projetar do popular-O fator Local

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Jorge Montana

1 O local tem o potencial de converter-se em global, a œnica

Jorge Montana possibilidade de fazer design Ø sendo local. Andries Van Onck

À Vera, minha esposa, sem cuja colaboraçªo e apoio nªo teria sido possível esta jornada

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Índice:

Apresentaçªo - 3 Introduçªo - 4 Capítulo 1 O local Ø o Nordeste - 5 Capítulo 2 O setor do móvel e o Design - 10 Capítulo 3 Estudo do fator local; procurando identidade -14 Capítulo 4 O móvel popular - 17 Capítulo 5 Fator local a favor - 24 Segunda parte - Da teoria a prÆtica - 27 Capítulo 6 A Jangada -28 Capítulo 7 Da Jangada ao produto -3 Capítulo 8 À partir do móvel popular espaguete-45 Capítulo 9 À partir do folclore - 47 Capítulo 10 CenÆrios - 50 Capítulo 1 Outros casos - 57 Conclusªo - 63 Bibliografia - 6

Jorge Montana

Apresentaçªo:

Este trabalho partiu de uma pesquisa das particulares condiçıes climÆticas, econômicas, sócio-culturais, matØrias primas e sistemas produtivos da zona central do Nordeste do Brasil, CearÆ e Pernambuco, e de uma anÆlise e aplicaçªo de conceitos implícitos em artefatos como a rede, o móvel popular e a jangada. Com base nesta pesquisa, foram projetados vÆrios móveis que aproveitam a seu favor este fator local , demonstrando assim, que à partir do local , Ø possível estabelecer um diferencial perceptível a escala global. O presente texto relata e analisa dito processo teórico - prÆtico. O resultado foi inicialmente apresentado como tese de pósgraduaçªo em Design de Móveis Mercosul, mestrado realizado no Centro de Diseæo Industrial de MontevidØu em 2000 e 2001. Com o entusiasta apoio do Sindmóveis-PE e algumas empresas pernambucanas de diferentes portes, a teoria aqui apresentada foi aperfeiçoada e posta em prÆtica. A aceitaçªo dos produtos derivados desta experiŒncia, em particular de algumas peças da coleçªo Jangada - mençªo honrosa nos concursos Movelsul 2002 e MCB 2001 - culminou com o lançamento destes móveis por parte de uma empresa pernambucana na Movelsul 2002. Uma consequente teoria derivada deste trabalho, tem sido expressa em forma de palestras e oficinas prÆticas, criaçªo de outros produtos inØditos em vÆrias empresas moveleiras de Pernambuco, e finalmente, na presente monografia, que pretendo compartilhar, colaborando assim no discurso da identidade no Design.

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Introduçªo:

Apesar de que nos encontramos em um mundo cada vez mais uniformizado em virtude da velocidade das comunicaçıes e das políticas globalizadas, cada regiªo do planeta mantØm, inclusive dentro de um mesmo país, características intrínsecas, devido aos costumes e cultura de seus habitantes, suas condiçıes climÆticas, localizaçªo geogrÆfica, fatores sócio-culturais, condiçıes econômicas, etc.

A arte popular, a arquitetura, os móveis e os artefatos sªo muitas vezes exemplos magistrais de adequaçªo a estas características locais.

O designer tem neste tipo de soluçıes, fontes de sabedoria das quais pode extrair formidÆveis liçıes tornando assim possível desenvolver novos produtos com forte identidade e linguagem próprios, adaptados às novas necessidades e mercados. Tomando como ponto de partida tais elementos, distanciados dos modelos tradicionais ou impostos por outras latitudes, Ø possível de forma desencadeante, lograr um diferencial, sob o qual, futuramente, poder-se-ia falar de móveis ou produtos genuinamente próprios.

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Capítulo 1

O local Ø o Nordeste

Com Ærea superior a 1,5 milhªo km† (18% do território nacional) o Nordeste abriga 46,5 milhıes de habitantes, quase 30% da populaçªo brasileira. A regiªo Nordeste inclui os estados do Maranhªo, Piauí, CearÆ, Rio Grande do Norte Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. As principais metrópoles regionais em ordem de importância econômica sªo as cidades de Salvador, Recife e Fortaleza. O Nordeste tambØm Ø a regiªo brasileira mais próxima dos mercados europeu e norte-americano, o que lhe confere vantagens considerÆveis no comercio internacional.

Nas œltimas quatro dØcadas, o Nordeste passou de fabricante de bens tradicionais para produtor de aços especiais, produtos eletrônicos e petroquímicos, barcos, chips, software, calçados, frutas e flores para consumo interno e exportaçªo. A economia da regiªo tambØm se baseia na agroindœstria do açœcar e cacau, e nas plantaçıes de arroz nos vales œmidos do Maranhªo.

de diversos tipos de empreendimentos

A regiªo estÆ investindo pesadamente na modernizaçªo da sua infraestrutura e Ø hoje um ambiente favorÆvel à implementaçªo

O setor do turismo tem demonstrado grande potencial, crescendo consideravelmente nos œltimos anos. O Nordeste Ø a regiªo que mais cresce no Brasil e sua economia jÆ ultrapassa

Jorge Montana os R$134 bilhıes superando inclusive vÆrios países de AmØrica Latina.

Os estados do CearÆ e Pernambuco na regiªo central nordestina disputam a liderança na produçªo de móveis.

O CearÆ abrange uma superfície de 148.016Km2, equivalente ao 9,6% dos nove estados da regiªo Nordeste e ao 2% do território brasileiro. Seu litoral estende-se por 573 Km de belas paisagens de inesgotÆvel potencial turístico, uma característica de toda essa regiªo brasileira. Em seus 184 municípios estªo distribuídos 6,8 milhıes de habitantes.

Situado numa regiªo semi-Ærida, de clima tórrido, e, sendo um dos mais pobres estados do país, apresenta no entanto, desde uma dØcada atrÆs, um crescimento maior devido a um projeto administrativo moderno e bem fundamentado, que prioriza a instalaçªo de indœstrias com benefícios fiscais em seus 2 distritos e parques industriais jÆ implantados, ou em processo de implantaçªo, dotados pelo governo de toda a infraestrutura necessÆria.

Em algumas regiıes melhores tratadas pela natureza sªo produzidas frutas tropicais, carnaœba, algodªo, pecuÆria de bovinos, ovinos e caprinos. Existe certa industrializaçªo para produçªo de algodªo (unidades tŒxteis), calcÆrio, e pinturas. Ao oeste, a irrigaçªo favorece o cultivo do caju, mandioca, algodªo, feijªo, milho, hortaliças, cafØ, e cana de açœcar. Possui indœstrias de couro, peles, madeira, tŒxteis, cimento e plÆstico.

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Pernambuco, estado fronteiriço com o CearÆ, estÆ localizado numa posiçªo geogrÆfica central e altamente estratØgica, com cerca de 30 milhıes de consumidores a nível regional, sendo sua capital, Recife, um centro dinâmico de distribuiçªo de produtos e serviços da regiªo, eqüidistante de Fortaleza e Salvador. O estado de Pernambuco, responsÆvel por 20% do PIB do Nordeste, conta com a melhor infra-estrutura de transportes da regiªo e uma base produtiva bem diversificada.

O desenvolvimento do CearÆ na œltima dØcada logrou que sua capital, Fortaleza, chegasse a ser a quinta cidade do Brasil em populaçªo e uma das mais solicitadas para o turismo.

Fortaleza estende-se por 336 Km† de Ærea, a 2 graus do equador, ao nível do mar. Conta com uma populaçªo aproximada de 2,2 milhıes de habitantes. Os principais atrativos turísticos da cidade sªo suas praias contíguas, algumas de areia de diferentes cores, imensas dunas e nascimentos de mananciais de Ægua doce, onde em suas margens, encontram-se pitorescas e multicoloridas povoaçıes de pescadores.

Em realidade, a grande Recife, zona metropolitana totalmente emendada, que agrupa as cidades de Paulista, Olinda, Recife e Jaboatªo, supera a Fortaleza em populaçªo. Cidade tradicional com muitas universidades e um melhor nível cultural, Recife, pela sua localizaçªo estratØgica Ø o centro de distribuiçªo regional das maiores empresas do Brasil e base de prestaçªo de serviços, abrigando um dos maiores pólos mØdicos do Brasil, quatro universidades de gabarito, vÆrias faculdades independentes e centros de pesquisas que possuem um

Jorge Montana quantitativo de pesquisadores e professores com títulos de mestre e doutor que Ø mais do dobro do que se encontra em qualquer outro estado do Nordeste . Conta com excelente aeroporto, (atualmente em fase de ampliaçªo) detentor da maior pista regional, alØm de um novo e moderníssimo porto (SUAPE) a 45 Kms da capital.

1-3 PALETA e CULTURA: A maior parte da regiªo Nordeste encontra-se situada em Ærea equatorial, motivo pelo qual sua luminosidade Ø bastante forte, o que torna as cores muito brilhantes. Esta luz tªo forte desbota rapidamente o colorido dos móveis e construçıes à intempØrie, predominando assim as cores pastØis. A forte brisa marinha ao levantar a areia, causa permanente fricçªo contra os objetos que estªo na praia, produzindo interessantes texturas, que podemos apreciar facilmente.

Tratando-se de estados predominantemente secos, nªo observamos, como em outras regiıes tropicais abundante variedade de vegetaçªo. As praias, com suas enormes dunas e o contraste com o azul do mar e a vegetaçªo rala, determina uma gama de cores bem característica, composta primordialmente por vÆrios tons de azul, creme, areia, marrons e verdes. As frutas típicas, coco e o caju, este œltimo, de cor amarelo ou vermelho com a castanha na parte superior; a abundante fauna nativa, pÆssaros, borboletas e insetos; a variedade de seus tecidos artesanais, especialmente em linho e algodªo; os trabalhos trançados em diferentes materiais como palha de carnaœba, cipó, e um rico universo artesanal de grande diversidade, destacam o Nordeste.

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A grande riqueza desta regiªo Ø sem duvida nenhuma sua cultura popular, presente na mœsica, festas e folclore, literatura de cordel, artesanato e artefatos, arquitetura e outras manifestaçıes.

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Capítulo 2

O Setor Do Móvel e o Design

Concentrando 30% da populaçªo brasileira, o Nordeste representa quase 20% do potencial de consumo nacional de móveis e artigos do lar. Apenas 20% de todo o mobiliÆrio consumido no Nordeste Ø aí fabricado; o restante procede principalmente dos pólos moveleiros do sudeste e sul do Brasil, onde estÆ concentrada a produçªo.

A maior parte da populaçªo vive em zonas urbanas (60.6%). O consumidor nordestino procura principalmente preço, porØm pela acirrada concorrŒncia dos œltimos anos, tambØm apreendeu a exigir qualidade. Outra característica marcante do Nordeste estÆ associada ao fator poder aquisitivo. O contraste entre ricos e pobres Ø bem maior que em outras regiıes do Brasil, sendo o Nordeste o campeªo em concentraçªo de renda, o que tal vez explique o fato do varejo de móveis ter duas concentraçıes distintas: as das lojas de alta classe e a do varejo popular. O padrªo mØdio concentra uma estreita faixa do mercado e encontra-se associado ao fato das grandes redes nªo proliferarem na regiªo. O varejo de móveis Ø dominado pelas redes regionais. Diferentemente do sul, onde se praticam prazos mais curtos para obter preços melhores, no Nordeste os prazos mØdios do varejo sªo de 120 dias, em funçªo das características jÆ mencionadas.

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O setor de produçªo do móvel, com contadas exceçıes ainda Ø bastante precÆrio no Nordeste. O CearÆ, seguido por Pernambuco, Ø o principal produtor da regiªo, embora com uma parcela pouco significativa do mercado. Pernambuco atØ os anos 80s era o principal produtor da zona, quando atendia majoritariamente seu mercado interno e regional; à partir desta dØcada atØ agora, devido a forte concorrŒncia de empresas mais competitivas dos estados do sul do Brasil, e de políticas fiscais errôneas(atØ hoje o ICMS Ø 5 pontos maior que o dos estados do sul para os móveis locais), o estado viu sua competitividade seriamente afetada, o que ocasionou o fechamento da maior parte das fÆbricas tradicionais de móveis. Os principais pólos moveleiros nordestinos, localizam-se no interior do estado de CearÆ, nas cidades de Marco e Bela Cruz, onde sªo elaborados móveis de madeira, e em Iguatœ, onde se fabricam principalmente móveis tubulares. Em Pernambuco alØm da regiªo metropolitana de Recife, destacam-se as cidades de GravatÆ, Lajedo e Afogados .

As matØrias-primas, quase todas elas, sªo originÆrias de outros estados; a madeira, da regiªo amazônica, que fica relativamente perto, e tambØm do Paraguai e sul do país. JÆ se começam a fabricar móveis em eucalipto cultivado, produzido no sul da Bahia.

À exceçªo do algodªo, utilizado para tecidos e redes e manufaturado por importantes empresas que exportam a maior parte da produçªo, o Nordeste nªo conta com matØrias primas próprias a escala industrial, embora qualquer insumo ingresse facilmente via marítima ou terrestre. Isso implica um alto sobre-custo, jÆ que a maioria das peças, especialmente de matØrias primas semi-processadas vem do sul.

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Um fator pouco estudado ou mesmo ignorado com respeito ao mobiliÆrio Ø a sua inter-relaçªo com os fatores climÆticos; as altas temperaturas, umidade relativa, insetos, pragas e alta maresia, sªo fatores que afetam dramaticamente a durabilidade e praticidade do móvel.

2-1 DESIGN NO NORDESTE :

O Nordeste conta com poucas faculdades profissionais de

Design, localizando-se estas em Campina Grande (cidade da Paraíba), Recife, Sªo Luís e Salvador; no entanto Ø muito pobre a participaçªo dos profissionais de Design Industrial dentro do setor produtivo. Observa-se ainda nªo existir uma vinculaçªo direta das universidades com a indœstria. O Design, a nível empresarial, Ø bastante precÆrio, e, com raras exceçıes, utilizado. A quase totalidade dos móveis produzidos nestes estados corresponde a cópias.

No CearÆ, a participaçªo dos designers, Ø inexistente, assim tambØm como o real interesse do empresariado local em implementÆ-lo. Os empresÆrios cearenses normalmente copiam os lançamentos efetuados nas feiras do sul e do exterior com minguadas mudanças ou trabalham com modelos determinados pelos clientes. Pernambuco possui a faculdade de design mais antiga da regiªo, e em Recife, encontram-se operando reconhecidas empresas de design (especialmente nas Æreas visual e de embalagem) e uma tradicional Associaçªo de Designers. O Sindicato de Móveis do estado pernambucano, organiza anualmente um concurso de Design do Móvel na procura de novos talentos dentro da feira regional denominada Utimóveis .

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Levando em conta todos estes aspectos, pode-se afirmar, que Pernambuco, a nível de Nordeste, Ø o estado mais viÆvel em termos de implementaçªo de programas e açıes efetivas de Design.

NOTA: Esta anÆlise nªo inclui o estado da Bahia pois a pesquisa foi feita na regiªo central do Nordeste.

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Capítulo 3

Estudo do Fator Local: procurando identidade

A soma das características e dificuldades do setor de móveis e design, sempre inspirado na concorrŒncia ou no mercado alto, e pendente das tendŒncias de Milªo, nªo tem dado um resultado apreciÆvel em termos de desenvolvimento, muito pelo contrÆrio, a participaçªo vem decrescendo em termos comparativos com outras regiıes, com melhores vantagens competitivas. É necessÆrio procurar uma linguajem própria; a soluçªo estÆ em procurar os próprios caminhos. A discussªo sobre identidade pode parecer ultrapassada em um mundo globalizado, onde as necessidades e desejos de consumo da populaçªo parecem estar-se uniformizando, mas na verdade, e devido a isso mesmo, Ø que esta discussªo toma de novo radical importância, jÆ que tal uniformidade, em volume, Ø causadora da guerra de preços em meio a acirrada concorrŒncia, esquecendo-se aí as características regionais e culturais do consumidor, e principalmente, a sua necessidade de identificaçªo com o objeto comprado, como de fato acontece no setor de moda (vestuÆrio).

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