Métodos de Controle de Plantas Daninhas

Métodos de Controle de Plantas Daninhas

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Capítulo 2 MÉTODOS DE CONTROLE DE PLANTAS DANINHAS

Antonio Alberto da Silva, Francisco Affonso Ferreira, Lino Roberto Ferreira e José Barbosa dos Santos

1. INTRODUÇÃO

A escolha do método de controle das diversas espécies de plantas daninhas presentes na área de interesse deve levar em conta as condições locais de mão-de-obra e de equipamentos, sem se esquecer dos aspectos ambientais e econômicos. Os métodos de controle abrangem desde o arranque das plantas com as mãos até o uso de sofisticados equipamentos de microondas para exterminar as sementes no solo (DEUBER, 1992). A redução da interferência das plantas daninhas, considerando uma cultura, deve ser feita até um nível no qual as perdas pela interferência sejam iguais ao incremento no custo do controle, ou seja, que não interfiram na produção econômica da cultura.

As possibilidades de controle de plantas daninhas incluem os métodos preventivo, cultural, mecânico, biológico e químico. No entanto, para sustentabilidade dos sistemas agrícolas, é importante a integração das medidas de controle observando-se as características do solo, do clima e aspectos socioeconômicos do produtor. A realização da integração compatível, ambiental e economicamente, demanda profundo conhecimento das estratégias disponíveis, promovendo equilíbrio com as medidas de manejo do solo e da água, além do controle de pragas e doenças. Para adoção de qualquer medida de controle, o meio no qual as plantas daninhas se encontram, deve ser tratado como um ecossistema capaz de responder a qualquer mudança imposta, dessa forma, não se limitando à aplicação de herbicidas ou uso de qualquer outro método isoladamente. Alem disso, procurar-se-á incentivar a melhoria da qualidade de vida, tanto do agricultor diretamente envolvido, como de toda população que será beneficiada pela cadeia produtiva.

2. CONTROLE PREVENTIVO

O controle preventivo de plantas daninhas consiste no uso de práticas que visam prevenir a introdução, o estabelecimento e, ou, a disseminação de determinadas espécies-problema em

TÓPICOS EM MANEJO INTEGRADO DE PLANTAS DANINHAS – CAPÍTULO 2 - Métodos de Controle de Plantas Daninhas 41 áreas ainda por elas não infestadas. Estas áreas podem ser um país, um estado, um município ou uma gleba de terra na propriedade.

Em níveis federal e estadual, há legislações que regulamentam a entrada de sementes no país ou estado e sua comercialização interna. Nestas legislações encontram-se os limites toleráveis de semente de cada espécie de planta daninha e também a lista de sementes proibidas por cultura ou grupo de culturas.

Em nível local, é de responsabilidade de cada agricultor ou cooperativas, prevenir a entrada e disseminação de uma ou mais espécies daninhas, que poderão se transformar em sérios problemas para a região. Em síntese, o elemento humano é a chave do controle preventivo. A ocupação eficiente do espaço do agroecossistema pela cultura diminui a disponibilidade de fatores adequados ao crescimento e desenvolvimento das plantas daninhas, podendo ser considerado uma integração entre a prevenção e o método cultural.

As medidas que podem evitar a introdução da espécie na: utilizar sementes de elevada pureza; limpar cuidadosamente máquinas, grades e colheitadeiras; inspecionar cuidadosamente mudas adquiridas com torrão e também toda a matéria orgânica (esterco e composto) proveniente de outras áreas; limpeza de canais de irrigação; quarentena de animais introduzidos; etc.

A falta desses cuidados tem causado ampla disseminação das mais diversas espécies.

Como exemplo, tem-se a tiririca (Cyperus rotundus), que possui sementes muito pequenas e tubérculos que infestam novas áreas com grande facilidade, por meio de estercos, mudas com torrão, etc., o picão-preto (Bidens pilosa) e o capim-carrapicho (Cenchrus echinatus), além de outras espécies, se espalham por novas áreas por meio de roupas e sapatos dos operadores, pêlos de animais, etc. Já o capim-arroz (Echinochloa sp.) e o arroz-vermelho (Oryza sativa) são distribuídos junto com as sementes de arroz.

3. CONTROLE CULTURAL

O controle cultural consiste no uso de práticas comuns ao bom manejo da água e do solo, como rotação de cultura, variação do espaçamento da cultura, uso de coberturas verdes, etc. Essas práticas contribuem para reduzir o banco de sementes de espécies daninhas. Consiste, então, em usar as próprias características ecológicas das culturas e das plantas daninhas, visando beneficiar o estabelecimento e desenvolvimento das culturas.

Rotação de culturas: cada cultura agrícola geralmente é infestada por espécies daninhas que possuem exigências semelhantes às da cultura ou apresentam os mesmos hábitos de crescimento; exemplos: capim-arroz (Echinochloa sp.), em lavouras de arroz; apaga-fogo

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(Alternanthera tenella), em lavouras de milho; mostarda, em lavouras de trigo; e caruru-rasteiro (Amarantus deflexus), em cana-de-açúcar. Alguns problemas que podem ser facilmente resolvidos com a prática da rotação: infestação de maria-pretinha (Solanum americanum) e joáde-capote (Nicandra physaloides) nas culturas de tomate e batata tratadas com o herbicida metribuzim. Em todos esse casos, a rotação quebra o ciclo de vida das espécies daninhas, impedindo seu domínio na área. Quando são aplicadas as mesmas técnicas culturais seguidamente, ano após ano, no mesmo solo, a interferência destas plantas daninhas aumenta muito. Quando o principal objetivo é o controle de plantas daninhas, a escolha da cultura em rotação deve recair sobre plantas com hábito de crescimento e características culturais bem contrastantes.

Variação do espaçamento: a variação do espaçamento entre linhas ou da densidade de plantas na linha pode contribuir para a redução da interferência das plantas daninhas sobre a cultura, dependendo da arquitetura das plantas cultivadas e das espécies infestantes. A redução entre linhas geralmente proporciona vantagem competitiva à maioria das culturas sobre as plantas daninhas sensíveis ao sombreamento. Nesse caso, com a redução do espaçamento entre fileiras, desde que não exceda o limite mínimo, há aumento da interceptação de luz pelo dossel das plantas cultivadas. Esse efeito é dependente de fatores como o tipo da espécie a ser cultivada, características morfofisiológicas dos genótipos, espécies de plantas daninhas presentes na área e época e condições climáticas no momento de sua emergência, além das condições ambientais. Balbinot e Fleck (2005), trabalhando com cultivares de milho, verificaram que à medida que o espaçamento entre fileiras foi reduzido, o aumento em produtividade foi dependente da infestação de plantas daninhas e da cultivar avaliada.

Coberturas verdes: as coberturas verdes são culturas geralmente muito competitivas com as plantas daninhas. Tremoço, ervilhaca, azevém anual, nabo, aveia e centeio são usadas na região Sul do Brasil. Nas regiões subtropicais predominam mucuna-preta, crotalárias, guandu, feijão-de-porco e lab-labe. O principal efeito é a redução do banco de sementes aliado à melhoria das condições físico-químicas do solo; entretanto, estas plantas podem possuir também poder inibitório sobre outras e podem reduzir as infestações de algumas espécies daninhas após a dessecação ou serem incorporadas ao solo, devendo ser bem escolhidas para cada caso. A presença da cobertura morta cria condições para instalação de uma densa e diversificada microbiota no solo, principalmente na camada superficial com elevada quantidade de microrganismos responsáveis pela eliminação de sementes dormentes por meio da deterioração e perda da viabilidade.

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SILVA, A.A., & SILVA, J.F. 4. CONTROLE MECÂNICO

São métodos mecânicos de controle de plantas daninhas o arranque manual, a capina manual, a roçada, e o cultivo mecanizado.

O arranque manual, ou monda, é o método mais antigo de controle de plantas daninhas.

Ainda hoje é usado para o controle em hortas caseiras, jardins e na remoção de plantas daninhas entre as plantas das culturas em linha, quando o principal método de controle é o uso de enxada.

A capina manual feita com enxada é muito eficaz e ainda muito utilizada na nossa agricultura, principalmente em regiões montanhosas, onde há agricultura de subsistência, e para muitas famílias, esta é a única fonte de trabalho. Contudo numa agricultura mais intensiva, em áreas maiores, o alto custo da mão-de-obra e a dificuldade de encontrar operários no momento necessário e na quantidade desejada fazem com que este método seja apenas complementar a outros métodos, devendo ser realizado quando as plantas daninhas estiverem ainda jovens e o solo não estiver muito úmido.

Em pomares e cafezais, a roçada manual ou mecânica é um método muito importante para controlar plantas daninhas, principalmente em terrenos declivosos, onde o controle da erosão é fundamental. O espaço das entrelinhas das culturas é mantido roçado e, por meio de outros métodos de controle, a fileira de plantas, em nível, é mantida no limpo. Também em terrenos baldios, beiras de estradas e pastagens a roçada é um método de controle de plantas daninhas dos mais importantes.

O cultivo mecanizado, feito por cultivadores tracionados por animais ou tratores, é de larga aceitação na agricultura brasileira, sendo um dos principais métodos de controle de plantas daninhas em propriedades com menores áreas plantadas. As principais limitações deste método são: a) dificuldade de controle de plantas daninhas na linha da cultura; e b) baixa eficiência: quando realizado em condições de chuva (solo molhado), é ineficiente para controlar plantas daninhas que se reproduzem por partes vegetativas. No entanto, todas as espécies anuais, quando jovens (2-4 pares de folhas), são facilmente controladas em condições de calor e solo seco. O cultivo quebra a relação íntima que existe entre raiz e solo, suspende a absorção de água e expõe a raiz às condições ambientais desfavoráveis. Dependendo do tamanho relativo das plantas cultivadas e daninhas, o deslocamento do solo sobre a linha, através de enxadas cultivadoras especiais, pode causar o enterrio das plântulas e, com isso, promover o controle das plantas daninhas na linha.

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SILVA, A.A. & SILVA, J.F 5. CONTROLE FÍSICO

Em solos planos e nivelados, a inundação é um efetivo método de controle de plantas daninhas, como nos tabuleiros de arroz. Espécies perenes de difícil controle, como tiririca (Cyperus rotundus), grama-seda (Cynodon dactylon), capim-kikuio (Penisetum clandestinum), além de muitas espécies anuais, são erradicadas sob inundação prolongada. A inundação não apresenta efeito sobre as plantas daninhas que se desenvolvem em solos encharcados, como o capim-arroz (Echinochloa sp.). Esta prática causa a morte das plantas sensíveis, em virtude da suspensão do fornecimento de oxigênio para suas raízes. Os fatores limitantes deste método, na maioria dos casos, são o custo do nivelamento do solo e a grande quantidade de água necessária para sua implantação, contudo constitui importante método de controle de plantas daninhas utilizado na cultura do arroz irrigado.

A cobertura do solo com restos vegetais em camada espessa ou com lâmina de polietileno é método eficiente de controle das plantas daninhas. É restrito a pequenas áreas de hortaliças, entretanto não é recomendado em áreas infestadas com tiririca e trevo. No plantio direto a cobertura do solo com restos vegetais da cultura anterior é de grande utilidade. Este sistema de plantio é usado em extensas áreas de soja, milho e trigo. A cobertura provoca menor amplitude nas variações e no grau de umidade e da temperatura da superfície do solo, estimulando a germinação das sementes das plantas daninhas da camada superficial de solo, que são posteriormente mortas devido à impossibilidade de emergência. A cobertura morta ainda pode apresentar efeitos alelopáticos úteis no controle de certas espécies daninhas, além de outros efeitos importantes sobre as culturas implantadas na área.

Outra técnica é a solarização, que é um processo caro e inviável em grandes áreas. Esta deve ser feita 60 a 75 dias antes do plantio, nos meses mais quentes do ano, utilizando filme de polietileno sobre a superfície do solo. Provoca aumento de temperatura e, em solo úmido, as sementes das plantas daninhas germinam e morrem em seguida, devido à temperatura excessivamente alta principalmente até 5 cm de profundidade.

A queima das plantas daninhas jovens com lança-chamas é uma técnica de uso limitado no Brasil, em razão do custo do combustível. Todavia, já foi utilizada em algodão, através de adaptação de queimadores especiais em cultivadores tratorizados, para uso dirigido nesta cultura. Nos Estados Unidos essa prática foi bem empregada nas culturas do sorgo e do algodão até a década de 1960, quando foi abandonada devido ao aumento no preço dos combustíveis fósseis e ao surgimento dos herbicidas seletivos para as diversas culturas (SEIFERT; SNIPES, 1998). Pode ser usada cinco após o semeio e antes da emergência das plantas de cebola.

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Em ambientes aquáticos o controle das plantas daninhas usando altas temperaturas – denominados de controle térmico – constituem alternativa de integração de manejo visando complementar o controle mecânico, principalmente em reservatórios de água. Marchi et al. (2005), obtiveram controle eficiente das espécies aquáticas Eichhornia crassipes, Brachiaria subquadripara, Pistia stratiotes e Salvinia auriculata. O uso do lança-chamas depende de vários fatores, como temperatura, tempo de exposição e consumo de energia. Para Ascard (1997) a temperatura necessária para causar morte foliar pode variar de 5 a 94 oC. Em trabalho realizado por Rifai et al. (2003), a melhor velocidade para eficiente controle das plantas daninhas por lança-chamas foi de 1 a 4 km por hora.

O controle por meio da queima da vegetação infestante voltou a ganhar expressiva conotação, principalmente entre os praticantes da agricultura orgânica dos vários países da Europa, os quais são proibidos de adotar qualquer intervenção química em suas lavouras (BOND; GRUNDY, 2001).

6. CONTROLE BIOLÓGICO

O controle biológico consiste no uso de inimigos naturais (fungos, bactérias, vírus, insetos, aves, peixes, etc.) capazes de reduzir a população das plantas daninhas, reduzindo sua capacidade de competir. Isso é mantido por meio do equilíbrio populacional entre o inimigo natural e a planta hospedeira. Deve também ser considerada como controle biológico a inibição alelopática de plantas daninhas (assunto discutido em módulo à parte). No Brasil, o controle biológico de plantas daninhas com inimigos naturais não tem sido, até o momento, praticado com fins econômicos. Para que este tipo de controle seja eficiente, o parasita deve ser altamente específico, ou seja, uma vez eliminado o hospedeiro, ele não deve parasitar outras espécies. De modo geral, a eficiência do controle biológico é duvidosa quando ele é usado isoladamente, porque controla apenas uma espécie e outra é favorecida, o que é uma tendência normal em condições de campo.

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