A formação educadores do campo tic

A formação educadores do campo tic

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A FORMAÇÃO DE EDUCADORES DO CAMPO PARA USO DAS TECNOLOGIAS DIGITAIS NA EDUCAÇÃO NA LEdoC-UnB

Wanessa de Castroi (UnB)

Resumo:

A Licenciatura em Educação do Campo da UnB, LEdoC-UnB, busca construir um caminho que signifique uma nova perspectiva de formação de educadores vinculada às causas, desafios, cultura e história de resistência dos povos do campo. Esse artigo tem como objetivo apresentar os principais elementos desta formação, dando ênfase às estratégias de produção de conhecimento ligadas aos processos de comunicação e às tecnologias da informação e da comunicação, utilizadas a partir da criação da área de conhecimento denominada Comunicação e Tecnologias da Informação. Neste componente curricular os educandos constroem conhecimentos acerca da educação mediada por computador e a partir da produção de objetos de aprendizagem vinculados à sua realidade no campo.

Palavras-chave: Educação do Campo; Tecnologias de Informação e Comunicação; Formação de educadores.

Introdução

É notável a necessidade de se construir novos rumos para a educação do Século XXI. O modelo educacional utilizado, ainda hoje, em nosso país remonta àquele construído para atender às necessidades de séculos passados. Muito se evoluiu de lá para cá em todas as áreas do conhecimento e os meios de comunicação sofreram grandes transformações influenciando, de maneira mais significativa, nas relações sociais e comerciais. Enfim, podemos dizer que o mundo mudou rapidamente nos últimos tempos e a educação tem se transformado a passos muito lentos.

Por outro lado, apesar da importância que o campo tem para a sobrevivência de todas as pessoas, muito se tem feito para o bem-estar dos sujeitos que ali vivem, trabalham, estudam. A maior parte das políticas públicas se tem estabelecido é voltada para o meio urbano, bem como aquelas voltadas à educação escolarizada. Assim, ano após ano, as

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-1- pessoas são obrigadas a saírem do campo, local onde construíram suas raízes, para estudar na cidade ou em outras comunidades distantes, por falta de opções em suas próprias comunidades.

Apesar disso, temos presenciado uma quebra do silenciamento1 sobre o campo brasileiro nas pesquisas sociais e educacionais que acontece a partir da mobilização de educadores do campo organizados, pesquisadores, universidades e educadores inseridos em movimentos sociais espalhados por todo o país, sujeitos esses que se colocam a serviço da construção de uma verdadeira Educação do Campo, que esteja vinculada a um novo projeto de nação para o Brasil.

Nesta perspectiva,

Este movimento de Educação do Campo está ajudando a produzir um novo olhar para o campo. E faz isso em sintonia com toda uma nova dinâmica social de valorização deste território e de busca de alternativas para melhorar a situação de quem vive e trabalha nele. Uma dinâmica que vem sendo construída por sujeitos que já não aceitam que o campo seja lugar de atraso e de discriminação, mas sim consideram e lutam pra fazer dele uma possibilidade de vida e de trabalho para muitas pessoas, assim como a cidade também deve sê-lo; nem melhor nem pior, apenas diferente; uma escolha. (UnB-FUP, 2009a, p. 5)

Uma destas iniciativas em prol de uma educação do campo contextualizada, voltada para a construção e reconhecimento de saberes plurais, também denominados por Boaventura de Sousa Santos (MORAES, 2008, p. 20) como ecologia de saberes, é a Licenciatura em Educação do Campo, que já acontece em algumas universidades públicas brasileiras, dentre elas, a Universidade de Brasília.

O texto que se segue é o relato ainda preliminar do trabalho que é fruto de um projeto de pesquisa de doutoramento na área de Educação e Ecologia Humana da Universidade de Brasília. Como o projeto está em andamento, ainda não é possível apresentar resultados finais, porém vários conhecimentos têm sido desencadeados a partir do processo já iniciado e tencionamos apresentá-los neste paper. O artigo foi dividido em cinco partes em que trato, em primeiro lugar, de fazer uma apresentação da Licenciatura em Educação do Campo – UnB com a finalidade de fazer uma

1 Termo utilizado por Arroyo, Caldart e Molina na apresentação do livro “Por uma educação básica do campo”, p.08, Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-2- contextualização.

Logo em seguida, ainda dando continuidade à contextualização, trabalho o componente curricular denominado Comunicação e Tecnologias da Informação no contexto da educação do campo e justifico a necessidade da realização da pesquisa ora apresentada.

Dando sequência, trago o tema Formação docente para atuar com educação mediada por computador, em que delimito a concepção de educação e de uso das tecnologias com as quais trabalhamos.

Mais à frente, o leitor terá contato com uma explicação sucinta sobre os procedimentos metodológicos que estão sendo adotados nesta investigação ainda em construção.

Por fim, são delineados limites e perspectivas das novas estratégias formativas a partir do quadro retratado e das expectativas dos sujeitos envolvidos na pesquisa e na formação como um todo.

A Licenciatura em Educação do Campo na UnB

Esta Licenciatura em Educação do Campo da Universidade de Brasília – LEdoC – habilita educadores para atuarem nos anos finais do Ensino Fundamental e também no Ensino Médio, através de nova estratégia de formação docente, cuja principal característica é formação multidisciplinar, capacitando estes futuros educadores para o desenvolvimento de práticas docentes em grandes áreas de conhecimento. Estes cursos têm como perspectiva a preparação de educadores para uma atuação profissional que vai além da docência, incluindo também a formação para a gestão dos processos educativos que acontecem na escola e no seu entorno, bem como para produção de materiais específicos para o trabalho em escolas do campo (UnB-FUP, 2009a).

Uma das principais características diferenciadoras em relação a outras licenciaturas é que a metodologia, por ter como foco grupos sociais do campo, utiliza-se da Pedagogia da Alternância2, tendo diferentes tempos e espaços formativos em sua execução.

2 A Pedagogia da Alternância atribui grande importância à articulação entre momentos de atividade no meio socioprofissional do jovem e momentos de atividade escolar propriamente dita, nos quais se focaliza o conhecimento acumulado, considerando sempre as experiências concretas dos educandos (TEIXEIRA, BERNARTT

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-3-

Existem os períodos de formação que acontecem na universidade proponente, denominados Tempo Escola, e existem os períodos de formação nas comunidades rurais das quais se originam estes sujeitos, chamados de Tempo Comunidade, nos quais são desenvolvidas práticas educativas em diferentes áreas de conhecimento, com a presença e o acompanhamento dos docentes da universidade que é responsável por sua oferta. A intencionalidade pedagógica desta metodologia é oportunizar, durante a própria formação destes estudantes, a possibilidade de sua prática como agente de desenvolvimento rural nas diferentes áreas de atuação para as quais estão sendo preparados a atuar como futuros profissionais (UnB-FUP, 2009b).

É de suma importância fazer esta contextualização tendo em vista que a Licenciatura em Educação do Campo, pelas especificidades que a compõem, carece de uma atenção especial às questões relativas aos recursos utilizados nos processos educativos, que quase sempre não são produzidos para e pelos sujeitos do campo e, normalmente, trazem subjacentes ideologias que não casam com a identidade cultural e social dos sujeitos envolvidos. Sobre este tema Arroyo traz uma reflexão bastante pertinente, quando diz que:

É urgente rever essa cultura e estrutura seletiva e perguntar: que estrutura de escola dará conta de um projeto de educação básica do campo? A estrutura que tenha a mesma lógica do movimento social, que seja inclusiva, democrática, igualitária, que trate com respeito e dignidade as crianças, jovens e adultos do campo, que não aumente a exclusão dos que já são tão excluídos. Tarefa urgentíssima para a construção da educação básica do campo: criar estruturas escolares inclusivas3 (ARROYO, 2004, p.86).

Enxergo, aqui, que quando Arroyo cita a necessidade de rever as estruturas, fala não somente dos prédios físicos, mas também de tudo aquilo que circunda a escola do campo: prédio, distância da escola em relação aos discentes, professores da comunidade atendida, materiais didático-pedagógicos, enfim, tudo que é inerente aos processos educativos vivenciados na instituição escolar. Ele deixa isto bem claro, quando diz que “a questão que teremos de nos colocar é: que escola, que concepção e prática pedagógica dará conta do direito à educação básica” (idem, p.73) desses sujeitos do

& TRINDADE, 2008, p.229). 3 Grifo do autor.

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-4- campo? Tem havido, segundo o autor, um descompasso marcante entre o avanço da consciência dos direitos, promovido pela mobilização dos movimentos sociais organizados, e a educação escolar propriamente dita. Ou seja, os sujeitos do campo sabem de seus direitos, mas esses lhes são negados por uma série de fatores, dentre eles, a falta de formação para atuação nestas escolas do campo.

O currículo da escola do campo precisa privilegiar os saberes construídos por cada comunidade, mas precisa também ter como foco os saberes necessários a uma cidadania planetária, os saberes que preparam para a produção e o trabalho, que preparam para a emancipação, para a justiça, os saberes que preparam para a realização plena do ser humano como humano (idem, p. 82-83 ) e que lhe dê o direito de se constituir cidadão que deseja continuar no campo e ter possibilidade de sobreviver e viver com dignidade a partir do seu próprio trabalho e da sua própria produção. Também sobre a questão dos saberes nos falam Santos, Meneses & Nunes (2005) quando arrazoam que:

Ao longo dos séculos, as constelações de saberes foram desenvolvendo formas de articulação entre si e hoje, mais do que nunca, importa construir um modo verdadeiramente dialógico de engajamento permanente, articulando as estruturas do saber moderno/científico/ocidental às formações nativas/locais/tradicionais de conhecimento. O desafio é, pois, de luta contra uma monocultura do saber, não apenas na teoria, mas como uma prática constante do processo de estudo, de pesquisa-ação. Como Nandy (1999) refere, o futuro não está no retorno a velhas tradições, pois nenhuma tecnologia é a neutra: cada tecnologia carrega consigo o peso do modo de ver e estar com a natureza e com os outros. O futuro encontra-se, assim, na encruzilhada dos saberes e das tecnologias. (p. 54)

A escola do campo, na maioria dos casos, ainda prescinde do uso do computador e da Internet por diversos fatores: falta de equipamentos e conectividade, ausência de formação dos docentes para utilização desta tecnologia, descaso dos governos em relação às escolas do campo por acharem que no campo não seja necessária a utilização de redes digitais, caindo no debate simplista de que as “escolinhas rurais” não precisam disto, enfim, é preciso fazer um casamento dos saberes locais com os saberes globais. É preciso dotar de oportunidades de conhecimento de mundo e de desenvolvimento as comunidades campesinas, pois o ciberespaço pode ser este interlocutor, trazendo aos sujeitos do campo informações que auxiliem na melhoria da produção agrícola familiar. É necessário pensarmos em estratégias que promovam este desenvolvimento rural sem que

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-5- os sujeitos do campo tenham que abandonar seu lócus de vivência, estudo e produção para ir em busca destes conhecimentos. O acesso às informações pela Internet pode melhorar a vida no campo, seu modo de trabalho, técnicas de plantio e cultivo autossustentáveis e ecologicamente corretas, além de trazer às práticas pedagógicas inovações que melhorem os processos educativos. Continuará a escola a negar esta realidade?

Comunicação e Tecnologias da Informação no contexto da educação do campo

Um grande passo para o avanço das escolas do campo em direção ao atendimento destas necessidades foi dado a partir da instalação de Casas Digitais nas comunidades assentadas da reforma agrária, das quais fazem parte os educandos da LEdoC, turma 2. A Casa Digital4 é um telecentro equipado com dez computadores, mobiliário, impressora, webcam e servidor, além de tecnologia de transmissão de voz pela Internet e o planejamento do Ministério das Comunicações é que até o final de 2010, cada comunidade que tenha um educando da LEdoC – Turma 2 receba uma Casa Digital.

Diante deste contexto, surgiram indagações que nos fizeram refletir sobre uma maneira de promover a inclusão, na escola do campo, de materiais didático-pedagógicos digitais, também denominados objetos de aprendizagem, que sejam voltados para a realidade citada e produzidos pelos sujeitos que constituem esta realidade. Ainda dentro desta perspectiva, inquieta-nos o fato de que à escola do campo ainda é negado o direito a fazer parte de uma cibercultura, utilizando as ferramentas computacionais para auxiliar na promoção da fixação dos sujeitos no campo pelo desenvolvimento rural de suas comunidades. Ao realizarmos uma aglutinação destes dois fatores cruciais, nos apareceram os seguintes questionamentos que ora denominamos questões de pesquisa: de que forma seria possível a construção/elaboração de materiais didático-pedagógicos digitais e objetos de aprendizagem pelos graduandos da educação do campo, como elementos de sua formação, mas também como forma de disseminação de informações e

4 O projeto Territórios Digitais faz parte do Programa Territórios da Cidadania. Os Territórios Digitais consiste na implantação de Casas Digitais – espaços públicos e gratuitos com acesso a computadores e Internet – em assentamentos, escolas agrícolas, comunidades tradicionais, sindicatos e Casas Familiares Rurais. Em 2008, serão alcançados os primeiros Territórios da Cidadania. A partir de 2009 e até 2010, a meta do projeto é ter Casas Digitais nos 120 territórios do Programa. Fonte: http://www.nead.org.br/index.php?acao=princ&id_prin=67

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-6- conhecimentos às demais comunidades campesinas? Poderiam estes materiais serem produzidos nas Casas Digitais de suas próprias comunidades, nos chamados Tempo Comunidade?

Pensamos nesta construção baseada na concepção trazida por Santos, Meneses & Nunes (2005) em que,

O conceito de “construção” é aqui um recurso central para a caracterização do processo de produção tanto do conhecimento como dos objetos tecnológicos. Construir, nessa perspectiva, significa pôr em relação e em interação, no quadro das práticas socialmente organizadas, materiais, instrumentos, maneiras de fazer, competências, de modo a criar algo que não existia antes, com propriedades novas e que não pode ser reduzido à soma dos elementos heterogêneos mobilizados para a sua criação. Não faz sentido, assim, a oposição entre o real e o construído, tantas vezes invocada para atacar os estudos sociais e culturais da ciência e da tecnologia. O que existe – conhecimento, objetos tecnológicos, edifícios, estradas, obras culturais – existe porque é construído (2005, p.42).

Desta forma, além de dotarmos os sujeitos de informações que subsidiariam suas práticas pedagógicas, traríamos a possibilidade de atender a vários desafios e propostas de ação elaborados a partir das Conferências por uma Educação Básica do Campo (ARROYO, CALDART & MOLINA, 2004, p. 165-174) . Quais sejam:

•Debater o papel da educação no processo de construção do novo projeto de desenvolvimento;

•Multiplicar este debate em todas as escolas do meio rural e urbano e nas demais instância educativas;

•Compreender as raízes dos povos do campo (valores, moral, tradição, etnias, festas, religiosidade popular, histórias da luta do povo, símbolos, gestos, mística...) e incentivar produções culturais próprias, sensibilizando a sociedade para valorizá-las;

•Construir trabalho pedagógico, específico e articulado, com técnicos, pesquisadores e educadores para que busquem conhecer e respeitar os valores culturais dos povos do campo, de acordo com as suas regiões, tendo como eixo a

Universidade Federal de Pernambuco - Núcleo de Estudos de Hipertexto e Tecnologias na Educação-7- construção do conhecimento e o processo participativo; •Garantir acesso à cultura tecnológica contemporânea, desde que apropriada;

•Fazer uma conscientização dos povos do campo sobre seu direito à educação;

•Buscar apoio à produção e à divulgação de materiais didáticos e pedagógicos que tratem de questões de interesse direto das pessoas que vivem no campo;

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