As causas do câncer e os efeitos das dioxinas

As causas do câncer e os efeitos das dioxinas

Introdução

Existe uma corrente de e-mails, amplamente disseminada, a respeito do perigo que o plástico, ao ser levado ao microondas ou ao congelador, poderia trazer. De acordo com as informações contidas neste e-mail, o perigo estaria no fato de que o plástico, quando utilizado nestas condições, liberaria dioxinas, substâncias que, de acordo com o texto do e-mail, causaria câncer, principalmente câncer de mama.

Desenvolvendo um trabalho denominado “ilha de racionalidade”, a proposta é comprovar, através de uma pesquisa conjunta, a veracidade desta informação. Para tanto, na segunda etapa do desenvolvimento da ilha de racionalidade, foram levantadas questões que, ao serem respondidas, poderiam levar a informações que pudessem ser úteis para a resolução da questão-problema sobre a veracidade das informações contidas no e-mail.

Tais perguntas foram divididas em categorias: “Química”, “Física”, “Biologia” e “Histórico do e-mail”. Aqui, serão discutidas as questões que foram agrupadas nas categorias “Biologia” e “Histórico do e-mail”, ainda que para respondê-las torne-se necessário discutir aspectos referentes a questões que façam parte das outras categorias.

Quais são as causas do câncer?

De acordo com o INCA, o Instituto Nacional do Câncer, o câncer é caracterizado pelo crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos. Estas células tendem a ser agressivas e incontroláveis, formando tumores e podendo se espalhar por outras regiões do corpo.1

As causas que levam ao câncer são variadas, podendo ser internas, quando estão ligadas a fatores genéticos e à capacidade de defesa do organismo, ou externas, ligadas ao meio ambiente e aos hábitos e costumes da sociedade. Cerca de 80% a 90% dos casos de câncer estão ligados a fatores ambientais, como substâncias químicas, a radiação solar, alguns tipos de vírus, e outros fatores que estão em estudo, como alguns componentes de alimentos, além de causas ainda não conhecidas. Os casos de câncer causados por fatores genéticos são mais raros.1

Segundo o INCA, o câncer de mama, citado pelo e-mail como sendo causado pelas dioxinas, é um dos tipos de câncer que parecem ter causas genéticas e hereditárias, podendo também ter causas externas.1 Entre as causas externas possíveis, considerados como fator de risco, estão o uso de hormônios de uso oral com elevado nível de estrogênio (anticoncepcionais), o uso mesmo que moderado de álcool e a exposição à radiações ionizantes.2

Substâncias químicas cancerígenas

A IARC – International Agency for Research on Cancer da World Health Organization, juntamente com o relatório anual do NTP – National Toxicology Program, classificaram as substâncias químicas cancerígenas em três grupos: as substâncias confirmadas como cancerígenas ao ser humano, as substâncias com menor evidência de efeitos cancerígenos em seres humanos mas comprovadamente cancerígenas em animais e as substâncias que apresentam possibilidade de serem cancerígenas.3 Estas substâncias possuem várias fontes, como por exemplo as aflatoxinas, substâncias comprovadamente cancerígenas que são metabólitos secundários de fungos que vivem em plantas e podem ser ingeridas 4, a 4-aminobifenil e a 2-naftilamina, presentes no tabaco 5, e algumas substâncias estão, direta ou indiretamente ligadas aos plásticos, como o clorometil metil éter, usado em sínteses de solventes e polímeros 6, o cloreto de vinila, utilizado na síntese do cloreto de polivinila 6, popularmente conhecido como PVC, e o estireno, que quando plimerizado produz um plástico usado em diversos materiais, como canetas e garfos descartáveis. Esta informação pode subsidiar, então, alguma ligação entre o plástico e o câncer, mas ainda não é suficiente para determinar a veracidade do e-mail.

Quais são e quais as possíveis ligações entre as substâncias presentes nos plásticos e o câncer?

Os plásticos não são todos iguais; existem vários tipos de plástico, que possuem composição e propriedades diferentes. Os mais conhecidos são:

  • Polietileno tereftalato – PET: representado pelo símbolo , é utilizado em garrafas de refrigerante, frascos de produtos de limpeza e farmacêuticos e em fibras sintéticas.7 O polietileno tereftalato é obtido a partir da reação entre o ácido tereftálico e o etilenoglicol 8, como é representado na figura 1:

Figura 1 – Obtenção do polietileno tereftalato a partir da condensação entre o ácido tereftálico e o etilenoglicol.

Os ftalatos são substâncias que vêm sendo pesquisadas por existirem suspeitas de que podem causar alterações no organismo. Em um artigo de Henrique Cortez, do portal EcoDebate, são demonstrados alguns resultados de uma pesquisa realizada por cientistas da Johan Wolfgang Goethe University, em Frankfurt. A pesquisa, intitulada “Endocrine disruptors in bottled mineral water: total estrogenic burden and migration from plastic bottles”, relata a presença de substâncias químicas que imitam ou alteram o hormônio estrogênio, principalmente os ftalatos e o bisfenol-A, classificados como estrogênios ambientais. Hospedando uma espécie de moluscos em garrafas de PET, em embalagens do tipo TetraPak e de vidro, observou-se que, nas garrafas de PET, a taxa de reprodução dos moluscos foi praticamente o dobro do que a observada nas outras embalagens, e os moluscos nascidos desta pesquisa apresentaram elevados níveis de estrogênio. 8

Garrafas utilizadas para o armazenamento de água são geralmente feitas de polietileno tereftalato, e o desenvolvimento do câncer de mama tem ligações com a utilização de estrogênios. Assim, seria possível estabelecer, uma ligação entre o plástico e o câncer de mama, porém, as substâncias responsáveis seriam os ftalatos, e não as dioxinas, como afirma o e-mail.

  • Polietileno de alta densidade, PEAD: representado pelo símbolo , é utilizado na confecção de engradados para bebidas, embalagens de produtos químicos, embalagens de produtos de higiene, sacolas plásticas, etc, e é obtido a partir da polimerização do etileno. Não foram encontrados, nesta pesquisa, informações que indicassem o polietileno de alta densidade como fonte de substâncias possivelmente cancerígenas.

  • Policloreto de vinila, PVC: representado pelo símbolo , utilizado amplamente em encanamentos, no encapamento de cabos elétricos, em frascos de água mineral, e até mesmo em calçados (a marca Grendene, que produz as sandálias Melissa, famosa por seus calçados em plástico, totalmente recicláveis, foi uma das pioneiras na utilização do plástico na confecção de calçados 9). É obtido a partir da polimerização do cloreto de vinila:

Figura 2 – Representação da polimerização do cloreto de polivinila (PVC).

Como já foi citado anteriormente, o cloreto de vinila é uma das substâncias categorizadas como comprovadamente cancerígenas pela IARC.3De acordo com a CETESB, a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do estado de São Paulo, a migração do cloreto de vinila para a água encanada pode ser uma das fontes deste composto que pode ser encontrado, em baixas quantidades, na água potável.10

Como já citado, o PVC contém cloro. Compostos clorados, quando incinerados, podem produzir substâncias perigosamente tóxicas, como os clofenóis e as dioxinas, mais propriamente uma classe de dioxinas denominada debenzodioxinas policloradas (PCDDs), além de outra classe de compostos igualmente tóxicos, os dibenzofuranos policlorados (PCDFs).11 Os filmes plásticos, que servem geralmente para embalar a comida antes de levá-la ao forno microondas, e são citados no e-mail como fonte de dioxinas, têm como composição o PVC. Portanto, se tratando do cloreto de polivinila, é possível estabelecer uma forte relação com o risco de desenvolvimento de câncer, as dioxinas e ação do calor sobre o plástico.

  • Polietileno de baixa densidade, PEBD: representado pelo símbolo , é utilizado em embalagens de alimentos, sacos para lixo, lonas agrícolas etc. 7 É obtido, assim como o polietileno de alta densidade, pela polimerização do etileno, e igualmente não foram encontradas informações a respeito da ligação entre o PEBD com algum tipo de substância cancerígena ou tóxica.

  • Polipropileno, PP: representado pelo símbolo , é o plástico mais utilizado para embalagens de alimentos e mesmo de outros produtos, além de ser o componente de vários utensílios de cozinha, como copos, canecas, tigelas plásticas e potes para armazenar alimentos, que costumam ir tanto à geladeira quanto ao forno microondas. Este plástico é obtido a partir da polimerização do propileno:

Figura 3 – Representação da reação de polimerização do propileno, formando o polipropileno.

Apesar de ser o plástico mais utilizado para o aquecimento de alimentos, já que pode ser levado ao microondas, a IARC classifica este material como não-cancerígeno, e até aponta sua utilização nas mais diversas formas e sua ampla presença no dia-a-dia das pessoas. 12 A relação entre o polipropileno e o câncer de mama é até mesmo positiva, pois o mesmo é utilizado em telas sintéticas cirúrgicas não-absorvíveis aplicadas na reconstrução mamária.13

  • Poliestireno, PS: representado pela símbolo , é utilizado em copos e talheres descartáveis, material escolar como réguas e canetas, capas de CDs etc. É formado a partir da polimerização do estireno:

Figura 4 – Representação da reação de polimerização do estireno, formando o poliestireno.

O poliestireno é o plástico utilizado para a fabricação de copos descartáveis. Uma pesquisa realizada na UFBA – Universidade Federal da Bahia, pelos professores Jailson B. de Andrade e Pedro Afonso de Paula Pereira, juntamente com o aluno de iniciação científica Rodolfo Figueiredo, descobriu que quando aquecidos, estes copos formados pelo polímero poliestireno pode liberar o monômero estireno 14, que é classificado como uma substância cancerígena. Assim, também neste caso pode-se estabelecer uma relação entre o plástico, altas temperaturas e o câncer.

Efeitos das dioxinas no organismo e as possíveis relações entre estas substâncias e o câncer

As dioxinas são substâncias, ou mais propriamente uma classe especial de substâncias químicas cloradas muito perigosas. 15,16 As dioxinas pertencem a um grupo de substâncias classificadas como contaminantes orgânicos persistentes 16, que são substâncias bastante tóxicas e que não se decompõem facilmente.17 O número de átomos de cloro nestes compostos varia entre 1 e 8, sendo que a dioxina mais tóxica conhecida é a 2,3,7,8-tetraclorodibenzeno-p-dioxina, conhecida como TCDD:

Figura 5 – Estrutura da TCDD, a dioxina mais tóxica conhecida.

Os efeitos das dioxinas no organismo se dá através da ligação ao receptor celular aril hidrocarboneto 15, receptor responsável por mediar os efeitos tóxicos, teratogênicos e oncogênicos de substâncias, como os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA).18 Ao se ligarem ao receptor, outra proteína, chamada aril hidrocarboneto nuclear transferase também interage com o receptor, formando um complexo que se liga ao DNA. Este complexo, então, pode ativar a expressão de genes específicos. A toxicidade e o perigo oferecido por estas substâncias dependem do congênere de dioxina que se liga ao receptor. Embora o receptor aril hidrocarboneto esteja ligado aos efeitos das dioxinas, alguns efeitos da TCDD que não são mediados por este receptor, como a indução de apoptose (morte celular programada de células19) em duas linhagens de células T linfoblásticas leucêmicas humanas em cultura, levando à morte destas células, não dependem do receptor.15

De acordo com a ONG Greenpeace, os fetos humanos, de peixes, de aves e de mamíferos são bastante sensíveis às dioxinas, e os efeitos mais comuns, após alta exposição às dioxinas, são: mortalidade pré-natal, crescimento reduzido, disfunção dos órgãos do sistema nervoso central, podendo resultar em prejuízos no desenvolvimento intelectual, e alterações funcionais no sistema reprodutivo masculino. Estudos em seres humanos demonstram que as dioxinas causam alterações celulares no sistema imune, alterações nos níveis de testosterona e, por conseqüência, redução no número de espermatozóides, alterações em outras enzimas e hormônios, e, nas mulheres, poderiam causar endometriose. Além destes efeitos, de acordo com os estudos divulgados pelo Greenpeace, a TCDD, a dioxina mais tóxica e perigosa, já foi classificada como cancerígena pela IARC desde 1997.15

A confiabilidade das fontes citadas no e-mail

Para dar base ao alerta contra o uso de plásticos no congelador e no forno microondas, são citadas as supostas afirmações de Edward Fujimoto, citado como sendo gerente do Programa Wellness, no Castle Hospital, teria dado em um programa de televisão. Utilizando a internet como ferramenta de pesquisa, não foi possível encontrar nenhuma informação confiável, nem a respeito do Castle Hospital (encontram-se istiuições com o nome de “Castle Medical Center”, “Castle Hill Hospital”, mas nenhuma com o nome ditado como referência), e nem a respeito de Edward Fujimoto. Todas as informações a respeito do suposto gerente do programa Wellness, que também não possui fontes confiáveis, remetem às suas afirmações a respeito das dioxinas nos plásticos, sem nenhuma outra referência. Se Edward Fujimoto fosse realmente responsável por tais afirmações, era de se esperar que existissem estudos de sua autoria sobre o assunto, teses, artigos, e pelo menos fosse possível encontrar suas informações acadêmicas e profissionais, referências a outros trabalhos de sua autoria, o que não foi possível, dando a entender que as informações contidas no e-mail, no que remete às fontes utilizadas, não são verdadeiras.

Referências

1 INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER. O que é o câncer? Disponível em http://www1.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=322, acesso em 27/03/11.

2 INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER. Câncer de mama. Disponível em http://www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?ID=336, acesso em 27/03/11.

3 DEPARTAMENTO DE ENGENHARIA QUÍMICA E BIOLÓGICA. INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO. UNIVERSIDADE TÉCNICA DE LISBOA. Lista de substâncias cancerígenas. Disponível em http://deqb.ist.utl.pt/SEGUR/canc.pdf, acesso em 27/03/11.

4 OLIVEIRA, Carlos. A. F.; GERMANO, Pedro M. L. Aflatoxinas: conceitos sobre mecanismos de toxicidade e seu envolvimento na etiologia do câncer hepático celular. Revista Saúde Pública, vol 31, nº 4. São Paulo: agosto/97.

5 ABREU, Artur; VENCESLAU, Sofia. Aminas aromáticas. Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências e Tecnologia. Disponível em http://www.dq.fct.unl.pt/qoa/qpn1/2002/nicotina/aminas.htm, acesso em 27/03/11.

6 TERRA FILHO, Mário; KITAMURA, Satoshi. Câncer pleuropulmonar ocupacional. Jornal Brasileiro de Pneumologia, vol. 32, suppl. 2. São Paulo: maio/06.

7 MILER, Mariana. A reciclagem do plástico. Disponível em http://www.unicamp.br/fea/ortega/temas530/mariana.htm, acesso em 27/03/11.

8 CORTEZ, Henrique. Garrafas de água PET podem conter Xenoestrogênios ou estrogênios ambientais. Portal EcoDebate: Cidadania & Meio Ambiente. Disponível em http://www.ecodebate.com.br/2009/03/16/garrafas-de-agua-pet-podem-conter-xenoestrogenios-ou-estrogenios-ambientais/, acesso em 27/03/11.

9 _____. Grendene é exemplo de pioneirismo no uso de PVC. Disponível em http://www.melissa.com.br/news/lang/port/2010/11/05/grendene-e-exemplo-de-pioneirismo-no-uso-de-pvc/, acesso em 27/03/11.

10 COMPANHIA DE TECNOLOGIA DE SANEAMENTO AMBIENTAL. Cloreto de vinila. Ficha de informação toxicológica. Disponível em http://www.cetesb.sp.gov.br/userfiles/file/laboratorios/fit/cloreto_de_vinila.pdf, acesso em 27/03/11.

11NAKANISHI, Casue. Decomposição térmica de pesticidas por oxidação submersa em banho de sais fundidos. Biblioteca Virtual, Centro de Documentação e Informação da FAPESP. Disponível em http://www.bv.fapesp.br/pt/projetos-pipe/2089/decomposicao-termica-pesticidas-oxidacao-submersa/, acesso em 27/03/11.

12 PAES, João C. D. A segurança e eficiência das fibras alternativas ao amianto. Disponível em http://www.abifibro.com.br/noticia018.html, acesso em 27/03/11.

13 DE MOURA, Rosely M. G.; BEZERRA, Francisco J. F. Emprego dos pontos de adesão nas reconstruções mamárias com TRAM mais tela sintética. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, vol. 23, nº 3, julho/agosto/setembro de 2008.

14 SANTANA, Andreia. Pesquisa ajuda a determinar níveis de estireno em embalagens plásticas. Correio da Bahia, 27/12/04.

15 GREENPEACE. Dioxinas e Furanos: efeitos sobre a saúde humana. Agosto,1999.

16 WORLD HEALTH ORGANIZATION. Dioxins and their effects on human health. Fact Sheets, nº 225, june/99.

17 SANTAMARTA, José. Por um futuro sem contaminantes orgânicos persistentes. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, Porto Alegre, vol. 2, nº 1, jan – mar/01.

18MAINENTI, Pietro; ROSA, Luiz E. B. Carcinogênese Química Experimental em Glândulas Salivares – Revisão da Literatura. Revista Brasileira de Cancerologia, 2008.

19 GRIVICICH, Ivana; REGNER, Andréa; DA ROCHA, Adriana B. Morte celular por apoptose. Revista Brasileira de Cancerologia, 2007.

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