Doenças negligenciadas

Doenças negligenciadas

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DOENÇAS NEGLIGENCIADAS Coordenador: Prof. Wanderley de Souza

Rio de Janerio 2010

© Direitos autorais, 2010, de organização, da Academia Brasileira de Ciências Rua An!ló!o de Carvalho, 29 - 3o Andar 20030-060 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil Tel: (5 21) 3907-8100 Fax: (5 21) 3907-8101

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Coordenação e Edição: Marcia de Castro Faria Graça Melo e José Moscogliatto Caricatti

D651Doenças negligenciadas / Wanderley de Souza, coordenador. – Rio de Janeiro:
Academia Brasileira de Ciências, 2010.
56 p. :il. – (Ciência e tecnologia para o desenvolvimento nacional. Estudos

estratégicos)

Inclui bibliogra!a.

ISBN: 978-85-85761-30-1

1. Doenças parasitárias - Brasil. I. Souza, Wanderley. I. Academia Brasileira
de Ciências. I. Título.

CDU: 616.9 CDD: 610

Academia Brasileira de Ciências Doenças Negligenciadas

Academia Brasileira de Ciências – Doenças Negligenciadasv

Coordenação: Wanderley de Souza (UFRJ/Inmetro/ABC)

Participantes:

Afrânio Lineu Kritski (UFRJ)

Carlos M. Morel (Fiocruz-Rio/ABC)

Elba Regina Sampaio de Lemos (Fiocruz-Rio)

Eloi Garcia (Fiocruz-Rio e Inmetro/ABC)

Erney P. Camargo (ICB-USP/ABC)

Jorge Guimarães (Centro de Biotecnologia-UFRGS/ABC)

José Rodrigues Coura (Fiocruz-Rio/ABC) Manoel Barral Neto (Fiocruz-Bahia/ABC)

Milton Ozório Moraes (Fiocruz-Rio)

Pedro Vasconcelos (Instituto Evandro Chagas, MS/Belém)

Sônia Rozental (UFRJ) Sérgio Fracalanza (UFRJ)

Academia Brasileira de Ciências – Doenças Negligenciadasvii

Entre outras atividades, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) vem realizando estudos e análises sobre o estágio atual da Ciência brasileira nas mais diferentes áreas. Como conseqüência destes estudos, tem identificado áreas que merecem uma atenção especial pela sua importância estratégica no desenvolvimento científico brasileiro. É o caso das chamadas “Doenças Negligenciadas”. Fui convidado pelo acadêmico Jacob Palis, Presidente da ABC, para coordenar um grupo de pesquisadores com o objetivo de proceder a uma análise sobre as doenças negligenciadas no nosso país. Através de reuniões realizadas informalmente na sede da ABC e discussões realizadas via Internet, chegamos a um documento básico que foi amplamente divulgado. Também organizamos, na sede da ABC, um Simpósio realizado no dia 3 de maio de 2010, como parte da já tradicional Reunião Magna Anual da ABC que antecede a solenidade de posse de seus novos membros. Durante o Simpósio foi divulgada uma Proposta Preliminar para discussão do que seria a base de um Programa de Estudo das Doenças Negligenciadas. Pesquisadores que atuam na área e autoridades do Ministério da Saúde deram contribuições importantes durante o referido Simpósio. Em seguida, a Proposta Preliminar ficou em consulta pública por trinta dias, quando recebemos inúmeras sugestões por parte de vários pesquisadores. Destaco aqui os comentários do saudoso colega acadêmico Herman Schatzmayr, da Fundação Oswaldo Cruz.

O documento, ora publicado pela ABC, é o resultado do esforço de muitos. Neste incluímos apenas o que foi consenso, razão pela qual algumas doenças infecciosas e parasitárias não foram mencionadas. Entendemos que este documento corresponde a um ponto de partida de um programa que venha reforçar a participação da Ciência brasileira nesta área fundamental para o desenvolvimento do país. Finalmente, quero agradecer ao Dr. Gerson Pena, Secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, pela autorização em utilizar várias figuras que ilustram aspectos atuais da epidemiologia de algumas das doenças negligenciadas.

Rio de Janeiro, agosto de 2010.

Wanderley de Souza Coordenador do Grupo de Estudo ixAcademia Brasileira de Ciências – Doenças Negligenciadas

Este é mais um notável documento cuja leitura será de ora em diante obrigatória, para estudo e acompanhamento nos gabinetes governamentais e nos ambientes acadêmicos.

Faz parte de uma série elaborada com precisão científica e vastidão cultural ímpares como sói acontecer com trabalhos do gênero produzidos sob a égide da Academia Brasileira de Ciências. Assim ocorreu com “Amazônia” e “O Ensino de Ciências e a Educação Básica”, que já foram lançados nesta coleção de “Estudos Estratégicos” organizada pela ABC e apoiada pela FCW.

Estamos falando de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Nacional: Estudos Estratégicos. Estamos, portanto, pensando em Brasil total e em décadas de planejamento público.

O estudo que prefaciamos é de valia indiscutível para modelar um programa de governo, no campo da Saúde Pública e nos bancos escolares onde se oferecem à sociedade conhecimentos de prevenção às doenças. Não deixa de ser, por isso, também um livro de cabeceira para todos os acadêmicos e cidadãos conscientes, conhecedores da realidade brasileira.

Na área da Saúde, em especial, as dificuldades e mazelas são ingentes; conhecê-las, identificarlhe as causas e prevenir-lhe os efeitos, é responsabilidade imperativa para quem se vê à frente delas mais constante e intensamente.

As doenças negligenciadas requerem envolvimento indistinto de toda a sociedade para que se lhes minorem os danos e se consiga uma gradativa redução da mortalidade gerada por elas entre nós.

Os recursos disponíveis em nosso país são escassos e transformá-los em resultados compatíveis com as necessidades sociais é um desafio permanente. Trata-se de um desafio labiríntico a exigir competência, pertinácia e criatividade, para diagnosticá-lo em todos os seus meandros e formular a receita para superá-lo.

Pois essa é a linha do trabalho apresentado neste livro pela equipe da Academia Brasileira de Ciências, coordenada por Wanderley de Souza (UFRJ/Inmetro/ABC): Afrânio Lineu Kritski(UFRJ), Carlos M. Morel (Fiocruz-Rio/ABC), Elba Regina Sampaio de Lemos (Fiocruz-Rio), Eloi Garcia (Fiocruz-Rio e Inmetro/ABC), Erney P. Camargo (ICB-USP/ABC), Jorge Guimarães (Centro de Biotecnologia-UFRGS/ABC), José Rodrigues Coura (Fiocruz-Rio/ABC), Manoel Barral Neto (Fiocruz-Bahia/ABC), Milton Ozório Moraes (Fiocruz-Rio), Pedro Vasconcelos (Instituto Evandro Chagas, MS/Belém), Sônia Rozental (UFRJ), Sérgio Fracalanza (UFRJ).

Essa ilustre equipe ensina o mais conveniente modus faciendi para que as “doenças negligenciadas” sejam correta e cabalmente focadas.

xAcademia Brasileira de Ciências – Doenças Negligenciadas

O vocábulo “negligenciada” nos leva a uma consideração preliminar muito oportuna, embora seja apenas um exercício de interpretação literal: provém de “negligenciar”, que, por sua vez, origina-se de um conjunto formado por “nec”(latim) e “lego” (grego). Aqui “nec” está transformado em“neg”e significa “não”; é um prefixo negativo; já a raiz grega “lego” é “reunir para si”, “escolher”e também “ler”; portanto, neg-lego é “não reúno para mim”, “não escolho”, “não leio”; e assim “negligenciada” representa “não escolhida”, “não eleita”.

O significado original de “não escolhida”, “não lida”, foi absorvendo mudanças e, hoje, carrega a interpretação de “menosprezo”, “pouca atenção” e “descaso”. Essas doenças não despertam o interesse da indústria farmacêutica, por falta de demanda e não recebem para sua pesquisa e estudo, um apoio significativo. É uma situação “viciosa”, o menos conceituado por falta de conhecimento justificando o menos conhecido por falta de recursos.

Isto é, todos deixaram de atribuir ao assunto a importância devida. Daí a necessária inclusão do tema numa visão de Estado, como o vêm fazendo a ABC e a FCW, considerando essa questão mais um dos temas para “Estudos Estratégicos”.

Se outros se descuidam, a ABC e a FCW não depreciam o assunto.

Prezado Leitor, absorva criteriosamente o mérito desta obra e verá que as doenças em foco não são negligenciadas pelos nossos cientistas; se recebem esse título é porque os demais responsáveis as menosprezam.

De ora em diante, com este novo “Estudo Estratégico”, encaminha-se aos responsáveis - o prezado Leitor é também responsável - uma contribuição de pesquisa e estudo privilegiada, e instala-se um novo paradigma para prevenir mais onerosas conseqüências e atender à demanda social no campo da Saúde com segurança e total abrangência.

Américo Fialdini Júnior Diretor-Presidente da Fundação Conrado Wessel

1. INTRODUÇÃO1
2. CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS2
3. DOENÇAS DE INTERESSE ESPECIAL NO BRASIL3
4. PLANO DE AÇÃO PRELIMINAR4
MAIS RELEVANTES NO BRASIL5
5.1. Doença de Chagas5
5.2. Leishmanioses7
5.3. Malária1
5.4. Filarioses12
5.5. Micobacterioses (Hanseníase e Tuberculose)12
5.6. Clamidioses e Riquetioses16
5.7. Dengue19
5.8. Febre Amarela e Outras Arboviroses21
5.9. Raiva24
5.10. Hantavírus25
5.1.Hepatites virais27
5.12. Gastroenterites virais28
Rotavírus28
5.14. Toxinas34

5. APRESENTAÇÃO DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS CLÁSSICAS Norovírus, sapovírus, e astrovírus humanos 30 5.13. Paracocidiodimicose e outras micoses profundas 31 Envenenamentos por Animais Peçonhentos - Situação no Brasil 36

6.1. Doença de Chagas38
6.2. Leishmanioses39
6.3. Malária39
6.4. Filarioses39
6.5. Clamidioses e Riquetioses patogênicas39
6.6. Micobactérias patogênicas39
6.8. Doenças causadas por vírus40
6.9. Toxinas40

6. PRIORIDADES PARA APOIO À PESQUISA NO CONTEXTO DESTE PROGRAMA 38 6.7. Paracocidioidesmicose e outras micoses profundas 39 7. BIBLIOGRAFIA CITADA 41

Academia Brasileira de Ciências – Doenças Negligenciadas1

1. INTRODUÇÃO

O emprego do termo “doenças negligenciadas” é relativamente recente e polêmico. Foi originalmente proposto na década de 1970, por um programa da Fundação Rockefeller como “the Great Neglected Diseases”, coordenado por Kenneth Warren. Em 2001 a Organização Não Governamental “Médicos Sem Fronteiras” (MSF) em seu documento “Fatal Imbalance” propôs dividir as doenças em Globais, Negligenciadas e Mais Negligenciadas (MSF 2001). Neste mesmo ano o Relatório da Comissão sobre Macroeconomia e Saúde (OMS, 2001) introduziu uma classificação similar, dividindo as doenças em Tipo I (equivalente às doenças globais dos MSF), Tipo I (Negligenciadas/MSF) e Tipo I (Mais Negligenciadas/MSF). Esta tipologia tem sido desde então utilizada para se referir a um conjunto de doenças causadas por agentes infecciosos e parasitários (vírus, bactérias, protozoários e helmintos) que são endêmicas em populações de baixa renda vivendo, sobretudo em paises em desenvolvimento na África, Ásia e nas Américas. O adjetivo “negligenciada” originalmente proposto tomou como base o fato de que por um lado elas não despertam o interesse das grandes empresas farmacêuticas multinacionais, que não vêem nessas doenças compradores potenciais de novos medicamentos, e por outro o estudo dessas doenças vem sendo pouco financiado pelas agências de fomento. Para muitos a utilização do conceito de doenças emergentes e re-emergentes é mais adequada para se referir a este conjunto de doenças.

Em um primeiro momento, as seguintes doenças foram incluídas no conceito de “doença negligenciada”: doença de Chagas, doença do Sono, leishmanioses, malária, filarioses, esquistossomose. Posteriormente foram incluídas outras doenças como a Hanseníase, a Tuberculose, Dengue, Febre Amarela e HIV/AIDS. Mais recentemente outras doenças tais como Ascaríase, Tricuríase, Necatoríase, Ancilostomíase, Tracoma, Dracunculíase e a Úlcera de buruli foram também incluídas. No que se refere ao nível de financiamento internacional para pesquisa HIV/AIDS, Tuberculose e Malária tem recebido investimentos significativos, não podendo ser mais consideradas como “negligenciadas” se levarmos em consideração apenas o nível de financiamento. Por outro lado, no caso do Brasil não podemos esquecer algumas outras doenças causadas por fungos, como a Paracoccidiodemicose, a doença de Jorge Lobo, a esporotricose e a Cromoblastomicose, entre outras. No que se refere aos vírus,

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2. CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS não podemos esquecer os arbovírus encontrados na região amazônica, alguns dos quais produzindo doença no homem. Devemos incluir ainda doenças causadas pela inoculação de toxinas oriundas de organismos os mais diversos como os venenos ofídicos e de artrópodes, alguns pouco conhecidos como a toxina da formiga tocandeira ou tocandira responsável por acidentes frequentes e extremamente dolorosos na Amazônia, bem como de plantas, como é o caso da mamona, hoje amplamente utilizada para produção de Biodiesel.

As doenças parasitárias causadas por protozoários e helmintos estão na base do desenvolvimento científico brasileiro há cerca de um século. Em 1908 Pirajá da Silva, um dos líderes da chamada Escola Tropicalista Bahiana realizou estudos fundamentais na área da biologia da esquistossomose, com importante contribuição ao melhor conhecimento do ciclo evolutivo do Schistosoma mansoni. Neste mesmo ano A. Splendore em São Paulo descreveu o protozoário hoje conhecido como Toxoplasma gondii, um dos mais importantes agentes patogênicos com distribuição universal. Em 1909 C. Chagas descreveu o Trypanosoma cruzi e a doença de Chagas, segundo alguns a mais importante contribuição da Ciência brasileira até o momento. Em 1911 Gaspar Viana descreveu a Leishmania braziliensis, importante agente de uma das formas clínicas de leishmaniose. Posteriormente, inúmeros pesquisadores brasileiros aprofundaram estes estudos e deram contribuições importantes na área da Parasitologia e das doenças infecciosas e parasitárias.

Os pesquisadores brasileiros que atuam na área da Protozoologia, sobretudo aqueles mais envolvidos com o estudo do Trypanosoma cruzi, criaram na década de setenta as bases para uma profunda transformação da ciência biomédica brasileira introduzindo as mais modernas abordagens celulares, bioquímicas, moleculares e imunológicas para o estudo do T. cruzi, da sua interação com a célula hospedeira e da doença de Chagas. Tal fato está na base do desenvolvimento da Biologia Celular, da Biologia Molecular, da Bioquímica e da Imunologia brasileira, todas com forte impacto na atual produção científica quantitativa e qualitativa da nossa ciência. Dados recentes indicam mesmo que nesta área o Brasil já ocupa a segunda posição em termos de contribuição de artigos científicos publicados em revistas de circulação internacional.

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3. DOENÇAS DE INTERESSE ESPECIAL NO BRASIL

Certamente um fator preponderante para o desenvolvimento da Parasitologia brasileira foi a criação e o funcionamento regular entre 1976 e 1986 do Programa Integrado de Doenças Endêmicas (PIDE) que com sucesso investiu recursos significativos para a época (algo equivalente hoje a cerca de US$ 12 milhões) nos grupos que atuavam na área e que atraiu, em conseqüência da política de financiamento diferenciado, outros grupos a trabalharem nesta área. Posteriormente, a Organização Mundial de Saúde criou o Programa TDR (Tropical Diseases Research) que também contribuiu para a consolidação de vários grupos inicialmente apoiados pelo PIDE e estimulou o aparecimento de novos grupos.

Apesar da existência de programas de financiamento para pesquisa na área de Doenças Negligenciadas, sobretudo através do DECIT-MS e algumas fundações estaduais, eles são insuficientes para continuarmos avançando em uma área em que o Brasil deve perseguir a liderança mundial.

Levando em consideração os comentários acima identificamos como prioritário que as várias agências de financiamento do governo federal (MCT: FINEP e CNPQ; MEC: CAPES e MS: SCTIE/DECIT e SVS) e dos governos estaduais (FAPs) se unam no sentido de estabelecer um forte programa de longo prazo visando um apoio consistente à pesquisa e à formação de recursos humanos em um conjunto de doenças que afetam a população brasileira e que estão listadas abaixo. Tal medida tem algumas implicações. Primeiro, poderá consolidar a liderança da pesquisa brasileira em áreas de significativo impacto econômico e social. Segundo, assumir a responsabilidade de estimular o parque científico, tecnológico e industrial brasileiro a trabalharem em temas que não despertam o interesse dos países mais desenvolvidos. Terceiro, consolidar a capacidade da comunidade científica brasileira a trabalhar em um sistema integrado de Redes, como demonstrado em estudo recente de Morel e colaboradores que mostra claramente uma forte integração nesta área ente grupos de pesquisa distribuídos por todo o país (Fig. 1). Quarto, constituir um dos temas relevantes para os programas de cooperação internacional com países do Hemisfério Sul cujas populações são afetadas por várias das mesmas doenças. Citamos como exemplos o interesse (a) pela doença de Chagas, por todos os países

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