O apóstolo dos pés sangrentos (Boanerges Ribeiro)

O apóstolo dos pés sangrentos (Boanerges Ribeiro)

(Parte 1 de 7)

Boanerges Ribeiro

Gênero: Biografias

Procedência: Nacional Editora: CPAD

CAPÍTULO 1 A INFLUÊNCIA DO LAR

Em meados do século passado, os siks do Punjab rebelaram-se contra o invasor inglês, e o sangue correu em duas guerras, mas gradativamente os marajás se aproximaram dos oficiais britânicos e a velha autoridade sik começou a ressurgir, até que 3 estados siks se tornaram semi-independentes e os rajás voltaram a exercer suprema autoridade sobre seus súditos.

Deste 3 estados siks, Patiala ou Putiala era o mais importante com cerca de um milhão e meio de habitantes e um imenso território de planícies cultivadas. O país estava dividido em distritos centralizados em determinadas aldeias, de governo hereditário. O distrito que tinha como centro Rampur era governado por Sher Singh e, foi nesta aldeia que, a 3 de setembro de 1889, nasceu-lhe o último filho, que recebeu o nome de Sundar.

A vida em Rampur era tranqüila e patriarca. Como irmão mais velho Sher Singh chefiava não só a sua própria família, mas também a de seu pai já falecido, e alguns dos seus irmãos e sobrinhos residiam com ele no velho solar da família. Outros serviam ao marajá em Patiala e um deles ocupava alto posto na direção do estado.

A influência da civilização ocidental era quase nula. Falavam a língua nacional, praticavam regularmente os atos de culto e as crianças cresciam no respeito aos pais, observando a bela amizade entre marido e mulher e o lugar de honra que a mãe ocupava na casa, como era costume entre os siks. A sonolência da aldeia era apenas sacudida de madrugada pelo apito agudo do comboio de Ludiana que às 5 horas penetrava na estaçãozinha, bufando e cobrindo de vapor quente os passageiros que se erguiam na plataforma onde tinham passado horas à espera, com característico desprezo oriental pelo tempo.

Enquanto a madrugada avermelhava o céu, os meninos tangiam para o pasto os grandes bois de que cuidavam e no bazar iniciava-se a algazarra dos pregões, das juras e das pragas que na Índia acompanham as transações comerciais.

E ao passo que Sher Singh após o banho e rápidas orações tomava a refeição da manhã e saía acompanhado pelos dois filhos mais velhos, para os trabalhos do dia, sua piedosa esposa consagrava-se com mais demora ao banho cerimonial, lia atentamente o Gita e depois dirigia-se ao templo sik, onde cumpria seus deveres de adoração. Acompanhava-a sempre a filha e, quando começou a andar, também o pequeno Sundar, a quem, desde que aprendeu a falar, ensinou as orações que devia fazer ao levantar-se, antes da primeira refeição do dia, pedindo aos deuses o alimento espiritual; inutilmente o pequeno, nas madrugadas frias, tentava satisfazer antes da oração a fome devoradora que o acordava: com palavras carinhosas a mãe o obrigava a iniciar o dia entrando em comunhão com a divindade - e quando palavras carinhosas não o convenciam, reforçava- as com meia dúzia de palmadas, argumento que o filho sempre considerava decisivo, nesses tempos.

Assim cresceu Sundar Singh, ouvindo diariamente a leitura dos livros sagrados que a mãe fazia, acompanhando-a ao templo, atento aos conselhos e às dissertações oraculares do sacerdote, visitando o velho sadu do bosque próximo e escutando às longas, e às vezes, mal compreensíveis palestras que mantinha com sua mãe, para a qual esse sadu era grande e respeitável santo. Mesmo durante o verão, quando a família ia para a propriedade que tinha nas frescas montanhas de Simla, a atmosfera que a mãe criava em torno da filha e de Sundar era profundamente religiosa.

Talvez fosse mais precioso dizer que a atmosfera que envolvia esses três membros da família era de intensa inquietação religiosa - uma inquietação que não atingia Sher Singh, homem prático e dedicado às coisas práticas da terra, nem a seus filhos mais velhos. Mas a mãe sentia haver uma profunda paz reservada para os que atingem a verdade absoluta e, sofregamente buscava essa paz; não se satisfazendo com os ensinos siks, buscava também os brâmanes; jejuava dias seguidos, absorvia-se cada vez mais nas suas orações; e, impelida pela procura da paz, chegou mesmo a receber com alegria a visita que uma vez lhe fizeram as mulheres da Missão Presbiteriana que acabava de abrir uma escola em Rampur. Nada ambicionava mais que a carreira religiosa para o filho menor, a quem seu coração se unia pela mais terna amizade.

Esse afeto moldava a alma dócil da criança e, afinal comunicou-lhe a mesma inquietação febril. Certa tarde regressava do bosque e reinava entre ambos um silêncio pesado de pensamentos; o sadu falara longamente da inexcedível paz reservada aos que atingem o absoluto. Como atingir essa paz? Quando a sombra da grande figueira que cobria a entrada da casa de Sher Singh os abrigou, a mãe colocou a mão no ombro do filho: - Tu deves procurar essa paz na tua própria alma e amar a religião. Um dia poderás ser sadu. E na alma do menino, precoce como em geral o são as crianças indianas, principiou a esboçar-se a angustiante luta consigo mesmo - o desespero que antecede a paz.

A influência de Sher Singh sobre o filho menor não foi tão profunda: separavam-nos os temperamentos diversos. Sundar Singh, desde a infância envolvido pela preocupação espiritual, era introverso; o pai era homem prático e pouco dado a especulações, amarrados aos deveres diários de governador do distrito, melhor compreendido pelos dois filhos mais velhos, que preparava para substituí-lo na administração.

Mas sua figura austera e bondosa marcou também a paisagem da infância de Sundar, que anos mais tarde referiu um incidente bem característico das relações então existentes entre pai e filho: Certo dia em que se dirigia ao bazar para comprar doces, o pequeno encontrou-se com uma velhinha esfarrapada que lhe estendeu a mão. Compadecido, fez o que muitas vezes vira a mãe fazer: deu-lhe as moedas que trazia e voltou sem os doces, mas afligia-o a certeza de que aquelas moedinhas não seriam suficientes para remediar as urgentes necessidades da coitada. Vira o vento frio agitar-lhe os farrapos em torno do corpo magro, e gostaria de poder abrigá-la melhor. Procurou o pai, contou a história e perguntou se não seria possível darem à velha 5 rupias para agasalhos. Distraído, Sher Singh respondeu que várias vezes a socorrera, e que agora competia a outros fazê-lo. Mas o filho não se conformava com esta solução. Sabia onde ficava o dinheiro do pai. Silenciosamente retirou cinco rupias e disparou para o bazar. Mas as moedas queimavam-lhe a mão. Aquilo era roubar, e ele compreendia bem o valor moral da ação praticada. E se o pai descobrisse? Não temia o castigo, mas temia perder a amizade e a confiança da família. Deteve-se. Olhou as moedas, fechou-as novamente na mão e voltou rapidamente. Havia gente perto do cofre. Escondeu o dinheiro e nada disse. Mais tarde o pai notou a falta das rúpias. Falta incompreensível, pois tinha a certeza de havê-las guardado. Procurou melhor - em vão. Perguntou ao pequeno Sundar se as tinha visto e ele respondeu que não. Não era quantia grande e logo Sher Singh se esqueceu do caso.

Anoiteceu e todos se recolheram, após a leitura de um trecho do livro sagrado. Mas o filho mais novo revolvia-se na cama, inquieto. Passou a noite em claro e no dia seguinte, mal a madrugada começou a avermelhar o céu, correu ao lugar onde escondera o dinheiro, retirou-o e foi entregá-lo ao pai, confessando a culpa.

Imediatamente o tormento interior que roía desapareceu, dando lugar a uma tranqüilidade. Que viesse o castigo. Mas Sher Singh apenas o observou, depois de tudo ouvir: - Eu sempre confiei em ti, meu filho, e agora vejo que não me enganava! E estendendo a mão aberta: - Aqui está o dinheiro. Leva-o à mulher.

Podemos imaginar o respeito e a admiração do pequeno pelo pai.

Mas era evidente que o pai não estava em condições de compreender as esquisitices do filho. Enquanto os primos e os irmãos maiores brincavam, Sundar absorvia-se na meditação do sentido dos textos sagrados. Aos sete anos sabia todo o Gita de cor. Quando aprendeu a ler, mergulhou nas Escrituras, e era um quadro comovente o daquela criança com menos de 10 anos, que se curvava junto à lâmpada de óleo, lendo, lendo no silêncio da casa adormecida. Quantas vezes Sher Singh acordava pelo meio da noite e ia arrancar o filho do livro: - Ler até tão tarde faz mal.

Mas mal maior lhe fazia o desespero - a ânsia de paz que o devorava. Quando entrando em casa, o sardar procurava o filho menor, era seguro que o encontraria encolhido em algum canto, pensativo, ou com um livro sagrado na mão, esquecido do mundo. Sacudia -o com amistosa severidade: - Meninos da tua idade só pensam em brincar e em se divertir. Como é possível seres tão cedo dominado pela mania religiosa? Mais tarde tu terás tempo de sobra para pensares nisso. E afastando-se ainda resmungava: - Só pode ter apanhado esta loucura da mãe e do sadu!

Mas a mãe compreendia-o perfeitamente; nas suas orações não deixava de pedir por ele, desejosa de vê-lo sempre tão piedoso. E nessa mútua compreensão, quando os outros o hostilizavam - ainda que carinhosamente - estreitava mais os laços que os uniam. Durante toda a vida sempre se referiu a ela com saudade e amor. "Minha mãe criou-me em atmosfera de devoção. Preparou-me para a obra de Deus. Creio que todo homem religioso tem mãe religiosa. Foi o Espírito Santo que me fez cristão. Mas quem me levou a ser sadu foi minha mãe." Quando nos seus sermões, anos mais tarde, falava às mães, seus olhos brilhavam, e nunca deixava de se referir, agradecido a Deus, à mãe piedosa que tivera. Um pastor, quando lhe sugeriu a oportunidade de freqüentar uma Escola de Teologia, surpreendeu-se com a resposta: - Pois já estive no melhor seminário do mundo - Qual? - O regaço de minha mãe.

Os anos em Rampur passavam-se tranqüilamente, sem agitações nem novidades. Com os anos acentuava-se o temperamento religioso do menino. Ele era agora um adolescente pálido e acanhado e nada indicava a saúde de ferro que mais tarde possuiria. Os moradores da aldeia costumavam vê-lo descer pelo quintal da casa até o leito do caminho de ferro, por onde andava horas, absorto em pensamentos, ou a cruzar as ruas em companhia da mãe, na direção do bosque onde o velho sadu aguardava a morte. Mas um dia a madrugada veio e ele saiu só, mais distraído que de costume, se possível. Logo a aldeia toda ficou sabendo que o sacerdote fora chamado com urgência à casa do sardar, para invocar os deuses em benefícios da dona da casa, gravemente enferma. As visitas do sacerdote se amiudaram; o rosto do Sher Singh cobriu-se de sombras e alguns dias depois o choro subia das varandas da sua casa para os deuses que não haviam atendido ao sacerdote.

A morte da mãe foi para Sundar Singh um golpe doloroso. Foi como se lhe arrancassem uma parte da própria personalidade. Dias e noites penou amargurado, duvidando até da existência de Deus. Tinha 14 anos e penetrava pela via do sofrimento na grande crise que decidiu seu destino: a luta com Cristo.

CAPÍTULO 2 A LUTA COM CRISTO

O espírito de Sundar Singh debatia-se nas trevas e já não havia na terra quem o compreendesse.

Outra grande alma que a Índia conheceu, Renée de Benoit, descreve com termos precisos esse estranho aperto de coração que os adolescentes de temperamento e educação religiosa costumam sentir: "Na Convenção de Chexbres foi como se Deus se escondesse e me deixasse entregue a mim mesma e ao mal. Os hinos que ressoavam aos meus ouvidos e a linguagem cristã causavam-me repulsa. A nossa mãe não atinava com o que eu tinha. Não fui jantar naquele dia; soluçava no meu quarto. Oh! Era terrível. Não podia orar..."

Renée de Benoit era filha de Cristãos, dos quais recebera desde a mais tenra infância o conhecimento de Cristo através de informações fornecidas por outrem, mas não o encontrara pessoalmente; de súbito verificava que o que a alma desejava era uma experiência da realidade e não apenas informações a respeito dela.

A lutas desse outro adolescente, Sundar, é mais patética: a alma sente que existe o Caminho, mas não o conhece; anseia por ele, e tateia nas trevas. São dois náufragos entregues ao poder maléfico das ondas. Um vê ao longe a praia e esforça-se por alcançá-la; outro, cego, sente que existe praia, mas não sabe onde e luta com as ondas e com o próprio desespero.

"Nem um instante posso viver sem ti, Senhor. Tenho tudo quando sinto que estás em mim: porque Tu, Senhor, és o meu tesouro. Suspiramos por ti, ó Senhor; temos sede de ti. Somente em ti nosso coração descansa."

Estas palavras dos mestres acenavam com uma paz inexcedível. Mas onde encontrá-la? Nos livros sagrados? Acentuava-se a cada dia a sua tendência de devorador de textos religiosos. Aos 15 anos já conhecia o Granth dos siks, o Corão, e cerca de 52 Upanishads. Ou seria nas boas obras que se encontrava a salvação? Não havia mendigo no distrito que não o procurasse, pois sua fama de caritativo já se espalhara.

Mas cada dia, depois de atravessar todos os tediosos rituais do sikismo e do hinduísmo, de perder horas embebido nos livros e de atender a todos os mendigos, lá se dirigia cabisbaixo e pálido, para o bosque, à procura das sábias palavras do sadu. E cada dia regressava mais vencido, como um tântalo adolescente que nem ao menos visse o lago de água fresca para os lábios febris.

Afinal, depois de te tentar inutilmente acalmar aquela sede assustadora com citações e discursos, o velho santo do bosque confessouse vencido: - Meu filho, é inútil perderes tempo agora com estas coisas. E, vendo acentuar-se a amargura nos olhos do rapaz: - Mais tarde conseguirás entendê-las. Mais tarde?

Falava-se muito nas práticas sublimes do ioga. Um homem que se assenhoreasse de seus mistérios conheceria o Céu na Terra e entraria imediatamente na posse da salvação. Havia em Rampur um brâmane iogue, e Sundar procurou-o, sujeitando-se ao penoso aprendizado dessa arte de auto-hipnotismo. Chegou ao êxtase. Era uma maravilha. Tudo desaparecia, para dar lugar à veemente sensação de paz e esquecimento. Horas depois - ou seriam minutos? - voltou a si, sob o riso radiante do brâmane, seu mestre. Mas a cabeça pesava e o corpo doía, como se houvesse transportado pesada carga. O mundo era o mesmo e, Sundar Singh era também o mesmo, ainda com mais tristeza e amargura na alma, depois do transe enganador.

Abandonou o ioga. Buscava a Realidade, e não um fogo fátuo. Sher

Singh cada dia se preocupava mais com o filho. O rapaz definhava agarrado aos livros ou com os olhos fitos no vácuo, esquecido do mundo. Nem estudara, depois de aprender a leitura. Talvez novas preocupações o curassem daquela infeliz mania.

Dizia-se que os mestres da missão americana ensinavam bem.

ter contato; mas ensinavam bem e não havia outra escola em Rampur

Verdade que eram malditos cristãos, com os quais um bom sik não devia Sundar foi matriculado na escola presbiteriana. Cruzou o portal em companhia de outro adolescente de Rampur que no mesmo dia se matriculara.

Desambientados, foram sentar-se na carteira que a professora indicou e dali Sundar examinou cautelosamente a sala e a professora; a desconfiança bailava nos seus olhos negros e profundos. A estrangeira apanhou na mesa um livrinho de capa preta e entregou-o aos novatos, aberto no início, para verificar o seu grau de adiantamento. O filho do sardar tomou-o e leu-o em silêncio no ponto em que a unha da professora assinalara: "Pai nosso que estás nos Céus, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino..." Recuou algumas linhas, e viu o nome de Cristo. Era o livro dos cristãos! Fechou-o imediatamente e empurrou-o, temeroso do contato imundo. - Leia, convidou a professora. Após longo silêncio, ressentido, Sundar replicou: - Por que o leria? Somos siks. O nosso livro sagrado é o Granth. - Mas o que eu quero não é que se façam cristãos; você pode ler o Novo Testamento e continuar sendo sik.

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