relatocampoMineração de Carvão

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jasi@cfh.ufsc.br UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina

SAMBUGARO, MIRIAN LOREGIAN mirianls123@yahoo.com.br UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina

Data da Saída de Campo: 07 e 08 de fevereiro de 2006.

Revista Discente Expressões Geográficas. Florianópolis – SC, Nº02, p. 145-164, jun/2006 w.cfh.ufsc.br/~expgeograficas 145

Este relatório é resultado de um trabalho de campo realizado nos dias 07 e 08 de fevereiro de 2006, no âmbito das atividades da disciplina Análise da Qualidade

Ambiental (GCN 3101), ministrada no curso de Mestrado do Programa de Pósgraduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (PG/UFSC). Os alunos foram orientados pelo professor Dr. Luiz Fernando Scheibe, responsável pela cadeira.

A área de estudo foi a Região Sul do Estado de Santa Catarina, onde os alunos puderam observar diversos aspectos, tais como: geologia, geomorfologia, atividades econômicas, aspectos culturais e urbanos.

Na referida saída de campo, com ênfase no estudo da produção e mineração do carvão, foram visitados 6 locais citados abaixo:

1. O CARVÃO COMO FONTE ENERGÉTICA

Os modelos atuais de desenvolvimento tecnológico das sociedades modernas requerem grande número de matérias-primas para sua reprodução, destacando-se as fontes energéticas minerais, que se constituem como bases imprescindíveis aos seus processos produtivos industriais.

No âmbito dos recursos minerais podemos destacar o carvão, que se constitui como importante fonte energética para a humanidade. SUGUIO (1980) afirmou que além de ser usado em usinas termoelétricas e siderurgia, este recurso presta-se à fabricação de vários tipos de plásticos e compostos químicos.

Segundo Parahyba (1987) o carvão é uma das mais tradicionais substâncias minerais produzidas no mundo, sendo resultante da deposição de matéria orgânica vegetal, exposta posteriormente às condições físico-químicas propícias a sua carbonificação.

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Para Nunes et. al. (1990) o carvão pode ser definido como uma rocha sedimentar combustível, formada a partir de determinados vegetais, que sofreram soterramento e compactação em bacias intracratônicas. A atuação da pressão, temperatura, tectônica e o seu tempo de atuação vão determinar a carbonificação da matéria vegetal, que gradativamente sofre a perda de O2 e H2O e é enriquecida em carbono.

A matéria vegetal que se acumula em ambientes anaeróbios (geralmente regiões pantanosas) é convertida em carvão pela decomposição por ação de bactérias, pressão de carga sedimentar e calor geotérmico, implicando em concentração de carbono e aumento da capacidade calorífica (Figura 1).

Suguio (1980) descreveu os principais tipos de rochas carbonosas da série do carvão, sendo:

Figura 1: Ciclo diagenético da formação das rochas carbonosas (Fonte: SUGUIO, 1980).

-Turfa: É um sedimento de origem vegetal que se encontra nas formações sedimentares de idade recente e continuando em formações nos dias atuais; tem poder calorífico baixo, 3000 a 5000 calorias/grama, com teor de carbono variando entre 5% a 65%. Pode apresentar grande teor de umidade, chegando a 95% em alguns casos.

-Linhito: É um carvão acastanhado proveniente de formações cenozóicas e mesozóicas, distinguindo-se das turfas pelo menor teor de celulose; seu poder calorífico é de 4000 a 6000 calorias/grama com teor de carbono entre 65% a 75% e o de água entre 10% a 30%.

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-Hulha (ou carvão betuminoso): É o carvão negro encontrado entre as rochas do

Paleozóico e do Mesozóico Inferior. Seu poder calorífico é de 5000 a 6800 calorias/grama, com teor de carbono entre 75% a 90% e o de água entre 2% a 7%.

-Antracito: Forma, juntamente com a Hulha (ou carvão betuminoso), o denominado carvão mineral. Possui aspecto vítreo e fratura brilhante, com teor de carbono entre 90% e 93% e poder calorífico superior a 8000 calorias/grama. São raras as ocorrências de antracito no Brasil, provindo, geralmente, da destilação do carvão betuminoso encontrado no Sul do País.

No Brasil, como destacou Theis (1990), uma das principais fontes energéticas minerais da nossa economia é o carvão que, descoberto por volta de 1800, passa a ter grande consumo com o aumento da demanda de energia após 1930, quando ocorre a dita Revolução Industrial Brasileira.

As jazidas do carvão brasileiro ocorrem na região Sul, no domínio da Bacia do

Paraná. Havendo predominância da ocorrência deste recurso mineral nos Estado do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, contudo podem ocorrer pequenas quantidades nos Estados do Paraná e São Paulo (SUGUIO, 1980).

As reservas brasileiras totalizam 32 bilhões de toneladas de carvão "in situ". Deste total, o estado do Rio Grande do Sul possui 89,25%, Santa Catarina 10,41%, Paraná 0,32% e São Paulo 0,02% (CPRM, 2006).

Segundo alguns autores (BORTOLUZZI et. al., 1987; CASTRO, 1994; FÚLFARO, 1982; POPP, 1988) a Bacia do Paraná consiste numa extensa bacia intracratônica sulamericana, que se desenvolveu sob a crosta continental a partir do seu preenchimento por rochas sedimentares e vulcânicas de idades mesozóica e paleozóica, entre 75 a 500 milhões de anos antes do presente.

A área da Bacia do Paraná é de 1.700.0 km2; 1.100.0 km2 em território brasileiro. O conjunto de rochas que a compõem representa uma superposição de pacotes depositados em três diferentes ambientes tectônicos, que resultaram da dinâmica de placas do antigo continente Gondwana (CASTRO, op. cit.) (Figura 2).

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Figura 2: Esboço das bacias sedimentares continentais e oceânicas do Brasil, com destaque para a Bacia do Paraná em preto (Adaptado de POPP, 1988).

2. O CARVÃO EM SANTA CATARINA

A Geologia do Estado de Santa Catarina está divida em cinco províncias distintas:

Embasamento Cristalino, Cobertura Vulcano-Sedimentar, Cobertura Sedimentar Gondwânica, Rochas Efusivas da formação Serra Geral e a Cobertura Sedimentar Cenozóica (SANTA CATARINA, 1991). Estas litologias apresentam distintas feições ao longo do território catarinense, sob a forma de ilhas, planícies litorâneas, serras, planaltos e montanhas (PELUSO JUNIOR, 1986) (Figura 3).

O carvão em Santa Catarina é encontrado na Cobertura Sedimentar Gondwânica, ocorrendo na denominada zona carbonífera catarinense (depressão permocarbonífera), de 1.500 km2 de área, compreendendo os seguintes Municípios: Criciúma, Lauro Müller, Maracajá, Orleães, Siderópolis e Urussanga (GUERRA, 1987; NUNES et. al., (1990); SCHEIBE, 2002) (Figura 4).

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Figura 3: Mapa geológico do Estado de Santa Catarina (Fonte: SANTA CATARINA, 1991).

Figura 4: Distribuição do carvão no Estado de Santa Catarina (Fonte: NUNES et. al., 1990).

Em 1822 foram descobertas as primeiras jazidas do minério por tropeiros que habitavam a serra catarinense. Desde a sua descoberta foram realizadas várias tentativas de estudo e exploração, até que em 1876, o Visconde de Barbacena inicia os trabalhos de mineração. O aumento da produção e a melhora nas condições de exploração e beneficiamento do recurso mineral surgem com os investimentos do Estado

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Na Primeira Guerra Mundial, o carvão brasileiro tem seu primeiro surto de exploração, época em que foram ampliados os ramais ferroviários e hidroviários e inauguradas novas empresas de mineração, tais como a Companhia Brasileira Carbonífera Araranguá - CBCA, Companhia Carbonífera Urussanga - CCU, Companhia Carbonífera Próspera, Companhia Carbonífera Ítalo-Brasileira e a Companhia Nacional Barro Branco. O segundo surto veio no Governo Getúlio Vargas, com a construção da Companhia Siderúrgica Nacional - CSN em 1946, e com o decreto determinando a utilização de 20% de carvão nacional em sua operação, na composição do coque (SCHEIBE, 2002; CPRM, 2006).

Segundo Guerra (1987) e Scheibe (op. cit.) os estudos pioneiros dos geólogos Israel

C. White, em 1908, e Hanfritt Putzer, em 1952, foram fundamentais para compreensão de toda extensão das camadas sedimentares da bacia do Paraná. Schneider et. al. (1974) apud Castro (1994) subdividiram as camadas das rochas gondwânicas em um Super Grupo, quatro Grupos e doze Formações e sete Membros geológicos (Figura 5).

Nunes et. al., (1990) afirmaram que as camadas de carvão mais importantes da

Bacia Carbonífera de Santa Catarina encontram-se na parte superior da Formação Rio Bonito, mais precisamente no Membro Siderópolis. Há um total de doze camadas de carvão identificadas na região, designadas desta maneira do topo para base: Treviso, Barro Branco, Irapuá, “A”, “B”, Ponte Alta, Bonito Superior, Bonito Inferior, Pré-Bonito Superior, Pré-Bonito Inferior “C” e “D” (Figura 6).

Figura 5: Coluna estratigráfica das rochas gondwânicas do sul do Brasil (Fonte: CASTRO, 1994).

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Figura 6: Principais camadas de carvão do Estado de Santa Catarina (Modificado de CPRM, 2006).

3. A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL NA BACIA CARBONÍFERA CATARINENSE

A problemática ambiental vem sendo tema de estudo de várias ciências na atualidade, num quadro crescente de interesse à medida que aumenta o poder de degradação e devastação imposto pela humanidade à natureza.

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