A lógica da emoção

A lógica da emoção

(Parte 1 de 2)

Manoelita Dias dos Santos da psicanálise à física quântica

“Enquanto Freud explica o diabo dá os toques.”

Raul Seixas.

Utilizei citações de Freud, a quem

Senhores, sei que o que escreverei poderá soar algumas vezes estranho. Os assuntos neste trabalho são difíceis, e é mais desafiador ainda colocá-los de forma clara. Na primeira parte deste trabalho apresentei o Homem como um produtor de realidade. Disse que nos diferenciamos das demais espécies e adquirimos um mundo interno vasto e rico, onde além da memória de fatos reais estão nossas fantasias. Procurei mostrar quanto este mundo humano, denominado civilização, pode estar insano. Como ele atingiu níveis de mal estar evidentes e encontra-se em crise. Falei do aumento dos casos de ansiedade e depressão e de como nosso cotidiano, tido como normal, é gerador de doença. Como as coisas nas quais uma sociedade crê passam a ser reais para ela e nem sempre essa realidade criada é boa para o homem. Comparei nossos progressos como espécie ao preço que pagamos por isto. Questionei o nível de sanidade mental da humanidade e apontei a necessidade de busca de novos caminhos quando tantos falharam em produzir saúde para todos no planeta. admiro sinceramente. Seu artigo “O Mal

Na segunda parte, vamos para algo

Estar na Civilização” serviu-me de base para tentar explicar as raízes do atual estado de desconforto que uma enorme parcela da sociedade experimenta, a nível mundial. Fiz alguns comentários sobre o Brasil e sobre a forma como nos comportamos uns com os outros, nossa dificuldade de auto estima e nossa imaturidade como nação. Citei o desenvolvimento infantil e suas diversas fases tentando fazer uma analogia com o desenvolvimento da espécie e prever melhoras em nosso comportamento, com o estabelecimento de relações mais maduras entre os homens. mais abstrato, algo a que sempre me furtei desde que a medicina entrou em minha vida. Estava certa de ter de seguir por um caminho lógico e rigorosamente científico. Contudo, lidando com algo tão impalpável como as emoções humanas, fica difícil não usar a observação e fazer inferências à partir dela, foi o que fiz. Minha idéia é que, na maior parte do tempo estamos sintonizados neste canal comum que nos liga ao nosso viver concreto e provê os meios de nossa sobrevivência. O sono, as psicoses e os estados alterados de consciência são momentos em que outros canais são sintonizados.

Se o universo é composto de
determinante da potência

Supus, baseada na física e na farmacologia, que a troca de canais se dá através de alterações na densidade do meio interno cerebral e da qualidade e freqüência da energia psíquica. Penso que essa forma de energia com que está investido o sistema psíquico, tem uma qualidade, é fluida e instável. Não tem expressão conhecida na zona de densidade onde são realizadas as pesquisas e não pode ser alcançada pelos nossos aparelhos detectores de fenômenos físicos. A neurociência deseja ardentemente palpar a energia psíquica, desvendá-la, sem que isso tenha sido possível até aqui. diferentes níveis energéticos e a cada um corresponde uma densidade diversa, nossa mente pode ser capaz de variar seu nível de percepção em função da densidade e de características do seu potencial energético total. Contudo, creio que neste sistema existe um fator qualitativo altamente diferenciado, mais importante no resultado dos fenômenos psíquicos que o quantitativo. Esse fator provavelmente determina a freqüência do sistema, sendo o principal A forma energética da qual está investido nosso psiquismo, tem uma qualidade amplamente variável que possivelmente relaciona-se à subjetividade, àquilo que denominamos emoção. O nível de agregação das partículas nesse sistema deve ser bastante baixo, por esta razão talvez ciência não o alcance. Dentro do modelo de Bohr para o átomo de hidrogênio, podemos supor que há várias órbitas possíveis e creio que sejam determinadas pelo fator qualitativo. Essa também pode ser a razão da amplitude de campo psíquico humano e suas possibilidades de conexão. Uma energia suficiente para a inteligência humana não poderia mesmo ter menor potencial, nem distribuição mais restrita. Propus ainda que, as alterações no campo eletromagnético humano podem ser rudimentos da prova concreta destas alterações de densidade e potência contínuas que acompanham o fluxo energético mental.

Assim sendo, fui obrigada a admitir que nossa mente é um sistema de energia que se liga tanto ao exterior, através dos cinco sentidos, quanto ao interior através da emoção e da memória. Os cinco sentidos que conhecemos dizem respeito à captação dos fenômenos físicos relativos à densidade que os constitui biologicamente. É um corpo que convive com estímulos energéticos provenientes de outros corpos, vivos e inanimados.

Além desses, devem existir sentidos capazes de captar impressões internas e, as externas produzidas por fenômenos que pertençam a um nível mais sutil que o concreto. O único sentido especial em que posso pensar é a emoção, e mais adiante apresentarei minhas razões.

Quando dormimos estamos ligados num canal que capta imagens internas predominantemente. Imagens daquilo que denominamos mundo interno ou vida de fantasia. É uma abertura para o canal do inconsciente que se dá a períodos de aproximadamente doze horas, num ritmo adaptado às funções solares. Esta abertura regularmente preparada pela natureza, deve responder às necessidades de descarga de pulsões diárias e, representar um efeito reparador que se deve à volta do estado de equilíbrio da energia psíquica. Uma quantidade maior de energia livre deve ocorrer pela manhã e estar conectada aos conteúdos de vivências diurnas ao voltarmos para o próximo sono, de acordo com a programação fisiológica. O estado de sono permite a reorganização auto determinada do fluxo, com a liberação de catexias investidas durante a vigília. Cada imagem mnêmica e seus registros sensoriais herdarão um pouco dessas catexias, que se tornarão quiescentes, o restante será transformado em energia livre

inconsciente não reprimido

novamente. As catexias passam ao pré- consciente, ou o nível mais superficial do

A emoção foi colocada aqui como

A influência de uma mente sobre outra pode ocorrer e está presente nos fenômenos ditos telepáticos; diríamos que nosso aparelho receptor, além de imagens externas e internas, capta outras, geradas num psiquismo alheio, através da empatia. Isso tudo se dará num nível de fenômenos energéticos que recém começamos a desvendar. Digo que a emoção é a forma básica de energia mental do homem e aquela que maior amplitude apresenta na distribuição de suas partículas subatômicas, tanto que não a detectamos, pois estamos procurando numa proximidade excessiva. Penso, que foi ela quem nos deu este privilegiado avanço de inteligência e que, é também ela quem nos pode conectar uns aos outros através do que denomino interpenetração de campos psíquicos. Outra característica desta qualidade energética é a propriedade de influir nos processos biológicos. um sentido, pois é o sistema receptor dos estímulos que nos chegam desde estas três direções: externo, interno, alheio, conforme disse antes, sendo que o alheio é acessado tanto pela via interna quanto externa

Coloquei a emoção na qualidade energética de um sentido pois tal como os demais, caracteriza um sistema. Sentido que é especialmente desenvolvido no homem, e que o torna uma inteligência criativa pela amplitude da sua via qualitativa. O sistema todo é infinito, só as vias de percepção interna são incontáveis, as da emoção, as somáticas, as de percepção externa e todas elas interligadas em todas as possibilidades, como as combinações numéricas, constróem um sistema que a racionalidade não alcança. É necessária uma compreensão à nível inconsciente, um evento inteligente que não pertence à consciência e ao processo secundário. Uma forma de compreensão que se dá por vias diferentes daquelas usadas no raciocínio lógico.

Apresento a emoção como um sentido pertencente a um sistema inteligente que torna o homem mais forte e ao mesmo tempo mais vulnerável, dependendo da qualidade dos afetos que predomine dentro de cada um; qualidades que determinam percepções de prazer e desprazer. A emoção é simplesmente uma energia e sua qualidade é potencial. As formas que assumirá dependerão basicamente das relações entre as partes de um vínculo, o que conhecemos por relação objetal, e das estimulações somáticas capazes de atingir esse nível sensorial. A equanimidade, conforme denomina o budismo, seria a emoção em seu estado puro, apenas potencial. O conceito de inconsciente inteligente parece uma constatação inevitável, uma vez que conheçamos a natureza da energia psíquica.

Cito algumas experiências ditas pára normais e tento abordá-las à luz da ciência, admitindo que apenas uma pequena parte de nossa mente se refere ao universo concreto e obedece às suas leis. A maior parte da mente, que é inconsciente, pertence ao universo que está fora da densidade relativa e, portanto, livre dos princípios da física Newtoniana. Sugiro o uso dos conhecimentos desta nova física, pós relatividade, e das antigas escolas esotéricas, bem como das tradições religiosas e filosóficas do ocidente e do oriente, no estudo da mente humana, seu controle e a forma como age no corpo criando saúde ou enfermidade, além das possibilidades de expansão.

Finalmente, ficamos inclinados a pensar que as razões da ética situam-se no campo da física e do fenômeno físico emoção. A razão última de agirmos eticamente é o fato de termos emoções, e elas poderem se propagar na forma de energia, atingindo as associações humanas de forma crescente, até a humanidade como um todo. Estou usando a teoria de campos de Michael Faraday e James Clarck Maxwell, e a prova matemática conhecida por teorema de Bell, para inspirar minhas hipóteses. Trata-se de influência de uma força sobre outra, dentro do estudo do eletromagnetismo e do fenômeno denominado coerência supraliminar.

A emoção é a consciência diferenciada do homem, é ela quem ativa o sistema? Um cérebro pode existir até mesmo dissociado de um corpo, em um laboratório, mas uma consciência envolve reconhecer-se como um ser e também perceber a existência de outros. Essa consciência só se desenvolve à partir da emoção. Só quando sente que se relaciona com outros seres humanos e por eles desenvolve afetos, alguém passa a existir como consciência, antes disso existe apenas a vida animal. O cérebro nesse caso, é capaz de manter o corpo funcionando e de ter algumas reações instintivas básicas, mas só à partir do desenvolvimento do amplo e especial sentido que é a emoção, a consciência pode despertar do biológico.

A emoção é a representação mais básica que conhecemos de um processo inteligente não consciente, ou seja, que usa o processo primário, e pertence a um reino onde não existe o eu sou, nem lá, nem quando, nem como, nem se...Uma compreensão sem palavras, prévia ao pensamento lógico, um sentir inteligente. O conceito de consciência aqui empregado é aquele comumente usado pela psicanálise, com três níveis propostos na hipótese topográfica de Freud, que foi, como ele mesmo deixou claro, uma divisão feita com fins didáticos.

Quando nascemos somos um potencial, o que eqüivale a “no começo era o id” e possivelmente se relacione a “no começo era o verbo”, ou a ação, mas não há ainda uma autoconsciência. A educação nos torna humanos, nos distingue dos outros animais. Somos dotados de um potencial energético suficiente para o surgimento da emoção e da inteligência, através da propriedade ampliada da autoconsciência. Apenas em potencial somos humanos ao nascermos. Nossas vidas determinarão o que chegaremos a ser, que emoções nos conduzirão a que.

Nem todos os tópicos aqui apresentados serão desenvolvidos no presente trabalho, alguns serão abordados de forma superficial e muito simples já que se trata de uma introdução ao tema, que deve ser gradualmente ampliado em oportunidades futura.

Em meus devaneios, imagino como

CONVERSA COM FREUD seria bom poder conversar com Freud. Muitas vezes me perguntei que pensaria ele agora, tantos anos depois. Novos questionamentos surgiram para quem trabalhe com a mente humana, tantas coisas estão diferentes neste mundo que conheço, em relação ao que ele conheceu. Imagino se não estaria interessado nessas coisas de que falava e outras, como o renascimento do desejo ocidental da relação com a espiritualidade, as formas de comunicação direta entre pessoas, além do verbal e pára verbal. As influências mentais que um humano pode exercer sobre outro, a forma como cores e luzes e outras formas eletromagnéticas podem influenciar o psiquismo. O ritmo de vida que temos hoje, e a disparidade com nossos ciclos biológicos, sobretudo após o advento do controle da luz pelo homem. A quantidade de estímulos que o sistema nervoso central é capaz de processar de forma saudável, em comparação a que estamos submetidos. Acredito que diria: “vocês tem, realmente, muitos motivos para estarem todos perturbados: seu mundo é insano e tóxico.”

A vida nas metrópoles, o novo
Quando foi lançada a fluoxetina, o

14 comportamento sexual e as posições feminina e masculina, o advento das drogas psicoativas na medicina e sua disseminação na sociedade. Seja nas formas terapêuticas ou adictivas A violência, as angústias do ser hoje. Há muitas coisas sobre as quais Freud não falou, ao menos diretamente, pois eram desconhecidas no tempo em que viveu. Que pensaria ele sobre todas estas questões? Isto é o que tenho me perguntado. Muito do que escreveu serve como início para a compreensão de fenômenos da atualidade mas, é inevitável que surjam novas perguntas e respostas diante de tão grandes alterações dentro e fora da cabeça. Meu desejo de ouvi-lo está presente em qualquer um que tenha interesse por comportamento humano, é impossível não imaginar como seria esclarecedor ouvir sua opinião e que seu saber pertence à humanidade, é parte do quebra cabeças e importa para todos. primeiro dos antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, houve quem a saudasse como a droga da felicidade. Passados alguns anos se confirma o que já sabíamos: isto não existe! O número de usuários da fluoxetina e de outros antidepressivos é enorme. Todos

Que respostas temos para tudo

estão doentes? Muitos não estão. O que parece é que tentamos compensar com drogas os estragos do meio e nossa insatisfação com a vida. Não é possível o que o mundo atual quer das pessoas, elas realmente se desequilibram e tentam acelerar ou acalmar seu psiquismo através de medicamentos. É uma tentativa de adaptar-se ao ritmo frenético da vida, corresponder às novas exigências e conviver com as inseguranças. Um grande avanço ocorreu com o tratamento químico dos desequilíbrios mentais, mas ele não representa a totalidade da resposta que buscamos. Sabemos que a depressão e ansiedade tem hoje uma freqüência crescente e boa parte disso se deve à insatisfação vital e ao estresse. Se entristece e angústia o ser contemporâneo, privado de seus ritmos, seus afetos e crenças internas. Por essas últimas entendendo o que cada um crê de si mesmo e dos seus vínculos que lhe fornece reasseguramento contra o desamparo. Crenças externas seriam aquelas pertinentes à realidade objetiva, comumente confundida com real, esquecendo que, para o homem, suas crenças internas são igualmente parte da realidade. isso? Como vamos enfocar e tratar estes

todos os que em todos os precedentes?
O ideal econômico desta civilização

sinais de desconforto dados pela mente humana nos dias que correm, mais de em O contexto favorece o desenvolvimento destes distúrbios em populações que, sob outras condições de vida, estariam provavelmente sadias. Se pensarmos no quanto nos resulta cara esta nova problemática de saúde, com perdas individuais e sociais, dispêndio de recursos para tratar, não apenas a condição direta de enfermidade mas, suas repercussões sobre o meio, teremos que reavaliar modos de viver, pensar, desejar, estabelecer relações. Nossos tempos são geradores de emoções tóxicas. Remeto essas considerações ao artigo “O Lado Tóxico dos Processos Mentais,” e a “O Mal Estar na Civilização, S. Freud. avançou tanto que suprimiu muitas das reações espontaneamente ditadas por nossa natureza. Várias de nossas necessidades passaram a ser consideradas incompatíveis com os deveres e as conveniências da sociedade. Desconhecemos a razão principal da existência de todo este esforço que se chama civilização: o próprio homem e seu bem estar, e parecemos desconhecer ainda as considerações da biologia para nossa saúde ou enfermidade. Arriscaria dizer que viver está progressivamente mais complicado. Se as facilidades proporcionadas pela tecnologia aumentam, as exigências crescem num ritmo mais acelerado, e as ameaças se tornaram mais diversificadas.

A grande conquista humana deste último século deveria Ter sido a liberdade, o avanço da democracia nas relações entre cidadãos e nas íntimas também. A liberdade de fato é um bem precioso, e o direito primeiro do ser, o que representaria um salto evolutivo impressionante. Contudo, não somos ainda totalmente livres, muitas são as tensões que incidem sobre nós e nosso mal estar diante delas, bem como é insipiente nossa capacidade para auto determinação construtiva. Neste mundo em que me movo e onde vivem meus pacientes, posso dizer que o culto à produção e consumo tem escravizado a sociedade de tal forma, que os avanços conseguidos estão ruindo. As relações interpessoais estão mais instáveis e superficiais, enquanto que as sociais são comandadas pela competição. Portanto, apenas substituímos nossos deuses por outros que não sei se são melhores, e as tiranias persistem, inda que tenham tomado outras formas.

Temos ameaças nucleares,

18 econômicas, biológicas, pairando sobre nós. E é grande o desafio de convivência, com milhões de homens apinhados em aglomerados urbanos cuja qualidade de vida é duvidosa e a segurança precária. Muito mais que uma droga como a fluoxetina é necessário para responder a isso. Fica adiada e descoberta da felicidade instantânea, permanente, e advinda de algo externo, facilmente encontrado, acessível a todos. Sem dúvida, era uma boa fantasia. Resta-nos, prosseguir na jornada de entender e tratar as emoções e seu local de existência: as relações humanas. Não se pôde sustentar a simplificação que tínhamos em mente quando se previu que as alterações da química cerebral acabariam com o sofrimento humano. Algo mais está na fonte desses desacertos e desencontros: ainda dependemos do outro, ainda temos uma natureza de afetos e uma biologia cujas necessidades não se pode descartar.

A evolução do conhecimento faz com vivamos num dia sempre novo, onde há sempre algo acontecendo. Este mundo agitado está sempre mudando, até mesmo numa velocidade maior que somos capazes de acompanhar. Em nossa essência mais profunda, somos os mesmos, nem todas as modificações foram assimiladas pela mente nem o corpo. As impossibilidades constituem aquilo que resulta na patologia da atualidade. É inevitável que o senso de identidade fique perturbado neste redemoinho, no torvelinho das mudanças, da hiper informação, da super exigência, dos mega qualquer coisa e da escassez afetiva e de segurança.. O senso de identidade fundamenta o ser, qualquer geração que houvesse passado por tão bruscas mudanças como as últimas, teria sérios abalos em sua saúde física e mental. Este, talvez seja o tempo de maior conflito interno que a humanidade já viveu e, por isso mesmo, é um momento interessante: crises são grandes oportunidades, nelas pode haver intenso crescimento emocional, apesar do desconforto. Analisando estes tempos e os homens e mulheres que os constróem, concluímos que, ou aproveitamos o momento e amadureceremos muito como sociedade nos próximos anos, ou podemos ficar todos ruins da cabeça.

Outra mudança de enfoque surge
Diz:“A própria história da ciência oferece
prematuraDentre estas conjecturas, sem

ALÉM DO CONCRETO das novas direções assumidas pela análise de fenômenos mentais que já foram indistintamente chamados pára normais, como a telepatia, a comunicação do homem com seu próprio inconsciente e com o alheio. Em um artigo escrito em 1932, chamado “Sonhos e Ocultismo, Freud inicia uma observação destes fatos à luz da psicanálise. Diz-se aberto a estudar quaisquer evidências relacionadas ao então chamado ocultismo, e recomenda a seus discípulos e estudantes presentes, que adotem “pensamentos mais gentis” em relação ao tema. abundantes exemplos que são uma advertência contra a condenação dúvida a mais provável é aquela segundo a qual existe um fundamento real nos fatos do ocultismo, até hoje não reconhecido e ao redor do qual o embuste e a fantasia teceram um véu que é difícil descerrar.” “Em minha opinião, não mostra grande confiança na ciência quem não pensa ser possível assimilar e utilizar tudo aquilo que

Estes fenômenos mentais já não

talvez venha a se revelar verdadeiro nas assertivas dos ocultistas.” devem mais ficar restritos ao domínio da religião e das ciências ocultas, interessam à ciência e em especial à medicina; retirá-los do terreno incerto da crença para dar-lhes um lugar entre os assuntos da observação cientifica é uma das tarefas que se descortina para nós. A fé e as reações psíquicas que provoca, a relação do homem com seu inconsciente mais profundo, onde estão as imagens religiosas, as forças psíquicas mobilizadas no processo e suas influências, começam a alcançar os domínios da ciência. O que talvez explique o desconforto diante da afirmação “Deus está morto”. Precisamos chegar a entender completamente essas relações entre o homem e as figuras arquetípicas que o constituem, segundo Iung. Sua leitura é extremamente difícil, mais que a de Freud pela linguagem utilizada: metafórica como as religiões antigas de onde descendem os arquétipos. Embora não tenha sido tão examinada quando a obra de seu primeiro mestre, a de Iung representa, a meu ver, uma interpretação de sonhos referida ao inconsciente da espécie. A ciência tem pouco a pouco, seu interesse deslocado para estes achados ainda tímidos, mas que falam sempre a favor de certo poder e lógica contidos nestes atos mentais ainda pouco conhecidos e mal dominados por nós. Para que saiamos do obscurantismo ditatorial do exato, sem cairmos na fantasia, é preciso pensar seriamente sobre tudo isto.

A comunicação direta de
consciência, através da censura
Aquelas pessoas que desenvolvam

COMUNICAÇÃO EMPÁTICA inconsciente para inconsciente é conhecida na psicanálise, algo do que paciente e analista trocam de informações, pode usar esta via. Para tanto, o analista usa uma técnica de escuta em atenção flutuante, algo levemente modificado em termos de estado de consciência. Está atento, porém não da mesma forma que estaria à conversa com um amigo ou a algo fora desta situação específica de trabalho. Esta pequena alteração no nível de consciência, parece tornar maior sua capacidade de compreensão e a comunicação tende a ser mais eficiente nesses momentos, pois ocorre diretamente entre os psiquismos, sem que seja necessária entrada dos conteúdos na Nas situações do cotidiano também existe esta forma de comunicação, apenas não estamos conscientes dela Parece algo com a intuição, com sentir ao invés de ouvir, pois a palavra é um meio de comunicação restrito ao processo secundário. este tipo de comunicação e a usem com mais consciência, são consideradas dotadas de algum potencial especial, o que não

território

parece correto; esta forma de contato entre os inconscientes deve ocorrer com muito mais freqüência que se consiga identificar. A existência de um tipo especial de comunicação entre humanos adquire importância quando pensamos que não a conhecemos e nem seus efeitos. Sempre que se desconhece algo, perde-se oportunidades. Talvez pudéssemos prevenir algumas coisas e incentivar outras se tivéssemos um maior domínio deste As profissões que usam esse meio de contato, não desconhecem a toxicidade de sua tarefa. Trabalhar assim tem algo de muito exaustivo, que chega a ser sentido fisicamente. A medicina dita primitiva usa o método de acessar o inconsciente para diagnosticar e tratar seus doentes. Não desconhece o poder da fantasia sobre a saúde, nem desconhece a toxicidade de um psiquismo em desordem, assim os curadores antigos são instruídos e preparados para uma tarefa perigosa, para a qual utilizam-se de rituais. Esses nada mais são que traduções simbólicas, linguagem metafórica tal como ocorre no que denominamos inconsciente. Esta prática considera o grupo e não apenas o paciente, para fins de tratamento, o que revela conhecimento sobre a dispersão da energia psiquica sob forma de fantasia inconsciente, resultando na interpeneração de campos psíquicos e suas potencialidades.

Quando prestamos atenção a esta intuição humana a cerca de si próprio, fica a pergunta: não há uma forma de toxicidade nas relações humanas em geral ? Nós sabemos que a saúde mental depende essencialmente da qualidade dos vínculos, e tal como os médicos primitivos, não desconhecemos a importância de se trabalhar com o grupo familiar e ainda, o quanto o adoecer costuma ser algo que se dá dentro de relações humanas. Entre pessoas de uma mesma família o contato é intimo, de forma que as fantasias estão entrelaçadas, os códigos são semelhantes, a herança inconsciente é compartilhada. Essa ligação é ainda mais visível na relação mãe e filho, especialmente na infância. Para além do que a mãe diga ou de como seja seu comportamento aparente, a criança sabe como a mãe se sente e identifica-se com isso, reproduz em seu comportamento as fantasias maternas, parecendo captá-las e torná-las suas. Nosso inconsciente é o reino da fantasia, dos desejos ou temores traduzidos em pensamentos e imagens que se refletem na consciência, a tal ponto que podemos de alguma forma dizer que somos as nossas fantasias. E quando elas são comunicadas de um psiquismo a outro denominamos o processo transmissão entre inconscientes, quando se pode Ter consciência do processo trata-se de comunicação empática.

Não há caminhos fáceis para o homem quando se trata de conhecer a si mesmo, pois há muitas imagens violentas e desagregadoras, vividas com a qualidade sensitiva do real quando são conectadas, que jazem em nosso universo interior. Por isso mesmo se postula terapêutico um aprendizado, de modificação de clichês, ratificando o que há de saudável em nós e reduzindo a força daquilo que, pertencendo a nós mesmos, pode nos aniquilar. Existem muitos caminhos de auto conhecimento, em geral conhecemos melhor aqueles vindos da sabedoria oriental. Nesses processos sempre há mestres e discípulos e um longo caminho a ser percorrido, tal como no treinamento dos curadores primitivos, que intuíram essa constituição psíquica humana. Na atualidade podemos perceber que as pessoas buscam este tipo de conhecimento e a pressa que tem nos resultados. Particularmente, não acredito em meios fáceis para se ampliar a própria consciência e o nível de saúde mental. Muita seriedade é necessária quando se trata de oferecer meios de acesso ao inconsciente que não sejam aqueles guiados pela própria intuição, o sentido de si próprio no nível subjetivo do termo.

Quem está doente pede ajuda a alguém e a ciência deixou muito espaço em branco quando tratou de tornar-se exata, fria e matemática. O sentimento básico de quem está doente é o desamparo e qualquer um que ofereça alívio para isto será ouvido. Acredito que a medicina esteja diante de tão fortes evidências de suas lacunas na forma de tratar a alma de seus pacientes, que precisará mudar. Quem fala de saúde, fala de qualidade de vida. Infelizmente, não a temos num nível tão abrangente, nem podemos estender a uma parcela maior da população os benefícios conquistados pela inteligência da espécie. Assim, para muitos a simples sobrevivência inda resulta a principal questão; mesmo tomando essa realidade é necessário avaliar também a subjetividade humana. Não é bom para os médicos tratarem seus pacientes como um corpo apenas, pois esta é uma visão parcial e só pode obter um resultado parcial, gerando insatisfação, mesmo que, no estágio em que muitas populações se encontram, a abordagem de suas questões orgânicas já represente um passo muito adequado.

A prática médica é uma fascinante mistura de ciência e arte e nenhum destes aspectos pode ser negligenciado. Há muito de arte em tratar o homem, pois há muito de fantasia, estética e sensibilidade nele. É uma figura gigantesca, cheia de nuances e de possibilidades. Muitos são seus caminhos internos e seus desvios, suas luzes e sombras se refletem sobre seu corpo, seu comportamento, sua capacidade, sua energia. Alguém, para tratar de outro, precisa conhecer um oceano e pretender entendêlo, ouvir sua voz, saber de que precisa, que males o afligem, e para isto a objetividade não basta, é necessário lançar mão de algo mais. Claro está que algumas doenças guardam mais que outras a relação intima com a alma, mas todos os pacientes que vemos tem uma história pessoal, eventos de emoção e fantasias poderosas.

Somos um pouco do que somos, já antes de nascer: a síntese da herança de nossos ancestrais humanos e pré humanos, escolhida pelas múltiplas possibilidades da genética, determina uma combinação única que é o nosso centro, o miolo do ser e a isso vai-se sobrepondo a experiência externa, em especial a interação com outros seres.

Temos uma carga de fantasias que são herdadas e às quais se ajuntam as que são adquiridas nas vivências posteriores, sobretudo nas infantis enquanto ainda somos mais moldáveis, uma certa permeabilidade, no entanto, existe ao longo de toda a vida. Se assim não fosse não existiria o tratamento capaz de retificar essas fantasias quando produzem doença, usando a plasticidade da alma humana e a capacidade de amar. Lembrando aqui novamente Freud, quando diz que “estamos fadados a cair enfermos sempre que, por razões internas ou externas, estamos impedidos de amar”. A fantasia que mais freqüentemente mobiliza a tenacidade, a vibração, a confiança e a vontade de estar vivo é a fantasia amorosa. Seja por alguém ou algo, é ela a o motor da criação e do equilíbrio interno humano e, por conseguinte, do externo. Manter tal estado é a parte delicada da questão. Criar uma expectativa mais promissora e reforçar a capacidade de emergirmos de nossas dificuldades e criar boas situações, precisa ter força para se manter. E o ambiente pode ser cruelmente hostil ao desenvolvimento e sustentação destas capacidades. Um ambiente que auxilie na sustentação destas capacidades, através da mobilização

O quanto as fantasias podem

das fantasias correspondentes, é indicado num tratamento psicológico e muito provavelmente benéfico quando a questão seja agir sobre um mal físico mobilizar a saúde e a enfermidade é algo difícil de mensurar, passa mais por convicção do que por dados estatísticos, ou exames laboratoriais e de imagem. Não há imagens confiáveis da emoção, nem como compará-la em seus diversos momentos com o desenvolvimento de um processo patológico ou sua cura. Estes são dados que faltam a medicina. Há casos dramáticos de limite, quando a medicina desiste dos pacientes e eles não desistiram de viver. É preciso tentar outra coisa, geralmente isso fica a cargo da fé ou de não médicos. Mas nós também sabemos lidar com o espírito e podemos aprender mais se prestarmos atenção, se tivermos a tenacidade e coragem de tentarmos também uma abordagem não física para algo orgânico.

Se há um acesso da mente para o corpo capaz de fazê-lo adoecer, precisa haver uma influência somática no psiquismo. Ou não faria sentido, se isso não existir toda a lógica de influências recíprocas está desafiada. Se pensarmos no quanto as pessoas podem estar conectadas pelos fios invisíveis da mente, especialmente quando há entre elas uma forte vinculação afetiva, somos obrigados a entender que a antiga sabedoria dos curadores está correta, e que é preciso abordar mais que o paciente todo seu ambiente, seus relacionamentos e as fantasias que transitam por aí. O passo mais óbvio é não subestimar a toxicidade dos afetos, nem seu poder reparador. Tal como procuramos o pulso e os batimentos cardíacos, a respiração e a cor da pele como sinais de vitalidade orgânica, o sorriso e as lágrimas são sinais do subjetivo, que como os sinais físicos indicam um nível de vitalidade do sujeito. Uma das piores coisas que se pode encontrar num paciente é uma nível mantido de tensão e apatia. Esses são péssimos sinais. Mesmo assim é preciso avaliar a capacidade de resposta a um estímulo positivo. Se você estimula e ele responde, a subjetividade está viva e capaz de recuperar energia. Algumas vezes é muito difícil encontrar este ponto de estímulo. Em geral precisamos usar medicamentos psicoativos nestes casos, pois não há como esperar uma resposta interna em intensidade e tempo hábeis, ou porque o nível de vitalidade está muito comprometido, ou porque o nível de tensão é excessivo para que se possa

O quanto as fantasias são
Entender o que se passa no corpo

estabelecer um contato com as partes mais saudáveis da personalidade. poderosas e, o quanto somos hábeis em movê-las no sentido desejado com fim de cura, são questões relevantes para nós .Talvez usemos pouco esse recurso terapêutico. Ao falar em poder da fantasia e em sua mobilização como método de tratamento não me refiro a ilusionismos, algo mais profundo deve ocorrer que simples repetições de mensagens positivas. É necessário conhecer as crenças mais arraigadas no paciente e as mais ativas no momento do adoecer e no curso da doença, entendendo que interferências podem ter nestes processos. Trata-se de uma forma de tratamento que utiliza simplesmente ( e tão complexamente) a emoção. Desintoxicar emocionalmente e gradualmente substituir crenças e sensações vigentes por outras mais agradáveis é restabelecer o pulso da subjetividade organizadora do cosmos humano. que possa afetar a saúde como um todo é mais fácil, estamos lidando com o concreto, ao menos até uma boa parte da investigação. É mais fácil ter respostas sobre a química corporal do que avaliar a

A expectativa do médico, o quanto

subjetividade, porquê demanda mais tempo de contato entre o paciente e o médico. Essa é uma das razões porque não se usa muito essa via. Somos uma medicina que tem alguma pressa e às vezes se torna superficial por conta dela. Outra razão, é que avaliar a subjetividade do paciente requer uma elevada capacidade empática, muito mais que o referencial teórico, embora este seja fundamental. É preciso ter olhos de ver a emoção, em que momento se desperta, com que se conecta, ler a fantasia é necessário para poder movê-la. E usamos menos os atributos da racionalidade e mais a capacidade de perceber a linguagem emocional do outro, que se arranja de forma diferente mas, usa o mesmo alfabeto em todos nós. Este processo é mais sentido do que pensado, e exatamente por isso pode ser tão mais exaustivo. Estar frente à frente com o doente e receber dele essas informações profundas por um bom tempo, ler os sinais que emite, nos expõe a uma certa toxicidade da qual precisamos então nos resgatar para ir adiante. realmente lhe interessa a cura, suas próprias fantasias em relação a poder agir sobre determinada condição, são determinantes para o sucesso do tratamento. O quanto o professor deseja ensinar e confia em sua capacidade para fazê-lo influi na aprendizagem, e com o médico não é diferente. Nos dois casos é preciso um fluxo de interesses, um deve ser capaz de mobilizar no outro o desejo de vitória sobre as condições desfavoráveis. Acreditamos que se pode agir sobre uma patologia e buscamos firmemente fazê-lo, então o paciente entende que está sendo ajudado e se identifica com essa força que provém do terapeuta. Por isso, não nos podemos deixar influenciar pela fantasia negativa do paciente a seu próprio respeito, precisamos ter a autoridade de afirmar que a parte que deseja curar-se deve e pode assumir o comando dessa situação. Precisamos acreditar nela para que possa crescer, para que possa despertar. Ainda assim, não temos uma forma de afirmar qual será o resultado da batalha, mas o espírito com o qual a enfrentamos é fundamental.

Uma expectativa lúcida e positiva precisa ser mantida e transmitida ao paciente. Quando nos procura, ele o faz movido pelas suas fantasias de cura e é preciso preserválas como o mais precioso de seus bens, mesmo que esteja frágil, encoberta e empoeirada. Pois, se não a tivesse mais, estaria morto. ASSIM COMO NÓS

MÉDICOS, QUANDO PERDEMOS NOSSAS FANTASIAS DE PODER CURAR ESTAMOS MORTOS PARA ESTA PROFISSÃO. Isto me parece muito importante. Podermos manter nossas fantasias mais saudáveis, que envolvem a capacidade de vencer circunstâncias desfavoráveis e de persistir numa direção de êxito é a forma como podemos trabalhar. Sempre dizendo que fantasia é algo mais profundo que devaneio, não é fugir da realidade, é a nossa realidade interna. Quando digo fantasias de poder curar não me refiro a alguém que se atribua poderes indevidos, refiro-me a uma capacidade de insistir em algo pela vida. Algumas vezes a desesperança contida nas fantasias do paciente nos contamina. Podemos sentir simplesmente como algo nosso, pensar que tem a ver com as nossas vidas, nossas crenças mais profundas podem contaminar-se neste contato com a doença. Adoecer envolve, necessariamente, uma boa dose de fantasias de derrota, destruição, morte. Daí vem a toxicidade da área médica. Não se pode lidar tanto e tão proximamente com o que é doente sem alguma forma de contágio, que precisa manter-se sob controle e ser sempre menor que nossas

Os Kereis conhecem esta
Há muitas influências que são

crenças mais positivas e alicerçadas no instinto de vida. toxicidade, a medicina que usa a magia conhece estes princípios todos e os atribui a espíritos. De certa forma o são. Se pensarmos que o doente é a soma de todos os fragmentos de Ego que herdou, que em seu inconsciente existem milhões de fantasias que correspondem a registros favoráveis e desfavoráveis, não só de sua existência mas daqueles que o precederam, estes serão os bons e os maus espíritos para a medicina primitiva. Desde esse ponto de vista, o que fazemos é afugentar maus espíritos e atrair os bons. Transformar a fantasia, esgotar sua energia, despertar outras mais favoráveis, eis o que tentamos fazer. Esses curadores da Polinésia crêem que a saúde depende de estarmos acompanhados de bons espíritos, no que se pode usar uma analogia com as fantasias mais saudáveis. Se alguém não vive com alegria e abundância ou repouso adequados, os bons espíritos dos ancestrais vão-se embora, então ela adoece. Admitem que há doenças diferentes quanto a causa e, que algumas não obedecem a este mecanismo. percebidas como estranhas a nós porque provém de partes de nós mesmos que nos são desconhecidas. Uma parte pequena é conhecida. Em parte porque somos treinados a nos distanciar de nossos aspectos mais autênticos, em parte porque muito do que somos está oculto para o tipo de percepção que usualmente temos. Os povos primitivos tem um sistema de vida e de percepção que se relaciona mais intimamente com seu inconsciente, individual ou coletivamente. O reino desconhecido de nossa mente ignora a lógica e está sempre presente mas cede espaço, no homem civilizado, ao racional e ao convencional. Uma das maiores forças desse universo interior é sua capacidade criativa. Se esta não encontra um modo de expressão, uma grande quantidade de energia ficará represada e gerará tensão. Assim, todos os desejos que reclamam satisfação e pressionam por realizar-se sem encontrar um meio, comprimem o psiquismo produzindo uma desorganização de seu fluxo. Mas, este é forte demais para que permaneça silencioso, o resultado é uma enfermidade, tenha ela um caráter orgânico ou não, e em geral há um misto delas. Muito dos desgastes físicos que se alcança em determinada fase da vida tem origem nesse funcionamento forçado, contra a correnteza, bem como em hábitos nocivos à saúde.

Originam-se na incapacidade de controlar o nível de tensão psíquica e na impossibilidade de encontrar uma via alternativa de satisfação. Para isso existem causas culturais, formação de hábitos desfavoráveis, mas em grande parte uma forma de ansiedade e incomodidade psíquica mantida que nos faz doentes. Por todos estes fenômenos subjetivos que compõe o adoecer, a relação médico paciente passa por algo mais abrangente que a relação técnica, é uma interação direta de dois inconscientes onde o papel do médico é, através da empatia, entender o que se passa no íntimo do paciente. Conhecimentos científicos são bons e necessários, mas só isso não basta para nós.

Há uma conexão entra ansiedade e stress, entre stress e depressão, e entre tais quadros e desequilíbrio químico orgânico, embora não necessariamente somático. Toda a mecânica corporal é regida por substâncias que comandam as engrenagens sutis do metabolismo e do comportamento. Todo organismo é então regido, em cada um dos seus mínimos processos, por substancias químicas inteligentes que sabem exatamente o que fazer enquanto são saudáveis. Quem as cria é o DNA, nosso material genético. O DNA é a inteligência orgânica em ação, mas todo comando dessa ação é transmitido à partir do cérebro. O CEREBRO É, EM ÚLTIMA INSTÂNCIA, O COMANDANTE DE TODO FUNCIONAMENTO ORGÂNICO. Ele também comanda através de emoções, interpreta o que está recebendo de mensagens do meio interno e externo, transformando isso numa ordem para ao corpo. EXEMPLO DISSO: PRODUÇÃO DE ADRENALINA EM SITUAÇÕES DE TENSÃO . A CLÁSSICA REAÇÃO FUGA OU LUTA.

A vida moderna contém estímulos e exigências em demasia, desencadeia-se uma série de eventos decorrentes dessa situação: ATIVAÇÃO CONSTANTE SISTEMA NEURONAL DO LOCUS CERULEUS. Produção excessiva de adrenalina. REAÇÃO FUGA OU LUTA CONSTANTEMENTE INTERPRETADA PELO CÉREBRO. ESTRESSE (AUMENTO DA ANSIEDADE, PERMANÊNCIA DO ESTADO ANSIOSO, IRRITABILIDADE.DESGASTE ORGÂNICO- DESGASTE CEREBRAL.) DURANTE O ESTRESSE AUMENTA A PRODUÇÃO DE CORTISOL, QUE É PRODUZIDO PELA SUPRA RENAL. O Cortisol atua diretamente sobre o sistema imunológico ! Atua também sobre a produção de NORADRENALINA, FREANDOA, EM UMA REAÇÃO DE TENTAR CONTER O ESTRESSE. CORTISOL DIMINUI A EFICIÊNCIA DA SEROTONINA, O RESULTADO É DEPRESSÃO. A DEPRESSÃO PODE SER UM QUADRO QUE INDIQUE A NECESSIDADE DO ORGANISMO RETRAIR-SE, DESCANSANDO E REDUZINDO TODOS OS SEUS NÍVEIS DE ATIVIDADE PARA UMA POSSÍVEL RECOMPOSIÇÃO. COMO A ANSIEDADE É O MODELO DE PRODUÇÃO DO ESTRESSE MAIS NOTAVEL

NAS MULHERES O PÓS PARTO E O

EMOCIONAIS SIGNIFICAVAM MENOS ESTRESSE. COMO NÃO EXISTIAM TRANQUILIZANTES TAL COMO OS CONHECEMOS HOJE,USAVASE A AUTO REGULAÇÃO ORGÂNICA. ISTO TAMBÉM ERA POSSIVEL PORQUE OS FATORES GERADORES DE ANSIEDADE ERAM MENORES. O USO EXCESSIVO DE TRANQUILIZANTES É OUTRO FATOR PROVAVELMENTE ENVOLVIDO NO AUMENTO DOS CASOS DE DEPRESSÃO. E ANSIEDADE, POIS, QUANDO RECEBE ESTÍMULO EXTERNO QUÍMICO PARA ACALMAR-SE (TRANQÜILIZANTE) por tempo longo, O ORGANISMO ESQUECE COMO PRODUZIR SUAS PRÓPRIAS SUBSTÂNCIAS TRANQÜILIZANTES.

Logo que conclui o curso de medicina, há exatos onze anos, prestei concurso público como generalista. Fui trabalhar em ambulatórios periféricos, pronto atendimento, unidades móveis para áreas rurais. Tinha também um consultório particular, muitos sonhos e planos, um bocado de teoria e pouca experiência. Quando começamos nossas vidas como médicos, precisamos ouvir demoradamente cada paciente, para entendê-los e para aplacar nossa própria angústia e o medo de errar. Ganhamos tempo para termos certeza de que compreendemos o que tentam nos dizer. Até porque, o paciente não tem exata consciência do que se passa com ele, dános pistas que seguimos na tentativa de ajudá-lo. Precisamos escutar com cuidado.

Ouvi então muitas histórias e percebi, gradualmente, que pelo menos setenta por cento dos pacientes que atendia tinha um mesmo problema básico: a infelicidade. Este, no meu entendimento, os tornava mais suscetíveis ao adoecer. Insatisfação vital, mágoas, perdas, dificuldades econômicas e familiares, falta de esclarecimento e de oportunidades, circunstâncias desfavoráveis por todos os lados. Assim que consegui ver a situação com clareza, fiquei pensando o quanto adiantaria tratar seus problemas clínicos imediatos e devolvê-los aos seus cotidianos problemáticos que, ou não os deixariam curar-se, ou os tornariam novamente enfermos.

Percebi que nos males do homem entram em jogo tanto forças externas quanto internas e que o externo depende muito de como estamos por dentro. Isto reascendeu em mim o desejo de estudar o comportamento humano e de agir onde me parecia essencial e mais urgente: a alma. É bonito ver alguém despertar, se fortalecer, tornar-se maior que suas dificuldades e descobrir um jeito mais saudável de viver. Ainda me preocupa perceber que a patologia psíquica está tão presente em nossas vidas, individual e coletivamente e a percebemos tão pouco. Como não temos uma idéia clara sobre o que há de anormal em nosso comportamento, permitimos que muitos estragos aconteçam. A sociedade parece ter idéia de que só o que representa uma dramática perda de contato com a realidade ou gera sintomas muito incapacitantes, deva ser examinado e tratado. Além disso não se apercebe da relação direta entre enfermidade mental e seus efeitos sociais, nem dos efeitos sociais sobre a saúde mental da população. É precário é nosso nível médio de saúde mental como são precários todos os indicadores de qualidade de vida e saúde em geral. Quanto sofrimento há nas vidas de cada um a sociedade tende a encarar como normal? Pensamos em qualidade de vida muito mais em termos condições econômicas, que sem dúvida são importantes, mas cuja precariedade não é o único determinante de nosso mal estar. È compreensível que, sendo um país pobre pensemos em subjetividade como um luxo. Mas mesmo cidadãos de um país pobre tem direito a terem suas almas levadas em consideração.

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