Artigo revista literatura e cinema

Artigo revista literatura e cinema

(Parte 1 de 2)

Recebido em 24/10/2009

A presença do cinema como espaço de exclusão da mulher nos contos de Josefina Plá

MENDONÇA, Suely Aparecida de Souza (PG- UNESP- Assis/Bolsista CNPq)*

RESUMO: Para Angel Rama (2008) “a propriedade fundamental da literatura [...] exige o reconhecimento dos discursos paralelos e sua independência, mesmo que seja possível detectar entre eles uma tensa rede de interações mútuas”. Neste sentido, considerando a literatura e o cinema como espaços de atividades e discursos sócio-culturais semelhantes, o presente texto tem por objetivo apresentar uma leitura da representação da sala de cinema como lugar de exclusão da mulher nos contos “Maína”, “Adios Dona Susana” e “La jornada de Pachi Achi”, da hispano-paraguaia Josefina Plá. A análise dos contos selecionados terá como respaldo teórico algumas abordagens da Literatura Comparada e dos Estudos Literários e Culturais. Serão levantados alguns estudos críticos sobre possíveis lugares públicos e privados, permitidos ou não para a mulher no início do século passado, como a exposição de Michelle Perrot sobre o acesso ou permanência de ambos os gêneros em espaços considerados sociais. Para a crítica francesa (2005), “aos homens, o público [...] às mulheres, o privado [e estas] ancoradas em seus corpos de mulher chegando a ser por eles presas cativas”. Destacaremos, assim, os possíveis agentes de exclusão da presença feminina na sala de cinema representados nos contos de Plá, avaliando os processos de subordinação da mulher das classes populares paraguaias impostos pela sociedade patriarcal, machista e preconceituosa revelada nas narrativas selecionadas. PALAVRAS-CHAVE: literatura e cinema; a mulher na literatura; literatura de autoria feminina; espaços sócio-culturais; Josefina Plá.

RESUMEN: De acuerdo con Ángel Rama (2008), la propiedad fundamental de la literatura exige el reconocimiento de los discursos paralelos y su independencia, incluso si es posible detectar una tensión entre ellos y la red de interacción mutua. En este sentido, teniendo en cuenta que la literatura y el cine son espacios para las actividades y los discursos socioculturales, el presente texto tiene como objetivo presentar una lectura de la representación del cine como un lugar de exclusión de las mujeres en los cuentos “Maína", "Adiós doña Susana" y "La jornada de Pachi Achi", de la escritora hispano-paraguaya Josefina Plá. El análisis de las historias seleccionadas se respalda en algunos enfoques teóricos de la Literatura Comparada y de los Estudios Culturales. Dichos estudios críticos tratan de lugares públicos y privados, algunos de los cuales vedados a las mujeres del siglo pasado, de acuerdo con las reflexiones de Michelle Perrot acerca del acceso y la permanencia de ambos sexos en dichos espacios sociales. Para la referida estudiosa (2005), a los hombres se destinó el espacio público y a las mujeres el ámbito privado, que acabó por transformarse en una especie de cárcel para ellas. Se destacan pues los posibles agentes de la exclusión de la presencia femenina representados por la sala de cine en dichos relatos. Además se evalúan los procesos

* Doutoranda do Curso de Letras, com ênfase em Literatura e Vida Social, pela UNESP-Assis. surielmitzi@hotmail.com

Revista de Literatura,

História e Memória ISSN 1983-1498 (versão eletrônica)

Literatura no Cinema de subordinación de las mujeres paraguayas de las clases bajas impuestos por la sociedad patriarcal y sexista en dichas narrativas. PALABRAS-CLAVE: literatura y cine; la mujer en la literatura; literatura de autoría femenina; espacios socioculturales; Josefina Plá.

Uma das características do texto literário é a multidisciplinaridade, a construção intertextual que nos permite associá-lo às diferentes formas de expressão artística como a pintura, a fotografia, a música, o cinema, entre outras. Embora este processo de intercâmbio artístico apresente algumas discrepâncias, “a propriedade fundamental da literatura [...] exige o reconhecimento dos discursos paralelos e sua independência, mesmo que seja possível detectar entre eles uma tensa rede de interações mútuas”. (RAMA, 2008, p. 122).

O cinema, por sua vez, é uma das produções culturais mais revisitadas em estudos comparativos com a literatura. Nesta comunicação, porém, ele será abordado sob o ponto de vista de espaço de representação social, demonstrando sua importância como espaço público e híbrido. Estudar o cinema sob este aspecto consiste também em mostrar sua eficácia “em relação aos processos de urbanização, pois os filmes ajudaram os imigrantes a aprender viver e expressar-se na cidade, a atualizar suas moralidades e seus mitos”. (CANCLINI, p. 262). Neste sentido, algumas pesquisas apontam que “na América Latina, até 1950, o povo não percebeu o cinema especificamente como fenômeno artístico e cultural mas sobretudo como um lugar onde era possível experimentar novos hábitos e códigos de costumes”.(FERNANDES e SIQUEIRA, 2006, p. 1).

Na esfera da criação literária, buscamos o universo feminino paraguaio formado por obras que ainda permanecem relativamente à margem da crítica. Percebemos que a crítica literária paraguaia parece caminhar a passos lentos e no obsoletismo, pois, em entrevista com o crítico assunceno Francisco Perez-Maricevich (2009), apreendemos que ainda não há uma crítica sistemática no Paraguai, uma vez que os estudos literários locais encontram-se submetidos a teorias já superadas.

Assim, considerando a literatura e o cinema como espaços de atividades e discursos sócio-culturais possíveis de serem colacionados e a literatura feminina paraguaia como um espaço a se descobrir, o presente texto tem por objetivo apresentar uma leitura da representação da sala de cinema como lugar de exclusão da mulher em alguns contos de Josefina Plá (1909-1999. Nascida na Espanha, mas tendo vivido a maior parte de sua vida no paraguaia a escritora colaborou para o fortalecimento cultural paraguaio, realizando importantes principalmente nas artes plásticas e na literatura local, criando obras-primas em cerâmica e escrevendo ensaios, poemas, peças de teatro, um romance e vários contos.

Dos contos de Plá dizemos, a priori, que eles constituem espaços de interatividade entre distintas vozes sociais que ecoam entre palavras e imagens e também um universo ficcional onde os sujeitos narrados passam por diversos processos identitários. Desta forma, selecionamos a mulher paraguaia das classes baixas como elemento importante na formação do processo sócio-cultural e literário local, marcando presença em um dos espaços culturais mais freqüentados pelas massas populares na primeira metade do século passado: as salas de cinema.

Em relação às categorias público e privado, estas serão abordadas nos contos como dicotomias relativas, principalmente porque nos defrontamos com representações de uma sociedade latinoamericana contemporânea onde persistem algumas vertentes da ideologia patriarcal, machista e preconceituosa que a formou. Sobre este tipo de sociedade, Perrot (2005, p. 459) comenta que nas comunidades ideologicamente patriarcais cabem “aos homens, o público [...] às mulheres, o privado [e estas] ancoradas em seus corpos de mulher chegando a ser por eles presas cativas”. Por este viés, buscamos nesta análise reconhecer a importância da sala de cinema como espaço público destinado a todas as classes sociais, enfatizando o porquê da presença ou da ausência das mulheres neste lugar de interação social.

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O universo feminino abordado como elemento de formação das identidades nacionais permaneceu algum tempo à margem da sociedade e da literatura, principalmente no contexto brasileiro e hispano-americano, pois alguns estudos historiográficos literários apontam a “exclusão da mulher, seja como personagem-sujeito, seja como autora-autônoma, o que se deve particularmente à ideologia patriarcal que acompanhou os conquistadores da América e aqui se instalou com tentáculos de ferro.” (SCHMIDT & NAVARRO, 2007, p.

Com o boom literário feminino na década de 80, a redoma que envolve a literatura de autoria feminina na America Latina se rompe para receber simultaneamente novas vozes e novos olhares, como os de Josefina Plá (1909-1999) e outras contistas como Nélida Piñon e

Clarice Lispector, entre muitas outras. Em relação aos contos latino-americanos desta fase literária, Bittencourt (2003, p. 26) observa que

[...] as mulheres escritoras, cuja presença era insignificante nas primeiras décadas do século, tornam-se a voz dominante [pois] nos relatos das experiências femininas se incluem tanto as transgressoras, as que enfrentam preconceitos [...] como aquelas que ainda mostram a mulher subjugada e dependente das imposições do sistema patriarcal, que exige dela determinados comportamentos e papéis preestabelecidos que lhe cerceiam os anseios, os sonhos de liberdade e os impulsos sexuais.

Ao analisar as obras de autoria feminina, a crítica contemporânea abarca as várias questões sócio-culturais que expõem a situação da mulher enquanto autora e personagem, reforçando as inconformidades e as denúncias encravadas nas entrelinhas desse discurso em relação aos processos de submissão e discriminação das sociedades falologocêntricas e preconceituosas. Elódia Xavier (1990, p. 240), uma das críticas brasileiras especialistas no tema assinala que

[...] a crítica hispanoamericana coloca a questão em termos políticos, incluindo a produção literária feminina na luta feminina contra a hegemonia masculina; o discurso feminino faria parte de um projeto subversivo mais amplo, com o objetivo de anular a uniformidade do discurso do poder e de modificar as relações sociais.

Neste sentido, a importância das narrativas de Josefina Plá reside no fato de que seus contos abrangem, na maioria, a figura da mulher das classes baixas como vítima de uma sociedade marcada por questões políticas, históricas e sociais e por uma formação identitária convencionada por processos híbridos.

Da vasta obra da escritora hispano-paraguaia, selecionamos os contos “Maína” (1950), “La jornada de Pachi Achi” (1957) e “Adios Dona Susana” (1954-1968), publicados, respectivamente, nas obras La mano en la tierra (1963), El espejo y el canasto (1981) e La pierna de Severina (1983), que acabaram compiladas na obra Cuentos completos (2000), organizada por Miguel Ángel Fernández.

O primeiro conto, “Maína” (1948-1950), traz como protagonista Maristela que, aos dozes anos, fica grávida de um primo. A família não aceita a situação, expõe a adolescente a implacáveis maus tratos e acaba fazendo desaparecer o recém-nascido. Cansada de sofrer, a protagonista foge e vai morar na casa das tias em Assunção, capital paraguaia, mas por pouco tempo. Conhece um comissário de policia e vai viver com ele sem saber que ele estava noivo.

Separando-se do policial, a protagonista inicia uma vida de promiscuidade que resulta na contração de um tumor no ovário que a leva a morte, aos 32 anos de idade.

Durante o tempo em que se relaciona com o policial, na década de 1950, Maristela vive confortável e divertidamente, pois freqüentava vários lugares como estádios de futebol, clubes e cinema. Neste sentido, Perrot (2006, p. 354) comenta que no inicio do século X, “nos meios populares, no sábado [...] os homens vão ao estádio para ver jogos de futebol, enquanto as mulheres arrumam a casa [mas] o cinema foi, comparativamente, muito mais misto e, até mesmo, mais feminino”. Assim, o cinema é descrito como um espaço que muitas mulheres freqüentavam por se configurar como um lugar de lazer acessível a todos, principalmente àquelas pessoas de baixa renda como a nossa personagem que, embora seja sustentada pelo amante, é desprovida de recursos materiais e sobrevive de “favores”, pois fora excluída da abastada família a que pertencia.

Quando frequenta vai ao cinema, Maristela sempre está acompanhada por “otras señoras en parecida situación” (PLÁ, 2000, p. 81). Ou seja, ela continuamente vai ao cinema com outras prostitutas, o que nos leva a inferir que as mulheres consideradas recatadas na narrativa só frequentam as salas de cinema acompanhadas pelos maridos, diferente de Maristela que não se apresenta em público com o comissário, embora ela viva maritalmente com ele, ainda que sem saber que ele está comprometido com uma jovem da alta sociedade.

Assim, o que ocorre indiretamente com Maristela é a exclusão gerada principalmente pela condição de amante, comportamento considerado de desvio uma vez que se opõe à imagem de esposa e de mãe imposta pela ideologia patriarcal e dominante da época. No entanto, percebemos um tom de liberdade, pois “vale notar que, na literatura feminina, a prostituta traduz um ideal de libertação social e sexual da mulher, escapando assim às duas imagens dicotômicas que, às vezes, podem alternar em uma mesma personagem.” (RAGO, 1992, p. 72).

Podemos dizer ainda que o cinema e a literatura representam espaços de formação ou deformação de identidades e personalidades, pois muitas prostitutas se inspiraram, ou ainda se inspiram, em femme fatales como as personagens Cleópatra, Salomé, Capitu, as atrizes Teda Bara ou Julia Roberts, entre outras. Neste aspecto observa-se que a identificação “suscitada pela figura mítica do “astro” ou da “estrela” [...] produzia a transposição da fascinação onírica, na sala de cinema, para a idealização de valores e comportamentos na vida cotidiana”. (FERNANDES e SIQUEIRA, 2006, p. 13)

No que diz respeito ao conto “Adios Doña Susana” (1954-1968), a personagem principal é uma viúva de setenta anos que mora em Assunção com Alípio, seu único filho. A idosa vive constantes conflitos com o rapaz e não consegue controlar a vida boêmia do filho desde que este era menino. Dona Susana fica só em casa, pois o filho trabalha durante o dia e depois sai com a namorada ou com os amigos, principalmente nos fins de semana. Alípio nunca convida a mãe para festas ou ir ao cinema, mas sempre leva a namorada nestes locais, e isso deixa Dona Susana aborrecida. Por isso, a rejeição e o abandono por parte do filho acentuam os problemas de saúde da protagonista, conduzindo a viúva à morte.

O descaso aos idosos é um tipo de discriminação muito comum nas sociedades ocidentais, embora em alguns países orientais o velho ainda seja valorizado por sua sabedoria, memória e experiências como percebemos no contexto indiano reproduzido de odo idealizado na telenovela “Caminho das Índias”. Neste sentido, podemos assimilar que a personagem do conto de Plá reflete notoriamente a condição da mulher idosa explorada pela ideologia falocêntrica e preconceituosa que domina a sociedade paraguaia da década de 40.

Assim, o processo de exclusão das salas de cinema ao qual a protagonista é submetida constitui uma questão cultural de desvalorização do idoso, uma vez que, na acepção de Lima, “em nossa cultura ocidental, as fronteiras entre natureza e cultura são fortemente policiadas, o que tem estreita relação com a dominação e exploração da mulher/mãe”. (STEVENS, 2006, p. 3).

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