Arquitectura moderna

Arquitectura moderna

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Construção moderna: as grandes mudanças do século X

Ana Tostões

Um recorrente debate na história da construção tem oposto o primado das formas ao das invenções estruturais. De um lado defende-se que as revoluções formais resultaram directamente dos novos materiais ou métodos de construção; do outro argumenta-se que as mudanças operadas na visão do mundo ou nas intenções estéticas apenas adaptam as técnicas ás intenções e objectivos expressivos. Este ensaio procura reflectir sobre o modo como as conquistas estruturais lideradas pela engenharia no quadro dos materiais, das técnicas e dos sistemas, foram de capital importância para a arquitectura que se produziu.

Em 1750 a fundação da École des Ponts et Chaussées marca uma nova era na história da construção com a formação especializada do engenheiro. De facto, com o advento da engenharia, baseada no desenvolvimento e utilização dos novos materiais, os elementos estruturais passaram a ser considerados de um modo abstracto. Isto é, a concepção arquitectónica oitocentista assente no primado da composição começava a ser substituída por uma concepção estrutural determinada pela matéria e pela finalidade. Este facto, revelado nas obras pioneiras de engenheiros realizadas inicialmente com ferro - a arquitectura de engenheiros como se passou a designar1 - influenciou profundamente o desenvolvimento da arquitectura moderna. À noção clássica de forma e de proporção acrescentava-se a necessidade de ter em conta o material com que se construía.

Por isso se pode afirmar que as transformações na construção do século

X decorrem fundamentalmente da influência dos progressos técnicos quer sobre o universo dos materiais de construção, quer sobre o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos sistemas . Por exemplo, a utilização do elevador constituíu um factor vital nas mudanças económicas e sociais que acompanharam o surto de urbanização das cidades. Na mesma ordem de ideias se pode referir que as diferenças climáticas foram progressivamente atenuadas porque, quer os equipamentos, quer os materiais, foram desenvolvidos no sentido de moderar o efeito das condições externas no interior dos edifícios. Assim, no seu desejo de responder aos desafios colocados pela modernidade, a Arquitectura do Movimento Moderno, que teve a sua génese ao longo dos anos 20 e que se afirmou depois da I Guerra Mundial, serviu-se dos novos materiais e incorporou os novos sistemas. De tal modo que na actualidade as edificações se baseiam numa paleta relativamente estável de desenvolvimentos técnicos2.

A utilização dos materiais seguiu três padrões. Em primeiro lugar, o processo de industrialização aplicado a alguns materiais (tais como a alvenaria de pedra, a madeira ou o vidro) sem alterar significativamente a sua natureza potenciou quer o acesso destes materiais ao mercado, quer uma surpreendente eficácia na sua utilização. Em segundo lugar, a crescente utilização do tijolo e depois do cimento usado sob a forma de betão3 conduziu a que rapidamente substituíssem os materiais tradicionais. Finalmente, a mais importante influência foi protagonizada pelos materiais estruturais: o ferro, o aço e o betão armado. Foram eles que permitiram o desenvolvimento de novas formas de edificação, que por sua vez respondiam às também novas necessidades de um mundo em modernização.

O desenvolvimento de materiais artificiais, como o ferro e o cimento, bem como o aperfeiçoamento dos engenhos de suspensão e das várias máquinas de obra, transformaram radicalmente as técnicas de construção. Depois da "descoberta" de um cimento de grande resistência (Portland), graças á utilização de uma forte temperatura de calcinação, a passagem da tecnologia da cal á do betão trouxe francos progressos no domínio da solidez das construções4. Entretanto as qualidades de robustez do betão foram ainda mais potenciadas com a utilização de armaduras metálicas, primeiro com ferro depois com aço: o betão armado5. No quadro destas evoluções técnicas os métodos de construção foram sendo progressivamente capazes de responder à procura de populações desejosas de atingir um conforto real. De tal modo que se pode afirmar que o impacto das inovações técnicas transformou hábitos e modos de vida de massas de consumidores.

Quando Le Corbusier afirmou em 1923 que "a casa é uma máquina de habitar"6 não só proclamou um princípio estético, como reconheceu, na sua admiração pela engenharia7, a integração indispensável dos sistemas na construção moderna. Desde a canalização à electrificação, da iluminação ao aquecimento, lâmpadas, radiadores, tomadas e grelhas tornaram-se aparatos não só visíveis mas sobretudo assumidos como protagonistas de uma estética moderna.

Acompanhando a crescente industrialização o desenvolvimento de dispositivos de segurança e conforto (pára-raios, instalações sanitárias, iluminação, aquecimento e ventilação, ar condicionado, elevadores e escadas rolantes, protecção contra o fogo, engenharia estrutural, acústica) evoluíram de tal modo, que a partir de meados do século X os sistemas de um edifício podiam representar quase metade do seu custo total, no quadro de um crescente investimento no bem-estar dos habitantes.

Revivalismo e novos materiais estruturais No início de novecentos a cultura portuguesa, como aliás de um modo geral todo a cultura ocidental, debatia-se entre um desejo de modernização, que se apoiava numa crença optimista nas potencialidades da máquina, e uma nostalgia de passado ameaçado que desprezava esse presente em acelerada mutação. O mundo da construção e da cidade reflectiam de algum modo a dicotomia desse momento de transição, em que os valores artísticos da arquitectura eram confrontados com a eficácia da engenharia e as possibilidades dos novos materiais. Por outras palavras, a engenharia insinuava-se como a "nova arquitectura"8. Ou melhor, no momento em que “a indústria substituía a arte"9, tendia a cristalizar-se o debate arte-técnica. E assim se separando em campos opostos o secular percurso comum da arquitectura e da engenharia.

Este afastamento disciplinar que demarcava a eficácia estrutural do engenheiro da habilidade artística do arquitecto tinha a sua correspondência no fenómeno epocal e revivalista romântico que dissociava construção e fachada, verdade do material e ornamento apenso. E, como se verá, a construção encarada como uma composição em partes separadas e aparentemente autónomas que caracterizou o ecletismo de final de oitocentos não foi só característico da "grande" arquitectura porque as próprias construções ditas "ulilitárias" integraram igualmente essa dicotomia.

O Elevador de Santa Justa [foto1], em Lisboa, projectado pelo engenheiro

Raoul Mesnier du Ponsard em 1900 e inaugurado no ano seguinte constitui a obra paradigmática do novo século. Utilizando, inicialmente, a energia de uma máquina de vapor celebrava as utopias urbanas finisseculares materializadas atravès das inovações da técnica. Estabelecendo uma comunicação vertical entre a Baixa e o Carmo assinalava-se escultoricamente na sua vericalidade como elemento inovador da cidade, afinal a torre possível da marcação do progresso. O ferro como novo material de construção era utilizado sem disfarce, mas expresso paradoxalmente numa linguagem revivalista gótica que buscava a sua adequação a um tempo e a uma mentalidade que era ainda de oitocentos.

Desde meados de oitocentos que o ferro constituía uma inovação aplicada à construção das novas infraestruturas viárias. Empregue inicialmente no quadro da implementação dos caminhos de ferro e utilizado pela primeira vez entre nós na ponte de Xabregas (1854), as possibilidades estruturais do material ficariam ligadas duas décadas depois às pontes D.Maria (1877) e D.Luís (1888) sobre o Douro, ex-libris não só portuenses mas de amplitude internacional como modelo de resolução de grandes e profundos vãos10. A revelação mediática no ferro como material de construção ocorreu entre nós justamente no Porto por ocasião da exposição Universal de 1865 que justificou o Palácio de Cristal portuense11.

Lisboa recebia só duas décadas depois o seu Coliseu (1890) construido em esqueleto de ferro e integrando na parte norte a Sociedade de Geografia com a Sala Portugal (1897). Projectada por arquitecto (Mestre José Luís Monteiro) para ser construída em ferro, tratava-se da primeira sala nobre erguida entre nós para congressos e conferências. O espaço, entendido para além da sua imediata funcionalidade, desenvolve-se em tês níveis que circundam o amplo espaço central da sala que pode simbolizar, muito justamente, a primeira utilização arquitectónica do novo material. A aplicação do ferro dominava sobretudo os programas de carácter utilitário, isto é, os equipamentos colectivos em que os amplos espaços necessários reclamavam estruturas inovadoras. Em Lisboa, à série de mercados iniciada em 1885, com a abertura do mercado da Praça da Figueira, sucedem-se os primeiros grandes armazéns em 1891 com o Grandella, com o seu espaço organizado em torno de uma ampla escadaria de ferro que unificava visual e operacionalmente os vários pisos.

No início do novo século, a Garagem Auto-Palace [foto2] inaugurada em 1907, com projecto de Barracho e construção de Eiffel marcava a adequação do novo material a um programa inédito, como o era a primeira garagem de Lisboa. O espaço interior amplo reflectia-se na fachada que se abria nos grandes vãos permitidos pelas vigas de ferro. Também a nova tipologia de habitação de massas surgida em Lisboa, a vila ou bairro operário, vai adoptar e desenvoçver a utilização do ferro em interessantes sistemas de acessos a estas habitações colectivas. É o caso da Vila Berta [foto3] com as suas expressivas varandas em ferro ou da Vila Estrela de Ouro com as circulações organizadas em galerias suspensas que só o novo material permitia12.

Estas experiências com estruturas metálicas para além de revelarem actualizadas possibilidades técnicas assinalavam transformações na conjuntura social que exprimiam o silogismo: programas novos-materiais novos. Contudo, o academismo e a expressão de uma tradição construtiva feita gramática compositiva que dominavam a prática da arquitectura impediam culturalmente a assunção clara da verdade estrutural. Acantonados nos princípios clássicos, os arquitectos posicionaram-se do lado da resistência à inovação13. Na verdade, a adesão à lógica da máquina e a uma racionalidade construtiva decorrente da aplicação dos novos materiais, foi reservada inicialmente a edifícios de carácter eminentemente utilitário de que a Fábrica de Moagem de Trigo do Caramujo (Almada, 1898) constitui paradigma em Portugal porque se trata da primeira construção em betão erguida entre nós. A construção deste programa industrial foi realizado entre 1897 e 1898, aplicando o sistema Hennebique [foto4] quando o betão armado era ainda uma novidade em Portugal14 e segundo alguns autores mesmo no estrangeiro15. A escolha deste sistema poderá relacionar-se directamente com os riscos das construções tradicionais, nomeadamente a sua fragilidade ao fogo, sentidos pelos industriais. Mas, muito para além disso o sistema patenteado por Hennebique com os seus representantes em Portugal, permitia uma concepção estrutural de grandes espaços apenas pontuados pela rede de finos pilares que se conjugavam com lajes armadas capazes de suportar grandes sobrecargas, solução que respondia claramente aos requisitos funcionais de uma grande laboração industrial. Para além disso, era ainda possível encontrar soluções inovadoras que aliavam a funcionalidade á técnica construtiva e à manutenção do edifício: por exemplo a cobertura em terraço adoptada servia simultaneamente de reservatório de água (com capacidade para 20 m3), de isolamento térmico16 e atrevemo-nos a pensar que também funcionando como neutralizador das dilatações provocadas ao material pelas diferenças de temperatura. Contudo, apesar das grandes inovações construtivas, a resolução da fachada, executada tradicionalmente com enchimento de tijolo, acabaria por expressar um desenho também ele tradicionalmente "clássico" para este grande edifício de seis andares e que interiormente apresentava vãos livres rectangulares entre pilares de 3,0 por 5,35 metros.

Nesse mesmo ano 1898 o novíssimo material - que em menos de duas décadas viria a substituir completamente o ferro usado estruturalmente - betão armado era utilizado pela primeira vez na construção de uma grande obra pública: o edifício da Escola Médica de Lisboa onde foi usado na execução do tecto do átrio e pavimento do respectivo piso superior que foi relizado com o sistema Cottacin. A utilização das potencialidades do novo material, o betão armado, não é, mais uma vez, assumida arquitectónicamente.

Até 1910 há notícias de uma construção intensa em betão armado, particularmente pelos concessionários Hennebique, suportada pela matériaprima fornecida pela primeira fábrica de cimento artificial "Portland" em Alhandra que funciona a partir de 189417. Entretanto em Lisboa fundava-se o Instituto Superior Técnico e no Porto criava-se o "Laboratório de Resistência de

Materiais" no quadro da mesma Universidade o que denunciava um crescente entendimento científico da questão que passava do quadro de empresárioconstrutores, ao universo científico da engenharia. A invenção de fórmulas matemáticas, os cálculos e a experimentação de ruptura permitem introduzir o betão armado no ensino da construção. Tornado sistema o betão armado podia definir-se segundo normas legais de segurança.

No início, aplicado preferencialmente em estruturas industriais ou obrasarte da engenharia, a "arquitectura" parecia entender a utilidade do betão armado aplicado exclusivamente nos elementos horizontais, por isso assistimos inicialmente a utilizações pontuais apenas em lajes de pavimentos coordenadas com elementos verticias maciços em alvenaria, processo que estenderá à arquitectura corrente dos anos 30, como veremos.

Ao contrário do que se passava nas construções eminentemente utilitárias, onde os arquitectos pouco intervinham, a "grande" arquitectura prolongava no tempo as práticas europeias oitocentistas dominadas hegemónicamente pelas Beaux-Arts parisienses. E, nessa medida os arquitectos portugueses de 1900 foram artisticamente ecléticos. Arredados de uma inovação tecnológica, recorrem modestamente aos processos tradicionais de construção usando paredes resistentes em alvenaria e pavimentos de madeira, que o atraso e a debilidade da industrialização em Portugal podem explicar se comparadas com a produção arquitectónica ocorrida nos países pioneiros da revolução industrial. As inovações concentram-se sobretudo na organização espacial doméstica da casa burguesa que reflectia novos costumes potenciados pelos novos dispositivos (da água corrente à campainha eléctrica, ou do telefone ao ascensor), conjugando-se com o agenciamento de fachadas exuberantes que assinalavam o desejo de ornamentar os bairros novos.

Mas é certamente na imagem simbólica da nova cidade, as Avenidas

Novas, a extensão urbana de Lisboa infraestruturada com as premissas da civilização, que se define a marcação do novo século. Referenciadas ao espírito haussmaniano dos grandes boulevards virados para a circulação motorizada, qualificadas pelo engenheiro Ressano Garcia que definiu uma nova mentalidade na acção urbanística da Câmara, e edificadas por uma burguesia que buscava na nostalgia do ecletismo oitocentista a imagem das suas pequenas vivendas ou dos primeiros prédios de rendimento, as Avenidas Novas são a Lisboa burguesa das duas primeiras décadas do novo século.

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