Trabalho Portfolio de grupo(Ana Neri)

Trabalho Portfolio de grupo(Ana Neri)

Sistema de Ensino Presencial Conectado

pedagogia

Ana Neri Bernardes

Francisca Borges

Marisia Antônia Machado

Rafael Alvisi Ferreira

produção textual interdisciplinar em grupo

Nova Lima

2011

Ana Neri Bernardes

Francisca Borges

Marisia Antônia Machado

Rafael Alvisi Ferreira.

produção textual interdisciplinar em grupo

Trabalho apresentado ás disciplinas de: Sociologia da Educação, Teoria Geral do Conhecimento , Processo Educativo no Contexto Histórico, Psicologia da Educação, da Universidade Norte do Paraná - UNOPAR. As respectivas professoras: Profª. Okçana Battini, Profª. Marcia Bastos, Profª. Bernadete Strang, Profª. Daniele Fioravante

Nova Lima

2011

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 3

2 DESENVOLVIMENTO 4

3 CONCLUSÃO 9

1INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é propor uma discussão acerca do homem enquanto sujeito e construtor de uma sociedade, e os meios historicamente utilizados por ele, seus mitos, sua linguagem na construção desta sociedade.

Queremos neste trabalho responder as seguintes perguntas: Como o homem em determinados momentos históricos vai se construindo enquanto sujeito e constrói sua cultura e sociedade? Como podemos fazer uma relação entre mito e cotidiano? Como a aquisição da linguagem pelo sujeito pode ajudar o desenvolvimento dele mesmo e dos grupos dos quais se insere?

Por conseguinte, queremos relacionar as respostas dessas perguntas acima, interligando-as com a nossa impressão acerca do filme de Manoel de Oliveira, denominado “Um filme falado” que conta a viagem de uma professora de História, e sua pequena filha, do Porto de Lisboa a Bombaim na Índia, apresentando a trajetória da constituição do Ocidente. A cada grande cidade ou local de evento relevante, a professora relata a criança os feitos políticos, os principais combates, os atos de resistência, a grandiosidade da arte, os mitos, a linguagem da nossa sociedade.

O filme de Manoel de Oliveira, lançado em 2003, guarda bons momentos de silêncio na observação de arquiteturas ou esculturas, no navio que rompe o mar. Mas, como deixa claro o título da película, o falar predomina, expõe tanto o brilhantismo como as fraturas da civilização ocidental.

2DESENVOLVIMENTO

A história do homem é a história da própria cultura. O processo de hominização dá-se através da cultura, assim como a cultura traduz esse processo, a princípio orgânico e posteriormente social. A cada fase do desenvolvimento humano, a cultura projeta o nível desse desenvolvimento, que só foi capaz de ocorrer devido a essa ação do homem sobre a sua realidade, com os desafios e obstáculos presentes em cada momento histórico. A cada momento desse desenvolvimento, a cada criação humana, o homem foi aperfeiçoando-se e transformando a realidade e a sua própria existência. Essa transformação do modo de existência tornou o homem um ser produtor, a princípio inconsciente e depois consciente, de si mesmo.

A construção da sociedade ocorre devido a necessidade do homem na ação coletiva da realização do seu ser, o que significa a passagem à etapa social da produção da cultura e sua diversificação por efeito da aquisição cada vez mais vultosa de conhecimentos. A sociedade é fruto da natureza do homem, aliada à participação da vontade e inteligência humana.

O homem, ao procurar a ordem no mundo, cria tanto o mito como a filosofia. Muitos povos da antigüidade experimentaram o mito, que é um pensamento por imagens. Os gregos também fizeram a experiência de ordenar o mundo por meio do Mito. Estes perceberam que o Mito era um jeito de ordenar o mundo.

São nas experiências do dia-a-dia, nos sucessos e nos fracassos que se fazem notar o imbatível otimismo do ser humano, em outras palavras, sua vontade de acreditar. Desde tempos remotos os fenômenos da natureza, o respeito pela vida e morte e a não compreensão de determinados eventos naturais e físicos contribuíram para a criação de lendas, mitos e crendices.

O Mito (Mythos) é narrado pelo poeta-rapsodo, que escolhido pelos deuses transmitia o testemunho incontestável sobre a origem de todas as coisas, oriundas da relação sexual entre os deuses, gerando assim, tudo que existe e que existiu. Os mitos também narram o duelo entre as forças divinas que interferiam diretamente na vida dos homens, em suas guerras e no seu dia-a-dia, bem como explicava a origem dos castigos e dos males do mundo. Ou seja, a narrativa mítica é uma genealogia da origem das coisas a partir de lutas e alianças entre as forças que regem o universo.

As narrativas míticas tentavam responder as questões fundamentais, como: a origem de todas as coisas, a condição do homem e suas relações com a natureza, com o outro e com o mundo, enfim, a vida e a morte, questões que a filosofia desenvolveu no decorrer de suahistória. O pensamento mítico é por natureza uma explicação da realidade que não necessita de metodologia e rigor, indiferente a razão, que caracteriza-se pela tentativa de dar respostas a esta mesma realidade, a partir de conceitos racionais.

O homem pode ser identificado e caracterizado como um ser que pensa e cria explicações. Criando explicações, cria pensamentos. Na criação do pensamento, estão presentes tanto o mito como a racionalidade, ou seja, a base mitológica, enquanto pensamento por figuras, e a base racional, enquanto pensamento por conceitos. Esses elementos são constituintes do processo de formação do conhecimento filosófico. Este fato não pode deixar de ser considerado, pois é a partir dele que o homem desenvolve suas idéias, cria sistemas, elabora leis, códigos, práticas. Compreender que o surgimento do pensamento racional, conceitual, entre os gregos, foi decisivo no desenvolvimento da cultura da civilização ocidental é condição para que se entenda a conquista da autonomia da racionalidade (Logos) diante do mito.

Esta passagem do pensamento mítico ao pensamento racional no contexto grego é importante para que se perceba que os mesmos conflitos entre mito e razão, vividos pelos gregos, são problemas presentes, ainda hoje, em nossa sociedade, onde a própria ciência depara-se com o elemento da crença mitológica ao apresentar-se como neutra, escondendo interesses políticos ou econômicos em sua roupagem sistemática, por exemplo.

Enfim, os mitos fazem parte de muitos atos da vida do homem e variam de lugar pra lugar, cultura para cultura. Em sua maioria, servem para intimidar ou alertar. Uma forma de manter as crianças sob controle ou fazer com que o povo aprofunde sua fé, muitas dessas crenças, apesar de antigas, são mantidas até hoje, são passadas de geração para geração.

Toda manifestação simbólica tem seu valor e não deve deliberadamente ser extinta ou anulada. Sabemos que a utilização de meios auxiliares de linguagem amplia, infinitamente, o sistema de atividades das funções psíquicas.

O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky, parte do pressuposto de que a inclusão dos signos no processo de comportamento altera e reconstrói toda a estrutura e a composição do comportamento, assim como os instrumentos técnicos recriam toda a organização do trabalho. A linguagem simbólica desenvolvida pela espécie humana, têm um papel similar ao dos instrumentos técnicos para com a organização do trabalho: tanto os instrumentos de trabalho quanto os signos são construções da mente humana, que estabelecem uma relação de mediação entre o homem e a realidade. Por esta similaridade, Vygotsky denominava os signos de instrumentos simbólicos, com especial atenção à linguagem, que para ele configurava-se um sistema simbólico fundamental em todos os grupos humanos e elaborado no curso da evolução da espécie e história social. e está baseado no aprendizado que sempre envolve interferência, direta ou indireta, de outros indivíduos e a reconstrução pessoal da experiência e dos significados.

Podemos dizer que a linguagem é uma espécie de cabo de vassoura muito especial, capaz de transformar decisivamente os rumos de nossa atividade. Quando aprendemos a linguagem específica do nosso meio sociocultural, transformamos radicalmente os rumos de nosso próprio desenvolvimento. Assim, podemos ver como a visão de Vygotsky dá importância à dimensão social, interpessoal, na construção do sujeito psicológico.

Quando os processos de desenvolvimento, de pensamento e da linguagem se unem, surge então, o pensamento verbal e a linguagem racional, o ser humano passa a ter possibilidade de um modo de funcionamento psicológico mais sofisticado, mediado pelos sistemas simbólicos da linguagem.

Entende-se assim que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, pois é mediada por meios, que constituem nas ‘ferramentas auxiliares’ da atividade humana. A capacidade de criar essas ‘ferramentas’ é exclusiva da espécie humana. O pressuposto da mediação é fundamental na perspectiva sócio-histórica justamente porque é através dos instrumentos e signos que os processos de funcionamento psicológico são fornecidos pela cultura. É por isso que Vygotsky confere à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos.

No significado da palavra é que o pensamento e a fala se unem em pensamento verbal.

Não podemos deixar de mencionar nesse processo a interação entre pensamento e linguagem, na qual vários aspectos são significativos para a espécie: a comunicação entre as pessoas, o contato social, a expressão dos seus pensamentos e vontades, dentre outros.

O amadurecimento do ser humano depende da intervenção do ambiente, mas isso acontecerá apenas em ambientes onde há momentos de significativos desenvolvimentos.

Não existe indivíduo desvinculado de seu meio cultural. Na concepção que Vygotsky tem do ser humano, portanto, a inserção do indivíduo num determinado ambiente cultural é parte essencial de sua própria constituição enquanto pessoa. É impossível pensar o ser humano privado do contato com um grupo cultural, que lhe fornecerá os instrumentos e signos que possibilitarão o desenvolvimento das atividades humanas. O aprendizado, nesta concepção, é o processo fundamental para a construção do ser humano. O desenvolvimento da espécie está, pois, baseado no aprendizado que, para Vygotsky, sempre envolve a interferência, direta ou indireta, de outros indivíduos e a reconstrução pessoal da experiência e dos significados.

Um filme português de Manoel de Oliveira, denominado Um filme falado, ilustra bem a importância histórica da linguagem e dos mitos, tanto no passado, como hoje no presente.

O filme relata a viagem de navio, em um cruzeiro, de Rosa Maria, uma professora universitária de História, e segue com sua filha pequena, Maria Joana, em um cruzeiro ao redor das civilizações, a fim de ensinar seu ofício à filha e aprender com os locais sobre os quais sempre lecionou, mas nunca conheceu. Elas viajam por Marselha, Nápoles, Atenas, Istambul, Egito e Aden, com a viagem planejada para terminar em Bombaim, onde as duas se encontrariam com o marido de Rosa. A cada cidade, uma explicação breve sobre a história local e suas lendas, como na explicação do ator português Luís Miguel Cintra no Egito, sobre Napoleão e as pirâmides. O filme nos coloca bem perto das muralhas destes antigos impérios, e faz cair sobre nós o esmagador peso de milênios de história, que parecem ainda estar gritando: "ainda não acabou!". A história também comporta o presente, está em constante mutação, algo que Oliveira deixa claro com planos alongados para além da ação quando, após vermos os monumentos históricos gregos, nos deparamos com um plano da cidade atual, um mar de prédios e ruas, similar aos de Nápoles, Marselha e Lisboa.

Interessante, que a linguagem aparece como elemento contraditório pois ela é, em primeira instância, a marca da diferenciação. Em segunda instância, (quando o processo civilizacional consegue avançar e as pessoas passam a compreender outras línguas que não a sua própria língua) assinala a possibilidade de real integração entre as pessoas e realidades culturais diferentes. O que o filme ilustra é exatamente o momento de ruptura entre os povos, pela incapacidade de se fazerem entender apenas através da língua.

Ao discutir o papel da Grécia na formação da Europa e da própria civilização ocidental, a personagem que no filme representa a cultura helénica aponta a contradição: apesar dessa dívida imensa do mundo moderno aos gregos, a sua língua hoje em dia só é falada na própria Grécia. Ou seja, a linguagem, que num primeiro momento foi o veículo da transmissão dos ideais gregos de democracia, humanismo e filosofia, a partir de determinado instante perdeu importância, embora os valores por ela transmitidos tivessem perdurado.

Nenhum povo é mais ou menos universalista do que outro. Todos dão contribuições para o processo civilizacional, a partir de diferenças e de experiências culturais específicas. É o assunto da conversa no restaurante, ao jantar, entre um americano, uma francesa, uma italiana e uma grega. Todos falam nas línguas pátrias e todos se entendem.

Entretanto, não é a realidade da União Europeia a questão que o filme aborda mas, de forma bem mais ampla, a questão presente no mundo contemporâneo, a do choque civilizacional entre as culturas hegemônicas no mundo ocidental e no mundo árabe, o radicalismo crescente entre grupos representativos desses universos culturais.Um Filme Falado é, como o próprio nome sugere, sobre o problema da comunicação.

3CONCLUSÃO

O cineasta português realizou uma obra envolvente de ritmo lento, mas veemente em suas implicações históricas que culmina num final desolador, impactante, lembrando que a comunicação que conecta as diferentes construções culturais, políticas, religiosas, parece desrespeitada, corroída, gasta, no qual a história se empalidece, equivocada em sua autoridade e vítima da imoderação daqueles que a exaltam e daqueles que a depreciam. E o futuro, infante como a menina Maria Joana, parece sombrio diante de um conhecimento que acumula beleza e barbárie em eqüidade.

Este é o presente; os restos são ruínas de tempos gloriosos que se foram, juntos com os mitos, agora mais mitos do que nunca. As estátuas de Dom Henrique, o ovo do castelo de Nápoles, os deuses gregos, a mesquita turca, a Esfinge quebrada; o ocidente se desvencilhou de suas crenças para abraçar a tecnologia. Tudo que restaram foram vestígios, e tudo que nos resta é imaginar o que um dia foi a marca dessa cultura, como os turistas fazem nas ruínas de Pompéia.

A comunicação entre os povos, entre ideologias, as barreiras lingüísticas, a história como um instrumento de articulação entre o passado e o presente, o homem com seus mitos e logos, a continuidade pela transmissão de conhecimento. Diversas questões são postas em pauta durante o longa, o que rende diferentes interpretações e discussões sem fim, e a atualidade gritante do tema que certamente transformará este filme daqui a algumas décadas em um retrato antropológico de nossa época, dita a grande força dele em não simplesmente expor suas idéias, mas constantemente dialogar conosco.

REFERÊNCIAS

FACCI, Marilda Gonçalves Dias. Valorização ou esvaziamento do trabalho do professor?: um estudo crítico-comparativo da teoria do professor reflexivo, do construtivismo e da psicologia vigotskiana. Campinas: Autores Associados, 2004.

GOMES, Luisa Costa; FIGUEIREDO, Ilda. Antologia filosófica: a reflexão filosófica, do mito à razão ; dialética da acção e do conhecimento; valores ético-políticos. Lisboa: Livros Horizonte, 1983.

MARTINS, Lígia Márcia. A formação social da personalidade do professor: um enfoque vigotskiano. Campinas: Autores Associados, 2007.

VERNANT, Jean-Pierre. Entre Mito e Política. São Paulo: Editora da USP, 2001.

_________ Mito e Pensamento entre os gregos. São Paulo: Editora da USP, 1973

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1996.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998.

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