Criação e técnica-as histórias em quadrinhos como recurso metodologico para o ensino de arte

Criação e técnica-as histórias em quadrinhos como recurso metodologico para o...

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Gustavo Cunha de Araújo1

Heliana Ometto Nardin2 Eliane de Fátima Tinoco3

Resumo

O presente artigo visa analisar as histórias em quadrinhos inseridas na sala de aula como recurso metodológico para o ensino de arte, por meio de um minicurso realizada com este tema em uma escola estadual de Uberlândia, com uma turma de quarta-série. O objetivo proposto foi analisar as produções gráficas – HQ’s finais – desenvolvidas durante esse minicurso, no qual foi necessário o levantamento bibliográfico de autores para que pudessem subsidiar teoricamente o desenvolvimento deste trabalho. Como procedimento metodológico, a pesquisa se caracteriza como qualitativa, com abordagem etnográfica, pois o objeto de estudo colocado nesta investigação se iniciou na sala de aula, em âmbito escolar, no qual os dados coletados foram obtidos nesse ambiente de estudo com o contato direto do pesquisador e os alunos envolvidos na minicurso. Além de nos instigar a compreender melhor a relação imagem e texto, podendo constituir uma fonte de atrativos para a imaginação da criança durante o seu processo criativo nas aulas de ensino de arte, procuramos neste trabalho dar ênfase a essa expressão artística e meio de comunicação enquanto recurso metodológico para o ensino de arte, verificando não apenas questões de sua estrutura gráfica, mas também ressaltando as que estivessem relacionadas aos vários recursos metodológicos dos quais o professor pode ter em mãos para trabalhar com qualidade em âmbito escolar e acadêmico.

Palavras-chaves: História em quadrinhos; Ensino de arte; Recurso metodológico; Minicurso.

Abstract

This article aims to analyze the stories included in the classroom as a methodological resource for arts education through a workshop on this subject in a state school in Uberlândia, with a class of fourth-grade. The present paper was to analyze the comic end graphic productions developed during this workshop, which required the authors of literature that theoretically could support the development of this work. As a methodology, the research is characterized as qualitative, with an ethnographic approach, because the object placed in this research study began in the classroom in the school, which collected data were obtained in this study environment with the direct contact of researcher and the students involved in the workshop. In addition to instigate better understand the image and text, may be a source of attraction for the child's imagination during his creative process in the classroom teaching of art, this study sought to emphasize the artistic expression and media as

1 Graduado em Artes Visuais (Licenciatura) pela Universidade Federal de Uberlândia e bolsista da Fapemig de Iniciação Cientifica. gustavoaraujo@yahoo.com.br 2 Professora Doutora da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia. drinardin@hotmail.com 3 Professora Mestre da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia e professora efetiva de ensino de arte da Rede Municipal de Ensino. elianedicult@bol.com.br methodological resource for teaching art to verify not only questions of your graphic structure, but also that were related to various methodological resources of which the teacher can have on hand to work with quality in the school and academic.

Keywords: Comics, Art of education, Methodological resource, Workshop. 1. Introdução

Atuando e desenvolvendo pesquisas desde o ano de 2005 com o tema Arte

Seqüencial (histórias em quadrinhos) e em especial, realizando minicursos e oficinas de quadrinhos na Universidade Federal de Uberlândia e em escolas municipais4 e estaduais5 desta mesma cidade, venho observando que este tema tem despertado o interesse de diversos alunos e professores do próprio curso de Artes Visuais e também de outras áreas do conhecimento, como história, pedagogia, psicologia e publicidade, que vêem nos quadrinhos, uma forma de arte e de comunicação sem equivalentes. Sem falar que, ao investigar as histórias em quadrinhos, estaremos divulgando a pesquisa à comunidade acadêmica e externa, disseminando e socializando a produção de conhecimento.

Desde a antiguidade, a arte ocupa papel relevante na vida das pessoas e na sociedade em geral, como modo de manifestação expressiva e de comunicação, além de promover a interação entre os indivíduos com o meio social em que estão inseridos, proporcionando-lhes experiências individuais e coletivas das mais diversas, importantes e necessárias para a socialização do ser humano na sociedade. A arte é tão importante para a vida das pessoas, que Barbosa (1991, p.27) é sucinta em suas palavras ao afirmar que [...] se a arte não fosse importante não existiria desde o tempo das cavernas, resistindo a todas as tentativas de menosprezo.

Diante disso, as histórias em quadrinhos, bem como os cartuns,6 as charges7 e as caricaturas8 são veiculadas constantemente pela imprensa escrita, tal como jornais, revistas, e até mesmo em mídias como a internet. Neste sentido, vem dia após dia despertando o interesse e a curiosidade de historiadores, sociólogos, arte-educadores, estudantes,

4 Escola Municipal Professor Otávio Batista Coelho Filho - Universidade da Criança. 5 Escola Estadual Joaquim Saraiva, localizada na cidade de Uberlândia, Minas Gerais. 6 É uma narrativa humorística, expressa por meio da caricatura e normalmente destinada à publicação de impressos de grande veiculação popular, como jornais e revistas. 7 É um cartum cujo objetivo é a crítica humorística imediata de um fato ou acontecimento especifico, em geral de natureza política. 8 Desenhos que visam representar algum personagem ou pessoa de conhecimento popular com traços humorísticos.

comunicadores sociais e uma série de outras profissões, que vêem nela uma forma de comunicação e artística com grandes potenciais.

Acreditamos que por mais que os quadrinhos tenham passado por algum tipo de obstáculo9, no que diz respeito especificamente a sua aceitação como instrumento didático, a sua inserção no circuito artístico, escolar e acadêmico só ocorreu devido à influência de pessoas respeitadas no mundo das artes como o americano Roy Lichenstein, artista da Pop Art10, em meados do século passado, ter utilizado a estrutura gráfica dos quadrinhos em suas obras de arte, (LUYTEN, 2005 e VERGUEIRO, 2005).

Sabe-se que esta forma de arte – história seqüencial – e de expressão já existia desde pinturas ou desenhos realizados pelo homem pré-histórico, que representavam imagens de animais caçados ou abatidos por este e, que ao longo de nossa história, foram sendo veiculadas de diversas formas e disseminando informações das mais diferentes naturezas por meio de impressos literários, publicitários e escolares, até chegar à forma de tiras em jornais e revistas de histórias em quadrinhos, que acabaram se tornando grandes veículos de comunicação popular em todo o mundo.

O objetivo maior desta pesquisa foi analisar a produção gráfica (imagens) das histórias em quadrinhos desenvolvida durante um minicurso de quadrinhos, com uma turma de trinta alunos da 4º série, com carga horária total de doze horas, sendo duas horas cada aula, realizada em sala de aula, na Escola Estadual Joaquim Saraiva, localizada na cidade de Uberlândia, estado de Minas Gerais. Esse minicurso foi desenvolvido como parte da disciplina Prática de Ensino I, do curso de licenciatura em Artes Visuais, da Universidade Federal de Uberlândia.

Neste sentido, como procedimento metodológico, a pesquisa se caracterizou como qualitativa, com abordagem etnográfica, pois o objeto de estudo colocado nesta investigação se iniciou na sala de aula, em âmbito escolar, no qual os dados coletados foram obtidos nesse ambiente de estudo com o contato direto do pesquisador e os alunos envolvidos no minicurso.

Contudo, percebemos que a pesquisa qualitativa, além de se basear na análise e sistematização de coleta de dados, requer também uma coerência do tema escolhido para o estudo com os objetivos propostos pelo pesquisador, que poderá formar e guardar seus

9 As histórias em quadrinhos seriam perniciosas quanto ao seu conteúdo e influenciariam negativamente as crianças na escola – afirmação essa sem fundamentos científicos (ABRAHÃO, 1977 apud MOYA, 1977). 10 Movimento artístico surgido nos Estados Unidos nos anos 50/60 do século passado e que tinha como principal característica a utilização de elementos da cultura de massa em obras de artistas e que influenciaram bastante os artistas contemporâneos. (MCCARTHY, 2002).

registros para futuras investigações11, a fim de obter uma melhor compreensão do objeto de estudo, ou mesmo, socializar e ampliar o conhecimento com outras áreas, como o da Educação, assim como acontece nesta pesquisa.

Em vista disso, foram coletadas neste estudo diversas histórias produzidas pelos alunos durante o minicurso de quadrinhos, no qual foram selecionadas algumas produções gráficas (trechos visuais), neste caso, as histórias finais elaboradas pelos alunos, para a realização de análises no que se referem a elementos visuais presentes nos quadrinhos, seus aspectos formais, como cor, construção de personagens e cenários, hachuras, luz e sombra, entre outros.

Este trabalho, além de preencher algumas lacunas que envolvem a pesquisa sobre histórias em quadrinhos em âmbito escolar e acadêmico, poderá oferecer ao leitor ou pesquisador possibilidades de estudos científicos, a respeito deste meio artístico em âmbito acadêmico, no ensino de arte e, porque não, para a educação.

2.A história dos quadrinhos no Brasil

Procurar resgatar a história dos quadrinhos no Brasil não é tarefa fácil, pois por mais que possa se encontrar, e acreditamos bem mais nos dias de hoje, estudos e pesquisas sobre este assunto, ainda estamos um pouco distantes de termos um acervo cientifico e bibliográfico que nos possa dar uma melhor visibilidade de informações a respeito do surgimento, produção, disseminação e comercialização dos quadrinhos em nosso país, principalmente voltado para o ensino de arte. Preencher essa lacuna é um dos objetivos desse trabalho.

Para Anselmo (1970), há evidências que os primeiros quadrinhos que surgiram no

Brasil foram às aventuras de “Nho Quin e Zé Caipora”, de Angelo Agostini, datados da época de nosso Império, por volta do final do século XIX. Agostini era um italiano radicado no Brasil, mas que ficou bastante popular no inicio do século X entre os que produziam histórias em quadrinhos no país. Desse modo, o surgimento das histórias em quadrinhos no Brasil é concomitante ao surgimento nos Estados Unidos.

É necessário que voltemos nossos olhares para os anos 30, quando as editoras brasileiras começam a lançar jornais e revistas com publicações de quadrinhos nacionais e

1 É importante ressaltar que há um aporte teórico que dará suporte a investigação, mesmo o pesquisador, ao examinar novamente os dados coletados, se deparar com novas descobertas e olhares sobre o conhecimento que tem de seu objeto de estudo (LUDKE, 1982).

estrangeiros em seus conteúdos, com destaques para “A Gazetinha” e, no inicio da década de 40, da “Gazeta Juvenil”, ambos os suplementos do jornal “A Gazeta de São Paulo”. Mas também, nos anos 30, é lançado o “suplemento Juvenil”, que além de acompanhar o jornal “A Nação”, publicando histórias tupiniquins e dos Estados Unidos, tinha uma tiragem de aproximadamente 360 mil exemplares semanais (ANSELMO, 1970 e MOYA, 1977).

Porém, tal iniciativa impulsionou alguns empresários desse ramo, na época, como

Roberto Marinho, a se interessar em trabalhar nessa nova e interessante empreitada. É lançado então o “Globo Juvenil” e, mais tarde, o “Gibi Mensal” e o “Globo Juvenil Mensal”. Foi neste exato momento, que passou a ser usado de forma popular em todo o território nacional, e o que acontece até o presente, o termo “Gibi”, para designar as revistas de histórias em quadrinhos produzidas e publicadas no país. Iniciativa esta que influenciou outras editoras nacionais a publicarem também quadrinhos12 (ANSELMO, 1970).

Desde meados do século X, por volta dos anos 50 e 60, em que o Brasil passou a produzir tiragens imensas de quadrinhos e a distribuí-las em todo o mercado nacional, o país continua a buscar uma linha totalmente autêntica de quadrinhos, mesmo sendo a importação, ainda, a responsável pela introdução de novos e antigos personagens no cenário nacional, também com republicações de histórias já publicadas décadas atrás, e que até hoje, fazem sucesso e vendem bastante, como O Super-Homem, Homem Aranha e os personagens de Walt Disney.

Diante disso, passam a se destacar no mercado editorial brasileiro, editoras como a

“Brasil América LTDA”, conhecida também como EBAL, criada por Adolfo Aizen13 e uma das maiores em distribuição de quadrinhos no mundo da época; a “Rio Gráfica Editora LTDA”, comandada pelo empresário, falecido no final do século passado, Roberto Marinho; e a renomada “Editora Abril”, de Victor Civita (ANSELMO, 1970 e MOYA, 1977).

Neste contexto da história dos quadrinhos no Brasil, não podemos deixar de mencionar os artistas brasileiros que contribuíram relevantemente, com seus reconhecidos talentos, para o desenvolvimento dos quadrinhos ao longo dos anos em nosso país. Cabe

12 Foi, contudo, nas décadas de 1930 e 1940 que os quadrinhos se generalizaram no Brasil, acompanhando o crescimento e história de milhares de brasileiros, inclusive de nossos pais. 13 Grande empresário da época, Aizen foi um dos ícones do mercado editorial nacional que ajudaram a alavancar o desenvolvimento dos quadrinhos no Brasil, devido as suas iniciativas voltadas para a produção e disseminação de impressos que pudessem dar ênfase aos desenhistas e as histórias em quadrinhos de uma forma geral, inclusive, publicando na forma de quadrinho obras importantes de nossa literatura, como “Os Sertões” de Euclides da Cunha (ANSELMO, 1970).

ressaltarmos, entre tantos outros, com os seus referidos méritos, de profunda competência na difícil arte de escrever roteiros e desenhar as histórias: Ziraldo14 e Maurício de Sousa15.

3.Os quadrinhos e os meios de comunicação

Desde o século XV, passou-se a dar maior importância ao surgimento de técnicas que pudessem possibilitar gravar imagens em determinados suportes, como a Xilogravura16 e a Gravura em Metal17. Após o século XIX, a ilustração passa a se desenvolver cada vez mais, devido à importância da Revolução Industrial que, além de ter transformado o cenário histórico mundial, possibilitou o desenvolvimento da indústria tipográfica18 e, conseqüentemente, da impressão em folhetins publicitários da época (MOYA, 1977), criando impulso para o surgimento dos meios de comunicação de massa, que por sua vez, causaram grandes mudanças nas formas de se comunicar em nossa sociedade.

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