Atendimento ao comportamento suicida: concepções de enfermeiras de unidades de saúde

Atendimento ao comportamento suicida: concepções de enfermeiras de unidades de...

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ATENDIMENTO AO COMPORTAMENTO SUICIDA: CONCEPÇÕES DE ENFERMEIRAS DE UNIDADES DE SAÚDE1

Eglê Kohlrausch*

Maria Alice Dias da Silva Lima**

Kelly Piacheski de Abreu*** Joannie dos Santos Fachinelli Soares****

RESUMO O comportamento suicida representa um sério problema de saúde pública, sendo necessárias ações preventivas. As enfermeiras da atenção primária à saúde possuem vínculo com a comunidade, o que possibilita a identificação de fatores de risco para o suicídio e com isso, torna possível a sua prevenção. Este estudo tem por objetivo analisar as concepções das enfermeiras sobre o atendimento a usuários com esse comportamento nas unidades básicas de saúde. Trata-se de uma pesquisa qualitativa. A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas semi-estruturadas. Para o tratamento dos dados foi utilizada a técnica de análise de conteúdo temático. Os resultados indicam que a prevenção e a manutenção da qualidade de vida dos usuários são as finalidades do atendimento, entretanto são poucas as ações preventivas desenvolvidas. As enfermeiras relataram poucas oportunidades de atendimento aos que apresentam esse problema. O comportamento suicida é constatado, principalmente, por agentes comunitários de saúde. Os resultados indicam a necessidade de constituição de redes sociais no setor saúde, para congregar parceiros e oferecer alternativas de abordagem e atendimento aos usuários com comportamento suicida.

Palavras-chave: Suicídio. Enfermeiras. Atenção Primária à Saúde.

O comportamento suicida, e em especial o suicídio, vem sendo considerado um grave problema de saúde pública. O termo comportamento suicida se refere ao ato suicida consumado e a variáveis relacionadas às tentativas de suicídio, que trazem elementos indicadores de procura por ajuda(1) . Assim, optou-se por utilizar a expressão comportamento suicida englobando a tentativa em si, a ideação suicida sem tentativas, o risco de suicídio e a planificação da tipologia e execução do suicídio.

O suicídio constitui a décima terceira causa de morte no mundo, sendo que os ferimentos auto-infligidos representam a quarta maior causa de morte e a sexta maior responsável por morbidade e incapacitação física na faixa etária

Foi identificado que usuários com comportamento suicida tendem a procurar auxílio nos serviços de atenção primária antes de morrer. Cerca de 75% das pessoas que se suicidaram procuraram um serviço de atenção primária à saúde no ano de sua morte e 45% o fizeram no mês em que cometeram suicídio. Destarte os profissionais da atenção primária desempenham papel fundamental na detecção precoce de fatores de risco para suicídio, prevenindo o comportamento suicida(3) .

Para que ocorra um aprofundamento da implantação da Reforma Psiquiátrica, faz-se necessário que a atenção primária à saúde forneça resposta adequada aos usuários identificados com problemas de saúde mental. É necessária a constituição de um espaço de acolhimento e de integralidade das ações, construindo a efetivação de uma rede de cuidados que promova a saúde(4) .

Nesse sentido, as enfermeiras desempenham importante papel na atenção primária à saúde, pois o vínculo que possuem com a comunidade

_ Estudo inserido no Subprojeto Organização do trabalho na assistência a usuários vítimas de agravos por causas externas, realizado com auxílio financeiro do CNPq sob edital CT-Saúde/MCT/CNPq/MS n.024/2004.

* Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio

Grande do Sul (EENF-UFRGS) Professora Assistente da EENF-UFRGS. E-mail:. egle@enf.ufrg.br

** Enfermeira. Doutora. Professora Associada da EENF-UFRGS. E-mail:malice@enf.ufrgs.br

*** Acadêmica de Enfermagem da EENF-UFRGS. Bolsista BIC/UFRGS. E-mail: kelly.piacheski@ufrgs.br

**** Acadêmica de Enfermagem da EENF-UFRGS. Bolsista PIBIC/CNPq. E-mail: joannie_fachi@yahoo.com.br <joannie_fachi@yahoo.com.br>

Atendimento ao comportamento suicida 469 lhes possibilita a identificação de fatores de risco para o suicídio, e com isso, torna possível a sua prevenção(5) .

Assim, este artigo tem como objetivo analisar as concepções das enfermeiras sobre o atendimento prestado a usuários com comportamento suicida nas unidades básicas de saúde, destacando as ações desenvolvidas com esses usuários.

A abordagem do estudo é a qualitativa, com a qual se busca entender o significado individual ou coletivo de um fenômeno para a vida das pessoas. Esses significados são imprescindíveis para qualificar as relações entre o usuário, sua família, o profissional e a instituição, bem como compreender seus sentimentos, idéias e comportamentos(6) .

A base de dados do Observatório de Causas

Externas da Região Lomba do Pinheiro e Partenon, localizado no município de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, serviu de referência para a seleção do campo do estudo. A região pode ser descrita como um grande espaço geográfico onde existem sete bairros e mais de sessenta vilas, com variados níveis de urbanização e infra-estrutura. A área caracterizase pela incidência de população em condição de pobreza ou indigência(7) .

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada com doze enfermeiras de unidades básicas de saúde, no período de junho de 2006 a julho de 2007.

A entrevista seguiu um roteiro contendo questões que abordavam as concepções das enfermeiras sobre o atendimento prestado a usuários com comportamento suicida nas unidades básicas de saúde, enfatizando as ações desenvolvidas com esses usuários.

O Projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre (Parecer nº 068/2004). Os princípios éticos foram respeitados conforme determina a Resolução n.º 196/96 do Conselho

Nacional de Saúde(8) .

A análise dos dados baseou-se na proposta de interpretação qualitativa, com a utilização da técnica de análise de conteúdo temático(9). Os dados foram classificados por operações de desdobramento do texto em categorias, segundo critério de agrupamento de temas com características comuns.

As categorias temáticas depreendidas no processo de análise foram: concepções de enfermeiras sobre o atendimento a usuários com comportamento suicida; ações realizadas na unidade de saúde para atendimento a usuários com comportamento suicida e dificuldades encontradas na realização do atendimento a tais usuários.

A seguir apresentaremos os resultados e sua discussão por categoria temática.

Concepções de enfermeiras sobre o atendimento a usuários com comportamento suicida

A finalidade do atendimento a usuários com comportamento suicida, segundo os relatos das enfermeiras, é realizar prevenção, diminuir o fluxo de usuários em hospitais e prontosatendimentos, educar e promover a saúde para melhorar o autocuidado dos usuários, atender integralmente as famílias e trabalhar na qualidade de vida quando o problema já está instalado.

[A finalidade do atendimento] É prevenir para que o problema não se instale, né? Na maioria das vezes o problema já está instalado e a gente tem que pelo menos tentar atenuar ou melhorar a qualidade de vida das pessoas [...] (E1)

As enfermeiras reconhecem que a finalidade do trabalho no âmbito da atenção primária é realizar a prevenção, entretanto são poucas as atividades preventivas desenvolvidas com usuários com comportamento suicida.

Esse fato coincide com resultados já descritos na literatura. Um estudo identificou que muitas vezes o pessoal de enfermagem afasta-se do compromisso de identificar e manejar adequadamente usuários portadores de transtornos mentais, restringindo suas ações às orientações sobre condutas medicamentosas para melhor adesão ao tratamento(10) .

As concepções das enfermeiras sobre o atendimento de usuário com comportamento suicida apontaram para a importância de manter

470 Kohlrausch E, Lima MADS, Abreu KP, Soares JSF um acompanhamento adequado por meio do vínculo e da escuta, visto que os usuários têm necessidade de conversar e expor seus problemas e sentimentos:

[...] É porque tá muito difícil, o pessoal entra em crise, são muitos problemas. É impressionante como hoje em dia existem problemas em geral, e aí chega um ponto que a pessoa não agüenta e acaba caindo em crise. Antigamente precisar tomar medicação era para louco, hoje em dia tu sabe que todos precisam. Chega um momento que pode ficar deprimido, pode precisar de ajuda. Então, hoje em dia, é muito grande o número de pacientes que precisam de ajuda. Às vezes não precisa da medicação, só um diálogo, uma conversa, né? Tem essa carência e só o fato de ter alguém que chegue na casa e que converse, que dê atenção, já ajuda muito. (E4)

As enfermeiras consideram que em todas as unidades de saúde deveria haver um serviço de atendimento de urgência para atender casos de saúde mental, e para cada área de abrangência deveria existir uma referência para saúde mental.

Pelas afirmações das enfermeiras, podem-se identificar situações que tornam os usuários mais vulneráveis ao comportamento suicida, como problemas socioeconômicos ou geracionais:

[...] Temos adolescentes com vulnerabilidade, com muita miséria e com muitos problemas familiares, então às vezes esses adolescentes estão deprimidos, se prostituem, usam crack, e às vezes acabam querendo e pensando em suicídio. Por que não? A vida está tão difícil. (E2)

Confirmando esse achado, estudo realizado em escolas de Porto Alegre identificou que mais de um terço dos adolescentes que constituíram a amostra apresentou ideação suicida. Assim, fazse necessária a inclusão de programas e estratégias de prevenção do comportamento suicida na adolescência(1) .

Assim como os adolescentes, os idosos constituem um grupo de risco importante para o comportamento suicida.

Os idosos ficam sozinhos, os agentes colocam que muitas vezes eles chegam na casa para fazer a visita e os vozinho e vozinhas não querem deixar eles saírem, querem dar bolo, querem dar não sei o que, e ficam segurando. Eles têm uma tremenda carência, né? Às vezes tem 10, 15 filhos mas ninguém aparece, tá todo mundo trabalhando, as crianças não aparecem aí ficam isolados, sozinhos. Esses são os que mais entram em depressão, né? Ai tem essa carência e só o fato de ter alguém que chegue na casa que converse, que dê atenção, já ajuda muito.(E4)

Com o avanço da idade surgem problemas que podem contribuir para o comportamento suicida, como perdas, abandono dos familiares, solidão, perda do vigor físico e de status, doenças crônicas e a proximidade da morte(12) ..

As enfermeiras afirmaram também que risco de suicídio é risco de morte, portanto o comportamento suicida deve ser abordado também com a família:

Eu acho que essa família [do usuário com comportamento suicida] tem seqüelas importantes, né? Eu acho que sempre fica alguma coisa ou uma lacuna ou uma interrogação ou um sentimento de culpa, ou um sentimento de incapacidade, ou um sentimento de frustração. Por que alguém se mata, né? Eu acho que isso gera muitos sentimentos, assim, eu acho talvez que gera sentimentos às vezes de revolta, porque alguém que se mata comete um ato violento a si mesmo e também contra os outros, né? (E3)

O usuário esboça planos para cometer o ato suicida e demonstra isto às pessoas que estão próximas a ele; por isso é importante orientar às famílias, já que este gesto pode causar repercussões familiares. Geralmente, os usuários que tentaram o suicídio chegam deprimidos, chorando, mas raramente falam que estão tentando se matar.

As enfermeiras relataram que, nas unidades de saúde, a organização do atendimento aos usuários com comportamento suicida varia de acordo com a complexidade do evento ou com a disponibilidade dos profissionais da equipe de saúde. Dessa forma, a descentralização do trabalho das enfermeiras e dos médicos é importante para a dinamização do atendimento prestado ao usuário. Relataram, também, que todos os integrantes da equipe devem estar cientes dos eventos que ocorrem na comunidade.

conformeTem agenda, também, tem que

Os agentes [...] Eles fazem o acompanhamento quando acontece a situação, a gente já passa e eles acompanham, e isso é rotina. E aí, depois, conforme a necessidade, vê que o paciente não tá aderindo, né? Ai vai a enfermeira, a gente procura fazer uma escala, assim, vai o agente, depois o técnico, depois o enfermeiro e o médico, organizar isso, né? Então como a agenda dos agentes e dos técnicos é mais flexível, eles vão,

Atendimento ao comportamento suicida 471 identificam bem a situação, eles vêm, passam para o enfermeiro, o enfermeiro vai e avalia e comunica o médico, se for o caso. (E11)

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