A- pesquisa-mudando-a-consciencia-redefinindo-abordagens

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1INTRODUÇÃO À PRÁTICA DE PESQUISA SOCIOAMBIENTAL

O Processo Ético e Estético de Pesquisar:

Um Movimento Qualitativo Transformando Conhecimentos e a Qualidade da Vida Individual-Coletiva

Zuleica Maria Patrício, Dra.

Professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da

Universidade do Sul de Santa Catarina. Professora Colaboradora da Universidade Federal de Santa Catarina

1A PESQUISA:

Se você veio para me ajudar, pode tomar seu caminho de volta. Mas se crê na minha luta como parte de sua sobrevivência, então talvez possamos trabalhar juntos (Aborígine Australiano).

No decorrer da História humana, o conhecimento tem representado um grande poder para explicar fenômenos e situações que promovem ou limitam a vida e para intervir nas práticas humanas.

A questão é que as pesquisas geradoras desses conhecimentos nem sempre estão comprometidas com a vida coletiva; ou mesmo, o modo de divulgação – muitas vezes de manipulação – torna esses conhecimentos riscos para a vida.

Entendemos que pesquisas cujos processos e produtos tenham base em princípios éticos e estéticos de vida saudável individual-coletiva estimulem a consciência humana com vistas a transformar limitações em possibilidades de melhorar a qualidade da vida, no espírito da bioética integral.

Pesquisar é descobrir, é desnudar o que existe, algo que ainda não foi trazido ao conhecimento (DOSSEY, 1986). Isso significa que os fatos, os fenômenos, as situações e os eventos que nos despertam estranheza e curiosidade, estão no ambiente – natural e cultural – ou estão sendo construídos socialmente. Em outras palavras, o objeto de estudo ao qual estamos dedicando atenção faz parte da nossa realidade.

Pesquisa, para MINAYO (1996, p.17), é a

"atividade básica da Ciência na sua indagação e construção da realidade. É a pesquisa que alimenta a atividade de ensino e a atualiza frente à realidade do mundo. Portanto, embora seja uma prática teórica, a pesquisa vincula pensamento e ação".

Historicamente, pesquisar tem sido o caminho humano para responder questões e para construir novas idéias e novos ideais, seja no mundo acadêmico, seja no mundo da vida cotidiana. Assim, a pesquisa como um micromundo humano de buscas, objetiva explicar fatos e fenômenos; descobrir causas e feitos de problemas e também encontrar soluções para a vida. Por isso a pesquisa tem um papel importante na reconstrução do mundo e na definição das ciências que envolvem a vida como um todo.

Não só as instituições de ensino, mas toda e qualquer organização ou comunidade evolui pela busca contínua de conhecimentos, através de pesquisas referentes ao próprio contexto, integradas a conhecimentos já produzidos e que possam ser aproveitados para solucionar dificuldades ou aprimorar a realidade, o que sugere maior importância à prática de socialização dos conhecimentos e dos processos que geraram estes conhecimentos.

flora, a fauna(PATRÍCIO, 1995a).

As condições de vida que se inscreve e a perspectiva de intensificação de agravos e limitações no processo de viver são reforçadas pela não consciência da importância da sustentabilidade integral. Isso mostra que o ser humano como ser ecológico-social precisa ainda re-educar-se para abrir-se a outros pontos de vista e então aprender a desenvolver a cidadania universal, aquela que está além da cidadania local, pela qual todo o ser humano - por ser humano - tem direito, mas também - por ser humano - tem deveres em relação a toda a rede de eventos do planeta, como com a água, o ar, a

Por conta do conhecimento que temos sobre as repercussões dos atos humanos no ambiente, muita destas já bem presentes na qualidade da vida em geral, podemos imaginar o futuro da sustentabilidade. Entretanto, também por conta dos

3INTRODUÇÃO À PRÁTICA DE PESQUISA SOCIOAMBIENTAL conhecimentos que temos das potencialidades humanas de repensar e refazer práticas é que acreditamos na possibilidade desenvolvermos processos de re-criação desse cenário.

Isso, segundo Patrício (1999a), não significa negar conflitos e dores; afinal estes são substratos da construção da vida, mas evitá-los na extensão que hoje vivenciamos, de maneira a desenvolver possibilidades de transformá-los em recursos de bem viver individual-coletivo por meios mais "civilizados": menos violentos e delitivos, mais solidários, amorosos, dialógicos e reflexivos, e menos ditatoriais e escravocratas; mais compartilhados e sem apartheid, incluindo a relação com os elementos de natureza não humana.

Mais atualmente, com base em proposições da Plataforma de Quebec, percebe-se que é impossível pensar na qualidade da saúde humana e do ambiente sem pensar na qualidade de vida de todos: "todos", todos os elementos da complexa teia composta por todas as vidas e demais elementos "inanimados" do ambiente.

As premissas que compõem essa Plataforma vieram reforçar e aperfeiçoar princípios e políticas de promoção à saúde, orientadas a partir do encontro de Alma Ata em 1978 e atualizadas pelos conteúdos da Carta de Otawa (Canadá/1986), Declaração de Adelaide (Austrália/1988), Declaração de Sundsvall (Suécia/1991), Declaração de Bogotá (1992) e da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio/1992).

A análise desses documentos mostra que as propostas de encaminhamentos geradas em cada evento, são resultados de reflexão critica dos participantes com base em dados científicos que evidenciam a crescente degradação da qualidade da vida por questões sociais e ambientais e suas repercussões na saúde coletiva.

A questão da qualidade de vida como foco das discussões mundiais relativas à promoção da saúde é bastante evidente, a tal ponto que os cinco campos de ação preconizados na Carta de Otawa, a saber:

-elaboração e implementação de políticas públicas saudáveis; -criação de ambientes favoráveis à saúde;

-reforço da ação comunitária, desenvolvimento de habilidades pessoais e reorientação dos sistemas e serviços de saúde;

-foram gradativamente se fortalecendo e se encaminhando para proposta de ações mais focalizadas na necessidade de aperfeiçoamento das intervenções na área da saúde;

-tendo em vista atributos básicos que envolvem a qualidade da vida coletiva.

Assim, a Plataforma de Quebec, orienta para o cuidado da saúde como cuidado da vida de forma geral, a partir da criação de ambientes saudáveis contando com a participação efetiva da população, considerando, por exemplo:

-abordagem abrangente dos fenômenos mas respeitando peculiaridades culturais; -apoio às necessidades individuais e comunitárias;

-as necessidades do indivíduo como pessoa integral;

-a identificação contínua de riscos e de condições de promoção à saúde em todos as dimensões da vida; a melhoria das condições dos ambientes locais, com foco no trabalho e lazer;

-identificação de impactos da vida humana no ambiente natural e ações de proteção;

-participação ativa da população nos processos de identificação e de melhoria de sua qualidade de vida;

-o envolvimento do indivíduo, das famílias, das comunidades e dos setores públicos e privados;

-capacitação de profissionais para maior responsabilidade na mediação entre os diversos interesses e na promoção de desenvolvimento de habilidades pessoais, com vistas a aumentar opções para a população exercer maior controle sobre sua própria saúde e sobre o meio ambiente, bem como para promover condições que melhorem a qualidade da vida individual-coletiva (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1996).

Posto a emergência de transformar a realidade que construímos até hoje e que já está dando sinais de insustentabilidade, sem dúvida, essas propostas levadas a sério, orientam para a necessidade de rever ou ampliar as abordagens que temos dado à pesquisa, aos currículos do ensino médio e superior e aos programas de intervenção que direta ou indiretamente estejam ligados à qualidade da vida, e sugerem a necessidade de formação de profissionais com essa sensibilidade e com potencial para ser um cidadão educador contínuo (VIEIRA, 1998; Vieira, RIBEIRO, 1999, Patrício, 1999a).

5INTRODUÇÃO À PRÁTICA DE PESQUISA SOCIOAMBIENTAL

Na proposta de compreender a complexidade da vida e de inventar e aplicar soluções para seus problemas, é imprescindível estimular a exploração de conhecimentos no meio acadêmico e em outros contextos públicos ou privados, que tenham base em princípios éticos e estéticos de viver saudável individual-coletivo. Nesse ponto de vista, uma pesquisa precisa incorporar objetivos que identifiquem limitações (problemas) e também possibilidades de modificação envolvendo recursos sociais e ambientais, incluindo políticas públicas da mesma natureza, o que, de certa forma, conduz para a abordagem interdisciplinar, na visão e nas ações (Patrício, 1990; 1995a; 1999a).

Neste sentido, a realidade atual e o resgate da História humana quando analisadas sob o ponto de vista de princípios inseridos em paradigmas emergentes, denominados "holísticos", "sistêmicos", "ecológicos" e de "complexidade", promovem a percepção de que todas as disciplinas que trabalham com o ser humano, na produção de conhecimento ou na prestação de serviços, precisam resgatar a compreensão da integralidade da vida. Isso exige a percepção da universalidade, diversidade e unicidade do ser humano; de suas características individuais e coletivas, expressas nas suas especificidades biológico-cultural, afetiva e espiritual que estão sendo construídas na complexa teia da vida individual-coletiva. Aqueles princípios também estimulam a percepção do potencial humano de razão e sensibilidade que potencializa os indivíduos para transformar a realidade e para ser transformado, nos processos de interações interdependentes que desenvolve no emaranhado ambiente ecológico-cultural, local e universal, da sua história de vida (Patrício, 1995a, 1999a).

As concepções teóricas desses paradigmas apontam para uma ciência de âmbito social integrada a questões do ambiente natural, pela qual se concebe a multiplicidade de formas de buscar o conhecimento e o fato de que, num olhar quântico, especialmente tratando-se de fenômeno humano, há diferentes probabilidades de um fenômeno acontecer e que a precisão e as certezas são ilusórias e passageiras.

Esses referenciais, colocados como novos paradigmas, ou paradigmas emergentes, preconizam um fazer ciência preocupando-se menos com a grandeza do conhecimento propriamente dito e mais com suas possibilidade de aplicação no mundo, especialmente, com a repercussão deste na qualidade de vida do ser humano, incluindo a vida do planeta como um todo. Isto, também considerando que a circunstância e complexidade da vida são construídas nas interações culturais e energéticas, orientadas por crenças e valores de indivíduos e grupos de interesse, em encontros de pessoas em diferentes contextos (Patrício, 1995a, 1999a).

Com a mediação de novos paradigmas, é possível perceber com mais clareza o que estamos construindo para nós e para a humanidade atual e futura e que, diante da incômoda realidade de papel de autor e receptor, possamos mudar nossa forma de abordar os fenômenos sociais e aqueles originados da natureza modificada pela cultura humana. Essa é a questão ética e estética que se impõe no contexto da ciência para a vida de forma geral.

Atualmente as discussões epistemológicas acentuam o caráter de instante e de impermanência dos conhecimentos científicos; a certeza da fragilidade das certezas desses conhecimentos e de impropriedades de certos processos de conhecer, tendo em vista especialmente a complexidade dos problemas de pesquisa que envolvem a vida humana e nossa dificuldade de adotar olhares. Isso nos faz perceber que tudo em ciência é discutível, sobretudo nas ciências sociais. Segundo DEMO (1989), não há teoria final, prova cabal, prática intocável e dado evidente. isto é uma característica, não uma fraqueza, o que funda, ademais, à necessidade inacabável da pesquisa, seja porque nunca esgotamos a realidade, seja porque as maneiras como a tratamos podem sempre ser questionadas (Patrício, 1995a, 1999a).

A compreensão desse fenômeno, segundo Patrício (1995a), mostra que existem diferentes caminhos para se produzir conhecimentos e diferentes olhares para analisá-los. Tratando-se de pesquisa que envolva um dado contexto social, uma abordagem desse caráter além de promover a criação e o desenvolvimento de técnicas metodológicas apropriadas a cada objeto de estudo, integraria em sua base o potencial humano da sensibilidade, apoiado na reflexão crítica e intuitiva.

Esse caráter é fundado em princípios éticos e estéticos posto que, produzir conhecimentos implica preocupações e responsabilidades com o processo e o produto da pesquisa, na perspectiva do respeito à vida, e promoção de sentimentos de satisfação dos seres envolvidos na situação estudada (Patrício, 1995a, 1999a).

Assim, segundo Patrício (1999 a), quando pensamos em pesquisar, em produzir conhecimentos fundamentais e aplicados relativos a essa realidade é preciso questionar:

-que métodos dariam conta de produzir conhecimentos sobre a diversidade, unicidade e complexidade da vida humana em suas expressões verbais e não verbais, de razão e sensibilidade?

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-Que métodos dariam conta de abordar a cultura (crenças, valores, conhecimentos e práticas) e sentimentos, em seus significados, sua simbologia, expressados em metáforas, arquétipos, emoções, em diferentes contextos da vida?

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