Cuidar Sem Violencia Todo Mundo Pode

Cuidar Sem Violencia Todo Mundo Pode

(Parte 1 de 6)

Guia Prático para Famílias e Comunidades

Fortalecendo as Bases de Apoio Familiares e Comunitárias para Crianças e Adolescentes

Fortalecendo as Bases de Apoio Familiares e Comunitárias para Crianças e Adolescentes

Projeto Fortalecendo as Bases de Apoio Familiares e Comunitárias para Crianças e Adolescentes

Coordenação Geral: Gary Barker, Irene Rizzini.

Coordenação do Projeto: Caius Brandão

Equipe de Pesquisa e Ação:

Alexandre Bárbara Soares, Carla Daniel Sartor, Isadora Garcia, Marcelo Princeswal, Márcio Segundo, Maria

Helena Zamora, Paula Caldeira, Rachel Baptista, Renata Tavares da Silva, Thereza Cristina Menezes da Silva.

Consultores Comunitários: Ana Lúcia Ribeiro, Leidimar Alves Machado, Luiz Kléber Alves de Oliveira

Bases Comunitárias:

Adriana P. Souza, Andressa Generoso Trigueiros, Assis Ferreira Nascimento, Azenilda da Conceição, Cristina

Oliveira dos Santos, Cosme Luis Andrade, Estevão Fernando da Conceição, Gisele Aparecida de França Soares, Jadir Carlos de Oliveira, Leandro da Silva Carvalho, Luana da Silva Victoriana, Marcos Antonio de Oliveira Coelho, Marineide Generoso Trigueiros, Patrícia Gomes de Lima, Priscila Martins da Costa, Solange Monteiro Andrade, Técio Cesar de Azevedo, Wilson Pereira Júnior, (Nova Aliança/Bangu); Bianca da S. Alves,

Christiele da Silva Gonçalves, Cristiane Valle, Danielle Salustiano Pinheiro, Jocinéa Machado, Leandro de

Freitas Valle, Leonardo da Silva Bastos, Márcia Herminia, Margarete Lopes da Silva, Marilene da Silva

Lemos, Mary Lúcia da Conceição, Mirella Cristina G. Guimarães, Rafael dos Santos Pessanha, Raquel Alves,

Roque Vanderson M. de Souza (Água Mineral); Ana Maria do Nascimento, Andréia M. Fernandes, Adriana Araújo Aguilar, Eliane dos Santos Souza, Eva Alves, Flávio Guedes Pires, Gilson da Silva, Glauber Martins dos Santos, Jueslânia Carvalho, Luciano Menezes, Luiz Fernando Marques dos Santos, Maria Luiza Ferreira, Silvana Lino, Sonia Maria de Oliveira, Tamara Gonçalves Ferreira, Tathiane Barbosa Abreu, Wesley da Paz Ferreira (Santa Marta)

Organização e Redação Final: Silvani Arruda, Maria Helena Zamora, Gary Barker.

Copidesque: Adriana Gomez e Silvia Chalub (Revista Saber Viver)

Projeto Gráfico: LF Design Gráfico

Agradecimentos:

Pepa Horno Goicoechea - Save the Children Espanha.

Denise Stuckenbruck - Save the Children Suécia.

Irene Intebi - ISPCAN

Bébhinn Ni Dhónaill e Marcos Nascimento Instituto PROMUNDO

Projeto Brincar e Aprender CIESPI

A todas as pessoas que participaram das capacitações e que colaboraram para a validação e realização deste guia.

Instituto PROMUNDO

Rua México, 31 Bloco D sala 1502 20031 144 Rio de Janeiro RJ Brasil

Tel/Fax: 5 21 2544 3114 / 3115 w.promundo.org.br

CIESPI em convênio com a PUC/RJ

Caixa Postal: 380002 - 2 451 970 Rio de Janeiro - RJ

Tel: 5 21 9432-3327 e.mail: ciespi@ciespi.org.br w.ciespi.org.br

Módulo 1: Perguntas e Respostas Módulo 1: Perguntas e Respostas

Apresent ação05
Módulo 1 – Perguntas e Respostas07
Introdução09
Perguntas e respost as16
Módulo 2 – Técnicas de Trabalho em Grupo25
Iniciando um programa de cap acitação27

Módulo 1: Perguntas e Respostas

as regras de convivência ..........................................................................................29
Bloco 2: Informando sobre35

Bloco 1: Aplicando o pré-teste, aquecendo o grupo e estabelecendo

Técnica 1: Direitos e Responsabilidades da Criança e do Adolescente37
Técnica 2: Pessoas e coisas41

2.1. Direitos

Técnica 3 : Minha família é assim43
Técnica 4: Gráfico de família45
Técnica 5: Colagem: as necessidades das crianças de 0 a 6 anos49
Técnica 6: Dramatização: as necessidades das crianças de 7 a 1 anos52
Técnica 7: A árvore dos gêneros54

2.2. Desenvolvimento infantil

Técnica 8: O que você faria se56
Técnica 9: Mantendo o controle60
Técnica 10: O varal da violência64
Técnica 1: Definindo o abuso sexual contra crianças67
Técnica 12: Estudo de caso: A história de Manuela70
Técnica 13: A violência à minha volta74
Técnica 14: Minhas Bases de Apoio75

2.3. Violências

Técnica 15: A comunidade que eu tenho e a comunidade que eu quero79
Técnica 16: Um projeto em comum81
Técnica 17 :T rabalhando em rede84

Bloco 3: Formando uma rede comunitária

Aplicação do pós-teste e avaliação do encontro89
Módulo 3 – Onde buscar outras informações91
Textos93
Manuais94
Vídeos95
Livros infantis96
Websites98
Centro de Referência9 9
Bibliografia101
Anexo103

Bloco 4: Avaliando Modelo de pré e pós-teste ..................................................................................................... 105

Módulo 1: Perguntas e Respostas

O objetivo desta publicação é contribuir para a discussão sobre alternativas positivas de educação para filhos e filhas livre de violência, mesmo em comunidades consideradas violentas.

Dividido em quatro partes, procura contemplar as seguintes questões:

Módulo 1: Perguntas e respostas

Este módulo traz um texto inicial sobre violência intrafamiliar, com ênfase na violência à criança de 0 a 1 anos, apresentando alguns dados estatísticos e uma breve análise sobre o tema, com foco no desenvolvimento infantil e nos direitos das crianças e adolescentes.

Na seqüência, sob a forma de perguntas e respostas, procura estabelecer pontes entre os fatores de nossa própria cultura que tornam as crianças mais ou menos vulneráveis a situações de violência e os direitos previstos em lei e em acordos internacionais.

Apresenta, ainda, alguns conceitos e informações sobre a importância de se conhecer os diferentes estágios do desenvolvimento infantil, bem como sua relação com a prevenção da violência contra a criança.

Módulo 2: técnicas de trabalho em grupo

Neste módulo, 17 técnicas de trabalho em grupo são sugeridas pela equipe do Instituto Promundo, do CIESPI – Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (em convênio com a PUCRio) – e de outras organizações que vêm desenvolvendo propostas semelhantes. Essas técnicas foram testadas em três comunidades do Rio de Janeiro (Morro de Santa Marta, Vila Aliança/Bangu e Água Mineral/São Gonçalo) e consideradas apropriadas e adequadas pelos participantes. Divididas em blocos temáticos (Famílias, Necessidades das Crianças e Limites; Desigualdades e Violências; Direitos das Crianças, Projetos para a Comunidade e Redes), cada técnica é descrita passo a passo. Ao final, são sugeridas algumas perguntas para estimular a discussão e algumas mensagens a serem enfatizadas pelo facilitador. Antes de iniciar a capacitação, é proposta a aplicação de um pré-teste e sua reaplicação ao final da dinâmica. Esse instrumento, anexado ao final deste material, nos permite observar as mudanças individuais que ocorreram nas percepções que o grupo tinha sobre o tema.

Módulo 3: Onde buscar outras informações

Esta etapa inclui uma listagem com a indicação de livros; endereços de páginas na internet; vídeos e organizações que apóiam pais, mães e comunidade em geral na criação das crianças como complemento ao conteúdo tratado nesta publicação.

Sem a expectativa de responder a todas as questões relacionadas ao desenvolvimento infantil, à prevenção da violência contra as crianças e seus direitos e, muito menos, propor receitas mágicas, o Instituto Promundo e o CIESPI esperam que este material possa apoiar pais, mães e responsáveis na busca por relações mais harmoniosas, igualitárias e prazerosas em suas famílias e em sua comunidade.

A equipe

Apresentação

Apresentação

CUIDAR SEM VIOLÊNCIA, TODO MUNDO PODE 06

Módulo 1: Perguntas e Respostas 07

Módulo 1: Perguntas e Respostas introdução

Este manual tem como ponto de partida o fato de que as crianças têm o direito a um ambiente seguro e protetor, ou seja, crescer em famílias onde estejam livres da violência e tenham os cuidados que precisam para se desenvolver. Estes direitos estão contemplados no Estatuto da Criança e do Adolescente.

Especificamente, este manual enfoca as alternativas para pais e responsáveis em termos de como estabelecer limites, disciplina e formas de ajudar seus filhos em seu processo de crescimento – alternativas que não incluem o uso da violência. Em todo o mundo, vem aumentando a atenção sobre a questão da violência contra a criança. Muito dessa atenção está centrada em esforços para intervir e oferecer apoio nos casos em que as crianças sejam vítimas de algum tipo de violência. Alguns paises vêm implementando esforços no sentido de prevenção da violência, seja por meio da capacitação de pais e responsáveis, seja por meio de serviços de apoio à família, como por exemplo aconselhamento e acompanhamento psicológico.

Como podemos – como educadores e facilitadores – prevenir a violência que atinge as crianças? O que podemos oferecer às famílias para reduzir e prevenir a violência antes que ela aconteça?

As atividades incluídas neste manual foram planejadas de modo que os facilitadores possam promover uma reflexão especificamente sobre estas questões com as famílias e, desta forma contribuir para a redução da violência.

Nossos pontos de partida Este manual parte de algumas hipóteses ou pressupostos básicos. Incluem:

Pais/Mães/Responsáveis geralmente querem o melhor para suas crianças. Nós sabemos que os pais muitas vezes ficam ansiosos e, que, algumas vezes não têm conhecimento ou prática de como disciplinar suas crianças ou estabelecer limites sem o uso da violência. Mas nós acreditamos que estes pais geralmente conhecem melhor do que qualquer outra pessoa quais são as necessidades das suas crianças e que desejam o melhor para elas. As atividades incluídas neste manual encorajam os pais a pensar sobre como eles podem dar um suporte melhor para seus filhos, a partir das coisas que eles já fazem para seus filhos e das habilidades que eles já possuem.

Pais/Mães/Responsáveis devem ser nossos aliados na redução da violência contra a criança. Alguns esforços no sentido de prevenir o abuso contra crianças tratam os pais como potenciais criminosos ou como potencialmente “maus”. Nosso enfoque é outro. Partimos das coisas positivas que os pais fazem e assumimos que eles devem ser informados e engajados nas discussões sobre como agir para reduzir a violência contra crianças. Nós assumimos que os pais e as famílias têm recursos, habilidades e contatos com outras pessoas que podem ser envolvidas para prevenir ou reduzir a violência. Nestas atividades, nós encorajamos os pais a construírem, em grupo, estes recursos.

Famílias são diferentes e devem ser abordadas tendo como base suas necessidades, sem julgamentos. Não existe um modelo ideal de família. Mais do que qualquer outra coisa, as crianças necessitam dos cuidados de um adulto que ponha seus interesses acima dos deles próprios. Este cuidado pode ser dado pela mãe ou pelo pai, mas ele também pode vir de outros parentes como tias, tios, avós, assim como dos amigos da família ou dos padrastos. Pais podem cuidar das crianças tão bem quanto as mães. Nas atividades propostas, nós promovemos o respeito pela diversidade das famílias e não assumimos que exista um modelo melhor do que outro.

Crianças – e seus pais ou cuidadores – têm diferentes necessidades em diferentes momentos em seu ciclo de vida. Eventos específicos como, por exemplo, o nascimento de outro filho, podem trazer necessidades específicas e, algumas vezes, momentos de estresse para a família. Estas necessidades, mesmo que ocorram somente em determinados momentos na vida da criança e da família, devem ser levados em consideração.

Violência é um comportamento aprendido. Não é natural, nem inevitável. Em alguns casos, o uso da violência física na família é considerado normal ou natural. Obviamente, existem numerosos tipos de violência ou abuso contra crianças e as definições variam amplamente. O que se define como abuso ou violência contra crianças tem mudado ao longo do tempo.e varia de acordo com o contexto. Em algumas culturas, a palmada é considerada uma forma de violência ou abuso. Em outras sociedades ou culturas é aceita como um comportamento necessário para disciplinar crianças e estabelecer limites. Mesmo a violência sendo considerada normal em alguns casos, ela não deve acontecer. Aprendemos a ser violentos com a violência que acontece a nossa volta. Refletir sobre o que é a violência e questionar a sua utilização é um dos caminhos para preveni-la.

Buscar ajuda e falar sobre violência é necessário. Muitas famílias se sentem envergonhadas em falar sobre a violência que acontece em suas vidas. Outras vezes, têm medo de falar sobre o tema. Sabemos que falar sobre o estresse e a violência e procurar ajuda dos amigos e da família são fatores protetores para reduzir a violência. Muitas das atividades deste manual encorajam as famílias a buscar por ajuda e falar sobre tensões e violência.

Um grupo formado por outros pais que tenham experiências similares é um lugar ideal para falar sobre violência. Falar sobre estresse, violência e os desafios de ser um pai/uma mãe em um grupo de pais e responsáveis é uma das melhores formas de fortalecer e potencializar as pessoas. No trabalho direto que fazemos com as famílias, freqüentemente escutamos que elas se sentem isoladas e que existem poucos espaços onde os pais, as mães e os responsáveis podem falar sobre seus problemas e necessidades. Aconselhamento profissional e apoio psicológico são, algumas vezes, fundamentais para famílias com necessidades especiais. Mas, em muitos casos, um grupo, coordenado por alguém da comunidade, pode ser uma ótima maneira dos pais se apoiarem mutuamente, trocando informações e experiências de como eles poderiam se orientar melhor, funcionando como mentores e quebrando o isolamento em que as famílias muitas vezes se encontram.

O Que Nós Sabemos sobre a Violência na Família?

Vários estudos realizados em muitos países e em várias partes do Brasil têm demonstrado que a violência física contra a criança é amplamente utilizada. Existem, evidentemente, muitas definições sobre o que é violência e alguns tipos de violência são claramente piores que outros. A violência física vai desde situações em que se perde o controle e se dá um tapa na criança, passando por casos de tortura e de casos extremos e repetidos de violência, chegando até o uso do abuso sexual.

Um estudo recente que realizamos em duas comunidades do Rio de Janeiro revelou altos índices de violência dentro de casa, incluindo violência de adultos contra adultos e de adultos contra crianças. Em uma das comunidades que estudamos (Santa Marta), 2.5% dos pais/mães/responsáveis disseram que um adulto que morava na mesma casa havia usado de violência física contra outro adulto em uma ou mais ocasiões, e 4% no caso de Vila Aliança1. Em outra pesquisa realizada pelo Instituto

1 - Violência física inclui tapa, empurrão, soco, pontapé, puxão de cabelo. 10

Módulo 1: Perguntas e Respostas

PROMUNDO e pelo Instituto NOOS nas mesmas localidades, confirmamos que a maioria das

Foram encontrados índices altos de práticas de violência de adultos contra crianças nas comunidades estudadas. Em Santa Marta, 37% dos entrevistados disseram que um adulto da família havia usado violência física contra crianças pelo menos uma vez no último mês, e 40% responderam positivamente à mesma pergunta em Nova Aliança. Vejam, a seguir, alguns exemplos de situações em que os pais ou mães utilizaram de violência:

2 - Pesquisa Homens, violência de gênero e saúde sexual e reprodutiva: um estudo sobre homens no Rio de Janeiro/Brasil. Instituto PROMUNDO e Instituto NOOS, 2003.

“Eu bato no meu filho, claro que sim. Dependendo do que ele faz, você tem que bater. Se não, você não tem como disciplinar eles.” ( Mãe de criança de 0-6 anos).

“Primeiro eu converso com eles. Se eles não me obedecem, então eu bato”. (Mãe de criança de 0-6 anos).

“Se eu dissesse para você que eu nunca perdi o controle dando umas palmadas nos meus filhos eu estaria mentindo. Eu falo, falo, falo mas chega num ponto que eu tenho que … (dar uma palmada) para mostrar que o que estou falando não é brincadeira, que é sério.” (Pai de criança de 7-12 anos).

A tabela 1 mostra o uso da violência dos pais e mães contra crianças por idade, divididas pelos tipos de violência física mais relatados nas entrevistas: palmada e surra. Nas duas comunidades podemos perceber uma tendência do uso de violência física contra crianças de 7 a 12 anos, diminuindo na adolescência.

TABELA 1

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