A Imagem da Cidade - Kevin Lynch

A Imagem da Cidade - Kevin Lynch

(Parte 1 de 11)

Um livro que se dirige ao arquitecto, ao urbanista, ao habitante da cidade.

Que significa realmente a forma da cidade para quem vive nela?

Que pode fazer 0 urbanista para tomar mais viva e memoravel a imagem da cidade? i I KEVIN LYNCH \., z >c

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PREFAclO

ESle [ivra debru(Q-se sabre 0 aspecro das cidades e sobre a possihi/idade de mudallfQ e a imporrlincia desse llspecfo. A paisa gem urbana Ii, para a/bn de Olaws coi- sas, algo para sef apreciado, lembrado e cowemplado. Dar forma visual a uma cidade e um problema especial de design, um problema ramhem receme. No decurso da analise deSle novo problema. 0 livro

debm(a-se sabre Ires cidades americQIIQs: Boston, Jersey City e l.ns Angele.'i. Sugere um meloda. mraves do qual poderemos come{ar a ocuparmo-flos da forma visual a eseala urbana. e a/erece alguns prindpios de de- sign urbano. o trabalho que 0 livro implicou fai levado a cabo sob a direC(;ao do professor Gyorgy Kepes e sob a minha propria no Cemro de ESlUdos Urbanos eRe· gionais do [flsriruro Tecnologico de Massachusells. Fai generosameme subsidiado durame varios mlOS pe/a Fun· Rockefeller. 0 livro em si, sendo publica do como urn volume das series para estudos urbanos do Centro Conjunto de Esrudos Urbanos do InsritulO Teenologico e da Ulli\-'ersidade Harvard de Massachusetts, e urn empre· endimenta que nasceu da pesquisa urbana levada a cabo por eSIaS duas Como acamece com qualquer trabalho imelecwal, 0

(ollteudo deriva de muitas fames, diJfceis de trar;ar. Di· associados na pesquisa conrribuiram direcrameme para 0 de.\envol\'lfnento de'lle esrudo: David Crane, Bernard Frieden. Wilham Afonso, Frank Hotchkiss, Richard

Dober e Mary Ellen Peters (agora Sr.Alonso). Estou muiro graro a todos eles.

Urn llOme deveria figurar nll primeira pdgulQ, junramellfe com 0 meu, se com eSle facIO mio 0 tornasse ropon.wivel por atglwws das fraquezas deSle livro. Esse nome e 0 de GJorgy K epes. 0 desenvof\'imemo detalhado e os eswdos ConcrelOS sao mellS, mas os conceitos subjacelltes joram delineados em muiws trocas de opmiiio com

() professor Kepes. Nao conseguiria dlstingulr as minhas

Ideias dOl' dele. Para mim, estes foram bOils Gnos de associarao.

Kevin Linch

M.l.T. Dezembro de 1959 l. A IMAGEM DO MEIO AMBIENTE

Contemplar cidades pode ser especial mente agradavel, par mais vulgar que 0 panorama possa ser. Tal como uma obra arquitecl6nica,la cidade e uma no espa90, mas uma constru9ao ern grande escala, algo ape- nas perceptlvel no decurso de longos perfodos de tempo.\ o design de uma cidade e, assim, uma arte temporal. mas rararnente pode usar as sequencias controladas e limitadas de outras artes temporais como, par exernplo, a musica. Em ocasioes diferentes e para pessoas diferentes, as se- quencias sao invertidas. interrornpidas, abandonadas, anuladas. [sto acontece a todo 0 passo.

A cada instante existe mais do que a vista mais do que 0 ouvido pode ouvir, uma ou urn cenario a espera de ser analisadoJ Nada se conhece ern si proprio, mas em ao seu meio ambiente, a cadeia precedente de acontecimentos, a recorda9ao de experiencias passadas. Se colocassemos a Rua Washington no campo de urn agricultor, esta poderia asseme- lhar-se a uma rua de comercio no de Boston: pa- receria, contudo. completamente diferente. Todo 0 cidadao possui numerosas com algumas partes da sua cidade e a sua imagem esta impregnada de mem6rias e significa(Joes.

as elementos m6veis de uma cidade, especial mente as pessoas e as suas actJvidades. sao tao importantes como as suas partes ffsicas e im6veis! N 300 somos apenas observadore~ deste espectciculo. mas sim uma parte activa dele, partlclpando com os num mesmo palco. Na maior parte das vezes, a nossa da cidade nao e integra. mas parcial. fragmentaria. envoi vi- da referenCias. Quase os senudos estao cnvolvldos e a imagem e 0 compo~to resuhante de todos eles.

A cidadenao e apenas urn ObJCClO perceptivel (e tal- vez apreciado) por milh6es de das mais variadas sociais e pelos vaflados tipos de personalidades, mas e 0 produto de muitos que constantemente modificam a eslrutura por razoes pani<.'ulare..,. Se, por urn lado. podem manter-se as linhas gerais exleriorc), por outro. ha uma constante mudan~a no porOlenor. Apenas parcial mente e possivel controlar 0 seu crescimento e a sua forma, Nao eXlste um resultado final, mas somente uma continua de fases} Assirn. nao podemos admirar-nos pelo facto de a arle de dar forma as cidades. visando urn prazer estctico, bastanlc distantc da arquitectura. da musica ou da literarura. Pode apro- veitar delas grandes contributos, mas mio pode imita-Ias.

Numa cidade. urn meio ambiente bela e agradavel c algo raro. imposslvel, diriam mesmo muitos. Nenhurna cidade americana. maior do que uma aldeia, e uniforme e qualilativameme agradavel. embora ern algumas cidades Se encontrem partes aprazfveis. Nao e, portanto, de admi- rar 0 facto de a maior parte dos americanos nao se aperceber do que pode significar viver em tal ambiente. Estes tern a consciencia dos feios do mundo em que vi-

vern e preocupam-se com a sujidade, a furno, 0 l:alor. a 0 caos e, no entanto, com a monotonia tam bern . Mas dificilmente se apercebem do valor poten- cial de arredores harrnoniosos, urn mundo que apenas viram nurn rapido relance, na qualidade de turistas ou em breve visita de ferias. Nao se apercebem do que uma es- trutura pode significar em tefmos de diaria, de abrigo para a sua existencia, ou como urn prolongamento do sentido ou riqueza do rnundo.

Legibilidade

Este IIvro ocupar-se-a da qualidade do ambiente VI- sual da cidade americana. estudando a imagem mental que os cidadaos lern dela. Concentrar-se-a especialmente numa quaJidade visual particular: la aparente clareza au "legibilidade') da paisagem Corn iSlO, preten- demos dcsignar a facilidade Com a qual as partes podem reconhecidas e numa estrutura coercOle. Tal como esta pagiOa impressa, sendo legfvel. pode ser compreendlda uma estrutura d,e slmb?- los reconhedveis. lambem uma ·cldade leglvel sen a aquela cujas freguesias: d,e dehrnitas;ao ou vias sao

facilmenle identlflcavels e pas:"'lvels de agrupamento ern globais

ESle Iivro defended a lese de que a leglblildade e crucial na eslrutura cltadina; anahsa-Ia-a em pormenor e tcntani. mO"itrar como e..,te conceito pode. hoje em dia, ser usado quando se as cidades. como 0 nosso lei tar depressa percebera, este eSlUda e uma preliminar. uma primeira palavra.e nao a ultima uma Icntativa de alrair e sugenr como 'podem desenvolvidas e postas a prova. 0 desle livra sera cspeculativo e. par vezes. urn poueo .If-ao mcsmo tempo e prctenslO- ,0. Este primeiro capitulo desenvolvera alguma, das ideias basicas.; nos capilUlos seguintes estas serao ap!Jcadas a varias cidades americanas e discutir-se-ao as suas

consequencias no design urbano

Embora a clareza ou legibilidade nao sCJa de modo algum a unica caracterfstica .d.e uma cida?e bela, a sua relevancia adquire urn significado especial quando se observarn arredores na escala urbana tamanho, tempo e complexidade. Para compreende: ISlQ te· mos de considerar a cidade naD como algo em 51 mcsmo,

mas a cidade objecta da dos seus habitanlcs

Estruturar e identificar 0 meio ambiente e uma acll- vidade vital de todo 0 animal move!. Sao muitas as cspe· cies de orientac;ao usadas: a sensaC;ao visual da. cor, da forma. do movimento ou da Iuz. aSSlm como outros sentidos, lais como a cheiro, 0 ouvido, 0 lacto. ::

cinestesia. a noc;ao da gravidade, e talvez as. de c~mp?s magneticos ou electricos. Estas lecnicas onentac;ao descritas desde 0 voo polar de uma andonnha do mar ate ao percurso de uma lapa na microtopografia de u~a rocha e a sua importftncia e sublinhada numa vasta !Jleratur.a 10.20.31 59 Os psicologos eSludaram tambem esta capacI- dade humana, se bern que 0 tenham feito de mane ira vaga au em condic;6es experimentais limitadas I. 5. 8. n. 31. 63.65. 76.8.1

Exceptuando alguns perseverantes puz;./es,. em dia, pouco provavel que exista algum ml_s- tico de orientac;ao. Existe sim urn usa e uma solid os de sensoriais definidas fomecldas pelo meio ambiente. Esta e fundamental a eficlencia e a pr6pria sobrevivencia da vida matora.

Para a maior parte das pessoas da cidade moderna, perder·se total mente dentro dela e. talvez, uma experien.

cia rara. pela presen-;a de Qutros e par planas de onentaIY30: mapas, nomes de ruas

,inais de rota. cartazes de autocarros. Mas que 0 dissabor da sueeda uma vez e a sensaC;ao de ansledade e ate de terror que 0 acampanha reve.

lam-nos como tudo isto est;} Jig ado ao nosso equilibria e A. propria palavraperdido», na nossa lingua,

slgnlflca multo mais do que a inceneza geograJica, acu· mulam-se nela cargas de extrema desventura.

. No processo de oriemaC;ao, 0 elo estratcgico e a tmagem do meio ambiente. a imagem mental generaliza· da do mundo exterior que 0 indivfduo retem. Esta ima- gem e 0 produto da percepC;ao imediata e da mem6ria da experiencla pass ada e ela csta habituada a interpretar in· formac;6es e a comandar acc;6es. A necessidade de con he- cer e estruturar 0 nosso meio e tao importante e tao enraizada no passado que esta imagem tern uma grande rele· vancia pnitica e emocional no Indivfduo.

Sem duvida a imagem clara pcrrnite ao indivfduo deslotar-se facilmente e depressa: encontrar a casa de urn amigo. urn polfcia ou uma Joja de botoes. Mas 0 rneio amb~enorganizado pode fazer mais do que iS10: pode como estrutura envoi vente de referencia, urn organlzador de actividade, ou conhecimento. Por exemplo. baseando-nos no entendimento estrutural de

Manhatlan, e posslvel ordenar uma quanlidade substancial de faetos e fantasias ace rca do mundo em que vive·

mos. Tal como qualquer born trabalho de uma tal estrutura da ao indivfduo uma possibilidade de escolha e urn ponto de partida para a de inferma~ao posterior. Uma imagem clara do meio ambiente e assim, urna base util para 0 crescimento do indivfdua. '

. Uma. estrutura f1sica viva e integral, capaz de pradu- Zlr uma Imagem clara, desempenha tambem urn papel social. Pade fornecer a materia-prima para os sfmbolos e memorias colectivas da comunica~ao entre grupos. Urna paisagem impression ante foi a base sobre a qual muilas raeas erigiram os seus mitos secialmente im· port antes. Lembrancas comuns da cidade natal foram vezes 0 primeiro e 0 mais facH ponto de contacto entre soldados solitarios durante a guerra.

. A imag.em .de urn born ambiente da, a quem a pos-

SUI, urn senudo Imp0rlante de emocional. Pede uma relaCao harmoniosa entre si e 0 mundo 14 exterior. 1sto e 0 inverso do meda que deriva da desorien-significa que a doce sentido do lar e mais fOrle quando alar e nao s6 familiar mas lambcm distintivo.

Na realidade, urn melD ambiente caracteristico e le- glvel nao oferece apenas segurans:a mas tarnbem intensi- fica a profundidade e a intensidade da experiencia humana. Embora a vida no caos exterior da cidade moderna esteja longe de ser impossIvei. a mesma aceao dhhia poderia adquirir urn novo significado quando levada a cabo numa estrutura mais viva. A cidade e potencial men- Ie 0 sfmbolo poderoso de uma sociedade complexa. Se for bern desenvolvida do ponto de vista aptico. pode rer urn forte significado expressivo. Pode argumentar·se contra a importincia de legibili- dade fisica, pode dizer·se que 0 cerebro humane e maravilhosamente adapuivel, que, com alguma expcriencia, sc pode aprender a encontrar 0 caminho atraves das imediac;oes mais caoticas e an6nimas. Exislem imensos cxem- plos dc navega<;ao exacta sem a ajuda de uma rota, em cxtens6es imensas de mar, areia. gelo ou atrav!!!:! da labi- rfntica selva. Contudo. ate 0 mar tern 0 Sol. as estrelas, os ventos, as correntes, as aves. as suas cores, sem as quais a navc-se tornaria imposslvel nao havendo urn outro auxflio. 0 facto de habeis profissionais tercm podido navegar atraves dos arquipelagos da Polinesia. e isto s6 depois de intensivo lreino. indica as dificuldades impostas por este meio ambiente particular. Mesmo as expedic;6es mais minuciosamente preparadas foram acompanhadas de cs- forc;os e ansiedade. Neste nosso mundo. podemos dizer que quase todos as minima mente atentas aprendem a navegar em Jersey

City, se bern que a custa de alguns esfon;os e incertezas. AJem disso, faltam os valores positivos de arredores legf- veis: a satisfac;ao emocional, 0 trabalho de enquadramento para a comunica~ao ou conceptual, a nova profundidade que pode trazer para a expericncia diaria. Estes sao apenas prazeres de que a falta, mesmo nao sendo 0 nossa ambiente citadino de tal modo desordenado que imponha urn intoleravel aqueles que com ele eSlaO familiarizados. Temos de admitir que ha algum valor na mistifica-

C;3.0, no labirinto ou surpresa no meio ambieme: muilm. de n6s divertimo-nos na sala dos espelhos e ha urn certo encanto nas ruas sinuosas de Comudo. estes factos verificam-se sob duas Primeiramente. nao deve existir 0 perigo de se perder a forma basica, a orien- v. Apendice A

Jersey City e analistJda flO Cap 1

Es/l'S pOIH05 ,(IO iJuslraJo.1 mail' adlOnre flO Apendire A OU de nao cncontrar uma saida. A surpree;a deve

Dcorrer num trabalho de organlZae;ao absoluta; as confu. soee; devem traduzir·se em pequenas areas nurn todo visf· vel. Para alcm dislO. a labirinlo au mislerio deve encerrar em si alguma forma que pode ser anali'iada e, a seu tern· po. apreendida. 0 caos completo sem Insinuae;oes de re. lac;oes nunea pode .ser agrada eL

Mas eslas segundas ilac;oes apontam para uma im· ponante apreeia\ao. 0 proprio observador deveria de· sernpenhar urn papel activo na pereep)ao do mundo e parricipar eriativamente no desenvolvimento da imagem.

Ele deveria ser capaz de transformar essa irnagem. adequando·a a necessidades em rma~aoUrn ambienle estruturado em exactos e definidos pode inibir novos modelos de aetividade. Urna paisagem cuja rocha en cerra uma Icnda pode tornar difkil a cria\ao de novas lendas. Embora esta opiniao possa nao parecer uma impressao CTftica no nossn caos citadino contemporaneo. aponta para 0 facto de que 0 que procuramos mio e uma ordem definitiva mas aberta. capaz de urn desenvolvimento posterior contInuo.

Consrruindo a imagem

As imagens do meio ambiente sao a resultado de urn processo bilateral entre 0 observador e 0 meio, 0 meio ambiente sugere e relac;oes, e 0 observador -

com grande e it luz dos sellS proprios -selecciona. organiza e data de sentido aquilo que ve, A imagem. agora assim desenvolvida. limita e da enfase ao que e viSlO, enquanto a pr6pria imagem e posta it prova contra a capacidade de registo perceptual, num processa de eonstante interacC;ao. Assim, a imagem de uma dada realidade pode variar significativamente entre diferentes observadores.

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