Livro - (im)pertinências da educação o trabalho educativo em pesquisa

Livro - (im)pertinências da educação o trabalho educativo em pesquisa

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(im)pertinências da educação maria lúcia de oliveira (org.) o trabalho educativo em pesquisa

MARIA LÚCIA DE OLIVEIRA (Org.)

Editora afi liada:

CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

(Im)pertinências da educação : o trabalho educativo em pesquisa / Maria Lúcia de Oliveira (org.). – São Paulo : Cultura Acadêmica, 2009.

Inclui bibliografi a ISBN 978-85-7983-022-8

1. Psicanálise e educação. 2. Psicologia educacional. 3. Educadores

– Formação. 4. Prática de ensino. 5. Pesquisa educacional. I. Oliveira, Maria Lúcia de.

09-6219. CDD: 370.15 CDU: 37.015.3

Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP)

© 2009 Editora UNESP

Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 w.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br

Apresentação 7 Maria Lúcia de Oliveira

1 Educação nos braços de Eros 9 Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis

2 Entre príncipes e sapos 17 Glória Radino e Maria Lúcia de Oliveira

3 O lúdico e a educação escolarizada da criança 45 Fernando Donizete Alves

4 Aids e educação escolar: uma investigação sobre a apropriação da Psicanálise na produção científi ca brasileira 73 Patrícia da Silva Pereira

5 Nenhum a menos e o processo de inclusão escolar e social 97 Sérgio Kodato

6 Profi ssionalização docente: a necessária valorização do papel de professor 1 Cilene R. de Sá Leite Chakur

7 Princípios para o uso de jogos na intervenção psicopedagógica: um estudo realizado com crianças do Segundo ano do Ensino Fundamental (1a fase do Ciclo Básico) 121 Ricardo Leite Camargo

8 Pesquisa, Psicanálise e pós-graduação 163 Maria Lúcia de Oliveira

APRESENTAÇÃO Maria Lúcia de Oliveira1

Este livro reúne textos de pesquisadores de diferentes instituições brasileiras de ensino e pesquisa, sobre questões da educação e em particular da educação escolarizada, que, sob diferentes perspectivas, focalizam relações que têm sido estabelecidas entre os campos da psicologia, da Psicanálise e da educação.

Os problemas educacionais abordados têm em comum as conexões entre a formação do educador e a do educando, no âmbito da educação escolarizada.

Os assuntos tratados são o lúdico na educação infantil, o jogo, a cognição e o afeto no desempenho escolar; a profi ssionalização docente (na educação infantil e no ensino fundamental); aprendizagem, fantasia e desenvolvimento emocional; orientação sexual e Aids; e Psicanálise e pesquisa na pós-graduação (na educação superior).

Os trabalhos apresentados problematizam os rumos da educação escolar no Brasil, e oferecem-se como fundamento a refl exões sobre a educação em geral e, como tal, podem ser úteis à valorização do conhecimento acumulado pela aproximação entre campos de pesquisa independentes (o da psicologia e o da educação) sem que com isso se repita o passado psicologizante.

1 Psicóloga, especialista, mestre e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Escolar e do Departamento de Psicologia da Educação da Unesp, campus de Araraquara. Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Psicanálise e Educação” (CNPq).

1 EDUCAÇÃO NOS BRAÇOS DE EROS1

Maria Bernadete Amêndola Contart de Assis2

O presente trabalho consiste em uma releitura de alguns dados obtidos em uma pesquisa realizada por mim e elaborada como tese de doutorado, apresentada ao Instituto de Psicologia da USP, em 1985. O título da tese é Uma análise psicológica do desempenho escolar de crianças de primeira série: aspectos psicodinâmicos e operatórios. O objetivo principal foi investigar a infl uência de fatores afetivos e cognitivos no desempenho escolar de crianças de primeira série. A pergunta principal era: será que existe um perfi l psicológico relacionado ao desempenho escolar? Quais características estariam relacionadas a um bom desempenho e quais estariam relacionadas a um mau desempenho? Para essa apresentação serão focalizados apenas alguns dados sobre aspectos afetivos, para discutir a questão da infl uência dos afetos no aproveitamento escolar das crianças, o que se relaciona diretamente com o tema da palestra “Educação nos braços de Eros”.

1 Palestra apresentada na I Reunião Científi ca “Psicanálise e Educação: Eros e

Thanatos – desafi os para a educação da criança e do adolescente”, realizada em setembro de 2005, na UNESP de Araraquara. 2 Psicanalista, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto.

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Fizeram parte da pesquisa 37 crianças, alunas de primeira série do primeiro grau de uma escola pública. As crianças foram subdividas em dois grupos, com desempenho escolar satisfatório (DE+) e desempenho escolar insatisfatório (DE–). O desempenho escolar foi avaliado pelos professores das crianças. O grupo DE+ ficou composto por 23 sujeitos e o grupo DE– por 14 sujeitos. Todas as crianças foram avaliadas com testes projetivos, Rorschach e CAT, para traçar suas características psicodinâmicas, e também com as provas piagetianas (provas de noção de conservação), para avaliação de suas características operatórias. Os examinadores que aplicavam as provas não conheciam a que grupo pertenciam as crianças que estavam sendo por eles avaliadas. Como já mencionado, serão apresentados somente alguns dados relacionados aos resultados nos testes projetivos, que avaliam o perfi l psicodinâmico das crianças.

Com o teste de Rorschach foram avaliadas duas categorias, Função Intelectual (I) e Afetividade (A).

A Função Intelectual é composta por índices de atenção, concentração, capacidade de estabelecer relações entre diferentes aspectos das situações, capacidade de apreender com objetividade os aspectos globais e detalhes e também condição de utilizar o senso comum na apreensão dos estímulos (participação do pensamento coletivo). Os índices utilizados para essa avaliação foram R, T/R, T/L, F+%, A%, G, K, Ban% e K: k. Essa categoria foi subdividida em duas outras, denominadas Função Intelectual Preservada (I+) e Função Intelectual Prejudicada (I–). As crianças classifi cadas em I+ eram aquelas que apresentavam um bom funcionamento intelectual, tal como medido pelos índices descritos acima. As crianças classifi cadas em I– eram aquelas que apresentavam funções intelectuais prejudicadas por bloqueio (prejuízo na adaptação ao mundo externo) ou por confusões (pensamento fragmentado, impreciso, instável).

A categoria Afetividade, no teste de Rorschach, é composta por índices que avaliam a capacidade da criança para modular seus afetos dentro de um contínuo que vai do controle excessivo (embotamento afetivo) à impulsividade desmedida. Os índices utilizados foram K, k, FC, CF, C e E. A partir desses índices, subdividiu-se a categoria

(IM)PERTINÊNCIAS DA EDUCAÇÃO 1 em duas, Afetividade Controlada (A+) e Afetividade Descontrolada (A–). Na subcategoria A+ foram classifi cadas as crianças que apresentavam uma modulação dos afetos de tal forma que estes se aplicavam às vivências internas e externas, sem prejudicar a avaliação objetiva das situações. Essa subcategoria incluía, portanto, crianças capazes de se envolver afetivamente com as atividades propostas, o que lhes favorecia a atenção, a concentração e a utilização de seus recursos intelectuais. Já na subcategoria A– foram classifi cadas as crianças que apresentavam índices no teste de Rorschach sinalizadores de prejuízo na vivência afetiva, ou seja, crianças cujas emoções eram experimentadas como desestruturantes, intensas e desmedidas. Nesse caso, a característica principal era que a vivência emocional das crianças interferia negativamente na realização das tarefas objetivas (como as que são apresentadas em sala de aula), ou seja, afetava-lhes a atenção, a concentração e a condição de envolvimento com a tarefa a ser produzida.

Como já mencionado, além do teste de Rorschach, foi aplicado também o CAT, um teste projetivo específi co para crianças, em que se pode ter acesso à composição do mundo interno, por intermédio das histórias que a criança relata diante de fi guras de animais que lhe são apresentadas. Dentre as várias categorias que foram analisadas no trabalho original, apenas uma foi escolhida para ser apresentada no presente trabalho, por ter apresentado índices expressivos de relação com o desempenho escolar. Trata-se da categoria denominada Imagos Parentais. As Imagos Parentais são as características psicológicas das fi guras adultas que aparecem nas histórias relatadas pelas crianças. Ao relatarem as histórias, as crianças apresentavam o modo dos animais adultos tratarem as personagens infantis, o que permitiu encontrar basicamente três categorias: (1) imagos protetoras, em que os adultos apareciam como provedores, atentos, promotores de segurança para as fi guras infantis; (2) imagos negligentes, em que as fi guras adultas das histórias eram desatentas, omissas, promotoras de insegurança; (3) imagos agressivas, em que os adultos apareciam nas histórias tendo atitudes agressivas, violentas, promovendo medo nas fi guras infantis.

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Os resultados obtidos na avaliação dos aspectos afetivos das crianças foram os seguintes:

Teste de Rorschach

I+57% 5%
I–43% 95%
A+5,5% 0%
A–4,5% 100%

Grupo DE+ (n=23) Grupo DE– (n=14) 100

0 I+ I– A+ A–

Figura 1 – Porcentagem de sujeitos nos Grupos DE+ (desempenho escolar satisfatório) e DE– (desempenho escolar insatisfatório), classifi cados nas quatro subcategorias analisadas do Teste de Rorschach.

Teste CAT

Imagos Protetoras 67%0%

Grupo DE+ (n=23) Grupo DE– (n=14) Imagos Negligentes 0% 37,5% Imagos Agressivas 3% 62,5%

0 Prot. Negl. Agr.

Figura 2 – Porcentagem de sujeitos nos Grupos DE+ e DE–, classifi cados nas três subcategorias (Imagos protetoras, Imagos negligentes e Imagos Agressivas), da categoria Imagos Parentais do CAT.

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