Princesas Africanas-bx

Princesas Africanas-bx

(Parte 1 de 13)

PRINCESAS AFRICANAS REVISTA DE (IN)FORMAÇÃO PARA AGENTES DE LEITURA | ANO 9 | FASCÍCULO 19 | PRINCESAS AFRICANAS | W.LEIABRASIL.ORG.BR | DISTRIBUIÇÃO DIRIGIDA

Princesas Africanas

LEITURASCOMPARTILHADAS REVISTA DE (IN)FORMAÇÃO PARA AGENTES DE LEITURA | ANO 9 | FASCÍCULO 19 | PRINCESAS AFRICANAS | W.LEIABRASIL.ORG.BR | DISTRIBUIÇÃO DIRIGIDA

Leituras Compartilhadas Março/2009

Diretor Responsável: Jason Prado

Editor: Ana Claudia Maia

Conselho Editorial: Ana Lúcia Silva Souza e Sueli de Oliveira Rocha

Direção de Arte e Produção Gráfica: Suzana Lustosa da Fonseca

Ilustrações: Taisa Borges

Outras Ilustrações:

Montagens feitas por Suzana Lustosa da Fonseca a partir de ilustrações de Taisa Borges (págs. 18, 19, 38, 39, 56, 57, 6, 71). Banco de Imagens: Fotolia

Revisão: Sueli de Oliveira Rocha Colaboração: Márcio Von Kriiger Tiragem: 10.0 exemplares

Leituras Compartilhadas é uma publicação do Leia Brasil distribuída gratuitamente às escolas conveniadas.

Todos os direitos foram cedidos pelos autores para os fins aqui descritos.

Quaisquer reproduções (parciais ou integrais) deverão ser autorizadas previamente.

Os artigos assinados refletem o pensamento de seus autores. Leia Brasil e Leituras Compartilhadas são marcas registradas.

Impresso na Ediouro.

Visite w.leiabrasil.org.br e veja como utilizar esta publicação em atividades de sala de aula.

Opotencial de sustentabilidade de todo e qualquer empreendimento é um dos fatores que confere excelência à iniciativa. E, para isso, a gestão participativa – processo em que as partes envolvidas expõem suas possibilidades e necessidades –éfundamental na conquista dos bons resultados. Assim é o Petrobras Programa de Leitura Bacia de Campos, iniciativa social apoiada pelas unidades de Negócio da Bacia de Campos e do Rio de Janeiro em 17 municípios da área de influência da maior província petrolífera do país.

Por seu constante alinhamento às demandas de seu público-alvo, alunos e professores da rede pública de ensino das cidades atendidas, o Petrobras Programa de Leitura Bacia de Campos vem contribuindo para a melhoria dos índices que mensuram aeducação. Exemplo disso, a pontuação que as escolas e municípios atendidos conquistaram na pesquisa que mediu o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o IDEB, em 2007.

Em Macaé, onde o programa é desenvolvido desde 1994, todas as 37 escolas atendidas pelo caminhão-biblioteca atingiram pontuação acima da média nacional, tendo o Colégio Municipal do Sana obtido média 6,5, índice maior que a meta estipulada pelo Governo Federal (6) para o ano de 2021.

Anova edição do Leituras Compartilhadas mostra o desejo constante do Programa em atender as demandas de nossos maiores parceiros: os mais de nove mil professores e300 mil alunos que constroem o sucesso desta ação nas 310 escolas onde o Petrobras Programa de Leitura Bacia de Campos é desenvolvido. AsPrincesas Africanas conduzirão um estudo menos superficial da África, continente que esconde suas riquezas na pluralidade de tradições que remontam à origem da humanidade.

Asustentabilidade de nossas ações depende dessa disposição em aprofundar os conhecimentos,tanto no passado quanto nos desafios impostos pelas novas eras que virão.Assim a Petrobras conduz seus investimentos empresariais e sociais. Para que chegássemos ao imenso tesouro escondido na camada pré-sal, tivemos que buscar as regiões mais distantes, profundas. E para que exploremos aquela riqueza, necessário será aprimorar o conhecimento adquirido até aqui.

Como o que ora é proposto pelo Leituras

Compartilhadas. Como a ostra que guarda o tesouro dentro de si, a África será aqui revelada pelo que esconde de mais precioso: sua dignidade, sua nobreza, mergulho esse conduzido pelo mais rico dos universos, o literário.

África dos meus sonhos

Duas palavras, tantos sentidos. Quando ouvi a sugestão de publicar um

Caderno de Leituras Compartilhadas com este tema, não me dei conta dos desvãos do caminho.

Era uma tarde fria de junho e eu estava na Refinaria do Paraná, fazendo o terceiro de uma série de encontros sobre a participação africana na formação cultural brasileira.

Foi quando Analu me desafiou: por que vocês não fazem um Caderno sobre as princesas negras?

Ana Lúcia1éuma dessas pessoas de vontade forte, com formação e conteúdo invejáveis, cheia de fé no que diz. É, ela mesma, a própria imagem da guerreira africana.

Como se não bastasse, Rogério Andrade

Barbosa tinha passado a manhã daquele dia falando de suas viagens pelas nações africanas, das culturas exóticas, de ritos tribais...

Nos subsolos da minha mente já se agitava a figura emblemática e saltitante de Grace Jones num filme trash dos anos 802, como a incentivar a empreitada. Não pude evitar as armadilhas de minha própria imaginação: topei o desafio.

Aos poucos,como os animais que “mastigam” muito depois de engolir, fui me dando conta dos conteúdos ali envolvidos. Logo de cara, uma bifurcação: princesas; portanto, mulheres.

Não apenas mulheres,em suas dimensões humanas: heroínas na luta pelo pão-nosso e pela sobrevivência diária, frágeis diante da morte, leoas no exercício da função materna, mulherescom vontades e desejos...

Para além disso, mulheres especiais, que se distinguem das outras em sua superioridade, seja em graça, beleza ou astúcia. Guerreiras, sensíveis, capazes de perceber um grão de ervilha sob pilhas de colchões de plumas. Ungidas pelos deuses no nascimento e donas do direito divino de povoar as cabeças dos homens.

Princesas, qual promessa de flor, também àespera dos varões que as farão reinar em seus próprios castelos.

etíope,biafrenseAfricanas,brancas e

Mas também africanas. Em sua maioria, negras,exuberantes e fortes como a guerreira que projetou a atriz jamaicana de Conan, ou como tantas outras que conhecemos no dia-a-dia. Vindas – para a maioria de nós brasileiros, seus descendentes – de um universo desconhecido, povoado com imagens de animais ferozes, de lanças cruzando os céus e tan-tans em frenesi, de corpos esguios e fome. Muita fome – somali, negras. Submetidas e espoliadas por séculos, como seu continente, até se perderem de si mesmas.

Para esta edição de Leituras Compartilhadas –em que o “eu”torna-se “nós”, no compartilhamento das minhas ponderações com a equipe da ONG Leia Brasil –, evoluímos para Princesas Africanas,curvando-nos não só à grandiosidade do continente mas também à Cleópatra, à Rainha de Sabá e a todas as mulheres que remontam à mais

Princesas africanas Jason Prado frustra nossas expectativas e subverte a civilidade, nos pilhamos dizendo: “isso é coisa de preto”?

Isso posto, toquemos num ponto nevrálgico: a questão africana.

Partindo de Lucy, somos todos afro-descendentes. Uns mais, outros menos. E o que é mais importante ainda, estamos juntos na humanidade.

Por que é tão difícil que a descendência negra ganhe cidadania no Brasil, a ponto de ser necessária a criação de um movimento pela consciência negra e a promulgação de uma lei que obrigue as escolas a ensinar a História e a Cultura Africana7?

Mais uma vez, volto a particularizar minha fala e recorro aos significados. Embora não tenha autoridade para falar a esse respeito,vou me permitir ser opiniático: não creio que o movimento tenha se constituído apenasem decorrência da dor ainda vivade nossos avós amarrados no pelourinho, muito menos pela imoralidade do tráfico, que aniquilou milhões e, pela escravidão, transformou outro tanto em mortos-vivos.

Embora sejam recentes,esses fatos remontam ao já longínquo século XIX. É preciso falar deles porque somos um país preconceituoso e o preconceito é rasteiro, imprevisível, dissimulado e elitista. E quando falo em elite,caio mais uma vez na pantanosa questão das classes sociais, dos dominantes e dominados, dos príncipes e mendigos...

Voltando ao preconceito, o problema é que ele dói, mas nem é crime. Embora a manifestação do preconceito seja crime (tipificado pela Lei nº 7.716, de 05/01/89), seu sentimento não pode ser criminalizado. Ninguém pode ser punido por associar um negro, numa rua deserta, à noite, a uma situação de iminente perigo. Mas deve doer (e revoltar) a qualquer jovem negro assistir a um estranho desviando de seu caminho.

Do outro lado desse comportamento está, por exemplo, a clara leitura que podemos fazer da miséria a que as elites condenaram os negros no Brasil. Miseráveis famintos – como os escravos “libertos” pela Lei Áurea, sem teto e sem perspectivas –são marginais potenciais.Mas essa lógica nunca ocupou espaços na sociedade, que é preconceituosa (de certa forma, o sentimento do preconceitoexime e protege de culpa as pessoas). O preconceito só se desmonta com educação, com a lógica. E essa decorre de um pensamento arejado,da compreensão de cada componente do todo.

Com essas considerações, retomo o propósito desta edição de Leituras Compartilhadas: criada para ajudar os professores a reconhecer e positivar as diferenças,combater o racismo e o preconceito étnico-racial, ela não pode se propor ilustre e desconhecida de todas as princesas: Lucy3,aafricana que todostemos no sangue.

Durante os meses necessários para que os artigos e textos fossem encomendados e escritos, para que essas belíssimas ilustrações fossem produzidas e a edição começasse a ganhar forma, muitas foram as dúvidas que, pouco a pouco, se materializaram como bolhas que levantam da fervura. Amais inquietante delas, talvez, seja relativa à questão Princesa.Dúvidas não propriamente quanto às funções tribais da filha do chefe, mas quanto a esse conceito que permeia nossa vida e nos faz chamar nossas filhas de princesas,que permite às mulheres se atribuírem esse título, sempre tão impregnado de bondade.

No romance Peixe dourado4,um belíssimo livro sobre princesas africanas, Jean- Marie Clézio (Prêmio Nobel de Literatura de 2008) usa o termo princesacentenas de vezes, a maior parte delas para se referir às moças de um prostíbulo marroquino,buscando assim suavizar o caráter do ganhapão dessas mulheres.

Que mágica tem essa palavra? De onde vem sua força?

Deixando de lado as razões teosóficas (ou o pseudo “direito divino” de alguém ser melhor que os outros e, a partir dessa lógica, praticar todas as vilanias possíveis contra a humanidade), em que pensamos quando empregamos essa palavra?

Em primeira e última instância, princesas são as herdeiras do rei. São elas que viabilizam a constituição de novos reinados (famílias), garantindo a transição entre um antigo e um novo regime. Se é verdade que as histórias tecem o terreno por onde construímos nossas noções de mundo, as prin- cesas são a matéria-prima de nossa organização social.

Em meados do século XVI, surgiu na

Inglaterra uma expressão que se atribui a um jurista inglês5,eque se tornou a base da Bill of Rights,expressivo nome de um capítulo da Constituição norte-americana: aman’s home is his castle –acasa de um homem é o seu castelo6.

Tudo bem que essa frase tenha servido para assegurar a inviolabilidade do lar, mas não caberia perguntar: quem mora em castelos? E por que pessoas de todas as classes sociais – inclusive nas sociedades de castas –se referem assim às suas herdeiras?

Será demais remeter o conteúdo ideológico das princesas (e toda a sua entourage) às questões da família, da propriedade e do estado? Será puro maniqueísmo?

Por outro lado, por que valorizamos tanto esse negócio de realeza, nobreza e outras iniqüidades coroadas?

Há 16 anos – em 1993, na reta final do século X – nosso Congresso promoveu, a um custo financeiro exorbitante, um plebiscito (referendo popular) sobre a forma de governo no Brasil. Nada menos que 6,8 milhões de brasileiros votaram a favor da monarquia, pensando seriamente em entregar a coroa (e nós,as caras) aos portugueses que exportaram nossas riquezas e importaram da África, como mercadoria, seres humanos.

Por que, mesmo sabendo disso (da vergonha e sofrimento que nos causam os que se julgam acima do bem edo mal; da podridão que alicerça a aristocracia), quando alguém tem uma atitude digna, elogiável, quase beata, dizemos que foi um “gesto nobre”? E por que, no extremo oposto, quando algo inesperado 8

Princesas Africanas

Uma contribuição para o estudo da cultura afro-brasileira nas escolas públicas. (De acordo com a Lei 10.639/2003) aoferecer respostas, mas a ajudar a instalar perguntas que desconstruam comportamentos e pré-julgamentos.

Sendo assim, com o excepcional conteúdo quese segue e que é oferecido às futuras gerações de brasileiros, deixo no ar uma homenagem a todas as princesas negras (e africanas) que nunca estiveram em nosso imaginário e às outras tantas que não puderam comparecer a esta edição.

Notas:

1Ana Lúcia Silva Souza (Analu) é socióloga, doutoranda em Lingüística Aplicada (Unicamp - Instituto de Estudos da Linguagem), mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.Participa desta edição de Leituras Compartilhadas como articulista e conselheira editorial.

2Conan, o destruidor,de 1984.

3Lucy Dinqines (que significa você é maravilhosa)– nome do esqueleto da fêmea hominídea de 3,2 milhões deanos encontrado na Etiópia; é a mais antiga ancestral da humanidade.

4Peixe dourado,de Jean-Marie Clézio, Companhia das Letras,2001.

5Sir Edward Coke, Inglaterra, 1552-1634.

6Écurioso que esse respeito à privacidade e esse reconhecimento à inviolabilidade do lar tenham se consolidado duzentos anos depois,ao tempo da independência americana, que coincide com a Revolução Industrial e o fim do Feudalismo, no qual as pessoas serviamànobreza e sequer possuíam a roupa do corpo, quanto mais uma casa.

7Lei 10.639 / 2003 – altera a Lei de Diretrizes e

Bases da Educação Nacional (LDB) e estabelece a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Afrobrasileira e Africana no Brasil.

Jason PPrraaddooé jornalista, criador e Diretor

Executivo da Leia Brasil – ONG de promoção da leitura.

AS | ANO 9 | F

O 19PRINCESAS AFRICANAS | W
•Princesas africanas - Jason Prado7
•O sonho de ser princesa - Andréa Bastos Tigre - Rossely Peres15
•As princesas nos contos de fadas - Sonia Rodrigues17
•São outras as nossas princesas - Sueli de Oliveira Rocha21
•Que fada é essa? - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque25
•A donzela, o sapo e o filho do chefe - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque27
•Rainhas negras na África e no Brasil - Luiz Geraldo Silva31
•As princesas africanas - Braulio Tavares3
•O casamento da princesa - Celso Sisto37
•Minha princesa africana - Márcio Vassalo41
•Uma princesa em São Tomé e Príncipe - Ana Lúcia Silva Souza43
•Princesa de África, o filme - Uma entrevista com Juan Laguna47
•Iya Ibeji, a mãe dos gêmeos - A leitura dos símbolos nagô - Marco Aurélio Luz51
•A lenda da princesa negra que incendiou o mar - Geraldo Maia5
•Nas malhas das imagens e nas trilhas da resistência:
heroínas negras de ontem e de hoje - Andréia Lisboa de Sousa59
•Uma guerreira - Julio Emilio Braz63
•Princesa, não. Mas- Marina Colasanti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .65
•Os três cocos - Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque69
•Uma princesa afrodescendente - Sueli de Oliveira Rocha73
•Princesa descombinada - Janaína Michalski7
•Princesas africanas e algumas histórias - Tiely Queen (Atiely Santos)79
•Bibliografia83

•África dos meus sonhos - Petrobras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5 Índice

AS | ANO 9 | F

O 19PRINCESAS AFRICANAS | W

Taisa Borges tem formação em artes plásticas e estilismo. Ilustrou para a Folha de S. Paulo, Vogue, entre outros. É autora do livro de imagem O rouxinol e o imperador, inspirado no conto de Andersen do mesmo nome, lançado em 2005, obra selecionada para o PNBE 2005 e para o PNLD SP/2006, merecedor do prêmio de o Melhor livro de imagensde 2005 pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Em 2006, publicou na mesma coleção João e Maria, inspirado em um conto dos irmãos Grimm, também selecionado para o PNBE 2006 e para o PNLD SP/2007. O livro A bela adormecida, de Charles Perrault, lançado em 2007, fechou seu projeto de homenagens aos contos de fadas.

Pise macio porque você está pisando nos meus sonhos.1

W. B. YeatsQue menina não sonhou, um dia, em ser ou vir a ser uma princesa? O apelo da beleza, da riqueza, do fausto das festas e palácios e do “viveram felizes para sempre” traz a magia da palavra, com seus sons e encantamentos, alimento da imaginação infantil.

A linguagem fantástica - a da poesia, do conto, das fábulas, com seus ritmos e imagens - permite à criança “viver outras vidas” e, assim, construir um arcabouço imaginário necessário e fundamental para “viver a própria vida”. Que lugar tem, na economia psíquica de uma criança, histórias de príncipes e princesas?

(Parte 1 de 13)

Comentários