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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ - UFC FACULDADE DE EDUCAÇÃO Curso de Especialização em Informática Educativa

José Eldimar de Oliveira Sá

Fortaleza - CE Maio – 2002

José Eldimar de Oliveira Sá

Monografia apresentada como requisito para obtenção do Título de Especialista em Informática Educativa da Universidade Federal do Ceará.

Fortaleza - CE Maio - 2002

Esta Monografia foi submetida como parte dos requisitos necessários à obtenção do Título de Especialista em Informática Educativa, outorgado pela Universidade Federal do Ceará, e encontra-se à disposição dos interessados na Biblioteca Central da referida Universidade.

A citação de qualquer trecho desta Monografia é permitida, desde que seja feita de conformidade com as normas de ética científica.

_ José Eldimar de Oliveira Sá

Monografia aprovada em _//___.

Profa Márcia Oliveira Cavalcante Campos, Ms Orientadora

À minha esposa Águeda e ao meu filho Emanuel.

O reconhecimento de todos os que contribuíram com esta monografia seria tarefa difícil. Menciono apenas os que diretamente participaram deste nosso último trabalho, na certeza de que vários outros amigos − surdos e ouvintes − se sentirão presentes no mesmo. A estes, meus agradecimentos iniciais.

- Ao Instituto Cearense de Educação de Surdos – ICES, núcleo gestor, professores, instrutores, intérpretes, alunos e funcionários, pela acolhida fraterna;

- Ao Centro de Educação de Jovens e Adultos Prof. Gilmar Maia de Souza, “minha” escola;

- Ao Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação de Surdos – GEPES / APADA, pelos ricos momentos de discussão e aprendizado;

- Aos amigos que conosco trabalharam diretamente, incentivando e construindo este trabalho: Willer Cysne (instrutor de LIBRAS), Ernando Pinheiro, Cristiane e Renato Pinheiro (intérpretes de LIBRAS), João Neto (instrutor de informática), Lauzimar e Fabrício (professores de Ciências – ICES).

- Aos alunos das turmas 8a série, 6a Série A e 6a Série B, de 2001, do ICES, pelos momentos de trabalho e colaboração.

“Uma idéia filosófica básica da abordagem bilíngüe é que se deveria deixar as crianças surdas serem crianças. Não há necessidade de mudá-las, pois não são anormais. A ênfase não deveria ser sobre a própria criança. Ao contrário, deveria ser sobre o ambiente onde a criança pode usar a língua de forma livre e espontânea sem atrasos ou obstáculos desde o nascimento. E onde ela seja tratada como uma pessoa de valor e aceita como tal. “ (Mahshie apud Jokinen, 1999:126)

Observamos no presente trabalho as possibilidades de uso da webcamera como uma alternativa para o registro da língua de sinais num ambiente de aprendizagem multidisciplinar. Através deste equipamento podemos, através do computador, produzir, editar e visualizar arquivos de vídeo que seriam a base para a criação de materiais didáticos apresentados em Língua Brasileira de Sinais − LIBRAS, com o diferencial de termos professores e alunos na condição de autores dos mesmos, fato extremamente interessante no processo ensino-aprendizagem. Com a webcamera criamos um ambiente favorável à discussão e ao aprendizado dos sinais e dos conteúdos escolares, além de contribuir, através dos processos interativos que ocorrem na sala de aula, para o surgimento de sinais específicos nas diversas áreas do conhecimento.

vii

1. Introdução8
2. Fundamentação teórica14
2.1.Bilingüismo: uma inovadora proposta de educação de surdos14
2.2. Considerações sobre a aquisição da língua17
2.3. A interação com o surdo adulto19
2.4. O pensamento, a escola e a escrita20
3. Relato e análise das atividades desenvolvidas25
3.1. Objetivos26
3.2. Recursos utilizados27
3.3. Metodologia28
3.3.1.Considerações iniciais28
3.3.2.Atividades realizadas30
3.4.Seqüência de trabalho e comentários da atividade de ciências31
3.5.Seqüência de trabalho e comentários da atividade de produção de textos34
3.6. Avaliação39
4. Conclusões43

SUMÁRIO 5. Referências bibliográficas................................ ................................ ................................ ........ 46

1. INTRODUÇÃO

Com a criação do site Surdos-CE (w.surdos-ce.org.br), em 1999, iniciamos na internet a produção de um dicionário on-line de língua de sinais: a língua gestual-visual utilizada pelos surdos1. Tínhamos como proposta de trabalho, a exemplo do que já era encontrado na web (figuras 1, 2 e 3), fornecer aos internautas a possibilidade de se conhecer um pouco mais a língua de sinais a partir da disponibilização de arquivos no formato AVI2. Neste tipo de dicionário ao se clicar numa palavra ou expressão de uma relação existente abre-se um vídeo com o sinal correspondente. Assim, neste site, algumas palavras/expressões em português apresentavam os respectivos sinais correspondentes em Língua Brasileira de Sinais

– LIBRAS3 .

No ano seguinte fomos convidados a ministrar um curso de informática para surdos (Informática Básica)4 onde a experiência obtida na produção do referido dicionário (figura 4) pôde ser utilizada em sala de aula a partir de uma nova concepção de uso do vídeo em ambiente escolar.

1 A terminologia ‘surdo’ é mais aceita do que ‘deficiente auditivo’, e guarda um posicionamento político por ser uma rejeição ao termo “deficiente”. Ser surdo é estar inserido em um grupo cultural que possui a língua de sinais como sua língua natural.

2 Formato de arquivo de vídeo, comum ao ambiente Windows. 3 Denominação dada à língua de sinais usada pelos surdos no Brasil. Ao contrário do que muitos pensam, a língua de sinais não é universal, sendo diferente em cada país. Assim temos, a American Sign Language (ASL), a Língua Gestual Portuguesa etc. 4 Curso de capacitação em Windows, Word e Excel. Não havia limites rígidos às nossas ações pedagógicas; estávamos autorizados a buscar novos caminhos dentro de propostas de informática educativa. O curso foi realizado no laboratório de informática do Centro de Educação de Jovens e

Adultos Prof. Gilmar Maia de Souza, em Fortaleza/CE, ministrado por um instrutor ouvinte e um instrutor surdo, promovido pela Universidade Estadual do Ceará /IEPRO (carga horária: 80 h/a).

Figura 1

Dicionário on-line; Inglês – Língua Americana de Sinais (ASL) .

Fonte: http://www.handspeak.com

Figura 2 Dicionário on-line; Português – LIBRAS.

Fonte: http://www.nied.unicamp.br/~libras/

Percebemos durante o planejamento do curso que vários vocábulos comuns ao ambiente de informática não eram conhecidos pelos alunos, e muitos até nem possuíam sinais correspondentes em LIBRAS. Também verificamos que alguns sinais utilizados no dia-a-dia eram muitas vezes desconhecidos ou esquecidos pelos alunos. Acreditamos que uma das razões para esta situação está na forma como os sinais utilizados pela comunidade surda são transmitidos. Os sinais são repassados de uma forma equivalente à ‘cultura oral’; a comunidade surda não utiliza ainda nenhuma forma de registro escrito de sua produção cultural, como o faz a comunidade ouvinte. Tomar conhecimento ou mesmo memorizar sinais torna-se, assim, uma questão de habilidade individual, e exige um esforço enorme de qualquer usuário de libras para se manter atualizado num mundo tão repleto de mudanças e de inovações científicas. Esta situação equivaleria, por exemplo, ao ouvinte ter que conhecer o significado de todas as palavras de sua língua sem o direito de consultar um dicionário ou enciclopédia. Convém observar que não entramos ainda na discussão que envolve a compreensão de conceitos mais complexos.

Outro ponto observado durante o curso foi a inexistência de materiais de consulta adaptados para o surdo, e que são fartamente disponíveis para os ouvintes (material em português, seja impresso, seja na forma do recurso AJUDA presente em todos os programas, por exemplo). Estes recursos não beneficiam os surdos na mesma proporção que beneficiam os ouvintes por conta das limitações que aqueles, de uma maneira geral, possuem quanto à interpretação de textos. Esta escassez de material didático apropriado interfere consideravelmente no autoaprendizado de softwares.

Figura 3

Dicionário do Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES.

Fonte: http://www.ines.org.br

Figura 4 Detalhe: arquivo AVI sendo executado

Fonte: http://www.surdos-ce.org.br

Já estávamos determinados a utilizar estratégias de trabalho baseadas no Bilingüísmo5, por acreditarmos que o respeito à língua natural dos surdos, dentre outros princípios, seria fundamental para alcançarmos os objetivos do curso. Por isso, nossa disposição em utilizar material didático produzido em LIBRAS.

É muito comum encontrarmos material “visual” voltado para o ensino da língua de sinais, seja na forma de fitas de vídeo, seja na forma de software em que a língua de sinais é um recurso bastante explorado (Figuras 5 e 6).

Também é comum a produção de softwares que buscam dar um suporte maior no processo ensino-aprendizagem. Vários deles buscando a aquisição, por parte do surdo, de uma competência lingüística, tanto na língua de sinais como na língua oral-auditiva. Estes softwares são os mais variados possíveis. Muitos destes se utilizam da língua de sinais apresentadas em pequenos vídeos (Figura 7). Quanto a recursos que facilitassem o ensino dos conteúdos de informática, nada fora encontrado.

Durante o curso traçamos alguns caminhos para minimizar o problema do registro da língua de sinais, utilizando uma filmadora e uma placa de captura de imagens que permitiram digitalizar e produzir os elementos que comporiam um dicionário específico de informática, sendo, os próprios alunos, os responsáveis pela pesquisa dos sinais e pela sinalização. A operação do equipamento era feita somente pelo instrutor.

5 A questão bilingüismo x oralismo ainda desperta sérias discussões. No decorrer do presente trabalho discutiremos os motivos pelos quais consideramos a proposta bilíngüe como ideal para a educação de surdos.

Figura 5

Catálogo de produtos; curso de ASL; material gráfico e fitas de vídeo.

Fonte: http://www.signwriting.org

Figura 6

Produtos do. Instituto Cultural Favalli; fitas de vídeo.

Fonte: http://www.favalli.com.br

O registro destes sinais foi um dos grandes diferenciadores neste curso de informática. Paralelo ao processo de ensino-aprendizagem dos softwares, buscou-se uma mediação surdo adulto − aluno surdo para aquisição de uma competência lingüística quanto aos sinais utilizados na informática, vocabulários afins ou outros relacionados aos temas abordados no curso (que acabaram sendo incluídos no dicionário construído pelos alunos). No trabalho de registro de sinais o computador foi utilizado como ferramenta fundamental. Não havia outra forma satisfatória de registro da língua, já que o acesso à língua de sinais escrita não era possível.

Convém ressaltar que a língua de sinais escrita tem sido uma interessante proposta para o registro de língua de sinais, e o avanço no seu estudo deve contribuir muito no fortalecimento da língua de sinais (figura 8).

A proposta era de que os sinais fossem aprendidos a partir de uma relação entre alunos, comunidade e instrutor (surdo6); pesquisados e até criados por eles, num ambiente propício à “construção” da língua, a partir de discussões que envolvessem os Surdos adultos, os alunos do curso, e os instrutores responsáveis pela integridade da língua de sinais7. O trabalho desenvolvido, em seguida, foi a publicação na internet 8(ver figuras 9 e 10).

A experiência obtida no curso levantou alguns problemas técnicos:

mesmo com o uso de softwares compactadores os arquivos produzidos, somados,

6 Um dos instrutores do curso de informática era Surdo. 7 No Ceará, os Instrutores do Departamento de LIBRAS da Associação de Surdos.

8 Parte dos trabalhos produzidos pelos alunos encontram-se no site http://www.infosurdos.hpg.com.br

Figura 7

Histórias para uso em escolas. Língua

Gestual Portuguesa. Fonte: http://www.terravista.pt/nazare/20

ocupavam uma quantidade considerável de espaço no disco rígido do computador, além da falta de praticidade no uso de filmadora e da placa de vídeo. Estas duas questões puderam ser resolvidas com a aquisição de uma gravadora de CDs e o uso de uma webcamera no lugar da filmadora, além do aprimoramento dos softwares de

Story, Page 1 Uma Menina Chamada Kauana

"A Little Girl Called Kauana" written in Brazilian Sign Language Story Directory

Figura 8

Texto em escrita de sinais. No detalhe, página anterior com referência à Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS (publicação original) Fonte: w.signwriting.org

Figura 9

Site Infosurdos contendo informações dos cursos de Informática para Surdos.

Fonte: http://www.infosurdos.hpg.com.br

Figura 10

Detalhe: sinalização feita por um aluno do curso de Informática Básica.

Fonte: http://www.infosurdos.hpg.com.br compactação de arquivos de vídeo. Isto nos permitiu reabrir as discussões que havíamos iniciado quando da avaliação do curso de informática para surdos, passando a nos questionar quanto à possibilidade de avançarmos no uso desta tecnologia no contexto escolar.

A idéia inicial seria a de contribuir na solução de uma das dificuldades no avanço de qualquer proposta bilíngüe: o português escrito continua imprescindível no momento de registrarmos pensamentos, idéias, planos, intenções, ansiedades… e todas as demais situações presentes no processo ensinoaprendizagem, limitando o espaço destinado à língua de sinais.

O presente trabalho surgiu a partir deste novo fato: a possibilidade de estender à escola as atividades desenvolvidas no Curso de Informática para Surdos. Assim, várias questões que se apresentaram durante o referido curso poderiam agora ser analisadas dentro uma sala de aula de alunos surdos, envolvendo conteúdos curriculares, com a presença de professores envolvidos com disciplinas variadas, e enfrentando situações e problemas do cotidiano escolar.

14 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1. Bilingüismo: uma inovadora proposta de educação de surdos

Vamos encontrar no século XVIII as primeiras informações sobre uma educação voltada para os surdos com a atuação do abade De l’Epée, que descobre a língua de sinais nas ruas de Paris e nela percebe um instrumento importante no seu propósito de catequese. Através do “sistema de sinais ‘metódicos’ de De l’Epée − uma combinação da língua de sinais nativa com a gramática francesa traduzida em sinais” (Sacks, 1998:30-31), os surdos conquistam espaço nas áreas profissional e intelectual. Sacks (1998:34-35) assim retrata esta época:

“Esse período que agora se afigura como uma espécie de era dourada na história dos surdos marcou o rápido estabelecimento de escolas para surdos, geralmente mantidas por professores surdos, em todo o mundo civilizado, a emergência dos surdos da obscuridade e da negligência, sua emancipação e aquisição de cidadania e seu rápido surgimento em posições de importância e responsabilidade – escritores surdos, engenheiros surdos, filósofos surdos, intelectuais surdos, antes inconcebíveis, subitamente eram possíveis.”

A reviravolta na educação de surdos ocorre a partir de 1880, no

Congresso Internacional de Educadores de Surdos, ocorrido em Milão, que determinou a proibição do uso de língua de sinais nas escolas. Neste congresso os participantes surdos foram impedidos de votar. A decisão partiu da defesa vigorosa de ouvintes que consideravam prejudicial o uso de língua de sinais, por tê-la como algo não natural, e que poderia prejudicar a fala e comprometer o desenvolvimento da criança. Esta decisão repercutiu por mais de cem anos na educação dos surdos, impedindo-os de usar sua língua natural e sendo obrigados a aceitar uma educação baseada em propostas oralistas. Sacks (1998:40) atribui a decisão ao “arrogante senso da ciência como poder, de comandar a natureza e nunca se dobrar a ela”.

Surge a idéia de que conquistar a fala é imprescindível para o desenvolvimento e a integração do surdo. Sacks (1998:41) afirma que “o oralismo e a supressão da língua de sinais acarretaram uma deterioração marcante no aproveitamento educacional das crianças surdas e na instrução dos surdos em geral”.

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