como as do livro The Female Brain – sobre conexões versus frenesis ou sobre como uma mulher, para ter sexo satisfatório, tem que se sentir “confortável, acolhida e aconchegada” e, “o mais importante”, tem “que confiar em seu companheiro” – combinam notadamente com os ensinamentos do cristianismo fundamentalista. A versão laica é menos extrema, mas as mensagens são similares. Alguns programas de educação para a saúde desenvolvidos por protestantes e usados em milhares de escolas públicas norte-americanas na década passada instruíam em suas tabelas que “as cinco maiores necessidades das mulheres” no casamento eram dominadas pela “afeição” e pela “conversa”. Sexo não está entre as cinco. Em outro gráfico intitulado “rapazes e moças são diferentes”, as garotas têm um sinal de igual entre “sexo” e “relações pessoais”. Os garotos têm um sinal de diferente. Assim, com confiança científica ou dada por Deus, esses programas transmitem para meninas e mulheres como elas devem se sentir. (Daniel Bergner, 2013, pag. 42)

É a reificação sistemática do ser feminino em termos de identidade de gênero; subproduto retroalimentado e concebido segundo a sua própria manifestação social; resultado profundo da “lobotomização” psicossocial cultivada há milênios por uma filosofia de dominação-sujeição advinda da perversa ideologia machista dominante.

Essa reificação fica clara quando mulheres, feministas ou não – radicais ou não – defendem por um lado direitos iguais e por outro, predileções e privilégios, como: preferencia dada às mães quanto à guarda de filhos de pais separados, preferência dada à mulher divorciada quanto à posse de patrimônio residencial quando há apenas uma casa, pensão dada por ex-maridos às ex-mulheres, sanção penal reduzida para mulheres, etc. Ao mesmo tempo, criam-se movimentos onde há qualquer coisa “feminina”, dando um tom de “vanguarda” e legitimidade, os quais sinceramente não desempenham o papel social necessário para qualquer avanço real, reduzindo-se a engodos e demagogias – ainda que bem intencionados. Na realidade, esses movimentos e esforços – se seguirem essa linha de raciocínio – infelizmente não passarão de subprodutos do machismo; pois, se justamente o machismo se origina e reside na raiz da desigualdade; assumir-se rótulos é assumir a desigualdade, independente das filosofias. De fato, apologias às “feminices” sempre serão negativas, pois atenderão inevitavelmente aos interesses do machismo; mesmo que, indiretamente e recobertos por um tom “politicamente correto” e “transgressor consciente” – o que torna todo o “jogo” ainda mais sórdido – assim sendo, qual será então o grande avanço?

Um grande exemplo é a indústria literária, com sua categorização: “literatura feminina” ou “Ficção feminina”; o mais interessante é que dentro de tal “categoria” existem muitas e muitas reais categorias literárias; contudo, o critério adotado deve-se ao fato de simplesmente serem livros escritos por mulheres –, logo, suposta ou “obviamente” são livros que interessam a mulheres – o que demonstra o quanto as próprias editoras impulsionadas e motivadas pelas próprias consumidoras – mulheres, muitas vezes ditas feministas – se encontram inseridas dentro dos contextos machistas; uma vez que, se compreende o assunto, tema, estilo, área de conhecimento, linha de raciocínio, em suma, a categoria literária como estando necessariamente em segundo plano; frente ao predicado de maior peso, que passa a ser um raciocínio raso e simplório, impregnado de preconceitos profundamente machistas, que reafirmam o pressuposto de que existam universos distintos e heterogêneos regidos e consolidados pelas identidades de gênero – mediadas pelo gênero masculino, o dominante.

...A situação não melhora com as ações do editor da TLS Peter Stothard ou de VS Naipaul, Harris disse. “’Ficção feminina’ ainda é considerado uma sub-categoria.”...

...Eu sabia que assim estava – ou está – no Wikipédia. Havia uma controvérsia sobre isso no último ano. Mas a Amazon? Sério? Eu chequei isso: ela estava certa. Há uma categoria para Ficção e escritoras mulheres”... e “ficção popular feminina”. Eu fiquei estuporada e me perguntei como esses títulos foram parar nessas categorias. A mistura de livros é tão grande quanto o tamanho de categorias que ela comporta, unidas unicamente pelo gênero de suas autoras. Mas o fato é que a categoria está lá e não há nada parecido com um “Ficção e escritores homens”. Para homens, a categoria é simplesmente “ficção”, eu acredito. (Alisson Flood, Jornal The Guardian, 2014)

Não há qualquer avanço real em apenas “re-rotular” e “re-categorizar” algo que até então pertencia – como regra – ao universo masculino; Isso não é evolução, isso é sofisma, é ideologia, não há nada de feminismo nesse tipo de expressão – uma vez que o feminismo clássico propõe acima de tudo a igualdade – há apenas uma atitude inocente e inconsciente de determinadas mulheres que creem estar realmente defendendo os seus ideais e indo na contra mão; porém, ao se perpetuar a desigualdade, ao se fazer apologias sexistas, ao apenas inverter as ações/resultados, ainda se estará seguindo a cartilha machista. Quanto a essas mulheres? Pobres inocentes; estão novamente sendo controladas pelo que no fim deste artigo se definirá como machismo.

1.1 O Machismo Como Presença Inconsciente.

Fica claro que geralmente o conceito de machismo está mais ligado aos atos, atitudes e práticas; misoginia, feminicídio, violência contra a mulher, grosserias, preconceitos diversos, assédio sexual e moral, ditos populares, piadas infames, diferenças salariais, sistema patriarcal, sistema patrilinear e repressão de origem religiosa – ainda que algumas dessas expressões e manifestações sejam atualmente veladas – são alguns exemplos “clássicos” do que o sexismo como manifestação aberta e amparada pelo contexto social causou e causa diariamente às mulheres – não somente às mulheres, pois os demais lesados pelo machismo sempre apresentam semelhanças ou “similaridades” ao o ser feminino, ou apenas são diferentes do que tido como regra pela ótica machista. Essas crenças articulam-se com diversas instituições que direta ou indiretamente se beneficiam da condição atual de inconsciência – total ou parcial – feminina de si mesma e do real contexto social onde ela própria coexiste. Segundo pesquisa feita em 2013 através do instituto Data Popular, 96% dos jovens brasileiros, entre 16 e 24 anos, afirmam que a sociedade brasileira ainda é extremamente machista. Talvez o mais alarmante de toda essa disparidade conceitual identitária, tanto na esfera sociológica, quanto psicológica – aspectos macro e micro – seja suas consequências psicossociais – aspectos interacionistas – que a mesma reflete e perpetua; assim como os processos presentes e empregados na sua manutenção; fazendo com que as partes constituintes mais importantes do processo se camuflem – desviando o olhar para os efeitos e ignorando as causas. Ao se refletir sobre, e identificar-se o real cenário atual, fica clara a urgente necessidade de se estimular nas mulheres a busca pela reflexão, assim como a criação de uma consciência sobre sua própria inconsciência em relação à presença do que realmente é o machismo.

O machismo está impregnado na cultura. Logo, a cultura é, também, machista. Não se trata de um conjunto de práticas, mas daquilo que dá validade e significação para este conjunto de práticas e para aquilo que, em última instância, define quais práticas estão neste conjunto. (Vinicius Siqueira, colunastortas.wordpress.com - 2013)

2. A Identidade e Seu Papel.

Investigar o machismo sem compreender o que vem a ser identidade, é sem dúvida um enorme erro; visto que, ao adentrarmos nos “territórios” e “domínios” do machismo, adentramos inevitavelmente também nos complexos “labirintos” da subjetividade humana – tanto feminina quanto masculina. Faz-se necessário compreender então que o machismo indiscriminadamente se sustenta, expressa, existe e resiste graças às dinâmicas de interação mantidas entre mulheres e homens – enquanto identidades de gênero – as quais produzem/reproduzem os comportamentos responsáveis pela perpetuação do próprio machismo. Cabe entretanto investigar à priori, como a identidade se forma no ser humano, quais processos estão presentes nessa formação; quais estruturas se fixam, o que elas representam e que funções desempenham em nosso mundo exterior e interior.

Abordar o tema Identidade é sempre um desafio, uma vez que a definição em si é bastante complexa, pois envolve tanto o processo de formação/produção do sujeito, quanto como ele se auto reconhece e se apresenta ao mundo. Envolve uma infinidade de fatores; tais como: hereditariedade, ambiente e dinâmica familiares, contextos fisiológicos, sócio culturais e educacionais, época, contextos físicos, geográficos e ambientais.

Ao tratarda formação da nossa identidade, estamos diante de um dos assuntos mais controversos da psicologia. Os pontos de vista são os mais diversos e variam da ênfase exagerada nas nossas predisposições inatas – e principalmente hereditárias – à minimização desses aspectos, dando a entender que somos, mais que tudo, dependentes da nossa formação cultural e do contexto familiar no qual crescemos. Meu posicionamento, também aqui, é o de tentar operar com todas as possibilidades em vez de excluir alguns ângulos da questão e privilegiar uma das rotas como essencial. Por vezes me surpreendo com a forma de pensar de muitas pessoas; elas parecem incapazes de operar com mais de uma variável ao mesmo tempo. Não vejo como excluir nenhum dos elementos que participam do nosso processo de formação. Na verdade, minha intenção é a de agregar mais alguns “ingredientes” aos que influenciam a constituição da identidade de cada um de nós. Penso que a disputa que ainda hoje reina entre muitos profissionais de psicologia, qual seja, a do primado da nossa biologia ou da cultura em que crescemos, é um tanto primária; parece -me óbvia a influência de ambos os componentes. Além disso, considero que levar em conta apenas esses aspectos é absolutamente insuficiente para que possamos, um dia, ser capazes de entender melhor como nos tornamos “nós mesmos”. (Flávio Gikovate, 2014, pag.13)

Ao nascermos não sabemos quem somos, o que é o mundo, onde terminamos e outro começa, o que são objetos, pessoas, animais; o que são formas distintas e dissociadas, quem é quem e o que já existiu e existe. Aos poucos nosso cérebro vai se desenvolvendo e com novas capacidades podemos começar a distinguir-nos dos outros, a compreender que não somos uma extensão de nossas mães, assim como elas não são uma extensão nossa; passamos a expressar algumas características particulares inatas, entretanto sempre mediadas e concebidas a partir dos estímulos do outro. Ou seja, quem somos nasce de uma interação com o que já existe e quem já existe; é da comparação que surge a percepção de igual ou diferente – ainda que dentro de um universo de generalizações e abstrações – e que faz aos poucos sermos quem somos e/ou como nos percebemos. Entre o que compreendemos como nós mesmos e esse processo de formação, está sempre o outro; nascemos do outro, nos formamos e nos reconhecemos através do outro, nos localizamos pelo outro; somos quem somos em comparação ao outro, por isso diz-se que o ser humano é essencialmente um ser social.

Carlos R. Brandão, antropólogo e educador, diz que a identidade explica o sentimento pessoal e a consciência de posse de um eu, de uma realidade individual que torna cada um de nós um sujeito único diante de outros eus; e é, ao mesmo tempo, o reconhecimento individual dessa exclusividade: a consciência de minha continuidade em mim mesmo.(...) segundo o psicanalista André Green, o conceito de identidade agrupa várias idéias, como a noção de permanência, de manutenção de pontos de referência que não mudam com o passar do tempo, como o nome de uma pessoa, suas relações de parentesco, sua nacionalidade. São aspectos que, geralmente, as pessoas carregam a vida toda. Assim, o termo identidade aplica-se á delimitação que permite a distinção de uma unidade. Por fim a identidade permite uma relação com os outros, propiciando o reconhecimento de si. (Ana Mercês Bahia Bock, Odair Furtado, Maria de Lourdes Trassi Teixeira, 2000, pag. 203)

2.1 Nossa Identidade é Ensinada.

Aprendemos a ser quem somos; isso é um fato, o que sabemos de nós mesmos e como nos vimos nos fora um dia ensinado; somos de alguma forma uma continuidade daquilo que todos os que antes de nós vieram um dia foram, assim carregamos o que os outros – nossos primeiros influenciadores e formadores de opinião – acharam pertinente, importante e essencial carregar; não tivemos inicialmente escolha, absorvemos o que nos fora disponibilizado e selecionado. Lentamente e por intermédio dos mais próximos passamos aos poucos a dominar a linguagem, e com ela pudemos dar nome e sentido às coisas e ao mundo. Fomos doutrinados, foram nos dados limites, fomos ensinados a responder a determinados estímulos, passando a entender que alguns correspondem à aceitação, enquanto outros resultam em desaprovação; fomos então internalizando regras, conceitos e crenças, fazendo “ressoar” para sermos ouvidos, até que pudemos em determinado momento então escolher de forma mais sofisticada aquilo que servia ou não para nós. Podemos então afirmar categoricamente que nossas bases e fundamentos subjetivos mais essenciais devem-se aos primeiros anos de vida conforme inclusive afirmam tanto a psicologia behaviorista quanto a psicanálise – cada uma de acordo com os seus objetos de estudo e perspectivas/abordagens – logo, sem as interações iniciais que vivenciamos através dos outros – nosso seio mais íntimo familiar – não seria possível sermos quem somos ou em síntese, nos reconhecermos como seres humanos.

Em 1920, o doutor singh descobriu, no interior da índia, duas garotas vivendo entre lobos. Uma delas tinha mais ou menos 1 ano e meio e a outra, 8. A mais nova cedo faleceu, e a outra viveu mais 10 anos. Durante todo esse tempo o dr. Singh observou a criança que recolhera, fazendo depois um amplo relato dos comportamentos e experiências dessa menina chamada Kamala (A mais nova fôra chamada denominada Amala). Kamala andava de quatro, arrastando seus pés e mãos. Tomava líquido e comia num prato deixado no chão. Jamais segurava o vasilhame para beber. Quando alguém se aproximava dela, durante as refeições, ela reagia agressivamente. À noite uivava. Via bem no escuro e tinha medo da luz, do fogo e da água. Não deixava o dr. Singh limpá-la ou lavá-la. Durante o dia, dormia num canto da sala, sentada sobre um estrado. Depois de 2 anos Kamala aprendeu a sentar-se, embora não muito bem. Após 6 anos, caminhava em posição ereta, mas corria como quadrúpede. No curso de 4 anos havia aprendido somente 6 palavras e em 7, surpreendentemente, 45. Com o tempo Kamala foi aprendendo a beber água levando o copo à boca, a gostar das pessoas, a comer com as mãos e a ter medo do escuro. Mas com 17 anos tinha o desenvolvimento mental de um criança de 4. Como Kamala foram também encontradas outras 14 crianças. (...) Todos os casos mostram que é muito mais difícil reeducar do que educar o ser humano. Embora com algumas habilidades desenvolvidas, o homem criado por animais não adquire a fala simbólica, a habilidade da escrita, da leitura, do cálculo e do trabalho artístico. Isto equivale a dizer que o desenvolvimento mental do ser humano é determinado pelas influências sociais. Sem a vida social e a cultura, o homem não pode desenvolver-se a ponto de distinguir-se de certos animais (...) (Lannoy Dorin, 1980, pag. 255-256)

2.2 Identidades de Gênero: Filhas e Filhos do Machismo.

Podemos afirmar então que a formação de identidade humana passa necessariamente pelos ditames do machismo; corresponde ao e responde ao; uma vez que os nossos primeiros formadores e influenciadores já correspondem a reprodutores/mantenedores – ainda que inconscientes – do próprio machismo; contemplando plenamente e integralmente a função de doutrinar e manter o sistema no qual nos encontramos atual e globalmente inseridos – uma vez que nossa identidade depende/corresponde – em parte preponderante – ao meio em que vivemos – sociedade e cultura – e que de alguma forma teremos de nos situar – central ou marginalmente – assumindo posições. De tal sorte que, seja disposta ou opostamente, seguindo ou transgredindo ainda estaremos inevitavelmente inseridos –, subjetiva e/ou objetivamente – uma vez que nascemos e formamos nossas identidades dentro e a partir dessas diretrizes. Logo, pode-se afirmar que todos somos inexoravelmente filhos e filhas do machismo.

Como filhas legítimas do machismo – ainda que inconscientemente para a esmagadora maioria das mulheres, mesmo as mais transgressoras – elas ainda replicam os ensinamentos e doutrinas aprendidas tanto na tenra infância quanto durante toda a vida. Os exemplos mais flagrantes residem justamente nas expressões/manifestações advindas que se chama de “feminilidade” ou “essencialmente feminino” – termos genéricos geralmente adotados convenientemente em defesa de argumentações ideológicas. Esses exemplos aliam-se a argumentos aceitos como inquestionáveis, algo como uma espécie de condição feminina inexorável. Exemplos clássicos são: casamento, a maternidade como a maior das realizações, conexão emocional para validar o prazer sexual, obter um “lar” e um homem para “cuidar”, ser bonita, ser recatada para ser “boa para casar”, buscar o outro como realização pessoal, compreender a “natureza masculina” e ser tolerante, não ser agressiva, ser delicada, etc.

O Machismo enquanto sistema ideológico, oferece sistemas de identidade tanto para o elemento masculino como para o elemento feminino. Ele é aceito por todos e mediado pela “liderança” masculina. Ou seja, é através deste modelo normalizante que homem e mulher “tornam-se” homem e mulher, e é também através dele, que se ocultam partes essenciais das relações entre os sexos, invalidando-se todos os outros modos de interpretação das situações, bem como todas as práticas que não correspondem aos padrões de relação nele contidos. Desde criança, o menino e a menina entram em determinadas relações que independem de suas vontades, e que formam suas consciências: por exemplo, o sentimento de superioridade do garoto pelo simples fato de ser macho e em contraposição o de inferioridade da menina. Um outro exemplo nos é oferecido pela própria destinação em termos de trabalho: a menina é geralmente conduzida para as atividades que não produzem dinheiro, enquanto que o garoto é necessariamente orientado para uma profissionalização. O machismo pode ser genericamente considerado como um ideal a ser atingido por todos os homens e atacado e ou invejado pelas mulheres. (Mary Pimentel Drumontt, 1980, pag. 81-82)

3 Definindo o Machismo.

Importante destacar que, para fins de orientação e localização discursivas, dentro do raciocínio aqui exposto, é essencial compreender as possíveis definições das próprias palavras: Macho e Machismo; não apenas em seu caráter idiossincrático, mas polissêmico e ou universal-teórico proposto; apercepção essa, nos fornecida principalmente pelos meios midiáticos mundiais, os quais constantemente propagam e reforçam – ainda que ajustados às suas culturas e sociedades – os estereótipos fundamentais do que podemos chamar por aferição/inferição de Macho e Machismo. Existe uma verdadeira miríade de estereótipos masculinos e mais propriamente ditos machistas; criados e perpetuados através de símbolos e ideais a serem seguidos e alcançados – em geral esses estereótipos estão carregados de elementos exagerados, quase caricatos – pois os símbolos dão significado às coisas; assim, as identidades também podem e são formadas/inspiradas por símbolos em geral estereotipados – até mesmo por conta de sua natureza de fácil compreensão, identificação e assimilação; capazes de nutrir nossa “anomia”, inspirando nossa “heteronomia”, preenchendo-a através da imitação e dando finalmente a ilusão de “autonomia” identitária. aparente individualidade.

3.1 Um Estereótipo do Macho.

Tomemos então apenas como base de análise e referência o estereótipo do “Macho Mexicano” – um dos mais icônicos expoentes do cinema da década 1940. Matthew Gutmann em seu artigo O Machismo (2013) focado na Colônia de Santo Domingo na Cidade do México – bairro popular nascido de uma ocupação irregular nos anos 1970 e posteriormente urbanizado – deixa claro a existência de contradições tanto no sentido de origem e surgimento, quanto de significado e uso dados às palavras/termos Macho e Machismo.

...as trajetórias históricas dos termos macho [no sentido moderno] e machismo [qualquer que seja o sentido] são surpreendentemente curtas...

...Os dicionários entram em conflito sobre as raízes etimológicas do macho, ora vinculando-as a palavras latinas e portuguesas para “masculino” ou “mula”, ora designando soldados andaluzes conquistadores como seus ancestrais culturais, ou a invasores gringos ianques no início do século passado...

...de fato, delinear as permutações e modulações históricas dessas palavras é crucial para poder compreender as discrepâncias que ainda existem de modo geral nas Ciências Sociais a respeito dos seus significados...

...Américo Paredes [1967] fornece várias pistas a respeito da trajetória da palavra machismo e neste processo ele esboça conexões nítidas entre o advento do machismo e nacionalismo, racismo e das relações internacionais...

...Paredes não encontrou os termos macho e machismo antes das décadas de 1930 e 1940. A palavra macho existia, mas quase comouma obscenidade, parecido com as conotações posteriores de machismo [que Santamaría {1959:677}, por exemplo, define como “vulgaridade cruapara hombridade e virilidade”]. Outras expressões, algumas das quais relacionadassemanticamente aos homens, eram bem mais comuns na épocada Revolução Mexicana: hombrismo, hombría, muy hombre e hombre de verdade (todas relacionadas a hombre); valentia e muy valiente [relacionadas ao valore à coragem] e assim por diante. Apesar de que durante a RevoluçãoMexicana a frase muy hombre era também usada para descrever mulherescorajosas, além de homens, a associação especial dessa qualidade comhomens tanto daquela época como atualmente indica uma associação decertas palavras e frases com hombridade, mas ignora se as palavras macho ou machismo eram empregadas ou não. (Matthew Gutmann, 2013 – pag 72-79)

Mas as disparidades vão além, como se de alguma forma os significados fossem se “distendendo”, tomando sentidos diversos e antagônicos; o que revela e ao mesmo tempo deixa em aberto certas questões; essas lacunas nos levam a supor que em algum momento esses termos também estiveram expostos às reinterpretações sociais, impulsionadas e/ou condicionadas também pelos meios midiáticos, que faziam – como via de regra – o papel de formadores de opinião; criando assim, sentimentos contraditórios que podem ter em dado momento e certo ponto influenciado de forma preponderante a percepção – ao menos parcial – que temos hoje do que vem a ser o conceito de machismo.

...Muitos antropólogos e psicólogos, ao escrever sobre machismo, utilizam características como “masculino”, “não masculino” e “hombridade” sem defini-as...

...os termos macho e machismo são usados de maneiras contraditórias. As definições empregadas ou implicadas em tais círculos oficiais revelam não apenas uma diversidade de pontos de vista a respeito dos conteúdos dos termos, mas também conjecturas largamente díspares em termos das origens dessas palavras e de seus significados. Ao enfatizar a sexualidade, Stevens [1973:90] designa machismo como “o culto à virilidade,” e adiciona que “as características principais desse culto são agressividade exagerada e intransigência nos relacionamentos interpessoais entre homens e arrogância e agressividade sexual nos relacionamentos entre homens e mulheres.” Greenberg [1989:227] capta algumas das ambivalências de machismo quando descreve um episódio em que Fortino, o protagonista do seu estudo, “estava sendo muito macho, se comportando tranquilamente, sem encarar ninguém; quase feminino”. Nesse sentido, macho pode ser identificado com um estilo de comportamento não agressivo [“feminino”]...

...a distinção que Mendoza faz entre o que ele designa como duas formas de machismo: o primeiro seria a autêntica, caracterizada por coragem, generosidade e ascetismo; o segundo, que seria basicamente falso, consiste de aparências – covardia, esconder-se por trás de autoelogios vazios. Mendoza chama atenção para o dualismo essencial na história do uso da palavra machismo...

...Nos botecos rurais, os templos masculinos da era dourada de cinema mexicano, a onda macho se formou. O México apareceu na tela como uma entidade singular, mesmo que internamente incongruente, enquanto dentro da nação as figuras do homem e da mulher mexicanos avultam – [o primeiro], indomado, generoso, cruel, mulherengo, romântico, obsceno, em paz com a família e amigos, subjugado e inquieto... {a segunda} obediente, sedutora, resignada, meiga, devotada ao e escrava do seu marido, seu amante, seus filhos e a seu fracasso essencial.” [Monsiváis, 1992: 18]...

(Matthew Gutmann, 2013 – pag 72-79)

Fica clara uma atmosfera enigmática envolvendo as incongruências semânticas derivadas/conferidas às palavras/termos Macho e Machismo. Provavelmente não será possível aqui descrever ou traçar com exatidão as trajetórias histórico-etimológicas dessas palavras/termos – ainda que em caráter teórico-hipotético – pois corre-se o risco de desviar e ou reinterpretar suas rotas de transformação/ressignificação/objetificação psicossociais; as quais por si só passariam então a estar mais imbuídas de especulações do que de contribuições válidas às suas definições; levando assim a mais e mais especulações, desviando-se então do foco aqui em pauta proposto – o de esclarecimentos; ainda que em caráter teórico-hipotético-investigativo.

3.2 O Machismo Para Além da Ideologia.

Para definir então o machismo em sua essência – conforme a proposta e tratamento semânticos aqui dados – torna-se necessário estabelecer uma série de reflexões, raciocínios, ponderações, questionamentos e análises; advindas dos diversos estudos, pesquisas, investigações teóricas e práticas já previamente citadas; através de tais contribuições, faz-se possível encontrar uma nova perspectiva – enquanto proposta de definição – de encontrar a verdade por detrás das aparências e discursos do senso comum. Ao nos aprofundarmos na análise de tais terrenos do comportamento psicossocial, deixando para trás as frágeis e parcas percepções fronteiriças das massas, conclui-se que o machismo não é exatamente ou somente uma filosofia e/ou ideologia; trata-se de algo muito mais intrínseco, mais arraigado e presente; trata-se de uma concatenação de crenças, sentimentos, certezas, direitos, tradições inquestionáveis, estigmas, condicionamentos inconscientes e culturais, envolvidos por uma aura de conformidade conformista e por vezes – ao nível do discurso – interpretada como ascética; trata-se de uma sensação e presença internas – tanto no individuo, quanto na coletividade – capaz de realimentar-se e restaurar-se como uma espécie de “homeostase da própria doença” não apenas em seu sentido processual, mas ético, moral, contextual; compreende e faculta a algo tão encrustado na “sombra” do inconsciente coletivo que faz com que sua simples apercepção em certos cenários se torne uma árdua tarefa – segundo C. G. Jung, sombra é uma região da psique humana onde reside o que é negligenciado por nós, dando a aparência de não existência. Essa presença tem em sua resiliência a capacidade de frustrar muitas das tentativas de reação propostas por quaisquer minorias capazes de ver com certa clareza a possível forma e natureza reais dessa presença mutável e “metamórfica”; capaz de delir as rotas e itinerários da própria moral e ética enquanto concepções legítimas imparciais, reescrevendo-as e transfigurando-as segundo suas próprias diretrizes e interesses, conferindo-lhes total ar de legitimidade e verossimilidade, de forma silenciosa e na maioria das vezes imperceptível.

[...]o machismo em discussão aqui não é reduzível a um conjunto coerente de ideias sexistas; não é mero chauvinismo masculino. Como enfatizou Roger Lancaster [1992:19] no seu estudo sobre a Nicarágua, “machismo é resiliente não apenas porque constitui uma forma de ‘consciência’; não é uma ‘ideologia’ no sentido clássico do conceito, mas um campo de relações produtivas”. (Matthew Gutmann – 2013, pag. 72)

Em termos de colocação adotada, o machismo é definido como um sistema de representações simbólicas, que mistifica as relações de exploração, de dominação, de sujeição entre o homem e a mulher. Esta definição não tem a preocupação de atingir um rigor conceitual a partir de um modelo teórico fechado e abstrato. Mas ao contrário, a de conceituar ainda que provisoriamente o machismo, de forma que a investigação possa ser conduzida para dar conta da multiplicidade de suas manifestações concretas dentro de uma unidade de análise. O machismo constitui, portanto, um sistema de representações-dominação que utiliza o argumento do sexo, mistificando assim as relações entre o homens e as mulheres, reduzindo-os a sexos hierarquizados, divididos em polo dominante e polo dominado, que se confirmam mutuamente em uma relação de objetos. Ao apropriar-se da realidade sexual, o machismo, em seu efeito de mistificação, supercodifica a representação de uma relação de poder [papéis sexuais, símbolos, imagens, representações eróticas, instituições sexuais, etc.] produzindo “duas linguagens”: uma masculina e uma feminina. Nesta produção-reprodução de papéis, códigos, representações sociais, etc., há produção de espaço aberto no sentido dado à expressão “corpo sem órgão“ por Guattari e Deleuze do extorsão do prazer, objeto, etc., onde se reproduzem as próprias condições de subordinação da mulher. Assim, o machismo representa-articula [relações reais e imaginárias] esta dominação do homem sobre a mulher na sociedade. (Mary Pimentel Drumontt, 1980, pag. 81-82)

3.3 Conclusão: O Machismo e Sua Definição.

Para definir o machismo em termos e óticas “ontológicas/epistemológicas”, torna-se necessário recorrer a diversas contribuições e referências de análise e/ou teóricas pertinentes. Não cabe aqui categorizar o que viria a ser o machismo enquanto estrutura concreta ou estática, mas compreender suas estruturas mutáveis, mecanismos lógicos, simbólicos e representativos; dinâmicos e adaptáveis; resilientes e auto ajustáveis; buscando assim uma possibilidade de interpretação sob novas perspectivas de pensamento e raciocínio.

Tal conceituação do problema implica em estuda-lo da perspectiva da Análise Institucional. Nesta perspectiva, as instituições sociais são concebidas como centros históricos de centralização de poder. O conceito não se reduz ao conjunto de normas assumidas por agentes [o que seria o seu aspecto estrutural explícito] mas abrange também as normas não reveladas, frequentemente as mais importantes, pois apontam para as “regras do jogo” do poder institucional. Inclui também o conjunto das relações sociais [práticas institucionais]. Esses dois aspectos, [as normas e as práticas] são mediados pelo discurso institucional. Estas instituições são sede de poder por onde atravessam as normas, as regras do poder institucional. Elas [as instituições] se processam num contexto de mudança e afirmação de relações e formas de produção social, apontando para as fissuras internas das práticas [hegemônicas] e para as respostas dos instituídos. Proceder à análise institucional, significaria pois, estudar as formas instituintes e não privilegiar as formas instituídas. Trata-se então de buscar no discurso institucional, antes de tudo o simbólico, o não explícito em termos de resultados de uma observação. Esse simbólico, o não dito, é ligado a uma estrutura de poder. A análise institucional, atenta também para as implicações sociais, econômicas e políticas da observação sociológica. E introduz a dimensão dialética, quando procura as formas de respostas do polo institucional dominado, que se revelam nas relações entre dominantes e dominados. (Mary Pimentel Drumontt, 1980, pag. 82-83)

O machismo pode ser parcialmente definido como uma manifestação cultural, uma filosofia, uma ideologia – sentimentos coletivos capazes de integrar uma sociedade; uma crença inquestionável capaz de dar sentido ao ato pelo ato, como parte de um todo maior e imutável, levando assim, à desigualdade e consequentemente à dominação. No entanto, todas essas expressões/manifestações ainda representariam apenas a “ponta do iceberg”, como um tipo de subprodutos advindos de algo mais “primitivo”, original. Mesmo compreendendo em parte o machismo como uma somatória de todas essas possíveis “definições” – beirando talvez o incognoscível – faz-se necessário observar mais atentamente as suas diversas facetas, manifestações e justificativas; torna-se possível e necessária uma forma de interpretação/compreensão mais profundas. Reconhecendo sua existência, coexistência e resistência, perpassando os limites dos conceitos e das definições costumeiramente difundidas; pode-se afirmar que seus contornos denotam diversos traços que correspondem a uma espécie de estado existencial, percebido ou não, interpretado ou não, porém quase sempre aceito praticamente como inato; pois é, essencialmente em si, um tipo de condicionamento e aprisionamento mental, psicossocial e cultural, enraizado e onipresente, quase onipotente. Pode-se definir então o machismo como: UM estado de consciência existencial identitária coletiva, operando em nível inconsciente e global.

A cultura é um resultado, não uma soma. É possível mostrar que se conhece os gregos num poema onde nem se fala deles nem se é influenciado por eles.”

Fernando Pessoa.

Referências

LIVROS

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