Promoção da saúde

Promoção da saúde

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padronização do tempo através de regiões, pois até então os tempos eram diferentes dentro de um mesmo Estado.

O esvaziamento do tempo foi pré-condição para o esvaziamento do espaço, que se dá através da separação entre o espaço e o lugar. Na modernidade os espaços se tornam cada vez mais virtuais e passam a ser moldados por influências sociais bem distantes deles. A separação do espaço/tempo é essencial ao dinamismo da modernidade porque é condição para o processo de desencaixe. Por desencaixe o autor refere o deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação que passam a ser reestruturados através de extensões indefinidas de espaço/tempo.

Giddens destaca dois mecanismos básicos de desencaixe: fichas simbólicas e os sistemas peritos. Como fichas simbólicas destaca o dinheiro, meio de intercâmbio que pode circular sem ter em vista as características dos sujeitos ou grupos que lidam com ele. O dinheiro se torna um mecanismo de desencaixe na medida em que é um modo de adiantamento, pois proporciona meios de conectar o crédito à dívida em momentos em que a troca imediata de produtos é impossível. Desta forma retarda o tempo e separa as transações de um lugar particular de troca. Assim o dinheiro possibilita a realização de transações entre agentes amplamente separados no tempo e no espaço, sendo um meio de distanciamento espaçoltempo.

Os sistemas peritos são sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam áreas dos ambientes materiais e sociais que vivemos hoje. São também considerados mecanismos de desencaixe, pois removem as relações sociais das imediações do contexto em que ocorrem, uma vez que oferecem garantias de expectativas de espaço e tempo distanciados. Estes mecanismos estabelecem alongamentos de sistemas sociais uma vez que as pessoas confiam nos sistemas peritos. Poderíamos exemplificar esta situação quando indivíduos compram determinado produto, como um automóvel, porque confiam na capacidade técnica e eficiência

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desaparecem implodindo a totalidade social. Enquanto a modernidade se caracterizaria pelo desencanto, pela destruição das aparências, na pós-modernidade há a destruição dos significados. Para Baudrillard as massas, esta maioria silenciosa e indiferente, são como um buraco negro que absorvem tudo e não refletem nada, respondendo pelo abismo dos sentidos que caracteriza a sociedade atual.

Ainda para Baudrillard (apud Tachner,1999), a sociedade pós-moderna seria dominada pela presença dos simulacra, que são representações ou cópias de objetos que servem de modelo e precedem a realidade social. Estes modelos constituem uma hiper-realidade e passam a estruturar a vida cotidiano; constituindo assim uma sociedade de simulações.

Como outros autores, Giddens não define as mudanças atuais como a entrada na pós-modernidade, mas acredita estarmos "alcançando um novo período em que as conseqüências da modernidade estão se tornando mais radicalizadas do que antes" (Giddens,1991). Portanto ao nos referirmos a Giddens usaremos o termo modernidade em vez de pós-modernidade. Segundo este autor, para se entender a natureza da modernidade é necessário dar conta do extremo dinamismo e do alcance globalizante das instituições modernas.

O dinamismo da modernidade seria derivado da separação do tempo e do espaço; do desencaixe dos sistemas sociais e da ordenação e reordenarão reflexiva das relações sociais. Segundo Giddens (1991) há conexões entre a modernidade e as transformações tempo/espaço. Estas transformações começam a ocorrer no final do século XVIII com a invenção do relógio mecânico expressando uma dimensão uniforme do tempo vazio. Com a uniformidade de mensuração do tempo, através do relógio, foi possível o estabelecimento da correspondente uniformização da organização social do tempo. Podemos observar este fato com a padronização mundial dos calendários. O mesmo ocorre com a ocorreram e vêm ocorrendo no mundo atual e do significado e impacto delas na vida social.

Há um consenso de que os anos 1980 apontam para o limiar de uma nova era, que conduz a humanidade para além da modernidade. Esta transição é caracterizada pelo uso de diferentes termos. Alguns autores definem este período como a emergência de um novo sistema social (observamos isto na utilização dos conceitos "sociedade de consumo, sociedade de informação"). Para outros autores, a utilização de termos como pós-modernidade ou pós-modernismo indicam o encerramento de um período (Giddens,1991).

Não iremos aqui nos deter nestas diferenças conceituais: adotaremos o termo pós-modernidade para caracterizar, ainda que de maneira imprecisa, a vida nas sociedades capitalistas contemporâneas.

Em 1973, Daniel Bell estabelece um debate precursor sobre este tema quando introduz a noção de sociedade pósindustrial. Na obra The coming of Post Industrial Society, discute as mudanças que ocorrem na vida socioeconômica, as quais, derivadas da incorporação de novas tecnologias, levam a uma sociedade com ênfase na informação e no conhecimento.

Jean François Lyotard foi o primeiro responsável pela popularização da noção de pós-modernidade. O que a caracteriza, em termos da condição do conhecimento, é a ausência de uma grande narrativa, isto é, de um enredo que nos insere na história tendo um passado e um futuro previsível. Enquanto a modernidade poderia ser explicada em termos de uma narrativa, como por exemplo o objetivo político-ético no Iluminismo, a ciência pós-moderna desconfia e questiona as grandes narrativas. Para Lyotard não há uma razão, há razões, não há uma História, há histórias (Tachner,1999).

Para Baudrillard enquanto a modernidade tem como características fundamentais a racionalidade, a diferenciação nas variadas esferas da vida social, a alienação do ser e a fragmentação social, a pós-modernidade se caracteriza pelo processo crescente de diferenciação onde as fronteiras da vida

Promoção de Saúde a negação da negação

Fernando Lefevre Ana Maria Cavalcanti Lefevre

A pós-modemidade1

Pareceu-nos útil preceder as análises dos diversos processos e estratégias de uma revisão sumária da pósmodernidade, e da Saúde Pública ou Coletiva dentro dela, uma vez que, evidentemente, é este o contexto atual que marca e influencia as estratégias e processos de Promoção de Saúde envolvidos.

Fica claro que não pretendemos, nem remotamente, esgotar aqui a temática da pós-modernidade e seus impactos na Saúde Pública ou Coletiva, sendo nosso objetivo apenas contextualizar a discussão de nosso objeto central que diz respeito aos aspectos mais instrumentais ligados à Promoção de Saúde.

Iniciando a análise, podemos dizer que não há consenso sobre o conceito de pós-modernidade. Alguns autores a definem como um momento que sucede à modernidade, outros como um momento que a ela se contrapõe. O que para alguns autores é pós-modernidade para outros é alta modernidade e neste caso a pós-modernidade seria apenas uma possibilidade.

Assim, para definir conceitualmente pós-modernidade precisamos, antes de mais nada, esclarecer que se trata de um debate onde os marcos tanto temporais quanto conceituais não se colocam de forma precisa.

O debate contemporâneo sobre a pós-modernidade advém das percepções e constatações das inúmeras mudanças que

1 O presente texto se apóia largamente em Taschner, C. B. "A pós- modernidade e a sociologia". Revista USP, N. 42, 1999, p. 6-19.

Apresentação9
I - A CRÍTICA DOS CONCEITOS1
Saúde Pública e pós-modernidade13
A pós-modernidade13
Pós-modernidade e Saúde Pública19
Crítica da doença como fatalidade21
A doença como fatalidade21
Rompendo com a visão fatalista2
negação da negação25
Saúde da Promoção de Saúde25
negação da negação30
Promoção e prevenção32
Promoção não é prevenção3
Dois grupos de pressupostos36
Dialética ou simbiose?39
Promoção de Saúde como a ação de decifrar signos43
Desconstruindo a doença como ameaça45
cognitivo46
Promoção de Saúde e a doença concreta47

Crítica da saúde como positividade ou saúde como A Promoção de Saúde: obtendo a saúde positiva como A Promoção de Saúde, a doença e o entendimento A informação como peça-chave................................... 47

população50

Comunicação social em saúde, lógica sanitária e lógica da

saúde5
Lógica sanitária e lógica do cotidiano56
dialogal58
Li mitações59
Referências bibliográficas60

Informação para a saúde versus educação para a Promoção de Saúde, pedagogia normativa e pedagogia

PROCESSOS ENVOLVIDOS63
Introdução65
Políticas públicas saudáveis?65
As propostas de políticas públicas saudáveis65
Políticas públicas saudáveis: uma perspectiva crítica67
71

A Promoção de Saúde e o Planejamento Estratégico

Cláudio Gastão Junqueira de Castro Ana Maria Cavalcanti Lefevre

O momento normativo: o que deve ser75
O momento estratégico7
O nomento tático-operacional78
Conclusão79
exe mplo hipotético80
Promoção de Saúde e fases da vida87
O curso pós-moderno da vida87
Os idosos na atualídade91

Processo de avaliação em Promoção de Saúde: um 1 historicamente recente, mas que recupera antigas tradições da Saúde Coletiva, que concebia a saúde e a doença numa escala mais macrossocial, no contexto das cidades e do meio ambiente.

Há, todavia, um grande perigo rondando a Promoção e que está ligado ao fato, óbvio, de que ela é tributária do seu tempo histórico e, por isso, das relações de poder, hegemonia e contra-hegemonia que marcam este e qualquer tempo histórico. Sem entrar, por hora, no detalhe da questão, o que podemos dizer é que ela pode estar sendo usada, entre nós brasileiros e alhures, para deslocar a saúde do seu espaço político nobre - a relação saúde/doença - sob a alegação de que saúde é "outra coisa", diferente da "doença", o que vai acabar levando a que a tecnocracia hegemônica reine inconteste sobre o campo sanitário, relegando a Saúde Coletiva ou Pública à condição de articuladora de uma estratégia compensatória que, sob uma roupagem vagamente progressista, destina-se, no fundo, a bloquear o acesso das massas pauperizadas e excluídas ao mercado de consumo de bens de saúde, colocando assim em cheque a própria concepção moderna de Saúde Coletiva e, no nosso caso brasileiro, os princípios mesmos do Sistema único de Saúdé - SUS.

Nesse sentido, acreditamos ser necessário que, sobre o arcabouço da Promoção de Saúde seja exercida uma aguçada crítica conceitual e política envolvendo a noção ambígua de "Saúde Positiva", que esclareça os riscos a que a Promoção está sujeita e que permita que avanços reais e permanentes sejam alcançados. É o que se pretende ao longo deste livro.

Os autores São Paulo, agosto de 2004

idosos94
Promoção de Saúde e espaços urbanos9
A urbanização na pós-modernidade9
de Saúde103
Crítica da proposta das Cidades Saudáveis105
Referências bibliográficas106

A Promoção de Saúde para a qualidade de vida dos As cidades saudáveis como nova estratégia em Promoção

I - PROMOÇÃO DE SAÚDE E DOMÍNIOS CONEXOS 1

de aprendizagem/educação?113

Escolas promotoras de saúde ou escolas promotoras

Ghisleine Trigo Silveira Isabel Maria Teixeira Bicudo Pereira

ambiente saudável e serviços de saúde116
Educação em saúde118
Ambiente saudável119
Serviços de saúde119
dia"120

Escola Promotora de Saúde: o tripé educação em saúde, A escola Promotora de Saúde e a "escola nossa de cada Uma escola saudável é uma boa escola? 123

Recursos Humanos para a Promoção de Saúde125

Ana Maria Cavalcanti Lefevre Vitória Kedy Cornetta

para o setor saúde126

A representação gerencial da área de Recursos Humanos

A representação do conceito de saúde e os recursos humanos para a área de Promoção de Saúde ......................... 129

Promoção de Saúde131

Atributos e habilidades que deve ter um trabalhador da

Promoção de Saúde133
Considerações finais135
Bioética e Promoção de Saúde137

Propostas para o desenvolvimento de profissionais de Paulo Antonio de Carvalho Fortes Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli

Conceito, características e breve evolução histórica137
As ações de Promoção de Saúde e a autonomia141
Promoção de Saúde e o princípio ético de justiça146
Conclusão148
Referências bibliográficas149
Considerações finais153
Sobre os Autores155

Apresentação

O propósito deste livro é apresentar a Promoção de Saúde para dois públicos ao mesmo tempo: para os que têm pouca ou nenhuma familiaridade com o tema e também para aqueles que têm dela uma visão convencional. Assim sendo, busca-se ao mesmo tempo apresentar a Promoção de Saúde e criticar o modo como ela é habitualmente vista, concebida e praticada.

Acreditamos firmemente que a Promoção de Saúde representa uma possibilidade de mudança radical no modo atual de conceber e praticar saúde. Mas, para chegar lá, será preciso revisitar criticamente seus fundamentos e práticas. O presente livro representa uma contribuição nessa direção.

A esta breve apresentação seguem-se ensaios que fazem a crítica, tanto do modo atual de conceber saúde e doença, quanto das insuficiências da crítica da saúde/doença feita pela Promoção de Saúde convencional.

Finalmente, fazem parte do livro também três ensaios que relacionam a Promoção à Escola, aos Recursos Humanos e, dada sua importância atual para a Promoção de Saúde e para a Saúde Coletiva como um todo, à questão da Bioética.

Saliente-se que somos partidários da proposta de

Promoção de Saúde, mas não incondicionais: nossa condição é que a Promoção seja vista e praticada como uma estratégia - poderosa que pode significar passos concretos em direção à utopia de um mundo sem doenças ou, no mínimo, menos doente.

De fato, nos últimos anos o movimento de Promoção de

Saúde vem ganhando força, com a realização de uma série de conferências internacionais, inclusive na América Latina, reforçando suas práticas. Trata-se de uma proposta

Promoção e prevenção

O movimento preventivista, na medida em que consistiu num esforço de se antecipar à doença, poupando a energia e os custos econômicos e psicológicos do tratamento, representou um importante passo nesta direção de entender a natureza da doença e limitar a sua carga ameaçadora. Mas a prevenção tem um alcance necessariamente limitado.

Por isso, para entender a Promoção de Saúde como mudança de paradigma é preciso também enfrentar uma discussão que permita distinguir Promoção de Saúde e Prevenção de Doenças, já que a prevenção está ainda associada ao antigo paradigma:

Em que consiste o modo tradicional e dominante entre nós (brasileiros vivendo no mundo e no Brasil, no ano 2004) de entender saúde e doença, de obter saúde, para cada um e para todos e de se proteger da doença?

A maioria de nós acredita - e não deixa de ser verdade - que saúde é aquilo que um determinado indivíduo, uma pessoa singular, tem, ou não tem, ou está com, ou não está com. Nesta definição já vem implícita a de doença, já que doença é quando este mesmo indivíduo não tem ou não está com saúde (Lefevre, 1999).

Muitos de nós, mesmo os que não conhecem Saúde

Pública, sabem, também, que as coletividades podem estar saudáveis ou, endêmica ou epidemicamente doentes (Barradas, 2000).

Tradicionalmente também entende-se que estes indivíduos obtêm ou reobtêm saúde quando, em decorrência de uma dada intervenção ou tratamento (uma cirurgia, uma tratamento com remédios, fisioterapia, tratamento psicológico, etc.) deixam de ter ou de estar com alguma doença ou ficam com esta doença controlada (no caso da hipertensão, por exemplo) ou minimizada (por exemplo, as pessoas que sofreram um acidente grave e que, em decorrência de uma da empresa que o produziu. Trata-se de um elemento de fé, de confiança no sistema perito em questão.

Na relação modernidade/reflexividade nota-se que a "reflexividade é introduzida na própria base de reprodução do sistema, de forma que pensamento e ação estão constantemente refratados entre si (...). A reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação renovada sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter (...). Não é que não existe um mundo estável a ser conhecido, mas que o conhecimento deste mundo contribui para seu caráter instável ou mutável (...). O conhecimento (...) reúne-se ao seu objeto (:..) deste modo alterando-o" (Giddens 1991).

Outro conceito destacado por Giddens é que a modernidade é essencialmente globalizante. Para estudarmos esta questão é necessário analisar a organização da vida social através da relação espaço/tempo. Na era moderna o distanciamento entre espaço/tempo é cada vez maior, de forma que as relações sociais locais e distantes ocorrem de forma cada vez mais alongada. "A globalização pode ser definida como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam locais distantes de tal maneira que acontecimentos locais são moldados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa" (Giddens, 1991). Portanto, o que ocorre em uma cidade é influenciado por fatores distantes tais como o mercado de bens, ou a bolsa de valores, que freqüentemente operam em uma localidade muito distante da cidade em questão.

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