LETRAMENCO ACADÊMICO

LETRAMENCO ACADÊMICO

Elienai Soares Souza

Graduanda em Letras pela UFAL.

Resenha dos Filmes : O sorriso de Monalisa, Escritores da Liberdade e A sociedade dos poetas mortos

Os filmes “ Escritores da liberdade”, “O sorriso de Monalisa” e “ Sociedade dos poetas mortos” envolvem a questão da profissão docente e como se dá a relação entre professor e aluno em sala de aula através de metodologias de ensino diferenciadas das tradicionalistas das diferentes épocas em que o enredo acontece. O filme “O sorriso de Monalisa” acontece em meados dos anos 50 e aborda a história de uma professora de artes, Katherine Watson, que é interpretada por Julia Roberts, em uma atuação brilhante. No filme, a professora ensina em um colégio para meninas que serão transformadas em damas da sociedade. Katherine tenta incutir a idéia de um pensamento liberal iniciando uma abordagem diferenciada a partir da concepção das alunas sobre arte, a partir do que elas já dominavam e por isso deslocava sua visão do livro didático para uma prática interativa onde propunha uma análise da arte moderna.

A partir disso, podemos inferir que a professora percebe que o domínio das alunas sobre o conteúdo teórico pode ser aproveitado para um avanço na sua proposta metodológica em que a construção de sentidos sobre arte pode iniciar do conhecimento do aluno, havendo assim maior correlação entre teoria e prática de ensino. Com isso, essa professora cria expectativas ainda não pretendidas por algumas aulas: fazer faculdade e trabalhar e não apenas ficar em casa cuidando dos filhos e do marido. Isso faz com que a direção do colégio se enfureça com Katherine, que está sempre preocupada em passar às suas alunas mais que o conteúdo da sala de aula, passar experiências de vida. Por isso, a educadora é considerada comunista e anarquista.

Por provocar reflexões e questionamentos, a professora passa a ser vista como uma ameaça e passa a ser perseguida pelo sistema educacional. Para aquelas alunas o ensino era voltado à decoração de apostilas, onde o aluno deveria se mantiver voltado ao que diziam os livros e não sair dali. Isso não aconteceu somente nessa época, acontece ainda hoje. Em uma pesquisa feita por Virginia Zavala, ela aborda essa questão de que há ainda incutido na sociedade a visão de que tudo tem que se começar do “começo”. A autora faz um estudo de caso com Paula, uma estudante universitária peruana, que antes de ingressar no mundo acadêmico acreditava nessa concepção de que tudo deveria iniciar de um ponto zero. A autora diz que “Paula acreditava que qualquer coisa que ela escrevesse deveria começar do zero, ao passo que agora sabe que tem que investigar o que outros fizeram antes a fim de “ acrescentar uma pequena pedra na construção que já está ali”.( ZAVALA, 2010, p. 77)

Dessa forma, o aluno vai descobrindo que seus dizeres fazem parte de outros dizeres e que a voz do seu discurso faz parte de discursos já ditos antes. E isso foi o que Katherine quis fazer: provocar as alunas a uma reflexão sobre a forma em que vivem e sobre o sistema social ao qual estão adequadas e inseridas. Assim, ela tenta libertar suas alunas de uma vida submissa às obrigações impostas pela sociedade para que em um futuro possam ser líderes de suas próprias vidas.

Outra problemática em questão nesse filme é a autoavaliação do professor, que repensa e reflete sobre a sua metodologia e sobre relação com ensino-aprendizagem em sala de aula. A professora reflete sobre si própria e faz com que as alunas façam o mesmo. O que Oliveira (2005) enfatiza quando diz que o professor não só “ é agente em sala de aula, mas também os alunos também o são, porque eles estão no processo de construção de suas próprias identidades, seja a acadêmica, seja a profissional”. Com isso, podemos trazer também o posicionamento da professora do filme “ Escritores da Liberdade”, onde o podemos inferir que o próprio título já relaciona a produção de textos à liberdade não só no âmbito estrutural do texto, mas também ideológica-crítica social.

Nesse filme, a professora também vive esse conflito consigo mesma e assim como Katherine tem que escolher entre a sua vida amorosa e seu trabalho, Erin Gruel também tem que o fazer. A professora Gruel é encaminhada a uma escola pública onde fica em uma sala de alunos “especiais”, não por serem considerados inteligentes, mas por serem considerados fora dos padrões da escola: os piores alunos. No filme a professora é idealizada demais e passa a ser uma “heroína” na concepção americana de filmes de super heróis. Às vezes isso leva a realidade a uma visão utópica de educação em que não se pode comparar inteiramente com a realidade das escolas brasileiras. Os autores do filme se basearam em uma história real, porém colocaram aquela pitada de drama exacerbado ao enredo.

A “mocinha sofredora” da história, a professora Gruel, sofre um bombardeio de opiniões contrárias impostas pelo sistema educacional, pelo marido e até pelo próprio pai. Porém, como toda atriz principal de filme dramático, isso apenas a instiga a continuar sua caminhada como docente de uma turma que sofre preconceito de todos: família, sistema e sociedade. A metodologia encontrada pela professora para fazer com que eles alunos possam refletir sobre as suas vidas é o gênero diário. Esse gênero traz consigo uma liberdade de expressão em que o interlocutor pode ser o próprio escritor, ou no caso do filme, a professora. Assim, Erin consegue, por meio do diário, estabelecer a relação direta com os alunos, que antes eram desprezados e desacreditados pela escola.

Oliveira (2005), em “A construção da identidade profissional do professor e sua produção diarista”, realizou uma pesquisa parecida onde propôs como prática de letramento acadêmico a utilização de diários como meio de reflexão sobre as facilidades, dificuldades na aprendizagem e sobre a prática das teorias aprendidas durante a formação no curso de Língua Portuguesa em uma universidade do interior paulista. A autora destaca que “ as anotações no diário passaram a ser realizadas no final das aulas, quando possível, ou retrospectivamente, em casa, sendo sua produção longitudinal ( pelo período de um ano letivo)” (p. 170). No filme a professora faz o mesmo: distribui aos alunos cadernos em branco e propõe uma reflexão sobre cada aula e sobre suas vidas, assim, ela pede para que se os alunos quisessem deixar os cadernos para que ela os leia, eles deixassem, mas não os obriga a fazer isso. Mesmo assim, os alunos fazem o que a professora pediu.

Isso nos mostra um retorno positivo do aluno à metodologia proposta pela professora, que os leva a repensar e refletir criticamente sobre a atitude deles constantemente. Uma cena marcante do filme é aquela em que os alunos fazem a caricatura de um dos colegas e começam a repassar entre eles e zombar do outro, fazendo o racismo. A professora toma uma postura adequada a situação e remete o fato ao episódio histórico em que os nazi-fascistas matavam os judeus em busca de uma raça “pura”, em busca da raça “superior”. Com essa postura, os alunos ficaram envergonhados da atitude que tiveram com o colega de turma e repensaram as atitudes deles como discentes e como seres humanos.

A professora agiu de forma coerente com o seu papel de docente e o aluno reconhece isso. Com base no que é apresentado no filme destaco que dependendo da forma de abordagem metodológica o aluno pode responder com um efeito positivo, de maneira que o seu progresso venha a ser satisfatório não só em relação a obtenção de conteúdo, mas satisfatório também em relação a sua mudança de postura em sala de aula; ou pode ser negativo quando o aluno deprecia o que o professor faz e age de forma que venha a se manifestar de maneira inversa ao que o docente gostaria que o efeito pretendido. Como prova disso, nem todas as alunas do filme “ O sorriso de Monalisa” responderam de forma positiva à metodologia da professora.

Esse efeito positivo também surge em “ A sociedade dos poetas mortos”, onde o professor John Keantig utiliza as aulas de campo, nada convencionais por sinal, para ensinar literatura e poesias aos seus alunos. No filme, os alunos são levados a leitura de poemas através de formas inusitadas como subir em cima do birô do professor, gritar ao ar livre e girar em rodas de cantoria com o comando do “capitão”, como o professor é chamado pelos alunos. Com isso, eles começam a apreciar a poesia , a ler os poemas como se estivessem recitando e cantando-os. O que gera uma polêmica no colégio por parte da direção (que por sinal já se transformou em um clichê nos três filmes) . os alunos são todos do sexo masculino e não podem conviver com alunos do sexo feminino, uma sociedade estritamente machista onde o aluno não pode escolher o que gosta e sim o que os pais determinam que eles escolham.

Como prova disso, podemos citar a cena em que um dos sete personagens principais diz querer ser ator e não o pode, pois seu pai não aceita sua decisão. O personagem vai lutar ao passar do filme até o pai entender o que ele realmente quer e isso acaba provocando a ira dele. Assim como nos outros filmes já citados, o professor Keantig procura voltar o aprendizado dos alunos ao que eles já conhecem e até incita os alunos a rasgarem os livros e jogarem as folhas fora. O que mais me chamou a atenção nesse filme foi como os alunos levaram a sério o que o professor fala sobre o “Carpe Diem” e tomam isso como base para uma nova perspectiva de vida, onde é visada a educação com bases empíricas em que se pode condicionar a realidade à teoria e a aprendizagem teórica à prática.

Os três filmes são empolgantes e brilhantes; e enfatizam a questão do professor como agente e mediador da aprendizagem por meio de formas diferenciadas e que não visam ao ensino baseado no ensino tradicionalista. Não podemos considerar isso como uma fórmula mágica de como ensinar, pois na ficção fílmica os professores são vistos como salvadores da educação, porém tomemos como um exemplo que pode nos fazer refletir sobre nossa própria aprendizagem e fazer com que possamos trazer aos nossos alunos maneiras e caminhos que os instiguem a não só fazer do conteúdo algo que é passado pela escola e ponto final, como também possam refletir criticamente sobre eles e os relacionar com a sociedade em que vivem.

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