AU-7-PU2-RESUMO-O que e cidade-Marcela-Jambo

AU-7-PU2-RESUMO-O que e cidade-Marcela-Jambo

(Parte 1 de 2)

Maceió 2013

Resumo crítico sobre o livro “O que é cidade” da autora Raquel Rolnik; apresentada à Faculdade de Ciências Exatas e Tecnológicas (FACET), do Centro de Arquitetura e Urbanismo como complemento da 1ª Avaliação Formativa da Disciplina Planejamento Urbano I.

Prof.ª: Débora Cavalcanti

Maceió 2013

ROLNIK, Raquel. O que é Cidade. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 2004. 87p. (Coleção Primeiros passos; 203)

O livro “O que é a cidade” de Raquel Rolnik apresenta uma introdução e dois capítulos: “definindo a cidade” e a “cidade como capital”. O primeiro capítulo enfatiza definições sobre a cidade por meio de analogias, com aspectos comuns e essenciais ao conceito de cidade. A cidade como ímã, como escrita, como mercado e referências históricas como civitas e polis, auxiliam como elementos de comparação e conceituação para entender a evolução da cidade. O segundo capítulo trata da cidade capitalista e de suas origens, modificações, conflitos sociais, contrastes; sobretudo sobre a cidade industrial.

Rolnik disserta acerca dos fenômenos urbanos, além de perpassar pelos momentos principais que fizeram parte da evolução da cidade, sua origem, desenvolvimento, elementos transformadores e seus principais aspectos.

Para Raquel Rolnik, a cidade é uma referência, implantada sob a natureza, oriunda da imaginação e trabalho do ser humano. Tal obra coletiva origina-se com o modo de vida sedentário interferindo na relação do homem com a natureza.

Ademais, a cidade é um complexo de aspectos geográficos, sociais, econômicos e políticos necessários a sua existência. Esses âmbitos podem ser considerados atemporais conservando as principais características em relação ao território, gestão da vida coletiva e simbologias.

A autora pontua a cidade contemporânea e sua ideia de infinito em relação às cidades antigas que possuíam muralhas, buscando expansão e circulação. E ainda afirma que a cidade registra e é em si, prova material de sua própria história.

Definindo a cidade

Para Rolnik, o espaço urbano significa essencialmente a predominância da cidade sobre o campo, caracterizando a urbanização como um movimento crescente de absorção das zonas agrícolas.

A autora encontrou uma forma de expressar uma característica essencial da cidade dotada de atemporalidade, por meio da analogia de um ímã. Para ela, a cidade é como um ímã que atrai, reúne e concentra os homens.

A definição de um espaço permanente com a implantação da agricultura modifica a forma de ocupação espacial, bem como sua apropriação. Os primeiros templos eram locais de reunião dos grupos que simbolizavam a união, como um ímã.

Para essas construções serem viáveis era necessário um trabalho conjunto regulado com normas, comunicação e organização política. Historicamente, a escrita e a cidade ocorrem no mesmo período, ambos viabilizariam a fruição do trabalho coletivo.

Com a construção das cidades, há o surgimento do excedente produtivo que por sua vez viabiliza a existência da cidade. E a escrita realiza o registro da acumulação de riquezas e de conhecimento.

Junto à arquitetura urbana, a escrita compõe uma forma de memória da cidade, que pode ser ‘lida’ ora no papel, ora nos desenhos, formas e tipologias que apresenta. A história da cidade pode ser lida em suas construções, simbologias e significados1 que se renovam com as transformações.

A ideia de cidade implica a ideia de vida coletiva em que todos fazem parte de um conjunto. Para a organização desse “todo”, há o fluxo dirigido da movimentação das pessoas regulado no cotidiano (ex.: semáforos, filas, impostos, etc.). Essa forma de organização estabelece ordem por meio da permissão ou do bloqueio desses movimentos.

A gestão coletiva é presente nas cidades seja qual for seu tamanho, tal necessidade de organização na cidade é feita por um poder urbano, sob uma autoridade para gerir a vida pública na cidade.

Historicamente, a realeza é a primeira forma de gestão, dotada de um poder centralizado e despótico com o escopo de conquista e defesa territorial. A cidadela é protegida por muralhas e seus moradores a mantêm em troca dessa proteção. Há uma dinâmica de exploração e privilégio em relação à administração do excedente social. A cidade, portanto, desde seu início remete à forma de organização de relação política.

1 Vivos ou traços de memória. Para Raquel, a preservação da memória é a conservação do “texto”, mas representa a morte para a cidade.

A personificação mais nítida do aspecto político da cidade é a polis, cidadeestado grega, a qual está ligada diretamente como uma prática política da comunidade mais que uma referência física a que remete a sua acepção.

O mesmo ocorre com a civitas dos romanos, em que há o sentido da cidade entendida como participação dos cidadãos na vida coletiva. Por sua vez, o termo “cidadão” refere-se ao indivíduo detentor de direitos de participação na vida política, e não apenas morador da cidade.

A centralidade da cidade está ligada à concentração espacial, que pode ocorrer por exemplos nas praças, e mais atualmente com o advento da internet não está tão presente.

A autora disserta sobre a cidade como mercado, como sendo um espaço que concentra pessoas, as quais produzem de forma colaborativa por meio da divisão do trabalho. A especialização do trabalho com a possibilidade de troca de produtos essências para a sobrevivência configura o mercado.

Há um intercâmbio produtivo entre meio urbano e meio rural, e entre uma cidade e outra, viabilizado pela evolução dos mercados e especialização dos ofícios. Na Grécia antiga de dimensões política e mercantil não se davam no mesmo espaço, ao contrário do que ocorria em Roma. Ao final da Idade Média, a configuração de cidade dominada pelo mercado é típica das cidades capitalistas.

A cidade do capital

A cidade mercantilizada reorganiza o espaço urbano gerando uma maior densidade populacional2 . A autora cita a autonomia da cidade feudal e da forma como foram sendo construídas as cidades medievais, sempre acompanhando o relevo. Neste período, a arquitetura simples ocupa o espaço espontaneamente com desenhos irregulares: “a cidade adaptando-se à natureza”.

Com o crescimento das cidades e do mercado, há a crise do sistema feudal, já que as possibilidades de trabalho para os servos se ampliaram, há então a migração para as cidades. Os feudos perdem poder, e a economia natural passa a ser mercantil.

A produção comercial enriquece um grupo social (atividade manufatureira): o patriciado urbano. Há investimentos do patriciado nas catedrais como estratégia frente

2 Na maioria, pessoas que trabalhavam para sua subsistência e mercadores.

ao poder da igreja, formando assim uma espécie de aliança com esta instituição e com os nobres que pertencem à monarquia absoluta. Tal união favorecia as atividades comerciais e possibilitou a unificação de moedas. O Estado era fortalecido com o crescimento do mercado e da população e com isso aumentava a renda.

Com o Estado Moderno há a reorganização das cidades: a vila medieval se torna a cidade capital; a terra comum torna-se mercadoria; e a organização social da cidade é dividida em novas classes. A redefinição do que é urbano interfere na organização da cidade na forma de divisão das terras e do conceito de estado, cidade e cidadãos.

A segregação caracteriza-se como um “movimento de separação de classes sociais e funções” na visão da autora. Pode-se observar o fenômeno da segregação espacial na cidade quando há diferentes partes da mesma cidade que apresentam características próprias com suas respectivas classes e funções.

A segregação urbana é sentida por demarcações imaginárias ou físicas em relação às classes ou funções ou mesmo atenção recebida por parte do governo.3

Os limites visíveis ou invisíveis são inerentes à própria organização do espaço tanto contemporâneo quanto nas cidades medievais. É o caso do burgo medieval europeu e a cidade colonial brasileira, o primeiro apresenta limites bem visíveis e o segundo possui uma pluralidade presente no mesmo espaço tendo limites invisíveis. Nas cidades colônias brasileiras, o espaço polivalente em relação à função e às classes sociais. A distância física social era pouca, o que se destacava era a diferença no vestuário, modos, costumes, demarcando hierarquias.

Pode-se perceber a segregação espacial após o desenvolvimento do mercado na cidade. O movimento de segregação espacial deu-se inicialmente com o trabalho de funcionários do governo em que a residência e o local de trabalho não coexistiam, como no caso dos artesãos.

A segregação espacial foi impulsionada no Brasil com o fim da escravidão e o aumento do trabalho livre, resignificando a relação do espaço público e privado na cidade.4 A casa se torna oposição da rua. A organização familiar também sofreu mudanças: a mulher passa a ser especialista do lar e as crianças ingressam na vida escolar.

3 Elementos produtores de segregação.

4 Arquitetura do isolamento, segundo a autora.

A autora cita o padrão burguês de habitação como uma norma social, em que a sobrevivência das pessoas pressupõe a superposição de funções e o uso coletivo do espaço. A classe dominante se distancia das classes pobres, e há uma organização do território popular como resultado da luta dos trabalhadores.

Raquel Rolnik afirma que a segregação possui duas bases: a política e econômica. A base política é paradoxal, é em si produtor e produto do conflito social, pois a separação das classes é necessária para evitar o conflito e quanto mais visível, maior é o conflito. A base econômica consiste na mercantilização dos bens necessários à vida e na terra como mercadoria.

A intervenção do Estado na cidade é um elemento participante no processo de segregação em todo o desenvolvimento, produção ou gestão. O poder urbano consiste na “autoridade político-administrativa responsável pela gestão da dimensão política”, e evoluiu com as transformações sociais econômicas e políticas com o surgimento do capitalismo.

A incorporação da classe social dominante detentora de acumulação de capital a composição do aspecto político como uma forma de favorecimento representa uma grande transformação do século XVII.

A forma de ocupação urbana se torna alvo de investimento, em que a mercadoria passa a sofrer intervenção estatal para divisão, venda e ocupação. Uma forma de intervenção do Estado na ocupação da cidade capitalista é o planejamento urbano inicialmente através de projetos e cálculos.

Os mecanismos utilizados para planejar as cidades consistiam na utilização de ruas retas necessário para o fluxo de tráfego e ar; de zoneamento funcional, no qual há a separação de zonas residências e industriais; as áreas de reservas; e o desenho simétrico e regular na cidade.

O processo de construir cidades ou casas sofre transformação e deixa de ser algo espontâneo e empírico para obedecer a princípios de representação, ordem, medida, de forma racional. Para isso, houve o registro em tratados de arquitetura e urbanismo com medidas e cálculos das obras já produzidas e de novos modelos.

Há uma modificação na forma de pensar e trabalhar: especialização de tarefas; separação do trabalho intelectual e manual; capital e saber científico como superiores à prática.

As cidades ideias serviram como parâmetro para um programa de intervenção estatal urbano em relação à leitura das cidades (circulação de fluxos); ideia de ordenação materialista (regularidade e repetição) e planejamento estatal como redução ou extinção dos problemas. Ademais, o controle estatal por meio do domínio e esquadrinhamento dos espaços.

A cidade barroca representa a primeira cidade com traço racional previamente projetada e planejada; possui ruas retas, casas alinhadas, com substituição dos traços irregulares por grandes avenidas nas quais há maior investimento de infraestrutura, em que predomina residências e locais de lazer da classe dominante.

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