Artigo - Wagner Brito de Jesus

Artigo - Wagner Brito de Jesus

Wagner Brito de Jesus1

Introdução

Desde tempos remotos a humanidade sente a necessidade de expressar suas opiniões, sentimentos, experiências. Para tal, criou uma tecnologia baseada na linguagem, chamada de “tecnologia da inteligência” (MOREIRA, 2007). Foram desenvolvidas várias formas de utilização da linguagem no decorrer da evolução da sociedade.

Este trabalho nasce das discussões realizadas na disciplina Fundamentos da Educação, cujo resultado final foi a escrita de um artigo no qual uma matriz deveria ser escolhida para dialogar com o projeto de pesquisa do discente. O projeto intitulado Pós-modernidade, TICs e Educação: o uso de podcass na educação visa à reflexão do uso dessa linguagem digital como uma possibilidade enriquecedora para a construção e divulgação do conhecimento. Para essa discussão foi escolhida a matriz da pós-modernidade por facilitar a reflexão entre a escola e a tecnologia e as possibilidades de produção e de circulação de ideias.

Tecnologia e o individuo na pós-modernidade

A globalização trouxe, para as tecnologias de inteligência, uma nova realidade na produção industrial da informação. Fez com que surgissem novas profissões ligadas às ações da comunicação da informação e novos meios para utilizá-la – chamados de meios de comunicação em massa ou mass media – que ampliam o acesso a informações para todas as pessoas. Esses meios, baseados no uso da linguagem oral, escrita e da convergência entre som, imagem e movimento, compreendem tecnologias especificas de informação e comunicação, as TICs. Antes da discussão do uso das TICs na educação, faz-se necessário uma discussão acerca das tecnologias no mundo contemporâneo. KRAMER (2007) diz:

Ao discutir a condição contemporânea e o futuro das sociedades industriais, indaga: moderno, moderno tardio ou pós-moderno? Cultura pósmoderna? Sociedade pós-moderna? Considerando-se que modernismo desempenhou papel critico em relação à modernidade, o que tornou possível distinguir sociedade moderna de cultura moderna (sendo esta uma ruptura ou descontinuidade daquela), é difícil separar sociedade pós-moderna de cultura pós-moderna. (p. 1047)

1 Mestrando em Educação, pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Rio Claro.

Artigo realizado para a conclusão da disciplina: Fundamentos da Educação – Profs. Drs. Luiz Carlos Santana,

Maria Aparecida Segatto e José Euzébio Aragão.

O Pós-modernismo indica uma ruptura ao modernismo, seu prefixo sugere uma marca temporal de superação de um dado fenômeno. Porem, não há um consenso entre autores - sejam eles filósofos, cientistas ou artistas – acerca do uso do prefixo. Para Harvey (2008), o único consenso é que o pós-modernismo uma reação ou afastamento do modernismo. Assim sendo, vem como uma tentativa de desconstruir o discurso filosófico ocidental a partir do próprio discurso.

Pós-modernismo é o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se encerra o modernismo (1900-1950). Ele nasce com a arquitetura e a computação nos anos 60. Cresce ao entrar pela filosofia, durante os anos 70, como crítica da cultura ocidental. E amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência (ciência + tecnologia invadindo o cotidiano com desde alimentos processados até microcomputadores) sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento cultural. (SANTOS, 1986, apud GONÇALVES, 2008).

É na França, na década de 1950, que se dá inicio da discussão sobre o pós-modernismo, com destaque para Jean-Fraçois Lyotard e Jean Baudrillard. Lyotard apresenta este período como uma perspectiva que rejeita um pensamento totalizante e os referenciais universais iluministas, colocando em cheque a narrativa que caracterizava a modernidade, enquanto que Baudrillard alega que o social transformou-se em um simulacro de si mesmo tendendo para o desaparecimento. A imagem do individuo é a imagem do desespero (Kramer, 2007).

Pierre Lévy, (1999) em um sentido contrário, entende que a informática – enquanto tecnologia intelectual – oferece novos modos de pensar o mundo e, consequentemente, novos modos de aprendizagem e as relações com esse mundo. Bauman (2001, apud KRAMER, 2007) também segue essa linha otimista ao alegar que a pós-modernidade promove a desconstrução da modernidade, como se a pós-modernidade olhasse a modernidade através de um espelho retrovisor e refletir sobre ela.

Azevedo (1993, apud GATTI, 2005) sintetiza alguns pontos importantes para a compreensão do pós-modernismo: o primeiro ponto surge pela invalidação histórica e cultural das grandes análises e seus decorrentes relatos de emancipação realizados pelo modernismo, considerando estas apenas narrações estilizadas da realidade. O segundo ponto é que ocorre a ruptura dos grandes modelos epistemológicos, com suas pretensões de verdade, objetividade e universalidade, ruptura esta que se faz pela via da ideia “da indeterminação, da descontinuidade, do pluralismo teórico e ético, da proliferação de modelos e projetos” (AZEVEDO, 1993, apud GATTI, 2005, p. 600). O terceiro – e último ponto – é que com a intensificação da fragmentação da realidade social e cultural, desencadeada pelas tecnologias (pela comunicação de massa e trocas intensas) cai-se em uma multiplicidade de sentidos sem sentido e perda de referências mais sólidas, estas se substituindo em avalanches marqueteiras ou midiáticas. “Estamos passando por uma nova era quando a produção da cultura tornou-se integrada à produção de mercadorias em geral: a frenética urgência de produzir bens com aparência cada vez mais nova” (MORAES, 2000, p.212).

Nesse cenário, a linguagem digital (televisão, redes digitais e internet) surge como nova tecnologia de informação e comunicação – NTIC – mas sua banalização atual a faz perder o adjetivo de “nova”. Porém, vem mobilizando educadores no sentido da seleção e utilização mais adequada desse meio no âmbito educacional. Observa-se que a informação se disponibiliza através de tecnologias cada vez mais inovadoras, o que demanda novas formas de pensar, agir, conviver e principalmente aprender com e através dessas tecnologias. De acordo com Maturana (2001):

Sem dúvida, a interconectividade atingida através da Internet é muito maior do que a que vivemos há cem ou cinquenta anos atrás através do telegrafo, radio ou telefone. Todavia nós ainda fazemos com a Internet nada mais nada menos do que o que desejamos no domínio das opções que ela oferece, e se nossos desejos não mudarem nada muda de fato, porque continuamos a viver através da mesma configuração de ações (de emocionar) que costumamos viver.” (p. 199, apud ANDRADE, p. 7).

Ainda sobre a linguagem digital, Moreira (2007) afirma que:

A linguagem digital, expressa em múltiplas TICs, impõe mudanças radicais nas formas de acesso à informação, à cultura e ao entretenimento. O poder da linguagem digital, baseado no acesso a computadores e todos os seus periféricos, à internet, aos jogos eletrônicos etc., com todas as possibilidades de convergência e sinergia entre as mais variadas aplicações dessas mídias, influencia cada vez mais a constituição de conhecimentos, valores e atitudes. Cria uma nova cultura e outra realidade informacional. (p. 3)

A presença da tecnologia em todos os setores da sociedade constitui um dos argumentos que corroboram sua presença na escola e, principalmente, na formação de um cidadão competente quanto ao seu instrumental técnico, mas, principalmente, no que refere à interação humana e aos valores éticos. Ramal (2002, apud Kramer, 2007) propõe três cenários para a educação:

O primeiro é o da tecnocracia domesticadora: a multiplicidade de informações efêmeras e fragmentadas torna os indivíduos escravos ambulantes da tecnologia. [...] O segundo é o do pay-per-learn, que acentua a exclusão e prioriza professores com habilidade técnica mais do que a crítica da produção ou do uso de tecnologias da informação e da comunicação. [...] No terceiro cenário – cibereducação integradora -, a escola se torna híbrida, integrando homem e tecnologia. (p. 1048)

É possível, assim, aborda o uso do podcast – uma das formas de manifestação da linguagem digital – no âmbito educacional, pois:

Num mundo globalizado onde o tempo é escasso, o podcast surge como uma tecnologia alternativa extremamente potente para ser utilizada a serviço do processo de ensino e aprendizagem tanto na modalidade a distância (e-learning) ou como no complemento ao ensino presencial (blearning). De facto, o podcast permite ao professor disponibilizar materiais didácticos como aulas, documentários e entrevistas em formato áudio que podem ser ouvidos pelos estudantes a qualquer hora do dia e em qualquer espaço geográfico. O estudante pode aceder à informação disponibilizada pelo professor e descarregá-la para o seu dispositivo móvel, utilizá-la onde e quando quiser e ainda interagir com o professor sob a forma de comentários deixados no aplicativo. (JUNIOR; COUTINHO, 2007).

Essa utilidade do podcast vai ao encontro com as ideias centrais de Piaget (1976) que é a de que todos os homens são inteligentes e que esta inteligência serve para buscar, organizar e se adaptar a novas estruturas num mundo em constante mutação. Segundo Piaget (1976), é a inteligência, pelos mecanismos de assimilação e acomodação, que permite que as mais diferenciadas interações aconteçam. Interações, essas que se tornam cada vez mais presente na sociedade com os avanços tecnológicos.

O termo podcast resulta da união das palavras iPod (dispositivo móvel de reprodução de áudio/vídeo) e broadcast (método de distribuição/transmissão de dados), criado em 2004 por Adam Curry, então VJ (Video Jockey) do canal musical estadunidense MTV (Music Television) e Dave Winer (desenvolvedor de software). Sua intenção era conseguir disponibilizar programas de rádio via internet com a possibilidade de o ouvinte ter a opção de ouvir o mesmo a hora em que quisesse sem ficar preso ao horário em que o programa fosse distribuído via RSS (Real Simple Syndication – forma de distribuição de conteúdo online).

Por ser uma tecnologia relativamente nova, com inúmeras possibilidades a ser explorado, o termo continua ainda muito associado à disponibilização de programação musical que esteve na sua origem. No entanto esta realidade está mudando porque o podcast está sendo utilizado nos mais variados contexto, sejam eles no âmbito dos negócios como forma de disponibilizar o conteúdo de reuniões, programas de telejornais e/ou entretenimento, programas de caráter científico e também na educação, onde esta ferramenta começa a ser utilizada com sucesso crescente para a transmissão e disponibilização de aulas em especial na formação à distância em países da Europa.

Podcast se encaixa no conceito de Web 2.0. Esse conceito é baseado no fato de que o usuário de internet não é apenas um ser passivo, mas também criador e divulgador de informações, ou seja, todos podem produzir os nossos próprios documentos e publicá-los automaticamente na rede sem necessitarmos de grandes conhecimentos de programação e de ambientes sofisticados de informática. O termo Web 2.0 foi cunhado por Tim O’Reilly durante uma sessão de brainstorming no MediaLive International em Outubro de 2004:

A web 2.0 é a mudança para uma Internet como plataforma, e um entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. Entre outras, a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência colectiva. (O’Reilly, 2005, online, apud JUNIOR; COUTINHO, 2007).

Considerações finais

O presente artigo procurou iniciar uma discussão, a ser desenvolvida melhor ao longo da pesquisa, sobre a relação da educação e tecnologia na sociedade moderna/pós-moderna. A educação está imersa na cultura e não somente vinculada às ciências, que foram tomadas na modernidade como as únicas fontes válidas de formação e capazes de oferecer tecnologias.

Ela utiliza processos que constroem significados públicos e compartilhados, que medeiam seu modo de estar no ambiente. Como isso está em constante mutação, o podcast, por ser uma linguagem digital recente, apresenta possibilidades e desafios educacionais que merecem atenção de educadores e pesquisadores.

Assim, podemos concluir que nesta sociedade informático-cibernética a educação é chamada a priorizar o domínio de certas habilidades a ela relacionadas, pois as TICs evoluem com muita rapidez, e os que não possuem as habilidades ou não tem os conhecimentos que a rede valoriza, ficam totalmente excluídos. Mas em uma conjuntura econômica e política, em que a transformação no mundo do trabalho e o desemprego agravam a estrutura social, marcada por desigualdade e injustiça social, processos de formação alternativos podem desencadear mudanças voltadas para a emancipação. A tecnologia pode ser um instrumento a serviço ou contra esse projeto, sendo, assim, um desafio a ser assumido por toda a sociedade.

Referências bibliográficas

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