Educaçao e Formação Humana

Educaçao e Formação Humana

Boa Noite Pessoal!

Estou lendo algumas bibliografias para a seleção de Doutorado em Serviço Social da PUC, e me deparei com um texto que julgo interessante para compartilhar no nosso ambiente virtual, pois trata-se da temática da Educação e a Formação Humana!

As referencias:

TONET, Ivo. Educação e formação humana. Artigo. IN: Marxismo, educação e luta de classes. JIMENEZ, Susana e outros (orgs). Fortaleza: UECE/IMO/SINTSEF, 2008. Disponível em: http://www.ivotonet.xpg.com.br/

RESUMO - PARTE 1

A idéia de formar integralmente o homem e uma prerrogativa muito antiga, que vem desde a Cultura Grega (Paidéia) perpassando o humanismo renascentista e chegando aos dias atuais, no entanto, com significados diferentes conforme o contexto e o tempo. A formação, durante muito tempo, foi privilegio de poucos cidadãos, era unilateral, ou seja, cultivava-se o espírito privilegiado, aquele que já demonstrava as habilidades ou que nascia em família nobre.

Aquele modelo de educação deixava de lado o corpo e formava apenas o espírito. Deixava de lado questões muito importantes como o trabalho, a transformação da natureza, a manipulação da matéria para produção de riqueza. Essas tarefas eram facultadas a pessoas consideradas em condição mental e/ou intelectual inferior: estudar, desenvolver o espírito era para os mais desenvolvidos e não para os desprestigiados na sociedade.

Aqueles que efetivamente não precisavam trabalhar pelas regalias advindas do berço, era destinada a dedicação as atividades de cunho intelectual. Sendo assim, havia uma clara separação entre trabalho material e atividades intelectuais. O capitalismo, quando surge, altera profundamente a idéia de formação humana. O trabalho, passa a ser visto não como uma atividade criativa e estimuladora, mas como simples meio de produzir mercadoria, e maior delas, o dinheiro. A formação cultural era sim muito valorizada, mas era um apêndice do “ter”, quem era proprietário e tinha condição social privilegiada tinha acesso à educação.

Foi em Marx e outros pensadores da mesma vertente, que elaborou-se uma nova concepção de formação humana. A articulação entre espírito e matéria, objetividade e subjetividade, interioridade e exterioridade, foi a chave dessa nova concepção. O ponto de partida de Marx é que o trabalho não se define pela espiritualidade e sim pela práxis, ou seja, pela síntese entre objetividade e subjetividade, entre interioridade e exterioridade. Ou seja, não há exclusão entre estas categorias, mas sim, uma relação de determinação recíproca.

Uma das mais famosas definições sobre o homem vêm de Aristóteles: o homem é um animal racional. Sendo assim no âmbito da sociabilidade capitalista, a formação humana é subordinada a produção de riquezas, portanto, há a impossibilidade da formação humana integral. Isso ocorre por que tornar-se humano perpassa a apropriação do capital espiritual e material acumulado pela humanidade em cada momento histórico. É isso que torna o individuo membro do gênero humano.

Ora, se o capital exclui a grande maioria dos cidadãos da propriedade, ou seja, do acesso ao capital material acumulado pela humanidade, logo, ele impede que haja uma formação integral. Na sociedade primitiva, antes de existirem classes sociais, propriedade e lucro, a formação era um processo social do qual participava toda a comunidade. Todos podiam e deviam ter acesso ao patrimônio espiritual e material daquela comunidade, porém, como estes eram muito pouco desenvolvidos, logicamente, a formação humana na época era muito limitada.

A sociedade de classes produziu efeitos ambíguos na humanidade: se por um lado, possibilitou o desenvolvimento rápido das forças produtivas e da riqueza espiritural, por outro lado, a divisão da sociedade em classes diferenciadas excluiu a maior parte das pessoas do acesso á riqueza material e espiritual. A massa portanto, ficava muito próxima a animalidade e muito distante da Humanidade Integral. A propriedade privada e a divisão social do trabalho, por sua vez, originou o fenômeno da alienação. A alienação deforma a visão e a formação tanto dos explorados quanto dos exploradores.

Ou seja, a sociedade capitalista, assim como a escravista, asiática, feudal e tantas outras, e uma sociedade de classes.A diferença é que a desigualdade nas sociedades anteriores era vista como algo perfeitamente natural, enquanto que na sociedade burguesa surge uma iminente contradição, pois ela se funda no ideal de igualdade entre todos, difundido na revolução francesa e que perpassa todo o ideário liberal.

Nesse ponto, o autor observa que na sociedade burguesa existe uma dissociação permanente entre o discurso e a realidade. No discurso fala-se que é direito de todos o acesso à formação integral. Na pratica, sabe-se e vivencia-se que não é possível aplicar esse principio, pois a maioria é excluída dos meios que possibilitariam essa formação integral. A formação então, na sociedade capitalista, para dar tonalidade ao discurso da igualdade de direitos, deixa totalmente de lado o acesso ao patrimônio material da humanidade e se volta apenas aos aspectos espirituais. A formação é deformada como simples preparação para o trabalho e jamais voltada para princípios ideológicos. Trata-se, a partir de então, de simples formação de mão de obra para o capital. O caráter de mercadoria da força de trabalho não é questionado, e a formação vira um processo de transformação do homem em mais uma mercadoria dentre tantas.

Na obra “Trabalho Assalariado e Capital”, Marx faz uma síntese do que ocorre com o trabalhador no momento da produção: sua força de trabalho é uma mercadoria vendida ao capital em troca de um salário para que este trabalhador possa viver. Ele trabalha para poder existir, e não considera o trabalho como parte de sua vida e sim, como o sacrifício da sua vida. O aspecto espiritual da formação integral também sofre alterações: somente quem tem dinheiro pode ter acesso á integralidade desses bens. A formação integral do ser humano, tal como o autor a define, é algo impossível dentro da sociedade capitalista, essa formação só seria possível dentro de uma comunidade humana que tenha como principio a cooperação, e pressupõe, antes de tudo, a supressão do capital.

A formação humana integral – acesso a bens materiais e espirituais, não apenas somente um ou outro – implica em emancipação humana; uma sociedade em que todos tenham igualdade de acesso, requer a eliminação da exploração e da dominação. Uma forma de trabalho que está conceituada por Marx como “Trabalho Associado” ou “Associação Livre dos Produtores Livres”. Todos trabalham conforme as suas possibilidades para suprir as suas necessidades. O trabalho voltado para o atendimento das necessidades humanas e não mais para reprodução do capital é a chave para a possibilidade de formação humana integral.

Nesse sentido, a educação vem sendo colocada por profissionais e pensadores da área como um ideal a ser perseguido: a educação que forma o homem integralmente, ou seja, indivíduos criativos, participativos e críticos. De um lado, como a educação deve ser (normativa) e de outro, a realidade objetiva, que empurra a educação para outros caminhos opostos ao discurso geral. As teorias pedagógicas no geral, não crêem que esse ideal possa ser alcançado na sua plenitude, e sim, que pode simplesmente haver melhorias, aproximações. Essa forma idealista de pensar a educação – que parte do céu para a terra – precisa ser substituída por outra que analise a educação tal qual ela é e se proponha a altera-las.

Para Marx, é o trabalho que funda o ser social, e portanto, é uma atividade eminentemente social que exige cooperação. Não nascemos humanos, nos tornamos humanos, e não são leis biológicas que nos dizem o que fazer para atender as nossas necessidades, e sim, a apropriação daquilo que se tornou patrimônio do gênero humano.

Esta é a natureza e a função social da educação: permitir que os indivíduos se apropriem dos conhecimentos, habilidades e valores necessários para que se tornem membros da humanidade. Com a sociedade de classes, a educação foi organizada para atender os interesses da classe dominante. Na sociedade burguesa, a idéia de igualdade torna questionável a desigualdade na educação, que é atribuída a tudo menos ao capital: fala-se em desinteresse, culpabiliza-se o aluno, educadores, estado, família, mas nunca aquele que é a matriz da desigualdade.

A desigualdade é alo inseparável da sociedade burguesa: não há como o capital se reproduzir senão por meio da exploração do trabalho. Há uma igualdade formal, explicitada e garantida nas constituições liberais adotadas pelos EUA, França e depois pela maioria dos países ocidentais (democráticos), e uma desigualdade real, sentida nas estatísticas e na própria visualização da sociedade. A educação é um dos palcos dessa contradição que expressa a dicotomia entre discurso e realidade. O Discurso preconiza que a formação integral deve formar cidadãos livres, participativos, cidadãos, críticos, e que está disponível para todos, enquanto a realidade prevê que é inviável a implantação desses princípios vislumbrados no plano ideal e no discurso.

O Discurso de formação integral sem questionar a desigualdade social, sem tomada de posição contra a lógica do capital, contribui para a reprodução de uma sociedade contrária ao próprio discurso.

A educação, como já é consenso, é um poderoso instrumento na formação dos indivíduos, mas numa sociedade de classes ela sempre servirá aos interesses do capital.

O autor Ivo Tonet fala que a educação nos moldes que se encontra, embora seja uma forma de emancipação e formação humana, está sendo manobrada como um poderoso instrumento de atendimento aos interesses do capital; porém, creio que falta na tonalidade de sua obra, sair um pouco da ótica da educação institucionalizada, da escola, organizada pelo Estado, e atentar para as várias formas de educação informal que hoje já existem e que podem vir a ser aprimoradas, que podem ser qualificadas como contra-hegemonicas. Há pouca produção intelectual a respeito, e sem duvida, trata-se de um campo a ser explorado tanto pelos agentes de pesquisa cientifica quanto pela práxis do Serviço Social.

Formar para a cidadania não é mesma coisa que formar para emancipação humana. Porém, como a emancipação humana plena só é possível em uma sociedade para alem do capital, o papel da educação na melhor das hipóteses, é voltado para o compromisso com a luta pela construção de uma nova sociedade.

As afirmações do texto tem implicações fortes a todos os profissionais e pessoas que se ocupam direta ou indiretamente com as atividades educativas. A construção de uma nova sociedade se dá em condições muito adversas e tem muitos obstáculos. Por exemplo, a queda do socialismo real e a fragilidade conceitual e estrutural das economias alternativas, piorou e muito a tarefa de definir o que é uma sociedade emancipada hoje para então lutar por ela.

É consenso também que o capital não pode ser controlado. Não há como estabelecer um nível tolerável por que sua tendência é cada vez mais avassaladora e destrutiva. Sua erradicação só se dará a partir da substituição da compra e venda da força de trabalho pelo trabalho associado. A teoria marxista pode ter deixado a desejar no que tange as formas de atingir os objetivos por ela proposto. Mas ainda tem uma vantagem em relação a todas ás outras, ou seja, propõe a eliminação do capital, e não seu controle, o que é inviável.

A sociedade que pretenda uma educação para a formação dos indivíduos comprometidos com a construção de uma nova sociedade, precisa resgatar a teoria marxista, naquelas interpretações mais radicais e revolucionarias. Implica em desenvolver atividades que incentivem a participação nas lutas sociais, que estejam articuladas com a transformação da sociedade e não apenas com a cidadania. Segundo Marx, as idéias só transformam a mente das pessoas, para transformar a realidade, é preciso muito mais, é preciso atitude, ousadia, iniciativa e ações práticas e concretas.

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