Estilos de pensamento biológico sobre o fenômeno vida

Estilos de pensamento biológico sobre o fenômeno vida

(Parte 1 de 4)

p. 23-49 CONTEXTO & EDUCAÇÃO

Editora UnijuíAno 26 nº 86 Jul./Dez. 2011

Estilos de pensamento Biológico Sobre o Fenômeno Vida

Danislei Bertoni1 Araci Asinelli da Luz2

Resumo

A questão “O que é vida?” perpassa a história da humanidade e a mesma tem encontrado respostas a esta pergunta, cada uma no seu tempo histórico, no contexto sociocultural de cada época. O objetivo principal deste estudo é comunicar os estilos de pensamento biológico que historicamente predominaram no modo de explicar e ao mesmo tempo compreender o fenômeno vida. Ao investigar sobre estilos de pensamento biológico, realizamos um estudo exploratório do contexto narrativo histórico e sociocultural desde a antiguidade até a contemporaneidade e apontamos para a instauração, a extensão e a transformação de quatro estilos de pensamento biológico: descritivo, mecanicista, evolutivo e da manipulação genética. Nas considerações finais, apresentamos uma aplicação prática dessa sistematização dos estilos de pensamento biológico, a saber, uma proposta de reorganização curricular da disciplina de biologia no ensino médio.

Palavras-chave: Fenômeno vida. Estilo de pensamento. Biologia. Ludwik Fleck. História da Biologia.

StyLeS of BioLogicAL thought on the Phenomenon of Life

Abstract

The question, “what is life?” permeates the history of humanity, and the same has found answers to this question, each in its historical time, in the sociocultural context of each time. The main goal of this study is to report the styles of biological thought that historically were dominant in the way of explaining it and also understand the phenomenon of life. To investigate styles of biological thought, we conducted an exploratory study of the historical and sociocultural narratives context from antiquity to contemporary times and we have pointed out to the instauration, extension and the transformation of four styles of biological thought: descriptive and mechanistic, evolutionary and genetic manipulation. The final thoughts section, we presented a practical application of this systematization of styles of biological thought, namely, a proposal for a High School Biology curriculum reorganization.

Keywords: Phenomenon of life. Thought style. Biology. Ludwik Fleck. History of Biology. Doutor em Educação pela UFPR e professor de Biologia da Rede Estadual (SEED/PR). Doutora em Educação pela USP e professora do Departamento de Teoria e Prática de Ensino da UFPR.

Danislei Bertoni – araci asinelli Da luz

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Neste trabalho, corroboramos com o entendimento do fenômeno vida como objeto de estudo da Biologia (Brasil, 2000; Bertoni, 2007; Paraná, 2008). Destacamos que o objetivo principal deste estudo é comunicar os estilos de pensamento biológico que historicamente sobressaíram no modo de explicar e ao mesmo tempo compreender o fenômeno vida, desde a Antiguidade até a contemporaneidade. Também, contribuir para a divulgação da epistemologia evolucionária3 de Ludwik Fleck (1896-1961) e fazer valer o direito que tem o livro Gênese e desenvolvimento de um fato científico4 (Fleck, 2010), de ocupar uma posição original na história da teoria do conhecimento. Iniciaremos, ainda, as bases de discussão para a aplicabilidade da tese dos estilos de pensamento biológico na organização curricular da disciplina de Biologia na Educação Básica.

A demarcação de estilos biológicos decorreu de um estudo exploratório empreendido em um significativo recorte espaço-temporal do pensamento enquanto processo genérico e habitual da vida humana, pois esses estilos representam pontos de vista dominantes na produção e comunicação do conhecimento biológico e que marcam época. Buscamos compreender, a partir da própria história do pensamento humano, um modo particular de realizar esse processo, o modo científico. Como diz Rüsen (2001, p. 54), “o homem não pensa porque a ciência existe, mas ele faz ciência porque pensa” e “chamamos o pensamento de atividade social por excelência, que, de modo algum, pode ser localizada completamente dentro dos limites do indivíduo” (Fleck, 2010, p. 149).

Ludwik Fleck e os estilos de pensamento

Ludwik Fleck, pensador polonês da primeira metade do século 20, tem sua trajetória de vida marcada praticamente pelo trabalho na pesquisa e no ensino, entremeados com a produção e a comunicação de conhecimentos no Usamos o termo epistemologia evolucionária pela proximidade das suas ideias com o evolucionismo darwiniano e de uma matriz epistemológica fundada nas ciências biológicas, como pode ser conferido em Parreiras (2006). Esta obra de Fleck foi publicada originalmente em alemão no ano de 1935 sob o título Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache.

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25Ano 26 • nº 86 • Jul./Dez. • 2011 campo da medicina que compreende desde sua formação no curso de medicina e estudos em microbiologia e imunologia, especialmente na especialidade da sorologia.5

Fleck (2010) realizou um estudo do estado do conhecimento sobre a sífilis. Esse epistemólogo dos casos médicos identifica, desde a Antiguidade até a contemporaneidade, distintas compreensões sobre o desenvolvimento do conceito de sífilis e as diferentes formas de enfrentamento dessa doença. Delizoicov (2007) afirma que Fleck realizou um corte diacrônico ao longo da história e identifica ali três concepções e tratamentos da sífilis, e passa a chamar de estilo de pensamento.

Ao longo do livro Gênese e desenvolvimento de um fato científico (2010)

Ludwik Fleck constrói o conceito de estilo de pensamento, inicialmente, a partir do entendimento do estilo como “ponto de vista que marca uma época” (Schäfer; Schnelle, 2010, p. 13), inaugurando na história do pensamento científico o que Bombassaro (1995, p. 1) chama de “a era do conhecimento perspectiva”.

O conceito estilo de pensamento, junto ao coletivo de pensamento, forma os pilares da tese epistemológica proposta por Fleck e são centrais para a compreensão de sua abordagem. Além desses, Fleck (2010) contextualiza outros conceitos também importantes para a sua tese, dos quais apontamos: fato, pré-ideia, comunicação (circulação) intracoletiva e intercoletiva, conexões ativas e passivas, coerção de pensamento, harmonia das ilusões. Nesse momento, dialogamos mais sobre o conceito de estilo de pensamento de modo que sua proposição e a tese dos estilos de pensamento biológico para as concepções que historicamente predominaram no modo de compreender o fenômeno vida, fiquem elucidadas. Outros detalhes a respeito da vida e das produções de Ludwik Fleck podem ser lidos diretamente no site Ludwik Fleck Zentrum no Collegium Helveticum (<w.ludwikfleck.ethz.ch>) e com a Rede Ludwik Fleck Brasil (<http://w.fafich.ufmg.br/~scientia/>). Também, podem ser lidos em referenciais nacionais, dentre eles as reportagens Fleck redescoberto (<http://cienciahoje.uol. com.br/noticias/2010/1/fleck-redescoberto>) e Fleck e a educação (<http://cienciahoje.uol.com. br/alo-professor/intervalo/fleck-e-a-educacao>).

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Além de comportar uma visão de mundo, o estilo de pensamento agrega elementos que o configuram e podem ser identificados em várias passagens do livro (Fleck, 2010). Dentre esses destacamos:

• O estilo de pensamento abrange a linha evolutiva e o estado do conhecimento que marcam a história de um domínio do saber (p. 39). “Ele consiste em numerosas linhas de desenvolvimento das idéias que se cruzam e se influenciam mutuamente e que, primeiro, teriam que ser apresentadas como linhas contínuas e, segundo, em suas respectivas conexões” (p. 5-56).

• O estilo de pensamento corresponde ao estado do conhecimento que é estruturador das conexões entre sujeito e objeto (p. 82) e está em progressiva transformação (p. 94).

• O estilo de pensamento envolve um conhecimento acumulado historicamente e é significador de conceitos (p. 79), apresentando no seu contexto uma linguagem específica e o uso de determinados termos técnicos (p. 149-150);

• O estilo de pensamento compreende o desenvolvimento histórico e gradativo de um campo do conhecimento (p. 82), configurando o estado desse estado do conhecimento atrelado à descendência de muitos elementos da história cultural (p. 81).

• O estilo de pensamento satisfaz um sistema fechado de crenças, com estrutura definida, que resiste tenazmente a tudo o que o contradiz, emergindo, assim, uma espécie de harmonia das ilusões (p. 69-70).

• O estilo de pensamento conforma algo que molda a formação frente ao complexo processo de desenvolvimento intelectual e de conceber problemas (p. 76-78, 80-81).

• O estilo de pensamento permite que elementos teóricos e práticos interpenetrem-se (p. 4) e passa a ser “marcado por características comuns dos problemas, que interessam a um coletivo de pensamento; dos julgamentos, que considera como evidentes e dos métodos, que aplica como meios do conhecimento” (p. 149).

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• O estilo de pensamento consiste numa determinada atmosfera (atitude, contexto, situação) e sua realização (atitude que se realiza), com disposição para um sentir seletivo e para um agir direcionado e correspondente, a qual gera formas de expressão adequadas conforme a predominância de certos motivos coletivos (p. 149).

O estilo de pensamento corresponde, portanto, a um conjunto de pressuposições básicas, tácitas ou não, conscientes ou inconscientes, a partir das quais, em qualquer área ou disciplina, o conhecimento é construído (Bombassaro, 1995). O estilo de pensamento se caracteriza com as pressuposições com as quais construímos nossa visão de mundo.

Fleck (2010) considera que o estilo de pensamento mantém três momentos até a sua mudança. Primeiro se complementa (instaura) e assim se desenvolve (amplia, estende), ao mesmo tempo em que se mantém até o momento em que o estilo passa a sofrer interferência do que ele considera serem complicações. Essas complicações, em Fleck (2010), podem ser consideradas “as situações oriundas de problemas de investigação que não são solucionados pelos conhecimentos e práticas contidos nos estilos de pensamento compartilhado” (Delizoicov, 2007, p. 82). Entendemos que tais complicações estão ligadas à forma de explicar a realidade até as condições para as quais o estilo inicia o processo de transformação.

Assim, a transformação de um estilo de pensamento ocorreria por meio de uma sinergia envolvendo tanto a consciência de que o problema não pode ser solucionado pelo estilo de pensamento em questão, quanto uma flexibilização da coerção de pensamento, que dá certa unidade e estabilidade ao coletivo. Esta flexibilização propiciaria uma intensificação da interação com outros estilos, ou seja, o papel fundamental do que ele denomina de circulação intercoletiva de ideias para a transformação do estilo (Delizoicov, 2007, p. 82).

No período de desenvolvimento do estilo, conforme Delizoicov (2007), é que vai se criando o coletivo de pensamento, permitindo que este seja compartilhado entre os membros. São os conhecimentos e práticas compartilhadas,

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28conteXto & eDucAÇÃo propriamente o estado do conhecimento, que fazem a mediação entre sujeito e objeto na interação com a realidade. Para Delizoicov (2007, p. 76), “o coletivo é que dá os instrumentos para que um particular sujeito, com sua capacidade cognitiva, se aproprie da realidade” e é nessa triangulação (sujeito/estado do conhecimento/objeto) “que o sujeito aborda o real, aborda o objeto e produz conhecimento” (p. 76)

Fleck (2010) apresenta em seu livro uma concepção de sujeito coletivo além da consideração de que este sujeito compartilha os conhecimentos do coletivo ao qual pertence. Este sujeito não faz parte de um único coletivo e sim de vários coletivos de pensamento, que, na visão do autor, passa a ser uma espécie de interação sociocultural.

Um cientista, ao mesmo tempo em que compartilha os conhecimentos e práticas da comunidade à qual pertence, pode participar, por exemplo, de um partido político, de uma determinada religião, enfim, de outros grupos, científicos ou não (Delizoicov, 2007, p. 81).

Para Fleck (2010), essa interação faz as pessoas se apropriarem do estado do conhecimento e, para Delizoicov (2007), isso tem tamanha importância uma vez que contribui na constituição desse sujeito. Desse modo é que Fleck (2010) estabelece a relação entre pensamento coletivo e epistemologia comparada, ou seja, compreender como os estilos de pensamento que se sucederam historicamente se constituíram a partir das interações inter-coletivas e intra-coletivas de ideias compartilhadas por coletivos de pensamento no enfrentamento de problemas de pesquisa (Delizoicov, 2007, p. 81).

Com o apoio nesse referencial teórico e epistemológico, estabelecemos um olhar histórico sobre o pensamento biológico. No nosso entendimento, tal abordagem epistemológica passa a ser mais coerente para a compreensão de como se deu o processo contínuo de produção e comunicação, pelo menos em parte, do conhecimento biológico.

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Nesse sentido, demarcamos os estilos de pensamento biológico e os modos de entender como o fenômeno vida foi pensado desde a Antiguidade até a contemporaneidade no processo histórico de construção do conhecimento biológico. A seguir, apresentamos uma síntese desses estilos de pensamento biológico.

Estilo de pensamento biológico descritivo

Este estilo orienta a prática dos filósofos naturalistas em descrever as características dos seres vivos e, assim, a possibilidade de dispô-los hierarquicamente em classes. A classificação era uma forma de limitar a variedade a grupos em que a totalidade das classes representasse a “grande cadeia dos seres”. Com a instauração e a comunicação desse estilo entre os pensadores gregos, a classificação dos seres vivos passa a representar a harmonia da natureza, “na medida em que ela era expressa na scala naturae” (Mayr, 1998, p. 177).

Pensar em descrição implica o envolvimento de toda a expressão da natureza imutável, fixista e contemplativa, e não somente a tentativa de classificação desses seres vivos a partir de características estruturais, anatômicas e comportamentais. Em uma forma mais sintetizada, o fenômeno vida é interpretado como uma das características do “ser vivo”.

Mesmo este estilo tendo-se estendido com as sistematizações das ideias de muitos naturalistas como Anaximandro, Teofrasto, Aristóteles, Lineu, Humboldt, Cuvier, Buffon e muitos outros (Bertoni, 2007), desde a Antiguidade até por volta dos séculos 17 e 18, muitas foram as ações descritivas realizadas desde civilizações anteriores aos gregos, sob influência do estilo mítico. Um bom exemplo de apropriação de conhecimento das civilizações anteriores está contido nas ideias do grego Anaximandro sobre a origem dos seres vivos a partir do barro, que passa a compor também o mito de criação do livro bíblico Gênesis, e do homem a partir do peixe (Ronan, 1997a).

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