Teoria e prática da educação do campo

Teoria e prática da educação do campo

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Teoria e prática da educação do campo

“ Análises de experiências

Organizadoras

Carmen Lucia Bezerra Machado Christiane Senhorinha Soares Campos Conceição Paludo{

Teoria e prática da ed ucação do ca m p o nálises de ex p e r i ê n c i a s

Pronera

Teoria e prática da educação do campo

“ Análises de experiências

Organizadoras

Carmen Lucia Bezerra Machado Christiane Senhorinha Soares Campos Conceição Paludo{

MDA Brasília, 2008

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Presidente da República

GUILHERME CASSEL Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário

DANIEL MAIA Secretário-Executivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário

ROLF HACKBART Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

ADONIRAM SANCHES PERACI Secretário de Agricultura Familiar

ADHEMAR LOPES DE ALMEIDA Secretário de Reordenamento Agrário

JOSÉ HUMBERTO OLIVEIRA Secretário de Desenvolvimento Territorial

CARLOS MÁRIO GUEDES DE GUEDES Coordenador-Geral do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural

ADRIANA L. LOPES Coordenadora-Executiva do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural

CÉSAR JOSÉ DE OLIVEIRA Diretor de Desenvolvimento de Projetos de Assentamentos

CLARICE APARECIDA DOS SANTOS Coordenadora-Geral de Educação do Campo e Cidadania

MARIA MARTA ALMEIDA SARMENTO Chefe da Divisão de Educação do Campo

NEAD Experiências Copyright 2008 by MDA

PROJETO GRÁFICO, CAPA E DIAGRAMAÇÃO Xico Só – Mtb 4650/DF | xico.so@gmail.com

FOTOGRAFIAS Arquivo/MDA Regina Santos

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO (MDA) w.mda.gov.br

INSTITUTO DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA (Incra) w.incra.gov.br

NÚCLEO DE ESTUDOS AGRÁRIOS E DESENVOLVIMENTO RURAL (Nead) SBN, Quadra 2, Edifício Sarkis Bloco D – loja 10 – sala S2 - CEP: 70.040-910 Brasília/DF – Telefone: (61) 3961-6420 – w.nead.org.br

PCT MDA/IICA – Apoio às Políticas e à Participação Social no Desenvolvimento Rural Sustentável

T314tTeoria e prática da educação do campo : análises de experiências /
organizadoras, Carmem Lúcia Bezerra Machado ; Christiane
Senhorinha Soares Campos ; Conceição Paludo. – Brasília :
MDA, 2008.
236 p. : il. ; 23 cm. -- (NEAD Experiências).
ISBN 978-85-60548-37-8
1. Educação do campo – experiência – Brasil. 2. Políticas públicas. 3.
Movimentos sociais. I. Machado, Carmem Lúcia Bezerra. I. Campos,
Christiane Senhorinha Soares. I. Paludo, Conceição. IV. MDA.V. Série.

CDD 630.70981

PREFÁCIO8
APRESENTAÇÃO14
INTRODUÇÃO18

Sumário Carmen Lucia Bezerra Machado, Christiane Senhorinha Soares Campos, Conceição Paludo

NA.EDUCAÇÂO.DO.CAMPO26
DA.EDUCAÇÃO.DO.CAMPO4
A.ORGANIZAÇÃO.DO.PROCESSO.EDUCATIVO58

Clair da Fonseca, Elodir Lourenço de Souza, Lurdes Marta Santin, Teresa Madalena Rodrigues, Vera Lúcia Mazzini

AVALIATIVO74

ESCOLAS.DO.CAMPO:.ENCONTRO.E.DESENCONTROS.DO.PROCESSO. Clarice Pellizzari, Cleomar José Pietroski, Conceição Paludo

PRÁTICAS.EDUCATIVAS.NA.SALA.DE.AULA86

Bárbara Bellini Juchem, Cátia Gonçalves, Daiane Fiorini, Janes Carra, Eliete Ávila Wolff

ENSINO-APRENDIZAGEM.EM.TRÊS.ESCOLAS.DO.SUL.DO.BRASIL100
POSSIBILIDADES.DE.FORMAÇÃO.HUMANA112

FORMAÇÃO.DE.EDUCADORES.DE.EJA:.. Adriano Borges de Souza, Claudemir da Conceição Ferreira, Silvana Maria Gritti

PRÁTICAS.EDUCATIVAS.NO.ENSINO.MÉDIO128

Chirlei Werkhausen Fischer, Jaime Fogaça, Verônica Luiza Roesler

DE.EDUCAÇÃO.DO.CAMPO142

ESCOLA,.COMUNIDADE.E.ESTADO.NAS.EXPERIÊNCIAS.. Ciliana Federici, Cleber Menezes Mori, Simone Valdete dos Santos

EDUCAÇÃO,.ESCOLA,.MOVIMENTOS.SOCIAIS.E.COMUNIDADE156

Antônio Escobar de Almeida, Eldo Moreira Barreto, Izabela Christiana Braga, Luiz Adílio Alves Xavier, Marcionei Pazetti

DOS.MOVIMENTOS.SOCIAIS.DO.CAMPO174

A.QUESTÃO.DE.GÊNERO.EM.ESPAÇOS.EDUCATIVOS.. Altair Norback, Catiane Cinelli, Christiane Senhorinha Soares Campos, Inês Soares Rodrigues

DINÂMICA.MULTIPLICADORA192

PROCESSO.FORMATIVO.COM.MULHERES.CAPONESAS:.. Christiane Senhorinha Soares Campos, Deise Graciele Bender, Marquiela Trombetta

SUJEITOS.JOVENS.DO.CAMPO206
JUVENTUDE:.PROTAGONISMO.NO.PROCESSO.FORMATIVO.E.NA.AÇÃO220

Adriana Pinto, Diana Daros, LetíciaTietböhl Melo, Raquel Monteiro

“Ninguém se faz sujeito se não põe a mão na massa”.

Esta frase nos parece adequada para abrir o preâmbulo de um livro como esse. Foi extraída de um dos artigos aqui publicados, e expressa de maneira direta e incisiva pelo menos dois princípios que orientaram o processo formativo vivenciado pelos estudantes de Pedagogia da Terra: é preciso formar sujeitos e sujeitos são formados pela prática. E no contexto social e político em que disso se trata, estes sujeitos são da classe trabalhadora, são vinculados a organizações e movimentos sociais do campo que assumem a perspectiva da luta pela transformação social, são educadores e educadoras que pensam sobre o que fazem, que estudam sobre o que deve ser feito, que buscam compreender mais e coletivamente sobre a ‘mão’ e sobre a ‘massa’ que lhes permitem assumir a condição de construtores do futuro.

Para o Iterra, Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária, é uma honra participar da iniciativa de publicação deste livro. Primeiro pelas parcerias envolvidas: Movimentos Sociais da Via Campesina, protagonistas principais da experiência através dos estudantes do curso e pela participação na sua gestão colegiada; Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, proponente e executora do curso junto com o Iterra; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, através de uma equipe de professores-orientadores da pesquisa e Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária, PRONERA/INCRA, Ministério do Desenvolvimento Agrário, no apoio instituído a iniciativas deste tipo. Tratase de uma articulação de parcerias para a democratização do acesso à educação escolar, feita pela formação de sujeitos capazes de continuar a luta pela democratização do acesso ao trabalho, à terra.

É uma honra também pelo compromisso que esta experiência expressa e renova: fazer formação de educadores e fazê-la desde a perspectiva político-pedagógica da Educação do Campo, contribuindo para afirmá-la como prática e como objeto de pesquisa, dialogando sobre o movimento real que a constitui, suas contradições, suas tensões, seus limites e suas possibilidades, bem como sobre a relação com o esforço coletivo de provocar as mudanças necessárias na realidade social que justifica sua própria existência. E formar educadores para uma postura interrogativa, investigativa e de reflexão crítica sobre a realidade do campo; produzir conhecimento tomando posição diante de uma realidade que precisa ser estudada para ser transformada.

Tornar público este livro é ainda um reconhecimento ao trabalho de docentes e estudantes do curso, combinado à valorização da produção coletiva que esta obra representa.

A experiência deste curso de licenciatura em Pedagogia, para nós identificado como

“Pedagogia da Terra”, envolveu a realização de duas turmas, no período entre março de 2002 e junho de 2007. Em ambas a pesquisa foi trabalhada como estratégia pedagógica e desenvolvida ao longo de todo o curso. A primeira turma desta Pedagogia da Terra, “Turma José Martí”, desenvolveu suas pesquisas em torno da questão “como se formam os sujeitos do campo”, trabalho concluído em setembro de 2005. E a segunda turma, e autora do presente livro, “Turma Margarida Alves”, focalizou seus trabalhos de pesquisa na análise de experiências de educação no e do campo, particularmente em relação ao trabalho pedagógico nas escolas de educação básica de comunidades rurais, através de processo narrado na introdução desta obra.

Os artigos produzidos pelos grupos de pesquisa da Turma Margarida Alves têm dois méritos principais que gostaríamos de destacar neste prefácio. Do ponto de vista do processo formativo dos estudantes, os textos buscam fazer uma síntese da compreensão construída pelos seus autores sobre a teoria e a prática da educação e da Educação do Campo a partir de um esforço de investigação orientado por seus professores-pesquisadores durante o curso. E assumem o desafio de relacionar teoria e prática, ou de promover o diálogo entre o material empírico coletado e o referencial teórico estudado.

Do ponto de vista de seus resultados, e trazendo presente também as monografias que serviram de base à produção dos artigos,2 onde seu trabalho de campo fica mais explícito e detalhado, estes trabalhos trazem elementos importantes na composição de um retrato da realidade dos processos educativos que se desenvolvem hoje no campo, especialmente nas escolas públicas de educação básica, e particularmente na região sul do Brasil, região onde foi realizada a maior parte dos trabalhos de campo. Além disso, a pesquisa levanta

1 – Os artigos produzidos pelos grupos de pesquisa da Turma José Martí podem ser encontrados em: Caldart,

Roseli Salete, Paludo, Conceição e Doll, Johannes (org.) Como se formam os sujeitos do campo? Idosos, adultos, jovens, crianças e educadores. Brasília: Pronera/NEAD, 2006. Narrativas e reflexões sobre o processo formativo do curso Pedagogia da Terra estão publicados em Intencionalidades na formação de educadores do campo. Cadernos do Iterra n. 1, maio de 2007. 2 – As monografias elaboradas pelos estudantes do curso de Pedagogia da Terra encontram-se disponíveis para consulta no Centro de Documentação “Haydée Santamaría Cuadrado” do Iterra.

questionamentos significativos para a continuidade da reflexão sobre as práticas educativas abordadas.

Ao convidar a todos e todas para a leitura dos textos que seguem, nos parece importante mencionar a potencialidade do debate teórico em torno dos eixos temáticos que estruturaram a pesquisa realizada pelos estudantes e que esperamos possam ser retomados em próximos trabalhos: organização do trabalho pedagógico da escola, processos de ensino e aprendizagem, formação de educadores e relação escola, comunidade, Estado e Movimentos Sociais.

Estamos no âmbito da Educação do Campo e da reflexão sobre suas práticas, entre elas a da escola. Trata-se de um campo que se abre à produção do conhecimento em diferentes áreas, e particularmente na área da pedagogia, ou do como conduzir processos educativos, assumindo o movimento permanente, e às vezes contraditório, entre o particular e o universal na construção de uma análise da realidade que nos permita trabalhar para e desde novas relações sociais.

Nosso tempo é de urgências. Urge o tempo da luta de todos pela dignidade roubada de cada um de nós. Mas a sabedoria camponesa nos ensina que esta luta urgente é uma luta de resistência e persistência. É preciso trabalhar agora pensando já na próxima safra, preservando com cuidado as sementes e prestando atenção no tempo certo de seu plantio. Por isso os movimentos sociais que foram sujeitos da experiência expressa nestes textos trabalham com formação e particularmente com formação de educadores. Porque acreditam que esta sementeira vai “garantir a próxima planta”.

Roseli Salete Caldart Veranópolis, RS, dezembro de 2007.

3 – Da coordenação da Unidade de Educação Superior do Iterra. Doutora em Educação pela Ufrgs.

[ TEORIA E PRÁTICA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO ] }12[ ANÁLISES DE EXPERIÊNCIAS ]

[ TEORIA E PRÁTICA DA EDUCAÇÃO DO CAMPO ] }14[ ANÁLISES DE EXPERIÊNCIAS ]

Uma produção acadêmica da juventude camponesa

Em outubro de 2003, o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONE-

RA), iniciava, no Rio Grande do Sul, no Instituto de Capacitação e Pesquisa na Reforma Agrária (Iterra), um novo curso: era o Pedagogia da Terra, cuja finalidade era a formação de educadores para atuarem nos anos iniciais do Ensino Fundamental.

Graças a um Convênio estabelecido entre a Universidade Estadual do Rio Grande do

Sul (UERGS) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), 50 jovens das áreas de Reforma Agrária, entre os milhares de camponeses e camponesas, acessaram mais um curso de nível superior.

Essa foi uma entre as centenas de parcerias estabelecidas com as mais de 50 instituições de ensino médio e superior, ao longo dos 0 anos, que ofereceram condições para que cerca de 400 mil jovens e adultos assentados tivessem se escolarizado e acessado níveis mais elevados de escolaridade. Somente neste ano de 2008, estão em processo educativo formal 48 mil estudantes em 34 cursos.

Este livro é resultado de um processo educativo com forte acento no componente Pesquisa, instrumento fundamental para a produção de um conhecimento necessário ao desenvolvimento da sua prática docente.

O ineditismo desse trabalho refere-se ao fato de trazer a voz dos estudantes com seus professores-orientadores mas, acima de tudo, o coletivo dos estudantes protagonistas de produção acadêmica, desde as suas produções individuais nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs). Os trabalhos refletem questões de gênero, como é o caso do tema “Processo Formativo com Mulheres Camponesas: Dinâmica Multiplicadora; questões relacionadas à geração – “Juventude: Protagonismo No Processo Formativo e na Ação” e “Um Contexto, uma Época: A Escola e os Sujeitos Jovens do Campo” , e à própria “Cultura Camponesa no Processo Ensino-Aprendizagem”.

As principais preocupações, no entanto, são as questões geradas pelas práticas educativas na sala de aula, também objeto de estudo dos estudantes, como: a relação escola – comunidade assentada; escola, educação e movimentos sociais; processo avaliativo na escola; e projeto político-pedagógico. Estas tratam de questões cotidianas desses jovens, vivenciadas nas escolas dos assentamentos, que desafiam a busca do conhecimento e da pesquisa.

Para além do desafio de buscarem as soluções, por meio do estudo e da pesquisa para as questões cotidianas do processo educativo, revelam a maturidade e a responsabilidade com que se enfrentam com o ambiente acadêmico, que então se revela aberto e disposto a aceitar o porcesso e questionar-se ante tais inquietudes.

Publicar tal livro é, para o INCRA, tanto razão de orgulho, pelos novos contextos que permite vislumbrar na formação de educadores do campo, quanto consciência do dever de tornar públicas tais práticas e seu significado para o processo de desenvolvimento dos assentamentos e para a Reforma Agrária.

Nossa perspectiva é construir novos projetos educativos nas escolas rurais com a participação definitiva do Estado, a parceria com as universidades e com a imprescindível participação dos movimentos sociais do campo como sujeitos ativos da política. Isso vem na esteira da missão desta instituição, pois a Reforma Agrária pressupõe não apenas a distribuição da terra, mas a oferta das condições necessárias ao desenvolvimento das famílias assentadas, onde se inscreve a educação.

A turma Margarida Alves, denominação a que se deram os estudantes do Curso Pedagogia da Terra, formou-se em julho de 2007. Já estão pelo Brasil afora, atuando em escolas, em coletivos de educação das áreas de Reforma Agrária ou coordenando outros cursos de formação de educadores. Levaram experiências, aprendizados, diferentes conhecimentos mas, acima de tudo, construíram um novo conhecimento.

Nos deixam uma mostra do quão importante são estes aprendizados e novos conhecimentos não mais adquiridos, mas produzidos pelos jovens e pelas jovens camponesas para a educação na perspectiva de um novo campo, no Brasil.

Brasília, 12 de agosto de 2008. 25º ano do assassinato de Margarida Alves

Rolf Hackbart Presidente do Incra

Teoria e prática em Educação do Campo: Análise de Experiências

A proposição das pesquisas aqui relatadas foi o de estudar como estão se desenvolvendo, tanto na teoria como na prática, as experiências de Educação “no” e “do” Campo4, prioritariamente na Região Sul do Brasil (PR, SC, RS), nos seguintes eixos: ) Organização do trabalho pedagógico, que foi centrado na instituição educativa como um todo; 2) Processos de ensino e aprendizagem, com o olhar voltado para a sala de aula; 3) Formação de educadores e 4) Relação escola, comunidade, estado e movimentos sociais, que buscou estudar as “relações externas” da escola, isto é, suas relações com a comunidade, com as organizações e movimentos existentes na comunidade e com os governos.

Como objetivo geral as investigações pretenderam contribuir para a qualificação dos projetos pedagógicos e das práticas de Educação do Campo. Os objetivos específicos propostos foram: conhecer experiências desenvolvidas a partir do referencial proposto pela Articulação por uma Educação do Campo e pela Teoria Crítica em Educação; analisar como estas experiências estão sendo desenvolvidas, identificando as positividades e as contradições; extrair indicativos para a qualificação teórica e prática de cada uma das experiências pesquisadas, da Educação do Campo como um todo e do poder público; capa-

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