análise reflexiva do feminino das profissoes

análise reflexiva do feminino das profissoes

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Jane Baptista Quitete1

Octavio Muniz Da Costa Vargens2 Jane Márcia Progianti3

Resumo: Este artigo consiste numa reflexão, com base na literatura, sobre a temática História das Profissões considerando a ótica de gênero, e tem como objetivo analisar a evolução histórica das profissões a partir dos conceitos de ocupação/ofício e profissão, e apresentar como ocorreu a inserção feminina na esfera pública, a partir das guerras e da industrialização. A investigação foi composta por textos da área de Humanas e da Saúde. Utilizou-se a Análise de Conteúdo para categorizar os recortes discursivos. Concluímos que a feminização e a feminilização de algumas profissões em detrimento de outras revela que as relações de dominação e poder entre homens e mulheres atravessam as relações sociais, seja na produção ou na formação profissional, uma vez que o mundo do trabalho não faz distinção entre o trabalho produtivo e o reprodutivo das mulheres. Palavras-chave: Trabalho feminino; Identidade de Gênero; Poder.

Abstract: This article consists of a reflexion, based on literature, about the theme Professions’ History considering the gender perspective. It has as objective to analyze the historical evolution of professions starting from the concepts of occupation and profession, and to present how did happen the feminine insertion in public sphere, starting from the wars and the industrialization.

1 Curso de Enfermagem/UFF/PURO. Enfermeira Obstétrica. Mestre em Enfermagem, Saúde e Sociedade. Avenida mail: janebq@oi.com.br

2 Faculdade de Enfermagem da UERJ. Enfermeiro Obstétrico. Doutor em Enfermagem e Professor Titular da Faculdade

E-mail: omcvargens@uol.com.br

3 Faculdade de Enfermagem da UERJ. Enfermeira Obstétrica. Doutora em Enfermagem e Professora Adjunto da

work doesn't make distinction among the women's productive work and the reproductive one
Keywords: Women working; Gender; Power

The investigation considered texts in the field of humanities and health. It was utilised the analytical construction to categorize the discursive retails. We concluded that the feminization of some professions reveal that the power relationships between men and women overcome the social relationships, in the field of production, or professional formation, because the world of

Resumen: Este articulo es una reflexión, basada en la literatura, sobre el tema de Historia de las profesiones considerando el genero sexo, y ten como objetivo analizar a evolución histórica de las profesiones a partir de los conceptos de ocupación/oficio y profesión, así como explicar la inserción do sexo femenino en la vida pública a partir de las guerras y de la industrialización. El corpus fue compuesto por textos de las áreas de Humanas y de Salud. Se utilizó el Análisis de Contenido para categorizar los recortes discursivos. Se concluye que: a feminización de algunas profesiones en detrimento de otras, revela que las relaciones de dominación entre hombres y mujeres atraviesan las relaciones sociales, en la producción, en la formación professional, porque el mundo del trabajo no sabe distinguir el trabajo productivo y reproductivo de las mujeres Palabras-clave: Trabajo de mujeres; Genero; Poder.

O tema Teoria das Profissões aborda diversas vertentes, entre elas, as questões de gênero o que, suscitou nossa opção em aprofundar o assunto e elaborar este artigo. Para tanto, propomos uma reflexão a partir da literatura, como forma de nos apropriarmos sobre o assunto, trazendo os aspectos mais importantes sobre a História das Profissões na perspectiva do olhar feminino considerando as questões de gênero como caminho a ser percorrido.

A inclusão da categoria analítica de gênero para compreensão das relações de poder entre homens e mulheres tem sido considerada em alguns estudos e possibilita uma abordagem das relações sociais como um todo; aponta os mecanismos de subordinação das mulheres pelos

as relações de trabalho, a escola e a mídia

homens e também pelo modo de organização das relações sociais; alcança a legislação e o Estado,

Essas representações sobre mulheres e homens, presentes no imaginário social, criam estereótipos que ditam o que é apropriado para ambos. Assim, na enfermagem essa abordagem tem uma importância singular, pois pode fornecer explicações sobre os conflitos atuais no campo profissional. Construir a consciência de gênero vem provocando mudanças na formação e nas práticas profissionais, fazendo com que enfermeiras e enfermeiros passem a ser sujeitos.

Sendo assim, o texto tem como objetivos analisar a evolução histórica das profissões a partir dos conceitos de ocupação/ofício e profissão, bem como apresentar como ocorreu a inserção feminina na esfera pública, a partir das guerras, da industrialização, entre outros fenômenos sociais.

Consideramos que a realização deste estudo poderá influenciar positivamente nas relações interpessoais, de modo que as mulheres, cada vez mais, reflitam sobre seu papel na sociedade e sobre a feminização e feminilização de algumas profissões, entre elas a enfermagem.

Para o desenvolvimento da temática proposta escolhemos a busca à literatura especializada, encontrada em publicações científicas. Nesta busca foram utilizados as palavras: Profissões, Teoria das Profissões, Divisão sexual do trabalho, Gênero e Poder, os quais foram combinados de modo a permitir uma busca mais consistente. Assim, nossa reflexão desenvolveuse a partir de catorze publicações abordando a história das profissões e a inserção da mulher neste contexto, considerando a perspectiva de gênero.

Considerando o material selecionado para o estudo, procedeu-se à análise de seu conteúdo(1), quando buscou-se identificar: pensamentos, idéias, contextos históricos e citações de cunho filosófico, ideológico ou político, relevantes quanto ao tema em questão. A partir da leitura crítica e reflexiva desse material, foram delimitados quatro núcleos temáticos sobre os quais desenvolvemos o presente texto.

RESULTADOS Ocupação ou profissão: conceitos e significados

Para iniciar qualquer movimento teórico, é necessário considerar a diferença incontestável dos vocábulos profissão e ofício.

Um ofício, ou ocupação, não parte de uma convicção ideológica. Constitui-se a partir de uma atividade exigida pela vida do grupo social. Podemos citar como exemplo: fazer o pão ou ferrar os cavalos. Uma ocupação cria-se a partir de uma relação do homem com elementos da natureza, descobertos no universo em que vive. Elementos que ele ajusta transformando-os, a fim de servirem à comunidade, para assegurar, em primeiro lugar, a manutenção da vida e depois para melhorar as condições de vida(2-3).

Os grupos constituídos em ofício não têm funções reguladoras da ordem social, são abastecedores do grupo social, fornecem o serviço de fabricar o que é indispensável à sua sobrevivência. Com o desenvolvimento de tecnologias os ofícios diversificam-se e multiplicam-se, fornecem produtos e serviços cada vez mais variados que contribuem para facilitar ou melhorar condições de vida cada vez mais complexas(2-3).

Desde a Idade Média, com o acesso do cristianismo ao poder do Estado, que as profissões se erguem em torno da fé cristã, instituindo grupos reguladores da ordem social. Uma profissão funda-se, inicialmente, em torno de uma crença, de uma ideologia que visa regular a ordem social e determinar o que é considerado bom ou mau para a manutenção dessa ordem. Alguns estudos contemporâneos confirmam este estado de coisas e mostram a sua continuidade até os dias de hoje: pertencer a uma profissão é pertencer a uma classe social com um lugar determinado na hierarquia dos poderes reguladores da sociedade(2-3).

Contudo, profissão é sinônimo de ocupação, e diz respeito ao trabalho especializado pelo qual uma pessoa ganha a vida numa economia de troca. Mas não é simplesmente qualquer tipo de trabalho que os profissionais fazem. Para o autor, eles realizam um trabalho que tem caráter esotérico, complexo e arbitrário. Trabalho que requer conhecimento teórico, competência e discernimento que as pessoas comuns não possuem, podem não compreender completamente e não podem avaliar prontamente. Outro fator a ser levado em consideração, é o fato deste trabalho ser considerado especialmente importante para o bem-estar de indivíduos ou da sociedade, e ter um valor tão especial que o dinheiro não pode lhe servir de única medida. Isto que distingue os chamados profissionais da maioria dos outros trabalhadores(4). É fato que, o termo “profissão” é um rótulo socialmente valorizado, pois possibilita recompensas sociais, econômicas e políticas. Sendo assim, qualquer intenção de defini-lo e analisá-lo possibilita atribuir recompensas para alguns em detrimento de outros(4). Profissão vem do latim: professar que significa acreditar, ensinar aquilo em que se crê.

Os critérios adotados para definir profissões baseiam-se(4): 1. Na exposição à educação superior e ao conhecimento formal abstrato que ela transmite; 2. Na capacidade de a profissão exercer poder e ser uma forma de ganhar a vida; 3. Em ser uma ocupação cuja educação é pré-requisito para obter posições específicas no mercado de trabalho, excluindo aqueles que não possuem tal qualificação.

As garantias de regulação da ordem social eram, inicialmente, os padres e os clérigos. Á sua volta e a partir deles desenvolvem-se outros corpos profissionais sendo os principais os médicos e os juízes. Tanto um como o outro são detentores de um poder que se exerce diretamente sobre a vida e a morte, e a este título decidem o que é bom e o que é mau. À volta destas duas profissões iniciais cria-se todo um conjunto de organizações sociais que, por sua vez, dão origem a diferentes grupos ligados ao seu poder de decisão(3-4).

Por volta do fim do século XIX, com a Revolução Industrial e a mobilidade demográfica, outros grupos iniciam, à sua imagem, o seu próprio movimento de profissionalização, na maior parte dos casos para ter apenas acesso a uma “semi-profissão”(3), ou recentes profissões advindas das ocupações(4). Afirma-se que algumas ocupações buscaram o apoio do Estado para garantir status e segurança econômica. Assim, na Inglaterra e nos Estados Unidos, cada ocupação foi obrigada a montar seu próprio movimento em prol do reconhecimento e da proteção. Situação diferente da encontrada na Europa, onde o Estado é mais atuante, e, de um modo geral, o status e a segurança econômica das profissões são conquistados pela formação acadêmica de ensino superior. É o caso entre outros da profissão de enfermagem e de numerosas profissões sanitárias e sociais oriundas da enfermagem(3).

Desde o fim do século XIX e, no decurso do século X, ocorreu uma aproximação entre profissão e ofício, no sentido das profissões serem levadas a utilizar, cada vez mais, os instrumentos e conhecimentos, a maior parte das vezes, descobertos por “pessoas do ofício”. Recorrendo aos novos conhecimentos científicos, as profissões estão à altura de melhor provar a sua atividade e o serviço que prestam à sociedade(3).

O interesse pelos estudos teóricos sobre profissões, inicialmente surge antes da Primeira

Guerra Mundial. Este primeiro estudo tentou entender a contradição entre a idéia de altruísmo e utilitarismo atribuídos às profissões. Já no período pós-guerra, outros sociólogos empenharam-se em desenvolver conceitos baseados no processo histórico pelo qual uma ocupação atinge o status de profissão(4).

No entanto, algumas ocupações, ou serviços, mantêm-se geralmente impregnados de ideologia, podendo chegar ao ponto de reclamar um monopólio, por exemplo: o monopólio do saber sobre a doença e a saúde, para a profissão médica(3). Isto ocorre a partir dos anos 1970, quando autores passaram a refletir e a ressaltar as questões de conflito e de poder das profissões: a ideologia, o monopólio, as instituições profissionais organizadas(4).

Foi nesta década também, que surgiram estudos americanos calcados nas teorias marxista e weberiana que estudam e analisam as profissões sobre o prisma do sistema de classes das sociedades capitalistas, segundo as quais a profissionalização torna-se um projeto de mobilidade coletiva, e as ocupações buscam melhorar sua posição econômica e social(4).

Nos anos 1980(4), os historiadores europeus tentaram analisar como as profissões modernas surgiram na Europa. Estes autores foram críticos aos conceitos anglo-americanos e buscaram distinguir os percursos de diversas profissões em países diferentes. Eles consideram que o Estado desempenhou um papel ativo na iniciação da institucionalização de algumas profissões e na reorganização de outras, inclusive, funcionando como principal empregador de profissões.

Mulher e Trabalho: o que nos conta a história

As raízes mais fortes de resistência à participação das mulheres no mundo público emergem no meio religioso, sobretudo nas grandes religiões monoteístas. O judaísmo, o cristianismo e o islamismo assumem em sua simbologia e em seus dogmas a desigualdade dos sexos. Para estas religiões, Deus não tem sexo, mas é pensado como sendo do gênero masculino. E, como apresentado no Gênesis, Deus cria o homem primeiro e a mulher depois, e a cria para ele. A Igreja reserva estritamente a autoridade da pregação aos clérigos e os instrui para tanto; a mulher apenas permite-se escutar. O catolicismo recusa obstinadamente a ordenação das mulheres, pela idéia do pecado e da impureza feminina, pela angústia da carne, que atormenta principalmente o pensamento dos Padres. Também pela idéia da transcendência do sagrado, que passa justamente pela recusa da carne, da sexualidade e das mulheres. Essas mulheres que é preciso conter, manter no privado, cujo corpo é preciso esconder e velar, os cabelos, se não o rosto. Essas mulheres cujo ideal seria a virgindade(5).

A maternidade, por exemplo, foi uma forma pela qual a Igreja utilizou para domesticar as mulheres, assegurando assim o estabelecimento de uma sociedade familiar que fortalecesse o Estado moderno, a própria Igreja, a ciência e os homens. Bastava que este preceito estivesse presente através da transmissão de valores. Coibidas pelas ameaças veladas a quem fugisse às regras que distinguiam as mulheres “certas” das “erradas”. E a ciência médica contribuiu enormemente nesta construção, através da normatização de condutas necessárias para tornar-se a “santa-mãezinha”(6).

A Grande Guerra (1914-1918) deu início a uma importante mudança no espaço público. Os homens estavam na frente de batalha e, as mulheres na retaguarda. As mulheres, jovens ou não tão jovens, substituem os homens e penetram em lugares até então fechados que antes não ocupavam. Durante a Grande Guerra, elas dirigem bondes ou táxis, entram nas usinas metalúrgicas, moldam obuses, ajustam peças, manejam o maçarico. No campo, elas lavram e vendem o gado na feira. Contudo, quando a guerra acabou, essas auxiliares e substitutas devolveram o lugar público ao homem e voltaram àquele lar que lhes pintavam como um ideal e um dever urgente. Longe de serem instrumentos de emancipação, as guerras, profundamente conservadoras, recolocam cada sexo em seu lugar, reiterando as representações mais tradicionais da diferença dos sexos(5).

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