Renaturalização de Rios e Córregos do município de São Paulo

Renaturalização de Rios e Córregos do município de São Paulo

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Artigos

Pérola Felipette Brocaneli

Doutora em Paisagem e Ambiente – FAU-USP;

Professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

– Mackenzie.

São Paulo – SP [Brasil] perola@mackenzie.br

Monica Machado Stuermer

Doutora em Engenharia Ambiental – POLI-USP;

Professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

– Mackenzie;

São Paulo – SP [Brasil] mstuermer@mackenzie.br

Renaturalização de rios e córregos no município de São Paulo

A cidade de São Paulo tem grande parte de suas áreas úmidas drenadas e aterradas. A ocupação das várzeas traz diversos problemas para o município, comprometendo a paisagem natural dos rios e córregos. Os problemas abrangem desde a interrupção dos processos ecossistêmicos até questões de drenagem superficial. A reabertura de alguns trechos dos rios e córregos do município talvez contribua para a conscientização ambiental dos paulistanos, principalmente a respeito da localização dos rios e da péssima condição das águas. A abertura dos canais como solução para o retardo do escoamento das águas superficiais tem sido avaliada como menos dispendiosa do que a construção e manutenção de piscinões. Este pode ser o início de um processo de valorização das áreas úmidas do município de São Paulo, mesmo que de maneira indireta.

Palavras-chave: Drenagem. Identidade ambiental. Renaturalização. Rios. São Paulo.

1 Introdução

A paisagem natural da cidade de São Paulo na época de sua fundação era composta por recursos naturais em harmonia com a estrutura e identidade local (LYNCH, 1988).

A região, parte do bioma da Mata Atlântica, apresentava, inicialmente, grande riqueza em água doce, em razão da profusão de nascentes entremeadas a um “mar de morros” (AB’SABER, 2003), responsáveis pela formação e manutenção de inúmeros rios e córregos que se espraiavam em planícies e várzeas, compondo, assim, as áreas úmidas das “terras baixas” da região.

A Figura 1 apresenta, parcialmente, o farto sistema hídrico e a grande extensão de áreas de inundação do município de São Paulo.

A proximidade da água foi fator preponderante para a escolha do território a ser ocupado, uma vez que, ao mesmo tempo, o rio e a várzea proporcionavam alimento e proteção à província.

Em meio a esse cenário, iniciou-se a urbanização de uma das maiores megacidades da atualidade.

No entanto, o processo de urbanização, ocorrido a partir dos anos 1960, trouxe como conse- qüência a impermeabilização do solo, que funcionava como sistema de armazenamento natural das águas. Acrescenta-se a esse problema a prática de canalizações dos rios e córregos, alterando o comportamento das enchentes e exigindo cada vez mais medidas para disciplinar e conter as águas.

Neste trabalho, pretende-se estudar a forma como a cidade perdeu a relação com suas águas e a percepção do território, em especial das áreas de várzea. Busca-se também propor um resgate dos rios e córregos na paisagem urbana, por meio de outras formas de ocupação das áreas inundáveis da cidade.

2 Histórico da ocupação das áreas úmidas do município de São Paulo

A maior parte do território do município de

São Paulo localiza-se em um planalto sobre uma bacia sedimentar, de topografia amena, circundada por terras altas e serras (AB’SABER, 2007). O farto sistema hídrico e a topografia amigável do espigão central (com cotas variando de 800 a 820 metros) impulsionaram a ocupação original da colina histórica de São Paulo e direcionaram sua expansão territorial ao longo de seus vales (PRADO JR., 1972).

Os rios paulistanos fugiam aos mercados exportadores, que rumavam em direção ao interior do país, e não à costa brasileira. Passaram a ser utilizados apenas no século XVIII pela monções, que se constituíam em frotas comerciais a fim de transportar alimento às minas de Goiás e Mato Grosso. Para as bandeiras, o rio representava um obstáculo à marcha, e seu uso era ocasional; já para as monções, era a regra, um disciplinador do movimento1. Os rios Tietê e Tamanduateí foram muito importantes durante o período de colonização brasileira, pois por meio deles iniciou-se a

Figura 1: 1650 – vista do Vale do rio Tietê a partir do encontro com o Jurubatuba (atual Pinheiros)

Fonte: Aziz Ab’ Saber apud Alvim, 2003, p. 2.

Artigos exploração do interior brasileiro, por parte das tropas conduzidas por bandeirantes.

Durante a travessia pelas terras e paragens paulistas, já nos idos do século XVIII, os relatos de viajantes apresentavam claramente as intervenções antrópicas (LANGENBUCH, 1971). Não seria possível instalar uma província ou uma cidade em meio a um ambiente totalmente natural sem abrir clareiras, construir estradas, edificações para habitação e produção de bens, tais como armazéns para troca e estocagem de mercadorias.

Na paisagem da imperial cidade de São Paulo, havia muitos rios e córregos; no entanto, foi no entorno de alguns que a cidade se desenvolveu inicialmente, utilizando-os nos primeiros processos de abastecimento da população.

A cidade imperial de São Paulo desaguava grande parte de seus recursos hídricos na bacia do rio Tamanduateí, um dos principais afluentes do rio Tietê, e de grande extensão e abrangência.

O principal afluente do rio Tamanduateí na área central e histórica era o rio Anhangabaú, que recebia as contribuições dos córregos Yacuba, Saracura e Bexiga. Desaguando a montante do rio Anhangabaú havia os rios Cabuçu Pequeno e Cabuçu de Cima – este recebia as águas do Cabuçu de Baixo. As águas do Tanque do Arouche escoavam contribuindo para formação do Córrego do Carvalho, que desaguava a jusante do rio Anhangabaú no rio Tamanduateí.

O rio Anhangabaú teve suas nascentes represadas, formando os tanques Municipal e de Santa Teresa, no antigo Morro do Caaguaçu, na altura do Paraíso. Esses dois tanques foram as primeiras alternativas de abastecimento da cidade e, portanto, motivo de estudo para possível regularização da vazão destinada aos diversos chafarizes de abastecimento existentes em 1884. No entanto, não havia potencialidade hídrica para tanto (GASPAR, 1970).

No rio Bexiga, não existia represamento, sendo sua contribuição direta ao rio Anhangabaú. O rio Saracura teve suas águas represadas, formando o Tanque Reúno. Não tão próximo às nascentes, também reunia quantidade de água considerável e abastecia o Chafariz do Piques, por meio de seu reservatório, a Bacia da Pirâmide. As águas eram aduzidas pelo Morro do Chá e bairro de Santa Ifigênia, para alimentar o lago central do Jardim Botânico – atual Jardim da Luz.

O Tanque do Zuniga era conhecido por

Praça das Alagoas, e abrigava as nascentes formadoras do rio Yacuba, que, em seu trajeto até o rio Anhangabaú, recolhia as águas de qualidade duvidosa da Bica do Acu. O dessecamento do Tanque do Zuniga transformou a Praça das Alagoas no Largo do Payssandu, e o encaminhamento das águas foi feito em canos de ferro até a Rua Payssandu.

Contribuindo para esse cenário de dessecamento da cidade, o desenvolvimento da trama urbana drenou diversos rios e córregos e estruturou a rede de transporte por meio dos fundos de vale, como é o caso da Avenida Nove de Julho, construída sobre o leito do rio Saracura; Avenida 23 de Maio, sobre o rio Anhangabaú; Avenida dos Estados, sobre o rio Tamanduateí; Avenida Pacaembu, sobre o córrego do Pacaembu, e outros tantos corpos hídricos da cidade que foram suprimidos da leitura paisagística.

A modernização da paisagem (ALVIM, 2006) não se restringe ao território da cidade, mas abrange a extensão ao longo dos rios e córregos, pois os rios, além de potenciais reservas para o abastecimento das populações, logo são visualizados como potencial hidroelétrico, principalmente em um momento em que a cidade de São Paulo vive a industrialização e a modernização dos serviços urbanos, e a atenção política está voltada para a criação de infra-estrutura necessária à expansão econômica da cidade e do estado. Projeta-se, en- tão, a transformação da paisagem para adequar a natureza às necessidades do desenvolvimento econômico.

O fim do século XIX e a primeira metade do século X foram momentos tecnocentristas (SARAIVA, 1999), nos quais todas as alternativas econômicas giraram em torno do desenvolvimento de técnicas. A Light, ao receber a concessão para explorar o Alto Tietê, comprometeu-se a estabelecer uma hidrovia que atingisse o alto da Serra do Mar para escoamento de mercadorias por meio dos rios Tietê, Pinheiros e Grande. Os rios eram vistos também como vias de comunicação secundárias à estrada de ferro, e seriam utilizados no caso da inacessibilidade às ferrovias, em razão das grandes distâncias entre as fazendas produtoras de café e os troncos ferroviários centrais.

Em 1924, apesar da discutida poluição do rio Tietê, foi realizada a primeira travessia de São Paulo a nado. No entanto, muitos clubes, percebendo a situação de poluição crescente dos rios, optaram por construir piscinas particulares em vez de lutar pelo direito ao direito desse recurso natural. A poluição e a retificação dos rios, assim como as proibições de banhos nus, causaram abandono da prática de natação.

Com o final da disputa da Travessia de São Paulo a Nado do Tietê em 1944, encerrou-se um ciclo na história da aquática paulista, em que o rio teve presença marcante. […] A suspensão daquela prova correspondeu ao atestado de óbito do rio, cujo significado para a natação paulista tinha começado a declinar quando a A. A. São Paulo, o Clube Espéria, o Sport Club Germania e o Clube de Regatas do Tietê construíram suas piscinas no período compreendido entre 1929 e 1934. (NICOLINI, 2001, p. 106).

As vias marginais, consolidadas sobre os antigos acessos dos clubes aos rios, descaracterizaram a paisagem natural das várzeas, espaços de convivência nos quais se podia admirar o pôrdo-sol espelhado nas águas dos rios, os barcos a remo e as competições de natação.

A partir do Plano de Avenidas, de Prestes

Maia, em 1930, os fundos de vale foram vistos como solução para a ampliação do sistema viário urbano, transformando o sistema hídrico da cidade e trazendo novas complicações para a as questões de drenagem do território.

Vários planos para resolver os problemas da drenagem no município se sucederam, mas, como sempre, eram projetos de longa duração. A evolução da ocupação urbana exigiu a sucessiva revisão das vazões de projeto. Por exemplo, no trecho do rio Tietê compreendido entre a foz do Tamanduateí e o município de Osasco, a vazão de projeto do plano de 1894 era de 174 m3/ s, passando a 400 m3/s no projeto de Saturnino Brito (1925); 650 m3/s, no Plano Hibrace (1968), e 1.188 m3/s, no Projeto Promon, de 1986. Os estudos de enchentes elaborados pelo Consórcio Hidroplan (1995) já indicaram valores cerca de 20% superiores aos obtidos no Projeto Promon. A mesma defasagem entre capacidades e demandas hidrológicas também é verificada em diversos rios e córregos que sofreram intervenções na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) (DAEE,1998).

Em quase todos os processos de transformação da paisagem ocorridos no município de São Paulo, a vegetação foi praticamente dizimada, e a água dos rios, como elemento da paisagem, também sofreu diversas descaracterizações. A cidade não soube respeitar a natureza, não conservou seus rios e ribeirões; ao contrário, escondeu-os em grossas tubulações sob a terra.

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3 Renaturalização de rios e córregos no município de São Paulo

As principais zonas de vida silvestre (ODUM, 1988) geralmente estão lindeiras à cidade, sendo, muitas vezes, coincidentes com áreas naturais ou Áreas de Preservação Ambiental (APAs). Os sistemas hídricos, que têm suas nascentes nessas áreas, no processo de expansão do tecido urbano são contaminados ou poluídos, ou até dizimados, obrigando a busca por água em áreas mais distantes – o que onera a infra-estrutura da cidade. O rio Tietê, que é o principal corpo hídrico do Estado de São Paulo, no trecho em que atravessa a capital, distando apenas 150 km de sua nascente em Salesópolis, encontra-se altamente poluído (BROCANELI, 1998).

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