unopar wanessa de castro

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Pedagogia de projetos em educação mediada por computador

Pedagogy of projects in education mediated by computer

Resumo

Este artigo descreve a aplicação de uma pesquisa-ação em uma escola pública do Distrito Federal e tem como foco principal a formação de professores em educação mediada por computador. A estratégia metodológica utilizada é a pedagogia de projetos. A pesquisa se propõe transdisciplinar e para isso é feito um percurso teórico-metodológico que ajuda na compreensão desse tipo de prática. Essa investigação foi realizada para obtenção do grau de Mestre pela Universidade de Brasília.

Palavras-chave: Pedagogia de Projetos. Educação Mediada por Computador. Transdisciplinaridade.

Abstract

This paper describes the application of an action research in a public school of Distrito Federal and intends to develop teachers of education using computers as a methodological strategy based on the pedagogy of projects approach. The research also intends to be trans-disciplinary and, for this reason, it involves a theoretical and methodological scope which helps to understand this kind of practice. This investigation was carried out by the author for the attainment of a master degree at University of Brasília.

Keywords: Pedagogy of Projects. Education mediated by computer. Transdisciplinarity .

1 Introdução

A escola e a universidade se fecharam durante muito tempo em sua funcionalidade e se reduziram a meras transmissoras de informações sem nem mesmo dar conta desta que era sua tarefa primeira. É preciso despertar para o paradigma da complexidade que mostra que não há verdade absoluta, pois existem vários níveis de realidade e os dualismos com os quais balizamos nossas vidas, na verdade, podem conviver com uma terceira forma de pensar, de agir, que não é uma nem outra, mas um diálogo entre as duas.

Para isso, há que se pensar em uma formação docente diferenciada, adequada aos novos elementos que têm feito parte da vida dos cidadãos e que não podem ser ignorados pela escola. Desse modo, a formação precisa conter aspectos mínimos para que a escola consiga cumprir sua função social, como: promover um trabalho transdisciplinar, rompendo com a compartimentalização dos conhecimentos e trabalhando todas as dimensões do indivíduo; descortinar os modos e estilos de aprendizagem para que os professores compreendam que o aluno também constrói conhecimentos; e instrumentalizar para que a prática pedagógica cumpra seu papel de modo contextualizado e coerente com o tempo no qual está inserido.

Muito se tem visto e ouvido a respeito de transdisciplinaridade na teoria, contudo pouco se tem registrado em termos de práticas transdisciplinares, e os registros existentes mostram que há muitas maneiras de fazer educação trabalhando transdisciplinarmente.

Dessa forma, este artigo se propõe transdisciplinar de modo a experimentar e comprovar que é possível desenvolver processos educacionais com qualidade e pesquisar esses processos, lançando mão de metodologias que não aquelas propostas pela ciência clássica e pelos modos tradicionais de ensino, visando trabalhar os aspectos supracitados como necessários a uma boa formação docente.

A pesquisa teve como foco principal a formação de professores em educação mediada por computador e foi desenvolvida como parte dos estudos do Grupo de Pesquisas Ábaco. A principal questão de investigação foi: de qual forma a Pedagogia de Projetos pode contribuir para a formação de professores em educação mediada por computador?

Para responder a esta e outras questões, trabalhou-se a abordagem qualitativa utilizando a pesquisaação integral e sistêmica (MORIN, A., 2004), que prevê a participação efetiva dos pesquisados em todas as fases do processo.

Antes de avançar para o relato de pesquisa propriamente dito faz-se necessária uma abordagem teórica e conceitual acerca da transdisciplinaridade e seus fundamentos, da pedagogia de projetos, bem como da educação mediada por computador, para que o leitor se situe quanto à problemática apresentada.

2 A Transdisciplinaridade

Escrever sobre transdisciplinaridade é adentrar um assunto atual e ao mesmo tempo complexo. Muito se fala a respeito, mas poucos fazem referências que fidedignas ao tema. De acordo com Santos (2005), o termo é relativamente novo, mas a atitude transdisciplinar é constituinte do ser humano em sua essência. Grande parte de nossas atitudes revela-se transdisciplinar, embora nem sempre saibamos que o seja. Por outro lado, a maioria de nossas posturas, na atualidade, é direcionada pelo modo compartimentalizado de ser e pensar. Olhamos para o mundo com muita objetividade e racionalismo, desconsiderando as dimensões emocionais, afetivas e sensoriais que são próprias do ser humano, apesar de pensarmos o mundo em todas as suas dimensões.

A transdisciplinaridade é a busca pelo sentido da vida através de relações entre os diversos saberes numa democracia cognitiva. Ela ultrapassa as áreas de conhecimentos devido ao seu diálogo com as ciências exatas, humanas, artes e sua reconciliação com a experiência interior. Como o prefixo anuncia, “trans” diz respeito ao que está ao mesmo tempo entre, através e além das disciplinas. Ela se diferencia da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade, principalmente em sua finalidade.

Com a fragmentação cada vez maior das ciências, os saberes também foram se rompendo, ou seja, foram sendo criadas diferentes disciplinas para tratar sobre cada aspecto de um determinado assunto, o que Sousa Santos (2006) denomina parcelização do conhecimento.

Segundo Nicolescu (2005), por volta da segunda metade do Século X, surge a necessidade de se criar novos laços entre as disciplinas por meio da pluridisciplinaridade e da interdisciplinaridade, cada uma com suas características próprias.

A pluridisciplinaridade diz respeito ao estudo de um objeto de uma mesma e única disciplina por várias disciplinas ao mesmo tempo. Apesar de ter um olhar sob várias perspectivas, o conhecimento desse objeto é aprofundado, entretanto o acréscimo feito está a serviço de uma única disciplina, “sua finalidade continua inscrita na estrutura da pesquisa disciplinar” (NICOLESCO, 2005, p.52).

A interdisciplinaridade diz respeito à transferência de métodos de uma disciplina para outra. Porém, como a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade ultrapassa as disciplinas, mas sua finalidade permanece inscrita na pesquisa disciplinar.

Assim, é a transdisciplinaridade que vem romper com a finalidade única de servir à disciplinaridade. A disciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são, de acordo com o Manifesto da Transdisciplinaridade (NICOLESCU, 2005), as quatro flechas de um mesmo arco: o conhecimento. Ressalta-se que a disciplinaridade e a transdisciplinaridade, assim como a pluri e a inter, não são antagônicas, mas complementares. O objetivo da transdisciplinaridade é a compreen- são do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento. Para Morin, E. (2005), o conhecimento e o comportamento não são unidades dissociadas e é o mesmo aparelho neurocerebral que determina que os desenvolvimentos de um e de outro são interdependentes; todo o progresso da ação favorece o conhecimento, todo o progresso do conhecimento favorece a ação.

De acordo com Maturana (2001), esse conhecimento não está dissociado da vivência. Para ele, viver e conhecer são mecanismos vitais. Ainda segundo o autor, a noção de viver-conhecer está diretamente vinculada ao modo de se relacionar e de se organizar na relação com o meio e com o outro. Aprender a trabalhar e brincar faz parte do mesmo fenômeno relacional do ser humano com seu espaço vital. Assim, os espaços educativos constituem-se em fenômenos sociais que manifestam emoções, pensamentos, conceitos e objetivos dos grupos sociais, num processo histórico e relacional, criando realidades que, nesta interação constante, recriam sujeitos dela participantes.

Maturana (2001) desafia-nos a buscar uma educação que resgate a bio-centralidade. O lugar da vida e da amorosidade nos relacionamentos e ações dos viventes e a transdisciplinaridade auxiliam este resgate.

A transdisciplinaridade reivindica, segundo Santos (2005), a centralidade da vida nas discussões planetárias, propondo mudanças no sistema de referência e se apoiando em três pilares essenciais para sua metodologia de pesquisa: os diferentes níveis de realidade; a lógica do terceiro incluído; e a complexidade, sobre os quais falaremos sucintamente a seguir:

2.1 Diferentes Níveis de Realidade

O homem não é simplesmente a soma das partes estudadas pelas disciplinas singulares. Na relação das partes com o todo, a articulação faz diferença e isso inexiste como foco central na estrutura disciplinar. A transdisciplinaridade é a tentativa de construção de uma conceituação multidimensional, considerando vários níveis de realidade. A vida existe na relação com o meio ambiente, com o todo (SANTOS, 2005).

Realidade é aquilo que resiste a nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formalizações matemáticas. Nicolescu (2000) afirma que a física quântica possibilita a descoberta de que a abstração não é um simples intermediário entre o homem e a Natureza, uma ferramenta para descrever a realidade, mas uma das partes constitutivas da Natureza. Na física quântica, o formalismo matemático é inseparável da experiência.

Para Maturana (2001) o conhecimento (realidade) depende do observador e é construído por um observador como uma capacidade operacional atribuída a um sistema vivo e ao aceitar suas ações como adequadas num domínio cognitivo especificado nessa atribuição. Por essa razão, há tantos domínios cognitivos quantos forem os domínios de ações adequadas que os observadores aceitarem. Cada um deles é operacionalmente definido no domínio experiencial do observador pelo critério usado para aceitar como ações adequadas às ações que ele ou ela aceita como próprias deste domínio.

A visão transdisciplinar propõe, então, uma realidade estruturada em múltiplos níveis e dimensões, em substituição à realidade unidimensional e com um único nível do pensamento clássico (NICOLESCU, 2005). Além disso, o fato de possuir níveis diferenciados de realidade não quer dizer que esses níveis devam estar linearmente organizados. Passar de um nível a outro pode acontecer por meio de “saltos”, sem necessariamente ter que seguir uma hierarquia por assim dizer.

2.2 Lógica do terceiro termo incluído

Durante muito tempo se trabalhou com a lógica da dualidade nas ciências, na filosofia, enfim nos diversos campos de conhecimento. Entretanto, pode existir uma terceira “opção” que não precisa, necessariamente, ser o oposto daquilo que se tem, ela pode ser complementar, isto é, os problemas complexos exigem uma terceira lógica, a da complementaridade dos opostos.

Segundo Santos (2005), a transdisciplinaridade transgride as fronteiras epistemológicas de cada ciência disciplinar e constrói um novo conhecimento por meio das ciências, um conhecimento integrado em função da humanidade, resgatando as relações de interdependência, pois a vida se constitui nas relações mantidas pelo indivíduo com o meio ambiente.

2.3 Complexidade dos Fenômenos

Todos os fenômenos da vida se manifestam de forma complexa, ou seja, na complexidade das relações que são estudadas separadamente pelas ciências exatas, biológicas e humanas. A interdependência é um princípio que sustenta a vida nesse planeta. Não se pode negar a interdependência entre ciência e cultura, pois estaremos negando o ser dos sujeitos.

É imprescindível ver e lidar com a complexidade do mundo em todos os seus níveis, não se pode obscurecer as inter-relações entre os fenômenos do universo por meio da simplificação, separando, por exemplo, o objeto de seus contextos para estudá-lo. A transdisciplinaridade é a dissolução dos discursos homogeneizantes em todas as áreas.

3 A Transdisciplinaridade e a Educação

Em todos os segmentos da sociedade, mudanças radicais têm feito com que as relações entre pessoas, as situações e o meio ambiente se modifiquem. Novos modos de pensamento tem se estabelecido a partir do surgimento de novas tecnologias que exigem do cérebro novas disposições neurais. Diante disso, torna-se inevitável que a educação leve em consideração as diversas dimensões do ser humano. Essa multidimensionalidade exige novos modos de se desenvolver o processo de ensino-aprendizagem.

Não há como se construir receitas que se encarreguem de lidar com os novos modos de aprendizagem que vão surgindo, entretanto, continuar promovendo uma educação despersonalizada poderá afastar cada vez mais os indivíduos das instituições educacionais. Diante desse quadro, a UNESCO publicou o relatório da Comissão Internacional sobre a Educação para o Vigésimo Primeiro Século, presidida por Jacques Delors, a qual enfatizou os quatro pilares necessários a um novo tipo de educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver em conjunto e aprender a ser.

Levando em consideração que esses quatro pilares contemplam grande parte das dimensões humanas, conclui-se que a abordagem transdisciplinar pode ser importante contribuição para esse novo tipo de educação. Mas eles devem ser trabalhados a partir de uma trans-relação que perpasse a todos e vá além.

Uma educação transdisciplinar pode estabelecer a relação necessária se visualizar e trabalhar o ser humano em sua totalidade, de forma integral, de modo a abarcar todas as dimensões humanas e desenvolvêlas. Para isso, a educação precisa ser permanente, acontecendo não apenas nas instituições, mas também nos outros ambientes.

Embora seja necessário nas instituições de ensino o trabalho pedagógico, para ser transdisciplinar, não exige que se contrate novos profissionais ou que se crie uma nova disciplina com essa denominação. Esse trabalho pode se construir em qualquer coletivo que se queira tornar transdisciplinar, tendo em vista a multidimensionalidade do ser humano, corporalidade e sensibilidade para além de seu cognitivo.

Nicolescu (2005), no Manifesto da Transdisciplinaridade, anteviu que a solução seria gerar, nas instituições de ensino, oficinas de pesquisa transdisciplinar, cujos membros mudem com o decorrer do tempo, agrupando educadores e educandos.

A evolução transdisciplinar da educação será realidade a partir da efetivação de aspectos sintetizados em sete eixos básicos no documento A síntese do Congresso de Locarno (NICOLESCU, 2005), o I Congresso Internacional da Transdisciplinaridade, e que estão sendo desenvolvidos por pesquisadores transdisciplinares. Esses eixos foram assim organizados: 1-A educação intercultural e transcultural. 2-O diálogo entre arte e ciência. 3-A educação inter-religiosa e trans-religiosa. 4-A integração da revolução informática na educação. 5-A educação transpolítica. 6-A educação transdisciplinar. 7-A relação transdisciplinar: os educadores, os educandos e as instituições e metodologia subjacente.

Para Hernández (1998), a transdisciplinaridade representa uma concepção da pesquisa baseada num marco de compreensão novo e compartilhado por várias disciplinas, acompanhado pela interpretação recíproca das epistemologias disciplinares. A cooperação dirige-se para a resolução de problemas, criando transdisciplinaridade pela construção de um novo modelo de aproximação da realidade ao fenômeno.

Hernández (1998) defende, ainda, que levar em conta uma perspectiva transdisciplinar do saber na organização do currículo implica que os educandos possam apreender as seguintes estratégias de interpretação: 1-Questionar toda forma de pensamento único, o que significa suspeitar e questionar a realidade baseada em verdades estáveis e objetivas. 2-Reconhecer, diante de qualquer fenômeno que se estude, sua epistemologia, a realidade que representa e as representações que nela influem. 3-Incorporar uma visão crítica que permita refletir sobre a quem beneficia essa visão dos fatos e a quem marginaliza. 4-Introduzir, diante do estudo do fenômeno, opiniões diferenciadas, de maneira que se perceba que a realidade se constrói a partir de pontos de vista diferentes e que alguns se impõem diante de outros, nem sempre pelo argumento, mas também pela força que os estabelece; e 5-Colocar-se numa perspectiva de certo relativismo no sentido de que a toda realidade corresponde uma interpretação.

As interpretações trabalham com visões de mundo e da realidade que estão conectadas a interesses que quase sempre têm a ver com a estabilidade de um status quo e com a hegemonia de certos grupos.

Todos esses aspectos supracitados estão relacionados a uma transposição de limites do ser humano, o do cérebro. Esta transposição se dá no momento em que a mente humana projeta-se materialmente para fora dele produzindo resultados que não são produtos de processos naturais (NICOLESCU, 2005).

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