O espaço como um sistema de objetos e um sistema de ações

O espaço como um sistema de objetos e um sistema de ações

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ANO 09 – n. 32Abril 2011

PUBLICAÇÕES AVULSAS Rosalvo Nobre Carneiro

Publicação de textos no formato de pré-impressão do Departamento de Geografia e História da Universidade Federal do Piauí – UFPI.

Geografia Publicações Avulsas, ano 9, n. 32, p. 1-20 (abril 2011)

Reitor da Universidade Federal do Piauí

Luiz de Sousa Santos Júnior

Diretor do Centro de Ciências Humanas e Letras

Pedro Vilarinho Castelo Branco

Chefe do Departamento de Geografia e História

Verônica Maria Pereira Ribeiro

Coordenador do Curso de Licenciatura em Geografia Manuel Nascimento

Expediente pre print version ISSN 1677 - 8049

Coordenador e Editor:

Prof. Agostinho Paula Brito Cavalcanti (MSc/DSc) agos@ufpi.br / agos@ufpi.edu,br

Endereço para correspondência:

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ Departamento de Geografia e História Campus da Ininga, s/n 64.049-550 - Teresina / Piauí Tel. (86) 3215-5778 / (86) 3215-5777

GEOGRAFIA/Universidade Federal do Piauí, Departamento de Geografia e História, Coordenação de Geografia, Ano 09, nº 32 (abril 2011). Teresina: UFPI, 2011. 1. GEOGRAFIA Publicações Avulsas. I. Universidade Federal do Piauí - Coordenação de Geografia

ISSN 1677 – 8049 CDD 910

Geografia Publicações Avulsas, ano 9, n. 32, p. 1-20 (abril 2011)

Conselho Editorial:

Adler Guilherme Viadana (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Agostinho Paula Brito Cavalcanti (Universidade Federal do Piauí - UFPI) Alcindo José de Sá (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE) Amanda Regina Gonçalves (Universidade Federal do Triângulo Mineiro – UFTM) Andrea Aparecida Zacharias (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Ourinhos) Antônio Carlos de Barros Corrêa (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE) Antônio Cordeiro Feitosa (Universidade Federal do Maranhão - UFMA) Antonio Fábio Guimarães Vieira (Universidade Federal do Amazonas - UFAM) Carlos Alexandre Leão Bordalo (Universidade Federal do Pará - UFPA) Elisabeth Mary de Carvalho Baptista (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) Edgar Aparecido da Costa (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS/Corumbá) Enéas Rente Ferreira (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Espedito Maia Lima (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB) Fadel David Antonio Tuma Filho (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Giovanni de Farias Seabra (Universidade Federal da Paraíba - UFPB) Herbe Xavier (Pontifícia Universidade Católica - PUC/Minas) Josefa Eliane Santana de Siqueira Pinto (Universidade Federal de Sergipe - UFS) Joseli Maria Silva (Universidade Estadual de Ponta Grossa - UEPG) José Luís Lopes de Araújo (Universidade Federal do Piauí - UFPI) Liége de Sousa Moura (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) Luciene Cristina Risso (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Ourinhos) Lucivânio Jatobá (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE) Maria Teresa de Alencar (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) Norberto Olmiro Horn Filho (Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC) Paulo Roberto Teixeira de Godoy (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Paulo Roberto Joia (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS/Aquidauana) Ricardo Wagner Ad-Víncula Veado (Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC) Roberval Felippe Pereira de Lima (Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN/Caicó) Rosalvo Nobre Carneiro (Universidade Estadual do Rio Grande do Norte - UERN/Pau dos Ferros) Samuel do Carmo Lima (Universidade Federal de Uberlândia - UFU) Silvana Quintella Cavalcanti Calheiros (Universidade Federal de Alagoas - UFAL) Simone Cardoso Ribeiro (Universidade Regional do Cariri - URCA/Crato) Solange Terezinha de Lima Guimarães (Universidade Estadual Paulista - UNESP/Rio Claro) Vanice Santiago Fragoso Selva (Universidade Federal de Pernambuco - UFPE)

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Rosalvo Nobre Carneiro*

RESUMO Muitas são as conceituações de espaço empregadas por geógrafos, pelas ciências humanas, sociais e naturais, bem como o seu emprego pelas pessoas que se utilizam do senso comum como forma de conhecimento e de orientação no mundo. Parte-se de discussões teórico-metodológicas em torno da Teoria da Ação Comunicativa de Jürgen Habermas e suas possíveis articulações com o pensamento miltoniano para tratar o espaço como sistema e mundo vivido (CARNEIRO, 2006, 2009). Assim, neste caso, o sistema de ações sócioespaciais é visto sob dois aspectos: no primeiro, como um sistema de ações orientadas para fins e, no segundo, como um sistema de ações orientadas para o entendimento. O espaço é resultante e condição do encontro destas duas ações, cujos objetos em cada caso estão a serviço de suas intencionalidades. Palavras-chaves: espaço, ação comunicativa, ação instrumental.

SPACE AS A SYSTEM OF OBJECTS AND A SYSTEM OF ACTIONS ORIENTATED PURPOSES AND FOR UNDERSTANDING ABSTRACT Many conceptualizations of space employed by geographers, humanities, natural and social, as well as their use by people who use common sense as a form of knowledge and guidance in the world. Part of the theoretical-methodological discussions around the theory of communicative action, Jürgen Habermas, and their possible joints with miltoniano thought to deal with space as system and world lived (CARNEIRO, 2006, 2009). Thus, in this case, the system of sócioespaciais is seen under two aspects: first, as a system of targeted actions for purposes and in the second, as a system of actions geared to understanding. The resulting space is and the condition of the encounter of these two actions, whose objects in each case is at the service of their intentionality. Keywords: space, communicative action, instrumental action.

*Professor Assistente - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN/CGE/CAMEAM - Pau dos Ferros/RN). rosalvonobre@uern.br

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Muitas são, sem dúvida, as conceituações de espaço empregadas por geógrafos, pelas ciências humanas, sociais e naturais, bem como o seu emprego pelas pessoas que se utilizam do senso comum como forma de conhecimento e de orientação no mundo, todavia, da perspectiva que nos interessa “o espaço é formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a historia se dá” (SANTOS, 1999a, p. 51).

Esta noção de espaço como um sistema de objetos é cada vez mais presente ainda mais quando Hans Jonas (apud SOUSA, 1998, p. 31) lembra que “[...] a cidade dos homens, outrora um enclave no mundo não humano, estende-se à totalidade da natureza terrestre e usurpa-lhe o lugar” substituindo a natureza natural por uma natureza artificial, tornada primeira natureza pelo foco central das ações que se dirigem para o trabalho morto expresso na paisagem. Entre o espaço e o homem muitos viram o trabalho como o intermédio, porém, pela sua maior abrangência conceituais outros preferem ver a técnica como este elemento de união e porque não dizer, separação.

A relevância que esta adquiriu na sociedade atual revela que a sua presença total e totalizante fundou atitudes não éticas frente à natureza anorgânica, isto significando que para a realização dos fins não se conta mais limites éticos prévios, mas apenas os limites técnicos que tendem a ser provisórias (SOUSA, 1998, p. 2- 23) pela interação mercadológica entre ela, a ciência e a informação. Ao se propor a produção do espaço como resultado da ação de diferentes agentes econômicos e atores políticos e sociais abrem-se a oportunidade para se trabalhar o espaço, como sendo formado por um sistema de objetos e um sistema de ações, no entanto, para aqueles relacionados a um sistema de ações orientadas para fins e neste como um sistema de ações orientadas para o entendimento.

O espaço sendo condição, meio e produto das ações de natureza social reflete as formas do agir humano e social sobre o meio técnico – científico -informacional com o intuito de realizar os fins propósitos mediante intervenção no mundo através dos meios adequados – seriam as ações orientadas para um fim – e da ação humana e social sobre o homem e a sociedade cujo fito é o entender-se com alguém sobre algo no mundo, empregando para tanto atos de fala ou proferimentos linguísticos – seriam as ações orientadas para o entendimento.

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Sem cair, no entanto, em um mecanicismo humanista ou social, uma vez que a realidade é complexa e não unidirecional, é necessário advertir que a relação a ser buscada não é aquele entre espaço e sociedade, mas uma relação solidária e contraditória entre espaço-ação, na qual o primeiro elemento, sendo alvo das intencionalidades e racionalidades do segundo, age sobre elas facilitando-as ou impondo-lhes obstáculos, isto é, contrafinalidades e contra-racionalidades.

Estar-se-á, desse modo, diante de uma postura epistemológica que encara a historia como algo complexo ao tentar, seguindo a solicitação de Sartre (2002, p. 237) "[...] estudar o tipo de ação passiva que a materialidade, como tal exerce sobre os homens e sobre sua Historia, retornando-lhes uma práxis roubada sobre a forma de uma contrafinalidade", mas acrescentamos a este raciocínio que o fato de alguém ou alguma coisa agir, faz destes entes seres ativos, uma vez que o agir pressupõe atividade, embora esta assuma formas diferentes entre os homens e os objetos que formam o espaço, cujo exemplo mais evidente é o emprego racional e teleológico das ações.

Conforme o tipo de ação, não linguística ou linguística (HABERMAS, 1990), realizada sobre e no espaço as transformações verificadas neste, bem como as contrafinalidades que emergiram daí serão variadas, sem, no entanto perdermos de vista que somente por meio da consideração do agir combinado das ações orientadas para um fim e das ações orientadas para um entendimento poderão fornecer as explicações de sua produção e reprodução, como também os pressupostos de sua organização e reorganização (CARNEIRO, 2009). As ações não linguísticas e linguísticas formam sistema entre si e internamente a cada uma com o sistema de objetos que constitui a dimensão material do espaço.

Mas os objetos que cada sistema de ação, seja aquele orientado para um fim ou aquele orientado para o entendimento, utiliza e produz não são para a realização do telos de suas ações exatamente os mesmos, posto que cada objeto ou sistema de objetos tem uma funcionalidade própria, responsável pela determinação de sua finalidade e racionalidade, não sendo possível adaptá-los, portanto, para outras ações que não seja as requisitadas por sua estrutura interna, fruto de sua concepção.

Estes dois tipos de ações, acima mencionados, apresentam modelos de descrição, ou seja, maneiras de expor, compreender e entender como um ator pode atingir os seus fins ao agir que variam de acordo com a perspectiva adotada pelos

Geografia Publicações Avulsas, ano 9, n. 32, p. 1-20 (abril 2011) atores, se a da primeira, segunda ou terceira pessoa (HABERMAS, 1990), o que significa que estes modelos dependem de condições específicas para que as ações sejam descritas com eficácia.

Assim, as atividades orientadas para um fim podem ser descritas inicialmente por meio de processos de observação, por exemplo, quando alguém observa outra pessoa correndo na rua identifica este movimento como uma ação, na qual se pode atribuir a intenção de se atingir um ponto no espaço, mas ela não é suficiente para que o observador possa inferir a intencionalidade da ação, o que requer para tanto a suposição de um contexto geral que possa justificar a suposição de tal intenção.

Por outro lado, este contexto não é suficiente e exige por sua vez uma interpretação posterior, já que os motivos de tal correr podem ser variados, sem que ela, no entanto, garanta uma descrição segura do plano de ação o que só é possível mediante o conhecimento da respectiva intenção que comanda esta ação (HABERMAS, 1990).

Como as atividades não linguísticas não revelam o modo como foram planejadas, isto é, a sua intencionalidade, para se chegar a conhecer de forma segura esta intenção é necessária que aquele que observa assuma a perspectiva do participante uma vez que somente os atos de fala possibilitam as condições para tal realização (HABERMAS, 1990, p. 6). Assim, é necessário que um agente ou um ator social entabule com o outro em seu mundo vivido partilhado intersubjetivamente um processo de comunicação com vistas a chegar a um entendimento sobre algo no mundo.

Vendo-se a intencionalidade das ações humanas e sociais além da perspectiva da teoria do conhecimento uma vez que “essa noção é igualmente eficaz na contemplação do processo de produção e de reprodução das coisas, considerados como um resultado da relação entre o homem e o mundo, entre o homem e o seu entorno” (SANTOS, 1999a, p. 73) por intermédio do agir comunicativo, mediante o qual é possível que um maior número de pessoas possa tomar consciência das intenções que governam essa produção e reprodução e desse modo ganhar um estatuto de atores-agentes e não apenas de agentes-atores.

Essa mudança na posição dos termos quer significar que nem todo ator é um agente, da mesma forma que nem todo agente é um ator sócioespacial e que a cidadania não pode ser uma questão de economia, mas de política através da qual

Geografia Publicações Avulsas, ano 9, n. 32, p. 1-20 (abril 2011) os agentes sociais precisam, necessariamente, transformar-se em atores ao passo que os atores devem buscar ser agentes para melhor empreender suas ações.

Se quer dizer com isto que o agente tem uma preocupação frequentemente individual e econômica, a política servindo como meio para estes fins ao passo que os atores agem por preocupações coletivas e sociais, isto é, com predominância da política, mas sem a exclusão das preocupações econômicas.

É preciso ainda lembrar que “a ação é tanto mais eficaz quanto os objetos são mais adequados. Então à intencionalidade da ação se conjuga a intencionalidade dos objetos e ambas são, hoje, dependentes da respectiva carga de ciência e de técnica presente no território” (SANTOS, 1999a, p. 76) e esta situação coloca a complexidade da realidade em novo patamar uma vez que a intenção antes presente só nos homens se torna norma dos objetos e desse modo exige um esforço duplo de desvendamento da intencionalidade humana mediante relações simbolicamente mediadas e o igual descobrimento da intencionalidade destes objetos.

De forma geral a totalidade das ações, sejam as linguísticas ou as não linguísticas, é considerada como orientadas para um fim, todavia as ações orientadas para um entendimento se distinguem das ações orientadas para um fim pelo caráter reflexivo da auto interpretação, pelos tipos de fins e sucessos que podem ser visados e conseguidos respectivamente (HABERMAS, 1990, p. 67).

As ações e os atos de fala se dão no mundo da vida: “contra as idealizações do medir, da suposição de causalidade e da matematização e contra a tendência à tecnicização, Husserl conclama o mundo da vida como a esfera imediatamente presente de realizações originarias” (HABERMAS, 1990, p. 8), aquilo que atualmente se chama cotidiano, o lugar compartilhado por pessoas, grupos e classes sociais por meio do sentimento, da cultura e da simbologia, mas que não exclui a razão de sua concepção e existência.

Segundo Medeiros e Marques (2003, p. 5-6) para Habermas “a teoria da ação comunicativa tem como finalidade proporcionar aos homens uma razão que lhes possibilitem ser livres e emancipados e nessa perspectiva a teoria da ação comunicativa engendra o conceito de razão comunicativa”. Conforme Habermas (2003, p. 24) “[...] la racionalidad tiene menos que ver con el conocimiento o con la adquisición de conocimiento que con la forma en que los sujetos capaces de lenguaje y de acción hacen uso del conocimiento”.

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Desse ponto de vista encontram-se condições de racionalidade diferenciadas para as atividades não linguísticas e para as atividades linguísticas que podem servir de critérios para avaliar os sucessos de suas respectivas ações, já que as finalidades dos atos de fala não são os mesmos que governam as atividades não linguísticas. Na verdade, as racionalidades que governam estes dois tipos de ação não são intercambiáveis e desse modo podemos vê-los como tipos elementares de ação, irredutíveis um ao outro (HABERMAS, 1990, p. 70).

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