Cartografias do Envelhecimento - Velhice e Terceira Idade

Cartografias do Envelhecimento - Velhice e Terceira Idade

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cartografias do envelhecimento na contemporaneidade mariele rodrigues correa velhice e terceira idade

Editora afi liada:

CIP – Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

C844c

Correa, Mariele Rodrigues

Cartografi as do envelhecimento na contemporaneidade : velhice e terceira idade / Mariele Rodrigues Correa. – São Paulo : Cultura Acadêmica, 2009.

Inclui bibliografi a ISBN 978-85-7983-003-7

1. Envelhecimento – Aspectos antropológicos. 2. Envelhecimento –

Aspectos sociais. 3. Velhice. 4. Idosos. 5. Idosos – Política governamental. I. Título. I. Título: Velhice e terceira idade.

09-6049. CDD: 305.23 CDU: 316.346.32-053.9

Este livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP)

© 2009 Editora UNESP

Cultura Acadêmica Praça da Sé, 108 01001-900 – São Paulo – SP Tel.: (0xx11) 3242-7171 Fax: (0xx11) 3242-7172 w.editoraunesp.com.br feu@editora.unesp.br

1 Sobre a cartografi a: percursos metodológicos 35 2 Linhas cartográfi cas: a velhice e a terceira idade 41 3 Ensaios sobre o envelhecimento na contemporaneidade: relevos cartográfi cos 87

Considerações fi nais 115 Referências bibliográfi cas 121

Nossa herança nos foi deixada sem nenhum testamento. Hannah Arendt

Com essa epígrafe, Hannah Arendt inicia seu texto Entre o passado e o futuro (1972) sobre os legados que uma geração deixa a outra e que são guias imprescindíveis para que cada uma seja capaz de posicionar-se no presente como sujeito da História. Para tanto, segundo ela, é necessário que as gerações sejam capazes de nomear suas realizações, seus feitos, dar sentido a eles e, assim, poder ofertálos àqueles que chegam ao mundo.

Colocamo-nos nessa tarefa de nomear alguns feitos e apresentar seus sentidos e direções, no entanto, sem pretender ser intérprete de uma geração ou de um tempo, mas tão somente como portadora de uma razoável experiência de trabalho com a terceira idade que julgamos oportuna comunicar a outros.

Uma tarefa aparentemente simples, quando encarada como uma descrição do se fez, se disse e se ouviu, mas deveras complexa, quando se coloca o desafi o de expressar seus sentidos e não o feito em si. São muitas as incertezas e dilemas quando se pretende fazer um inventário que não apenas indique o que se quer deixar como efeito

8 MARIELE RODRIGUES CORREA de um trabalho, mas que o se selecionou e que valores se atribuíram, a fi m de apreciar e analisar criticamente o que foi construído.

de conectar-se com aspirações e desejos coletivos

Primeiro, o ato de apresentar e inventariar todo um percurso de realizações quase nunca permite resgatar tudo que se fez, afi nal, nem tudo possui um registro e, nesse sentido, tratam-se de realizações sem testamento, eventualmente perdidas na memória. Segundo, daquilo que está presente na memória, é difícil escolher aquilo que pode ser inventariado como um cristal de tempo e que valha a pena ser passado adiante. Tal escolha exige um exame crítico e uma refl exão cuja principal difi culdade é, exatamente, vislumbrar ou atribuir sentidos às diversas realizações, sentidos esses que não se refi ram apenas às idiossincrasias de quem os realizou, mas que sejam capazes

Nesses quase cinco anos de convívio com o grupo de idosos, são muitas as histórias que vivenciamos e permaneceram, suscitando pensamentos e inquietações que nos levaram a analisar a relação do homem com a fi nitude e o envelhecimento, esse rosto perdido no espelho do narcisismo contemporâneo que preza por um ideal de beleza baseado na juventude. Foi uma experiência profunda e enriquecedora, não somente para as questões curriculares e profi ssionais.

As refl exões realizadas neste livro advêm do contato com a terceira idade propiciado pelas ofi cinas de psicologia oferecidas dentro da programação da Universidade Aberta à Terceira Idade da Unesp, campus de Assis. No início, a participação em tais ofi cinas foi como estagiária da graduação e, posteriormente, como coordenadora do grupo.

Quando passamos a atuar nessas ofi cinas, elas já existiam há um bom tempo, pelo menos outros cinco anos antes de nossa chegada. Portanto, herdamos um legado construído por gerações anteriores de estagiários e por muitos participantes que ali passaram. Prosseguimos uma tradição já criada, um grupo formado, com algumas pessoas que foram seus fundadores e tantas outras que estavam nele havia bastante tempo. Um grupo que já constituíra certas práticas, com raízes fi rmes na instituição que lhe dava guarida, com marcas identitárias referenciadas na sua história, na sua continuidade no tempo e nas

CARTOGRAFIAS DO ENVELHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 9 formações discursivas sobre a terceira idade, especialmente aquelas do campo psi no qual estava inscrito.

Certamente acolhemos de nossos antecessores, acerca dessa ofi - cina, heranças testadas e outras sem qualquer testamento. Daquelas testadas, ou seja, devidamente nomeadas e zelosamente transmitidas pelo docente responsável pelo projeto das ofi cinas e seu mentor, recebemos a indicação do referencial teórico e de princípios e objetivos norteadores deste livro.

No referencial teórico, havia uma ênfase especial na concepção de

Pichón-Rivière de grupo operativo, sobretudo no que dizia respeito à importância da constituição dos vínculos afetivos, da articulação entre o implícito e as exteriorizações grupais, dos papéis emergentes na interação e da tarefa como ponto de convergência e de articulação das ações individuais.

Outra vertente do referencial teórico destacava a importância da linguagem na constituição do sujeito e do grupo, linguagem entendida não como mera representação ou conjunto de signos arranjados sob normas gramaticais e utilizados para comunicação, mas como ferramenta de produção de subjetividade, de produção de relações e de realidade social, mediante a atividade simbólica e a intervenção do discurso na materialidade do mundo. Roland Barthes, Eni Orlandi, Isidoro Blikstein, dentre outros, eram autores sempre citados e lembrados no campo da semiótica, da análise do discurso e da linguística.

Também se enfatizava o papel da sensopercepção no processo de subjetivação, porém, sensações e percepções compreendidas no campo da fenomenologia, tomadas como funções psicológicas embrenhadas de intencionalidade, articuladoras das relações do sujeito com seu mundo, compreendidas como produtoras de sentido e inteligibilidade, e não estabelecidas mecanicamente ou mediante atuações cegas. Merleau-Ponty e Ana Verônica Mautner foram autores bastante mencionados nesse sentido.

Em menor grau, porém também citado, comparecia o psicodrama e, por meio dele, as preocupações com os papéis constituídos ou potencializados nos grupos, os relacionamentos e ações defl agradas

10 MARIELE RODRIGUES CORREA na atividade grupal e as condições geradas para o acolhimento dos participantes e para a promoção da empatia e da espontaneidade.

As ofi cinas possuíam uma estrutura bem defi nida. Subdividiam-se em três momentos assim delimitados: o do aquecimento, o da tarefa e o da refl exão. O aquecimento, como tal, continha atividades preparatórias e preliminares, com o intuito de criar um clima favorável para a realização da ofi cina programada para o dia. Eram utilizados recursos como brainstorming ou relaxamento, por exemplo, e tantos outros que se prestavam à entronização do trabalho principal ou do tema norteador do encontro.

O momento da tarefa abrangia a realização da atividade central do dia, programada em torno de uma questão sugerida pelo próprio grupo ou trazida pela equipe. As ofi cinas eram temáticas, ou seja, cada encontro organizava-se em torno de um tema orientador da tarefa. Evidentemente, sempre que ocorressem emergentes grupais destoantes do tema, esses eram objetos de consideração até que fossem superados e permitissem o retorno à tarefa programada, se fosse o caso.

Por último, o momento da refl exão tomava como objeto a própria ofi cina, a experiência ocorrida, em todos os seus aspectos, o conteúdo da tarefa, os acontecimentos defl agrados em torno dela, os relacionamentos entre os participantes, deles com a equipe e tantos outros que pudessem emergir. Tratava-se da ocasião da passagem da experiência para o plano intelectual, quando o pensamento e a linguagem predominavam e procurava-se, na interlocução, construir coletivamente um conhecimento daquilo que havia ocorrido no encontro. Era o momento privilegiado para transmitir ao coletivo o que havia sido vivido no plano individual, para simbolizar, dar sentido e inteligibilidade para aquilo que fora experimentado pelas sensações, de realizar um debate que envolvesse as dimensões de passado, de presente e de futuro e as contingências do envelhecimento.

A composição do grupo era basicamente de 15 a 25 pessoas, com idades entre 45 e 82 anos, predominantemente mulheres. Os homens eram bem menos numerosos, de dois a três. O nível de escolaridade também era diversifi cado, desde a primeira série do Ensino Funda-

CARTOGRAFIAS DO ENVELHECIMENTO NA CONTEMPORANEIDADE 1 mental até a formação universitária. Alguns eram casados, outros, solteiros, separados ou viúvos. Além dessas características básicas, havia outras diferenças entre os participantes que não impediam a convivência entre si nem criavam obstáculos para o funcionamento do grupo.

Fomos herdeiros do nome Ofi cina de Psicologia da Terceira Idade e, embora essa designação, como todo nome próprio, não contivesse indicações precisas de seu sentido, alguns foram bem assinalados no nosso testamento. Ofi cina é lugar de produção, de trabalho, de atividade. É lugar de criação, de realizações artesanais, ainda que se opere com algumas tecnologias mais sofi sticadas. É lugar de encontro, reunião, de trabalho coletivo, compartilhado; de trabalho não alienado no qual o sujeito participa decisivamente do processo e da destinação fi nal do seu resultado, do produto.

O testamento sublinhava, ainda, que nessa ofi cina a preocupação principal era com o processo e não com o produto, ou seja, interessava mais a maneira de fazer, os relacionamentos estabelecidos em torno da tarefa, do que o produto fi nal. Aliás, o produto visado era o processo grupal, as realizações do coletivo, a constituição do grupo.

Assim, o grande e principal objetivo de tais ofi cinas era, segundo nos foi legado, a construção de um grupo, defi nido nos seus moldes mais tradicionais. Compreendemos essa noção como a conjunção de pessoas em um tempo e lugar determinados, mediante o compartilhamento de objetivos racionais, vinculações afetivo-emocionais e fantasias inconscientes capazes de impulsionar e articular ações e papéis individuais na direção de realizações e gratifi cações comuns.

Em outras palavras, tratava-se de criar um espaço dentro da universidade de existência para um grupo de velhice e de terceira idade, um espaço de encontro entre eles e deles com a comunidade universitária. Um espaço diferente daqueles habituais, no qual pudessem, diante do grande espelho da universidade e, em particular, sob o espelhamento da psicologia, projetar e recolher imagens de si mesmos até então impossíveis de serem forjadas.

Diante da empreitada de abrir caminhos possíveis para o trabalho com a velhice, cada semana era um grande exercício de refl exão e

12 MARIELE RODRIGUES CORREA criação na tentativa de elaborar ofi cinas que pudessem oportunizar experiências grupais capazes de expandir o universo do idoso, a partir do questionamento dos seus papéis e de seus lugares possíveis na atualidade.

A Ofi cina de Psicologia constituiu um espaço de referência, de agrupamento e de relações sociais entre os idosos e a Universidade. Além disso, as atividades ofereceram-nos um lugar de análise das possibilidades de envelhecimento na atualidade, isto é, tomamos a ofi cina como um analisador (Lourau, 1975) da condição da velhice e da terceira idade e do homem com a fi nitude, refl exões estas emergentes em nosso livro.

Incitando grupos e socialidades nas ofi cinas

Soa extemporâneo falar em grupo em um tempo no qual se visualiza o neotribalismo como paradigma de socialidade (Maffessoli, 1998). Contudo, se insistimos em promover a associatividade grupal e não tribal em nossas ofi cinas com a terceira idade, não foi por desconhecimento, por aquiescência cega às nossas heranças ou por algum lapso, mas sim por uma clara determinação.

Nosso objetivo de situar o envelhecimento na contemporaneidade a partir das ofi cinas era uma preocupação constante nas práticas que exercíamos com os idosos. Vários autores (Bauman, 1998; Harvey, 1998) têm destacado que uma das características do mundo atual é a tendência ao isolamento, ao individualismo, à solidão e à privatização da vida humana. Portanto, falar em grupo ou coletividade pode parecer um arcaísmo frente a uma sociedade produtora de contatos interpessoais mínimos e até efêmeros.

É na velhice que recai, de forma mais intensa, o isolacionismo da sociedade contemporânea. A condição de solidão a que muitos idosos estão submetidos é avassaladora. O afastamento do mundo do trabalho, única condição de expressão e valor humanos, da vida social, do lazer e isolados no próprio espaço doméstico, suas possibilidades de contato e apropriação do mundo encontram-se bastante reduzidas.

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Dessa forma, o trabalho centrado na formação de grupos com a velhice e a terceira idade permite uma experiência de enfrentamento dessa tendência de individualização e sujeição na atualidade que também afeta a velhice. Além disso, é possível romper com a experiência de segregação a que essa população está submetida.

possa parecer

É certo que o ímpeto grupalista pode resultar em guetifi cação, abafamentos das singularidades e padronização de condutas. É igualmente seguro que a retroação a modelos anteriores nem sempre é a melhor estratégia de enfrentamento de modelos de associatividade emergentes, considerados dissipadores da vida coletiva. Entretanto, para o caso específi co da terceira idade, o grupo pode ser uma arma, ainda que ultrapassada, de fácil manuseio. Além disso, no contexto do projeto da Universidade Aberta à Terceira Idade, o grupo pode ser benefi ciado pelo respaldo da instituição, por mais paradoxal que

Em nossa experiência, pudemos observar que a terceira idade é bem recebida pela Universidade na qual realizamos nossas atividades, a Unesp, campus de Assis. Verifi camos que o contato dos estudantes com os idosos ocorria sempre de forma amistosa e nem sempre a partir de alguma atividade diretamente relacionada às ofi - cinas. Logo nos corredores, quando o grupo caminhava em direção à sua sala, havia a aproximação de universitários que cumprimentavam e entabulavam conversas com os idosos. Eram diálogos prosaicos, como aqueles relatados por algumas senhoras que diziam sentir-se como avós daqueles alunos, pois eles sempre lamentavam com elas a saudade que sentiam da casa materna. Isso demonstrava o quanto eram assimiladas nesse espaço da socialidade, construído no interior da instituição, socialidade, que signifi ca relacionamentos não submetidos ao controle e à esfera do funcionamento formal da instituição, mas sim emergentes no plano da informalidade, a partir de encontros fortuitos e das iniciativas dos próprios atores.

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