Projeto de intervenção ergonômica em carros esteiras para mecânicos da oficina Visconde Rodas da cidade de Caruaru – PE.

Projeto de intervenção ergonômica em carros esteiras para mecânicos da oficina...

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CAMPUS AGRESTE

CURSO DE DESIGN - ERGÔNOMIA DO PRODUTO – PROFESSOR/ORIENTADOR- BRUNO BARROS

PROJETO DE INTERVENÇÃO ERGONÔMICA

Amaro Junior, Claudio Galvão, Jeiel Silva, Maíra Fernando.

Caruaru, maio de 2012.

Projeto de intervenção ergonômica em carros esteiras para mecânicos da oficina Visconde Rodas da cidade de Caruaru – PE.

Fernando, Maíra.

maira2010fernandes@hotmail.com

Galvão, Cláudio;

j.c_galvao@hotmail.com

Junior, Amaro;

jangobuxafeet@hotmail.com

Silva, Jeiel;

jeielsilva_@hotmail.com

Resumo:

O conteúdo desse trabalho consiste em apresentar uma intervenção ergonômica para carros esteiras para mecânicos tendo como estudo de caso a oficina Visconde Rodas situada na cidade de Caruaru-PE. Buscando, assim, resolver problemas relacionados à execução do trabalho no cotidiano e a segurança do público por meio de um redesign para o produto em questão.

Palavras Chave: ergonomia, carrinho esteira, redesign.

  1. Introdução

É sabido que após a Revolução Industrial houve um avanço tecnológico responsável por novas formas de trabalhar. O ambiente de trabalho, agora, cercado por “maravilhas” tecnológicas, obrigou o trabalhador a se adequar a esse novo meio para atender as novas necessidades humanas e, consequentemente, tais novidades, trouxeram consigo também, problemáticas para o mesmo, geralmente ligadas a sua saúde e ao seu bem estar, por conta das posturas adotas no ambiente de trabalho modificado. Para tentar amenizar esses problemas, como as Lesões por Esforços Repetitivos (LER), conhecidas atualmente, como Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT), engenheiros, fisiologistas e psicólogos deram inicio a ergonomia, a ciência do conforto. (GRANDJEAN, 1998).

A ergonomia ocupacional tem ajudado a prevenir ou amenizar vários acidentes e lesões relacionados aos esforços causados no trabalho. Acidentes que podem ser resolvidos com um simples encosto para as costas, por exemplo, ou um apoio para os pés, entre outras possíveis soluções.

Evidenciados após a Segunda Guerra Mundial, quando o número de veículos automobilísticos ganharam grande escala de produção, os mecânicos, são profissionais que trabalham acima de 8 horas diárias na maioria das vezes, sofre uma tensão muito grande, por estar lidando na maior parte do tempo com produtos químicos, posturas inadequadas e movimentos repetitivos em posições estáticas. Os mesmos estão sujeitos a, inclusive, adquirir doenças graves como, por exemplo, intoxicação crônica e dermatites ocupacionais, devido à limpeza dos componentes e uso inadequado dos produtos químicos. Além do mais dor muscular é rotineira. Tais dores oscilam entre a coluna vertebral, ombros, braços e antebraços, nuca e pescoço pela postura imprópria e, muitas vezes, por falta de um carro esteira confortável e apropriado para que eles possam realizar o trabalho de forma cômoda.

Percebendo a dificuldade desses profissionais em trabalhar sem o devido apoio necessário, este trabalho tem o objetivo de realizar um redesign do carro esteira utilizado na atividade de concertos, e troca de peças pelos mecânicos. Para tanto, realizamos uma entrevista exploratório-descritiva (GIL, 2008) com os mecânicos da oficina Visconde Rodas, visando conhecer os principais problemas causados pelo mobiliário adotado por eles na realização dos trabalhos diários. Baseado na tabela de desconforto postural de Corllet, e através de uma análise de imagens das fotografias tiradas dos profissionais na própria oficina durante a execução das tarefas, desenvolveu-se um carro esteira de mecânico elaborado para atender as necessidades aliando ao máximo praticidade e conforto.

  1. Fundamentação teórica

O lucro é a alma do sistema capitalista no qual estamos inseridos, e isso significa que muitas vezes o mais importante para os fabricantes é vender bem do que atender as devidas necessidades dos consumidores. Tal fato gera produtos de design com deficiências, e por sua vez, esses maus projetos circulando no mercado significa que mais pessoas cestão correndo riscos de futuros problemas de saúde. Essa realidade contradiz os fundamentos de Kreifeldt (1992) onde defende o design como processo de redução de riscos combatendo as possíveis falhas dos produtos tendo como ponto de partida as devidas necessidades do consumidor.

Contudo, como todos os problemas da sociedade exigem soluções, temos a ergonomia como um caminho pelo qual se faz preciso seguir quando o desejo real é a confecção de um produto que além de vender bem no mercado comporte as normas de segurança visando o bem estar de quem os utiliza. Norman (1988) evidencia que os bons projetos deixam claras as interpretações entre forma e função e isso inclui o aspecto de novas tecnologias que normalmente são produzidas com o passar dos anos.

“Se o design de produtos de uso diário for direcionado pela estética, a vida pode ser mais prazerosa para os olhos, mas menos confortável; se direcionada pela usabilidade, ela pode ser mais confortável, mas mais feia. Se os custos ou facilidade de fabricação dominar, os produtos podem não ser atrativos ou funcionais. Claramente, cada consideração tem o seu lugar. Os problemas ocorrem quando uma tende a dominar as outras.” (Norman, 1988p. 151).

Nesse contexto, é perceptível que se faz preciso um determinado e minucioso equilíbrio entre os atributos de design que envolve função, estética e prática para um projeto de sucesso. Nesse sentido cabe ao designer ministrar com eficácia os conflitos de interesses para que todas as partes sejam usadas de forma satisfatória e sem exageros.

Conforme Dul e Weerdmeester (1998) a ergonomia é aplicada a equipamentos e sistemas no intuito de aperfeiçoar e garantir a segurança no trabalho exercido com os mesmos. Cabe a ela o papel fundamental de melhoria nos aspectos usabilidade, conforto, segurança, facilidade de uso, aprendizado e etc. Tais abordagens nos levam a definir a ergonomia como via que deixa possível a análise e interpretação entre os homens e os seus artefatos construídos das mais variadas formas para atender os diversos fins. (SOARES, 1998).

A partir do momento que o mercado toma para si a preocupação de criar os seus produtos tendo como bases a qualidade e a funcionalidade, apoiadas sobre os pilares da ergonomia, torna-se óbvio o pensamento que os mesmos tendem apenas a ganhar com essa atitude. Pois como já disseram Griffin e Hauser (1993) quanto melhor for à qualidade mais ganha à empresa.

Tendo como ponto de partida os artefatos, esse pensamento rege todos os produtos comercializados que nos cercam. Desde os mais simples para execução de tarefas corriqueiras como os mais complexos como os tantos automóveis que circulam pelos grandes centros urbanos.

“O automóvel, mais do que qualquer outro objeto de consumo de massa, moldou a construção da modernidade no século XX. (...) Ele constitui o centro narcísico de todo universo social da mobilidade, e Como um potente espelho refletor de um conceito de sociedade tecnocentrada e promotora de ideais individualistas” (RAMOS, 2003: 05).

Se por um lado os automóveis são responsáveis pela locomoção dos seus donos pelo mundo e isso lhes confere certo poder, por outro, eles, como todos os produtos, não são imunes a possíveis falhas no seu sistema, nesse caso, entra em cena o profissional responsável pela manutenção e correção de defeitos dos mesmos: Os mecânicos. Com tanta importância quanto os veículos, numa situação de dependência para ambos existirem, o mecânico é um profissional que está exposto a vários riscos de lesões no trabalho, por executar afazeres com os membros superiores elevados, e com as costas curvadas ou torcidas, causando fadiga ou até mesmo afastamento em casos mais extremos. A postura não é tudo que envolve os problemas dos mecânicos no cumprimento das suas tarefas no dia-a-dia.

Os aparelhos, como ferramentas e carrinhos são responsáveis também pelos mesmos enfrentarem dificuldades quando muitos deles não têm os equipamentos corretos para promover o trabalho. Tais questões envolvem os assuntos que abordam o universo da ergonomia fazendo-se necessária para solucionar tais problemas.

Tomando como base o mecânico automotivo, a profissão é formada em sua maioria por trabalhadores autônomos ou de micro e pequenas empresas. A demanda deste mercado tem crescido consideravelmente pelo aumento da frota de carros em circulação, e exigências de melhores serviços pelo consumidor, fazem-se necessárias melhorias dentro desse setor, já que é rotineiro encontrar os mecânicos envolvidos por dificuldades quanto aos equipamentos usados.

Partindo da observação de que normalmente nas oficinas os mecânicos utilizam carros esteiras no desempenho de suas capacidades profissionais, focamos nossa pesquisa nesse objeto em especifico. O componente é uma espécie de “cama” com rodas, apropriada para que o mecânico possa efetuar com precisão trabalhos na parte inferior dos veículos onde eles precisam deitar-se em baixo dos carros para consertos. Disponíveis no mercado em materiais sintéticos e em aglomerados possuem também uma infinidade de marcas que os produzem com preços diversos.

Tivemos como local para estudo de caso a oficina Visconde Rodas situada na cidade de Caruaru-PE, precisamente na Rua Silva Jardim, número 99. Como pode ser observado abaixo:

Imagem 01. Retirada do Google Maps.

Imagem 02. Fachada da empresa analisada.

A oficina é uma empresa de pequeno porte que atua com autonomia no mercado regional e dispõe no seu quadro de funcionários dois mecânicos. Os funcionários utilizam o carro esteira da marca Vonder, modelo 3579645400. A esteira é dobrável para facilitar no armazenamento visando ganhar espaço. Tem uma estrutura metálica com uma base de aglomerado, forrado com espuma e revestido com material sintético além da cor preta na sua composição. Possui também um apoio para cabeça, seis rodízios giratórios com rodas de plástico e dimensões variáveis entre 46 cm x 42,5 cm x 20 cm, quando fechada e 91 cm x 42,5 cm x 10 cm aberta. Para melhor entendimento pode ser conferida uma imagem da mesma abaixo:

Imagem 03. Carro esteira Vonder da oficina Visconde Rodas.

Os mecânicos entrevistados para realização da pesquisa enfrentam uma jornada de trabalho de oito horas semanais que podem variar conforme a quantidade de trabalho ou nível de dificuldade dos mesmos. Mas invariavelmente usando o carro esteira Vonder. As pausas para descanso acontecem exclusivamente quando os mesmos não têm mais carros para serem concertados.

  1. Procedimentos metodológicos adotados.

3.1 Aplicação do questionário

De acordo com o método de pesquisa de Gil (2008) iniciamos a pesquisa na Visconde Rodas, Caruaru-PE, através de uma simples e prática entrevista exploratório-descritiva. Por meio desta, abordamos os funcionários da oficina com um questionário a ser respondido e uma tabela de desconforto postural para as devidas anotações e análises. O questionário de perguntas objetivas fechadas visou tanto conhecer as devidas condições físicas do posto de trabalho, como avaliar a relação conforto/desconforto que os empregados enfrentam todos os dias na utilização do carro esteira. O foco da pesquisa são os problemas de caráter físicos, cognitivos e organizacionais, tomando como objeto de estudo para o problema o uso ou desuso do carro esteira utilizados pelos mecânicos da oficina.

3.2 Aplicação do mapa de desconforto postural de Corllet

Tendo como base a análise postural de Corllet (1995) o intuito foi identificar quais são os pontos de dor e desconforto do corpo em relação ao carro esteira, e desenvolver a partir daí, dentro das medidas antropométricas de cada indivíduo, um redesign para que o produto se adapte ao tamanho, largura e peso do usuário sobre os preceitos ergonômicos vigentes.

As imagens abaixo foram tiradas na oficina junto com a entrevista para que se possa fazer uma análise ergonômica mais profunda dos equipamentos e posturas adotadas para maior como conforto.

Imagem 04. Carro esteira do estudo de caso.

Imagem 05. Um dos entrevistados no ambiente de trabalho.

Imagem 06. O funcionário enfrenta dificuldades

para manter-se deitado com o corpo e cabeça apoiados.

    1. Análise dos resultados e problematizações ergonômicas

De acordo com o levantamento de dados da pesquisa, através do questionário e das imagens acima, é possível perceber o desconforto dos mecânicos em relação ao carro esteira utilizado.

Nossos entrevistados, Jorge e Rafael, tinham 22 e 29 anos de idade com pesos respectivamente de 74 e 82 kg, ambos casados, e medindo 1.66m de altura, sendo que um deles trabalha na empresa há seis meses (Rafael) e o outro há quatro anos (Jorge), com uma carga horária de 8 horas semanais. Os dois residem em Caruaru-PE fato que facilita o acesso ao trabalho.

Tanto Jorge quanto Rafael afirmam não possuir nenhuma doença crônica para qual precisem tomar algum remédio constantemente. Não adoecem com frequência e as últimas anomalias que tiveram foram gripes e diarreias.

Os locais de desconforto sentidos pelos dois nos últimos trinta dias habitam a região superior do corpo. Jorge declarou que normalmente sente dores na nuca, no ombro, nas costas e no joelho. Já Rafael alega sentir muito pouco algum desconforto ou incômodo, mas quando ocorre são nas costas e nos pés que ele diz ter doído muito nos últimos trintas dias. Os entrevistados diferem nas opiniões quando o assunto é alguma espécie de alteração nas atividades do dia-a-dia que tenha sido ocasionada por algum exercício no trabalho. Rafael responde não ter sentido nada além do cansaço que é normal, entretanto em Jorge as dores de cabeça, foram citadas como um fator que dificultou suas atividades diárias tanto no trabalho como no lazer.

As relações pessoais com os colegas segundo Jorge é muito ruim e com o patrão é um tanto que regular. Rafael conta que tem bom relacionamento tanto com os colegas como com o patrão.

Em relação a intensidades de dores mais fortes, a região citada por Jorge foi à costa inferior com avaliação 1 de dor e joelho com avaliação 2. Para Rafael os pontos de dores mais fortes foram costas inferior com 1 e pés com 2.

As sensações de desconfortos classificadas como mais intensas por Rafael foram: sempre acordar cansado, frequentemente tem insônia, raramente fica irritado, mas nunca fica deprimido ou insatisfeito com o trabalho. Ao passo que seu colega de trabalho, Jorge, declara sempre estar insatisfeito com o trabalho, frequentemente fica irritado, mas nunca acorda cansado, deprimido ou tem insônia.

Tendo como centro das atenções o próprio local de trabalho voltado para os aspectos iluminação, ruído, temperatura, espaço para circulação no ambiente, cores, ventilação e odor os dois mecânicos classificam como pequeno o espaço para circulação no ambiente de trabalho.

Quanto às cores do lugar dizem gostar. No requisito ruído Jorge faz questão de deixar claro que muito o incomoda assim como o próprio Rafael. A temperatura foi classificada como muito quente pelos dois causando quase sempre fadiga. A iluminação foi considerada boa por Rafael, mas nem tanto para Jorge. O odor do ambiente de trabalho foi classificado por Rafael como não existente, porém Jorge discorda e diz não gostar do cheio forte de graxa, óleo, gasolina, tinta e seus derivados. Os dois concordam ao afirmar que a ventilação é péssima.

Foram aplicadas duas tabelas de desconforto postural, Corllet (1995), para identificação dos locais de dores e escalas de níveis de dor que variam de 1 a 5 como explanadas abaixo:

1. Nenhuma dor;

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