A utilização de recursos didáticos por professores de Matemática dos 3º e 4º ciclos na educação de jovens e adultos

A utilização de recursos didáticos por professores de Matemática dos 3º e 4º...

(Parte 1 de 5)

A utilização de recursos didáticos por professores de Matemática dos 3º e 4º ciclos na educação de jovens e adultos

Andréa Thees

Projeto de Qualificação de Mestrado em

Educação, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, apresentado para análise da banca examinadora, sob orientação da Prof. Dr. Maria Cecília de Castelo Branco Fantinato, como requisito para futura obtenção do grau de mestre em Educação.

Niterói – RJ 2011

1 – INTRODUÇÃO3
2 – RECURSOS DIDÁTICOS OU MATERIAIS DIDÁTICOS?4
3 – JUSTIFICATIVA7
4 – OBJETIVOS DA PESQUISA9
5 – REVISÃO DE LITERATURA1
INVESTIGADA1
5.2 – O MOMENTO ATUAL DO LIVRO DIDÁTICO PARA EJA16
5.3 – OUTROS RECURSOS DIDÁTICOS PARA EJA18
6 – METODOLOGIA19
6.1 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA20
6.2 – CONTATO INICIAL: A PRÉ-ENTREVISTA INFORMAL2
6.3 – O LOCAL DA PESQUISA: O COLÉGIO ESTADUAL M. C24
6.4 – ENCAMINHAMENTOS FUTUROS DA PESQUISA25

5.1 – COMO A UTILIZAÇÃO DE RECURSOS DIDÁTICOS TEM SIDO 7 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................. 26

1 – INTRODUÇÃO

Este projeto de pesquisa busca investigar quais são os recursos didáticos utilizados pelo professor de Matemática do 3º e 4º ciclos da Educação de Jovens e Adultos (EJA)1 durante suas aulas e de que forma esses recursos são usados na mediação da relação ensino/aprendizagem.

Este tema começou a delinear-se durante os encontros com os participantes do

Grupo de Estudos e Pesquisa em Etnomatemática da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, coordenado pela Prof. Dra. Maria Cecília de Castello Branco Fantinato. Nas reuniões do grupo, diversas discussões iniciaram-se a partir dos relatos de situações originadas nas salas de aula de Matemática em turmas de EJA, onde a perspectiva do Programa Etnomatemática encontrava-se presente nos trabalhos docentes.

Algumas destas ocasiões me fizeram recordar a época em que era coordenadora de uma Organização Não Governamental (ONG) que atendia mulheres vivendo em situação de risco. Nosso objetivo era ensinar-lhes um ofício, para que pudessem viabilizar um pequeno negócio próprio, o qual daria sustento às suas famílias. Uma das atribuições do cargo de coordenadora era ensinar noções básicas de administração e finanças ao grupo atendido. Sabendo que certos assuntos como controlar o estoque, comparar receita e despesa, calcular lucro, organizar o fluxo de caixa, relacionar as contas a pagar e a receber seriam fundamentais para o sucesso do atendimento realizado pela ONG, procurava diversas formas de ensinar a Matemática básica necessária para resolver os problemas do dia-a-dia dessas mulheres empreendedoras. Entretanto, os resultados obtidos nem sempre eram satisfatórios. Naquele tempo, apesar de me questionar e tentar refletir sobre os motivos que me faziam fracassar nesta empreitada, meu conhecimento sobre educação de adultos era pouco, praticamente nenhum. Foi apenas quando iniciei o mestrado em Educação e tive acesso às pesquisas e aos estudos realizados com jovens e adultos, que consegui entender a importância de estar preparada para lecionar em um segmento tão específico, com suas necessidades e demandas.

Este entendimento motivou-me a, incentivada por minha orientadora, fazer a inscrição no Curso de Extensão “O trabalho com a linguagem na escola em seus usos e funções sociais: a Educação de Jovens e Adultos” oferecido pelo Programa de

1 No ensino regular, a etapa equivalente a esta se refere ao período do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental I.

Alfabetização e Leitura/PROALE, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense/FE-UFF. Em consonância às reuniões do grupo de estudos e pesquisas citadas anteriormente, intercalaram-se as aulas do curso. A cada encontro semanal, conforme os temas referentes ao conteúdo programático do curso iam sendo abordados, me identificava mais com a possibilidade de investigar como se ensina e se aprende Matemática em turmas de jovens e adultos.

Neste processo de construção do objeto de estudo, durante uma das reuniões de orientação coletiva na qual se discutia a importância de se observar a prática docente e suas estratégias no ensino de Matemática em turmas de jovens e adultos, surgiu a ideia de examinar os recursos didáticos atualmente disponíveis para o professor de Matemática planejar e realizar suas aulas. Diante disso, o que se pretende investigar refere-se à utilização de recursos didáticos em aulas de Matemática de 3º e 4º ciclos da Educação de Jovens e Adultos. Sendo assim, desdobram-se as seguintes questões:

Quais recursos didáticos são utilizados pelos professores de Matemática do 3º e 4º ciclos da Educação de Jovens Adultos?

De que forma estes recursos didáticos servem de apoio às possíveis estratégias pedagógicas?

Interessa-nos responder aos questionamentos por acreditarmos estar, desta maneira, contribuindo para a investigação da prática docente e permitindo suscitar indagações acerca do ensino geral de Matemática e especificamente na Educação de Jovens e Adultos.

Encerro este tópico esclarecendo que este projeto de mestrado possui relação com o projeto2 “Pesquisas em educação Matemática de jovens e adultos: saberes discentes e prática docente”, que insere-se no campo da Educação Matemática de Jovens e Adultos e busca analisar como as pesquisas brasileiras da área de educação nos últimos dez anos têm estudado a docência Matemática na Educação de Jovens e Adultos e as formas de interação entre os saberes e as práticas, docentes e discentes (FANTINATO, 2010).

2 – RECURSOS DIDÁTICOS OU MATERIAIS DIDÁTICOS?

Antes de prosseguir com o desenvolvimento deste projeto de pesquisa, senti necessidade de esclarecer a escolha pelo termo “recursos didáticos” ao invés do termo

2 Financiado pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica/PIBIC, CNPq/UFF

“materiais didáticos”. Segundo o Thesaurus Brasileiro da Educação3 , o termo “material didático” está conceituado como

1. Material de que o professor e o educando precisam para que as atividades de ensino/aprendizagem sejam eficientes. 2. Objetos que ajudam o professor a exercer a função educativa. (DUARTE, S.G. DBE, 1986) 3. Recursos facilitadores do processo de ensino/aprendizagem, como equipamento de sala de aula, mapas, gráficos, jogos, modelos, textos e projeções. (cf. DUARTE, S.G. DBE, 1986).

Entretanto, em um conceituado dicionário de língua portuguesa, encontrei como definição da palavra recurso “1. Ato ou efeito de recorrer; 2. Auxílio, ajuda, socorro, proteção; 3. Meio, expediente; [...]; 5. Meio para resolver um problema; remédio, solução; [...].” (AURÉLIO, 1986, p. 1466) e para a palavra didático, a definição “1. Relativo ao ensino ou à instrução, ou próprio deles; 2. Próprio para instruir; destinado a instruir; 3. Que torna o ensino eficiente; 4. Típico de quem ensina, de professor, de didata”. (AURÉLIO, 1986, p. 587), o que possibilitou entender recursos didáticos como meios de ensino, no sentido como apresenta o Thesaurus Brasileiro da Educação, no qual o termo “meios didáticos” está conceituado como

- Aplicação para fins educativos de todos os meios modernos de comunicação (UNESCO). Dispositivos que auxiliam o professor no processo de ensino/aprendizagem, mediante apresentação de material de apoio (DBE). - Veículos, canais entre a mensagem e o aluno. Instrumentos que permitem a transmissão dos estímulos necessários à aprendizagem. Distinguem-se dos estímulos e dos métodos. Os meios podem ser auditivos (rádio, discos, fitas cassetes, telefone) visuais sem movimento (livro, jornal, revista), visuais com movimento (computador, filme mudo), audiovisuais sem movimento (slide mais gravação, como existe em laboratório de línguas; rádio mais livro de exercícios, como no Projeto Minerva); e audiovisuais com movimento (televisão, filme sonoro) (DUARTE, S.G. DBE, 1986).

DAmore (2007, p. 18) alerta para a “dificuldade em que se encontra todo aquele que precisa utilizar o termo ‘didática’.” Entretanto, cabe esclarecer que o adjetivo “didático” está sendo utilizado para definir os recursos que têm por objetivo o ensino de determinado conteúdo matemático, e não o substantivo “didática”, utilizado entre os estudiosos que pertencem à área, justamente para distinguir aqueles que se ocupam da didática, atualmente, como âmbito científico de pesquisa. (idem, p. 16)

3 A consulta ao Thesaurus Brasileiro da Educação foi realizada no site do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), disponível em <http://w.inep.gov.br/pesquisa/thesaurus/>. Acesso em 18 jun 2010.

Na definição de uma situação didática não é essencial a presença de um contexto escolar. “O que realmente é essencial é seu caráter intencional, o fato de haver sido construída com o propósito explícito de que alguém aprenda algo” (GÁLVEZ, 1996, p.

28). Ainda segundo o autor,

“o objetivo fundamental da didática da matemática é averiguar como funcionam as situações didáticas, quer dizer, quais das características de cada situação são determinantes para a evolução do comportamento dos alunos e, consequentemente, de seus conhecimentos.” (GÁLVEZ, 1996, p. 29)

Sendo assim, apresento como objeto de estudo os recursos didáticos presentes em determinadas situações didáticas de sala de aula, reconhecendo que o objetivo fundamental desta investigação é examinar de que forma estes recursos estão ou não sendo utilizados por professores de Matemática.

Considerando o entrosamento dos significados de recurso e didático, partirei para uma investigação que tentará, se não responder, pelo menos clarear um pouco as questões acima. Ao me apropriar destes conceitos, acredito estar abrangendo a maior quantidade possível de meios de ensino que o professor de Matemática do 3º e 4º ciclos da EJA dispõe, seja através dos recursos institucionalizados, seja utilizando sua própria iniciativa e criatividade, para apoiá-lo no processo de ensino/aprendizagem desenvolvido no cotidiano da escola.

2.1 – CLASSIFICAÇÃO INICIAL DE RECURSOS DIDÁTICOS

Os recursos didáticos desta pesquisa foram conceituados como instrumentos facilitadores do processo de ensino/aprendizagem, como equipamento de sala de aula, mapas, gráficos, jogos, modelos, textos e projeções. Os meios de utilização destes recursos didáticos pelo professor com seus alunos podem ser auditivos (rádio, discos, fitas cassetes, telefone), visuais sem movimento (livro, jornal, revista), visuais com movimento (computador, filme mudo), audiovisuais sem movimento (slide mais gravação, como existe em laboratório de línguas; rádio mais livro de exercícios, como no Projeto Minerva) e audiovisuais com movimento (televisão, filme sonoro).

Apesar de parecerem bastante abrangentes, algumas atividades que se utilizam de recursos didáticos não estão presentes nas descrições acima. Referências à História da Matemática, por exemplo, podem ser consideradas como recurso didático (CARAÇA, 2003; EVES, 2004; GARBI, 2009; MLODINOW, 2010) , assim como a dupla giz e quadro negro/verde. Visitas a praças ou exposições e idas a feiras livres ou supermercados também podem ser considerados recursos didáticos, desde que o professor tenha em consideração que não se trata apenas de um passeio com seus alunos, mas de uma nova abordagem para o ensino/aprendizado de um determinado conteúdo. Ou simplesmente, no caso da Geometria, um barbante e um lápis podem ser os recursos necessários e suficientes para se traçar uma circunferência e perceber propriedades como equidistância de um ponto, fronteira, limite, ponto interior e exterior, entre outros. Ainda existem a calculadora, a tabuada, o ábaco e uma diversidade enorme de materiais concretos que, se utilizados como recurso didático, certamente farão parte desta investigação.

A priori, mesmo sabendo que em investigação qualitativa, “uma das estratégias utilizadas baseia-se no pressuposto de que muito pouco se sabe acerca das pessoas e ambientes que irão constituir o objeto de estudo” (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 83), minha experiência lecionando há seis anos Ensino Fundamental I, permite que eu apresente uma proposta inicial que classifica os recursos didáticos da seguinte forma: 1- Tradicionais: giz e quadro, livro didático, régua e compasso, livro paradidático 2- Tecnológicos: computador, calculadora, TV e DVD, GPS, celular, music player 3- Sócio-culturais: jornais e encartes, revistas, visita a museus e exposições, festas, gincanas e jogos em equipe. 4- Diversos: feitos a mão ou não, com materiais reaproveitáveis ou não, como madeira, blocos, cartolina, papelão (aqui entraria, por exemplo, jogos, material dourado, barras Cousinaire, tangram, origami, dados, baralho).

3 – JUSTIFICATIVA

Como professora de Matemática dos anos finais do Ensino Fundamental e do

Ensino Médio, tenho constatado diariamente a insatisfação da maioria dos meus alunos em aprender Matemática e o distanciamento entre a Matemática ensinada na sala de aula e a Matemática praticada na rua. No meio desta relação estão os recursos didáticos e a maneira do professor utilizá-los, buscando estratégias pedagógicas para que o ensino de determinado assunto aconteça de forma mais natural possível para o aluno. Consciente da importância dessa reflexão diária, apresentarei as justificativas que delineiam este projeto de pesquisa.

O professor de Matemática do 3º e 4º ciclos da EJA possui a mesma formação do professor de Matemática da educação básica, ou seja, concluído o curso de Matemática, recebe o título de Licenciado em Matemática. O Artigo 17, da resolução nº 1 da CNE/CEB, de 5 de julho de 2000, das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, estabelece que:

Art. 17 – A formação inicial e continuada de profissionais para a Educação de Jovens e Adultos terá como referência as diretrizes curriculares nacionais para o ensino fundamental e para o ensino médio e as diretrizes curriculares nacionais para a formação de professores, apoiada em: I – ambiente institucional com organização adequada à proposta pedagógica; I – investigação dos problemas desta modalidade de educação, buscando oferecer soluções teoricamente fundamentadas e socialmente contextualizadas; I – desenvolvimento de práticas educativas que correlacionem teoria e prática; IV – utilização de métodos e técnicas que contemplem códigos e linguagens apropriados às situações específicas de aprendizagem. (BRASIL, 2000)

De acordo com Simões (2007), reconhecidas as deficiências da maioria das grades curriculares de Licenciatura em Matemática das instituições de ensino superior em relação às matérias pedagógicas, o recém-formado busca na formação continuada uma maneira de aprimorar e refletir sobre sua prática docente. No caso específico da EJA, busca também revisitar as especificidades dos alunos, as exigências como educador, a organização de um currículo apropriado, a produção e uso de material didático adequado e a elaboração de estratégias de ensino diferenciadas.

O debate sobre este assunto vem ocupando cada vez mais lugar de destaque em universidades, grupos de pesquisas, congressos e seminários, incluindo a elaboração de políticas públicas para a formação continuada de professores.

Considerando que a EJA deve preparar o indivíduo para que ele seja um cidadão pleno e crítico em relação ao mundo que o cerca, torna-se fundamental que o ensino de Matemática não se limite a repetição de procedimentos mecânicos, mas sim que garanta a compreensão e aplicação de conceitos, bem como a representação de fenômenos “desenvolvendo nos alunos habilidades relacionadas à representação, compreensão, comunicação, investigação e, também, contextualização sociocultural”, conforme destacam os PCN+ (BRASIL, 2006, p. 69).

(Parte 1 de 5)

Comentários