Apostila - Anatomia e Fisiologia - Manual do Atendimento Pré-Hospitalar SIATE-CBPR

Apostila - Anatomia e Fisiologia - Manual do Atendimento Pré-Hospitalar SIATE-CBPR

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É dividida em duas fases: a inspiração e a expiração. Durante a inspiração o diafragma e os músculos intercostais se contraem fazendo com que o diafragma se rebai¬xe e se retifique e a caixa torácica aumente de volume. Com o aumento de volume da caixa torácica ocorre uma queda da pressão intratorácica para abaixo do nível da pressão atmosférica fazendo com que ocorra fluxo de ar para dentro das vias aéreas e pulmões até que se equilibre este gradiente de pressão. Durante a expiração o diafragma e os músculos intercostais relaxam fazendo com que o diafragma se eleve e as costelas retomem a sua posição original, com isso o volume da caixa torácica diminui, e o ar é forçado para fora do pulmão e das vias aéreas. A inspiração é um ato ativo que requer contração muscular enquanto a expiração é um ato passivo. Este mecanismo de ventilação é automático e realizado a uma freqüência de 12 a 20 movimentos por minuto por um adulto em repouso, a esta freqüência chama-se freqüência respiratória. Chama-se de taquipnéia a freqüência respiratória acima dos limites normais; e de bradipnéia abaixo dos limites normais; a ausência de movimentos respiratórios é chamada de apnéia. A freqüência respiratória é normalmente maior nas crianças. A freqüência respiratória pode se elevar pelo exercício, por alterações emocionais, pela febre, devido à dor e por outras condições, mas nos pacientes traumatizados o aumento da freqüência respiratória é sempre um sinal de alerta que pode estar indicando alguma lesão do aparelho respiratório, no sistema nervoso central ou há um indicativo de choque. É importante saber que um aumento na freqüência respiratória não significa necessariamente um aumento na ventilação pulmonar. Vejamos o seguinte exemplo: durante cada inspiração um adulto inala aproximadamente 500 ml de ar para dentro dos pulmões; se sua freqüência respiratória for de 14 movimentos por minuto ele inspirará um total de 7000 ml de ar por minuto. Se uma vítima apresenta várias fraturas de costela ela pode passar a respirar mais rápida e superficialmente devido à dor. Se ela inspirar 100 ml a cada movimento inspiratório a uma freqüência de 40 movimentos por minuto ela terá inspirado em um minuto apenas 4000 ml de ar,

Anatomia e Fisiologia quase a metade do volume de um adulto em situação normal. Um socorrista desatento poderia imaginar que esta vítima estaria com uma ventilação satisfatória.

Consiste na passagem do sangue através dos capilares pulmonares. Os capilares pulmonares estão em íntimo contato com os alvéolos pulmonares e conseqüentemente com o ar alveolar. O sangue venoso chega aos capilares pulmonares, libera dióxido de carbono e capta oxigênio do ar alveolar, e se transforma em sangue arterial rico em oxigênio. Esta troca de dióxido de carbono por oxigênio nos pulmões é chamada de hematose.

Obs.: Oximetria de pulso é um método não invasivo utilizado para medir continuamente a porcentagem de hemoglobina saturada de oxigênio presente no sangue arterial. O oxímetro de pulso combina os princípios da espectrofotometria e da pletismografia. Em situações normais a hemoglobina se satura através da ligação com o oxigênio, portanto a medida da saturação da hemoglobina nos dá uma medida indireta da oxigenação sangüínea. Idealmente devemos aceitar como normais valores acima de 94%. A leitura do oxímetro de pulso é sujeita a interferência e pode mostrar valores errados nas seguintes situações: excesso de movimento da vítima, excesso de luz ambiente, anemia severa, vasoconstrição periférica e hipotermia. Sempre que a leitura não for compatível com o quadro clínico da vítima devemos checar se um destes fatores não está presente.

4. Aparelho Circulatório (C)

O aparelho circulatório (cardiovascular) é o responsável pela circulação do sangue através de todo o organismo. Seus componentes são o sangue, o coração e os vasos sangüíneos.

O sangue circula através de dois circuitos paralelos: a circulação pulmonar e a circulação sistêmica. A circulação sistêmica (grande circulação) carrega o sangue oxigenado (arterial) desde o ventrículo esquerdo para todas as regiões do organismo e traz de volta o sangue pobre em oxigênio (venoso) até o átrio direito. A circulação pulmonar (pequena circulação) leva o sangue pobre em oxigênio desde o ventrículo direito até os pulmões e o traz o sangue oxigenado de volta até o átrio esquerdo.

É um fluido complexo composto de uma parte líquida e de elementos celulares. A parte líquida do sangue é chamada de plasma e contem várias substâncias entre as quais os anticorpos e os fatores da coagulação. Os elementos celulares são as hemácias (glóbulos vermelhos ou eritrócitos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas. As hemácias contém hemoglobina e são responsáveis pelo transporte de oxigênio desde os pulmões até as células do organismo, elas vivem apenas algumas semanas e quando envelhecidas são retiradas da circulação pelo baço e fígado. Os leucócitos são células responsáveis pela nossa defesa imunológica, além de produzirem os anticorpos eles atacam di-

Manual do Atendimento Pré-Hospitalar – SIATE /CBPR retamente os microorganismos visando a sua destruição. As plaquetas participam do processo de coagulação. Cada mililitro de sangue contém aproximadamente 5 milhões de hemácias, 7 mil leucócitos e 250 mil plaquetas. As hemácias e plaquetas são produzidas pela medula óssea e os leucócitos pela medula óssea, linfonodos e baço. O volume de sangue circulante corresponde de 7 a 8% do peso corporal. Assim um indivíduo de 70 kg apresenta em média de 4,9 a 5,6 litros de sangue.

É a bomba que promove a circulação do sangue através dos vasos sangüíneos. É um órgão oco, composto de um tipo especial de músculo involuntário, o músculo estriado cardíaco, é do tamanho aproximado de um punho fechado. A sua camada muscular é chamada de miocárdio, que é revestido por delgadas camadas de tecido conjuntivo denominadas internamente de endocárdio e externamente de epicárdio. Seu suprimento sangüíneo provém das artérias coronárias; estas quando se ocluem levam à interrupção do fluxo sangüíneo para uma parte do miocárdio levando à morte por isquemia desta parte, no fenômeno que é conhecido como infarto do miocárdio.

O coração localiza-se no tórax logo atrás do esterno e acima do diafragma. Está contido dentro de um saco de tecido fibroso e inelástico chamado de saco pericárdico. O saco pericárdico possui no seu interior uma pequena quantidade de fluido com função lubrificante que serve para que as contrações cardíacas se façam sem que o coração sofra atrito. O vazamento de sangue do interior do coração para dentro do saco pericárdico quando há um ferimento cardíaco produz o que se conhece por tamponamento cardíaco: o sangue acumulado dentro do saco pericárdico ocupa espaço e não permite que o coração se dilate adequadamente para receber sangue venoso e consequentemente o coração não terá um volume adequado de sangue para bombear para a circulação. Uma parede chamada septo separa o coração em um lado direito e um lado esquerdo que não apresentam comunicação direta entre si. Cada lado apresenta uma câmara superior chamada de átrio e uma câmara inferior chamada de ventrículo. Os átrios possuem a função de coletar o sangue o passar aos ventrículos que são bem mais musculosos e tem a função de bombear o sangue para as circulações sistêmica e pulmonar.

Fig 2.6 – O coração e sua vascularização

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O sangue venoso pobre em oxigênio e rico em dióxido de carbono e resíduos do metabolismo celular volta ao coração através das veias cavas e desemboca no átrio direito. Do átrio direito o sangue passa ao ventrículo direito de onde será bombeado para os pulmões através das artérias pulmonares.

No pulmão o sangue sofre a hematose e retorna para o átrio esquerdo através das veias pulmonares (pequena circulação). O ventrículo esquerdo recebe o sangue do átrio esquerdo e o bombeia para todo o organismo através da aorta (grande circulação).

O coração bombeia em média 5 litros de sangue por minuto quando em repouso. O volume de sangue bombeado por cada lado do coração em um minuto é chamado de débito cardíaco.

A contração dos ventrículos é chamada de sístole e o seu relaxamento de diástole.

Os ruídos cardíacos que escutamos quando auscultamos o coração com um estetoscópio são chamados de bulhas cardíacas e são resultado do fechamento das válvulas cardíacas.

A freqüência com que o coração contrai é denominada de freqüência cardíaca. No adulto em repouso varia de 50 a 95 batimentos por minuto. A freqüência cardíaca acima dos limites normais é chamada taquicardia, e abaixo bradicardia. A ansiedade ou dor podem causar taquicardia no indivíduo traumatizado, porém, até prova em contrário devemos supor que ela seja decorrente de hipóxia ou choque.

Fig 2.7 – O coração e sua vascularização Fig 2.8 – Coração

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4.3. Vasos sangüíneos São as artérias, arteríolas, capilares, veias e vênulas. 4.3.1. Artérias

São os vasos que saem levando sangue do coração para a circulação pulmonar ou sistêmica.

A principal artéria do organismo é a aorta, que se origina do ventrículo esquerdo e termina no abdome onde se bifurca formando as artérias ilíacas comuns que irrigam Os membros inferiores. A aorta dá origem a vários ramos que irrigam praticamente todos as partes do corpo. A artéria pulmonar se origina do ventrículo direito, se bifurca em um ramo direito e um ramo esquerdo que seguem para os respectivos pulmões. Enquanto a aorta leva sangue oxigenado (arterial) para abastecer todas as células do organismo e a artéria pulmonar leva o sangue pobre em oxigênio (venoso) para sofrer a hematose no pulmão. Perceba que apesar de ser uma artéria a artéria pulmonar carrega sangue venoso e não arterial como poderia se concluir à primeira vista. Isto é porque considera-se sangue venoso todo aquele que esteja retornando das células em direção ao pulmão para ser oxigenado e sangue arterial todo aquele que já tenha passado pelo pulmão e esteja sendo levado para irrigar o organismo.

As artérias vão se bifurcando e se ramificando até formarem as arteríolas que são os vasos arteriais de menor calibre antes de se chegar nos capilares. As arteríolas possuem na sua parede músculo liso que responde a estímulos nervosos ou endócrinos se contraindo ou relaxando. Sua contração diminui o calibre do vaso e é conhecida como vasoconstrição e seu relaxamento aumenta seu calibre e é conhecido como vasodilatação.

Fig 2.9 – Principais Artérias

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São os vasos sangüíneos de menor calibre e sua parede pode ter apenas uma camada de células de espessura. Estão distribuídos por todo o organismo Formando uma rede que está em intimo contato com todas as células. Suas paredes finas permitem que haja troca de substâncias entre as células dos tecidos e o sangue: oxigênio e nutrientes são liberados para as células que por sua vez se desfazem do dióxido de carbono e dos resíduos metabólicos.

Após banharem todos os tecidos os capilares se agrupam formando veias de calibre diminuto chamadas de válvulas. A válvulas vão se agrupando em veias cada vez mais calibrosas que finalmente desembocam em uma das duas veias cava.

A veia cava superior drena todo o sangue venoso da metade superior do corpo e a veia cava inferior da metade interior. Ambas desembocam no átrio direito. As veias pulmonares drenam o sangue recém oxigenado nos pulmões para o átrio esquerdo, portanto apesar de veias, transportam sangue arterial. A pressão no interior das veias é bastante inferior à pressão arterial, por isso enquanto o sangramento arterial se faz em jatos o venoso se faz por derramamento. A infusão de medicamentos e soluções se faz através de cateteres posicionados no interior das veias.

Fig 2.10 – Perfusão celular Fig 2.1 – Principais veias

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4.4. Pressão arterial

É a pressão no interior das artérias; é dependente da força desenvolvida pela sístole ventricular, do volume sangüíneo e da resistência oferecida pelas próprias artérias. O sangue sempre se encontra sob pressão dentro das artérias, esta pressão se encontra no seu valor mínimo ou basal durante a diástole ventricular. Quando o ventrículo esquerdo se contrai ele ejeta uma quantidade de sangue dentro da circulação sistêmica através da aorta causando uma elevação desta pressão basal. Ao valor basal da pressão arterial chamamos pressão arterial diastólica ou mínima, ao valor máximo ou pico de pressão chamamos pressão arterial sistólica ou máxima. A pressão arterial é medida em milímetros de mercúrio (m/Hg) com o auxílio do esfigmomanômetro. Os valores normais se situam entre é 60 e 90 m/Hg para a pressão diastólica 100 e 140 m/Hg para a pressão sistólica.

A pressão arterial com valores abaixo dos normais é chamada hipotensão arterial e ocorre nas vítimas de trauma devido a um dos seguintes mecanismos:

●O ventrículo esquerdo não consegue realizar a sístole com a força normal: tamponamento cardíaco, contusão do miocárdio ou infarto do miocárdio - choque cardiogênico.

●Há pouca quantidade de sangue circulante (hipovolemia): choque hemorrágico ou hipovolêmico.

●As artérias não oferecem resistência: vasodilatação generalizada nos traumatizados de medula espinhal - choque neurogênico.

Pressão arterial acima dos valores normais é chamada hipertensão arterial. A ansiedade e a dor podem levar a uma vaso constrição generalizada elevando assim os valores da pressão arterial na vítima de trauma. Normalmente a hipertensão arterial é uma doença crônica pré-existente ao trauma.

A variação da pressão dentro das artérias durante o ciclo cardíaco produz uma onda de pressão que pode ser sentida como um impulso à palpação. Os melhores locais do corpo para se palpar os pulsos são onde artérias calibrosas se encontram próximo à superfície cutânea.

Pulso carotídeo no pescoço, femoral na raiz da coxa, radial no punho, braquial no braço, axilar na axila e pedioso no dorso do pé.

O pulso possui as seguintes características: intensidade, freqüência e ritmo. Sua palpação é uma das manobras semiológicas mais importantes.

4.6. Coagulação

O organismo dispõe de mecanismos capazes de estancar a hemorragia sempre que houver lesão de um vaso, se não houvesse estes mecanismos toda hemorragia poderia ser fatal. A coagulação é processo pelo qual um coágulo é formado na área lesada

Anatomia e Fisiologia do vaso sangüíneo com o fim de estancar a hemorragia. Inicialmente as plaquetas circulantes aderem no local da lesão liberando substância que estimulam a formação de uma rede de fibrila onde as células sangüíneas são aprisionadas formando o coágulo. A maioria dos ferimentos para de sangrar espontaneamente devido a este mecanismo. Outro mecanismo é a retração vascular: sempre que um vaso é completamente secionado ele se contrai e se retrai diminuindo assim a hemorragia. Este fenômeno pode ser verificado nas vítimas de amputação traumática de membros em que, apesar da seção de vasos calibrosos, a hemorragia na maioria das vezes é limitada. Quando a seção do vaso é apenas parcial ele não consegue se contrair e, portanto, a hemorragia continua. Devido a esta particularidade as amputações incompletas e lacerações normalmente sangram mais que as amputações completas.

5. Sistema Nervoso

O sistema nervoso se distribui por todos tecidos do organismo humano. E responsável pela regulação e integração da função dos órgãos, pela captação de estímulos do meio-ambiente e é sede de todas atividades mentais e comportamentais humanas. Devido à sua função essencial à vida, a principal parte dele está bem protegida dentro de estruturas ósseas. Ainda assim está sujeito a lesões e de fato aproximadamente metade das mortes por trauma decorrem de lesões do sistema nervoso.

Anatomicamente o sistema nervoso é dividido em duas partes: o sistema nervoso central e o sistema nervoso periférico. Funcionalmente o sistema nervoso é dividido em sistema nervoso somático e sistema nervoso autônomo. O sistema nervoso somático regula as atividades sobre as quais há controle voluntário, enquanto o sistema nervoso autônomo regula as atividades involuntárias essenciais ao funcionamento do organismo como a respiração, digestão, vasodilatação e vasoconstrição, entre muitas outras. As células especializadas que formam o tecido nervoso são chamadas de neurônios. Uma característica dos neurônios é que eles apresentam uma baixa ou nula capacidade de regeneração e reprodução no indivíduo adulto se comparados a outras células do organismo.

5.1. Sistema Nervoso Central

É composto pelo encéfalo e pela medula espinhal. O encéfalo está contido dentro da cavidade craniana enquanto a medula espinhal está contida dentro do canal medular na coluna vertebral. Todo o sistema nervoso central é envolto por membranas chamadas de meninges e é banhado por um líquido chamado de líquido cefalorraquidiano ou simplesmente líquor.

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