Literatura infantil e infanto-juvenil

Literatura infantil e infanto-juvenil

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Mara Elisa Matos Pereira é licenciada em Letras (1992) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), graduada em Psicologia (2003) pela mesma universidade, mestrado em Lingüística e Letras (1996), com linha de pesquisa em teoria da literatura, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), e doutorado em Lingüística e Letras (2001), com área de concentração também em teoria da literatura, pela mesma instituição. Atualmente, é professora adjunta com doutorado da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Tem experiência na área de letras, com ênfase em teoria literária e literatura infantil.

A literatura infantil exerce um importante papel na formação da criança. Nesta obra, abordaremos questões diretamente ligadas a esse gênero. Além de salientarmos sua importância, destacaremos suas características principais, sua origem e evolução ao longo do tempo. Falaremos a respeito de textos e autores infanto-juvenis e do papel do professor como mediador da leitura literária, destacando os desafios enfrentados por aqueles que desejam formar leitores.

A abordagem por nós escolhida começa por apresentar as especificidades da leitura literária, buscando fundamentar, através destas, a importância de estimularmos, desde cedo, na formação das crianças, o contato com os mais variados textos literários. Em seguida, procuramos traçar um perfil dos leitores infanto-juvenis, com o intuito de oferecermos, aos futuros professores, um suporte teórico que os permita selecionar adequadamente textos a serem apresentados em sala de aula.

Após falarmos da leitura e do leitor, partiremos para a exploração do terreno pertencente à produção literária infanto-juvenil. Primeiro, contextualizamos seu surgimento, enfatizando sua estreita ligação com as transformações ocorridas na sociedade européia, a partir do estabelecimento do modo burguês de vida como paradigma. Em seguida, apontamos o caminho seguido pelo gênero tanto na narrativa como na poesia. Por fim, apresentamos um panorama da literatura infanto-juvenil brasileira, destacando as principais linhas que a constituem e os autores significativos.

Os três últimos capítulos do livro são dedicados às possibilidades de trabalho com a literatura em ambiente escolar. Elencamos, primeiramente, algumas formas de apresentação do texto literário, dando destaque à contação de histórias. Depois, abordamos as relações entre literatura e outros meios que se dedicam a apresentar textos ficcionais, como a televisão e o cinema. Encerramos falando a respeito da importância de se trabalhar com a literatura na escola através de projetos de leitura bem estruturados.

Assim, este livro é uma síntese de vários caminhos que constituem o território da literatura infanto-juvenil. Ele se propõe a ser um mediador entre o aluno e a produção teóricocrítica sobre o tema. Aqueles que reconhecerem a importância do trabalho com a leitura literária devem continuar a percorrer este caminho de estudos aprofundando e ampliando suas leituras.

1 A leitura literária 1.1 Leitura 1.2 A formação do leitor 1.3 A leitura do texto literário 1.4 Iniciação literária 1.5 A leitura como responsabilidade social

2 O leitor infanto-juvenil: uma tipologia 2.1 O leitor infanto-juvenil 2.2 Assimetria e adaptação

3 A literatura infanto-juvenil: origem 3.1 O surgimento da literatura infanto-juvenil: contexto histórico 3.2 Os textos destinados à criança 3.3 Problemáticas do texto infanto-juvenil

4 A narrativa infanto-juvenil 4.1 A narrativa literária 4.2 A narrativa destinada ao público infanto-juvenil 4.3 A formas narrativas oriundas da oralidade 4.4 As adaptações de narrativas destinadas ao público adulto 4.5 As narrativas autorais

5 A poesia infanto-juvenil 5.1 Um conceito de poesia 5.2 As fontes da poesia infanto-juvenil 5.3 As característica da poesia infanto-juvenil contemporânea 5.4 A poesia na sala de aula

6 A história da literatura infanto-juvenil brasileira: fases e autores I 6.1 A origem da literatura infanto-juvenil brasileira (1890 – 1920) 6.2 O gênero se consolida no Brasil (1920-1945) 6.3 As tendências seguidas pelo gênero (1945-1965)

7 A história da literatura infanto-juvenil brasileira: fases e autores I 7.1 Breve histórico da tranformação 7.2 Os caminhos da literatura infanto-juvenil contemporânea 7.3 As características estruturais

8 As formas de apresentação do texto literário na escola 8.1 A contação de histórias 8.2 Dramatização 8.3 A interação entre literatura e outras expressões artísticas

9 As relações entre texto literário, televisão, cinema e história em quadrinhos 9.1 No reino da imagem 9.2 As mídias analógicas 9.3 As histórias em quadrinhos

10 Projetos de leitura literária na escola 10.1 As relações entre literatura e escola: história 10.2 A leitura literária e as atividades escolares 10.3 Projetos de leitura literária 10.4 O método recepcional

Referências por capítulo Referências Gabarito

1 A leitura literária

Mara Elisa Matos Pereira

A leitura literária é um tipo especial de leitura. Sua especificidade decorre, sobretudo, das características do texto literário. Não é fácil dizer exatamente o que o texto literário possui que o diferencia dos demais textos que circulam na sociedade desde tempos remotos. Muitos estudiosos, desde o filósofo grego Aristóteles1 , buscaram estabelecer critérios para a classificação de um texto como literário, mas o fato é que, até hoje, não temos nenhum traço que esteja presente exclusivamente nele.

Mesmo diante dessa realidade, seguimos valorizando a literatura como uma manifestação humana que merece lugar entre as práticas culturais de nossa sociedade e continuamos reservando espaço para ela no ambiente escolar. Os motivos para valorizá-la e para transformá-la em instrumento de formação do sujeito variaram ao longo do tempo. Conseqüentemente, variou também a função social que ela assumiu de uma época para outra. Apesar disso, é sempre bom lembrar que literatura é, antes de tudo, arte. Independente do que façamos com ela ou de que forma ela repercute na sociedade, sua origem deve ser, em princípio, um ato de criação artística e é assim que devemos considerá-la.

Quando falamos em literatura infanto-juvenil, geralmente corremos o risco de esquecer o caráter artístico dos textos pertencentes ao gênero, a favor de uma abordagem mais lingüística, aproveitando poesias e narrativas literárias para ensinarmos Língua Portuguesa, ou mais ideológica, centrada na transmissão de valores e comportamentos – atitudes que, muitas vezes, reduzem as possibilidades de interpretação do texto literário e o empobrece. A leitura literária pode conduzir o leitor a mundos fascinantes. Estimulá-la de forma livre é permitir essa viagem fantástica.

1.1 Leitura

Antes de falarmos a respeito da leitura literária, é importante estabelecermos um conceito de leitura. Na atualidade, o termo ganhou um sentido amplo. Entendemos leitura como um processo de compreensão e interpretação do mundo. É comum ouvirmos que a “leitura do mundo precede a leitura da palavra”, colocação esta feita por Paulo Freire2 .

Essa ampliação do termo foi acompanhada por uma transformação do conceito de leitura. Atualmente, pode se dizer que ela não é mais concebida como um ato mecânico de decodificação de palavras, frases, parágrafos etc. Não é mais compreendida como um exercício de busca da interpretação correta de uma mensagem que está exclusivamente no texto.

Ler um texto é atribuir-lhe significações. Para isso, devemos desenvolver uma atividade de reconstrução daquilo que nos é apresentado. Reconstruir o material escrito envolve um mecanismo de decodificação e de ativação dos conhecimentos de que o leitor dispõe. Assim, a leitura põe em ação o nosso conhecimento de mundo, isto é, o conjunto das experiências que possuímos. Ela se caracteriza por ser uma atividade de assimilação de conhecimento, de interiorização e de reflexão.

É assimilação de conhecimento, não só porque, através da leitura, entramos em contato com o conhecimento humano organizado, mas também porque o mundo delineado pelo autor do texto é sempre fruto de seu olhar e, para nós, algo novo.

É interiorização, porque o ato de ler desencadeia um intenso processo psíquico, em que raciocínio, memória e emoção trabalham em conjunto para gerar a significação do texto. A linguagem, por seu caráter lógico, aciona nosso raciocínio, e por seu caráter simbólico, necessita de nossa memória para ser significada, ativando também nossas emoções.

É reflexão, porque quando significamos o texto de outro, reconstruindo suas idéias, comparamos o nosso resultado com aquilo que sabíamos antes da leitura, visto que cada indivíduo concretizará a significação conforme a experiência de vida que possui. O resultado da comparação pode conduzir a um exercício reflexivo transformador.

O processo de reconstruir um texto é resultado de um posicionamento ativo do leitor, que une seu conhecimento de mundo à matéria escrita para, dessa união, produzir a significação. Se entendermos a leitura dessa forma, o leitor passa a ter um papel de muito maior relevância no processo, pois se torna sujeito das significações que constrói. Lógico que, para que isso ocorra, ele precisa ter se tornado um leitor.

1.2 A formação do leitor

O processo de formação pelo qual passa um indivíduo, até não se atemorizar com o texto escrito e perceber nele um grande número de significações possíveis, é muito longo. É por isso que falamos de processo de leitura, pois é algo que se desenvolve no tempo e pressupõe etapas. Ninguém se torna um leitor do dia para a noite.

Além disso, existe uma variedade imensa de textos, dos mais simples aos mais complexos. Isso significa que também existe uma variedade de leitura e de leitores. Muitas pessoas que lêem sem dificuldade uma série de textos, podem se sentir completamente perdidas diante de um determinado gênero textual. Isso acontece porque cada gênero textual possui uma estrutura, uma linguagem e uma função social determinadas. Podemos ler, sem dificuldades, textos informativos, como notícias e reportagens jornalísticas, e nos sentirmos inseguros diante de um texto teórico sobre uma área de conhecimento que não dominamos.

Ademais, é bastante comum, em nossa sociedade, encontrarmos pessoas que, mesmo tendo sido alfabetizadas, não desenvolveram uma prática de leitura efetiva. São pessoas que se restringem a ler textos simples e predominantemente informativos. Certamente, temos aí um leitor diferente daquele que está em contato com textos variados ou mais complexos. Ele faz um uso exclusivamente pragmático do ato de ler e sua competência de leitura é restrita à utilização em situações cotidianas pontuais, como, por exemplo, a leitura de placas de orientação.

O desenvolvimento da competência de leitura ocorre pelo contato com textos de gêneros variados e pela freqüência com que o leitor se exercita nela. Um leitor competente acaba por tornar-se um leitor crítico. Podemos definir esse tipo de leitor como aquele que não é apenas um decifrador de sinais, mobiliza seus conhecimentos para dar coerência às possibilidades do texto; é cooperativo, já que deve promover a reconstrução de mundo, a partir de indicações que o texto lhe oferece; é produtivo, na medida em que ao refazer o percurso do autor, transforma-se em co-enunciador; é assim, sujeito do processo de leitura e não objeto.3

A leitura crítica é o ponto culminante do processo de formação do leitor. Isso não significa que um leitor crítico esteja pronto e não encontre mais obstáculos no mundo da escrita. Como já observamos, toda vez que nos deparamos com um novo gênero textual, podemos enfrentar dificuldades de compreensão e interpretação. Porém, quanto mais experientes formos, mais recursos teremos para realizar a leitura do texto.

A leitura crítica é libertadora. Se escola consegue formar um leitor crítico, ela contribui para que ele tenha acesso a um patrimônio cultural que lhe pertence por direito. Nas relações entre leitor e mundo da leitura, pode se originar um processo de emancipação do sujeito, o qual se transforma e, conseqüentemente, transforma sua realidade.

1.3 A leitura do texto literário

Tratamos, até aqui, do processo de leitura de forma geral. Agora, interessa-nos caracterizar um tipo específico: a leitura literária. Partimos da idéia que esta possui peculiaridades suscitadas não só pelo objeto em que está centrado o processo, isto é, o texto literário, mas também pelo tipo de relação que se estabelece entre este e o sujeito que o lê.

O texto literário é diferente dos outros textos que circulam em nossa sociedade por vários motivos. Gostaríamos de destacar, primeiramente, duas características que o singularizam. Nele, a linguagem se apresenta de uma forma especial, as palavras ganham sentidos novos, muitas vezes, inesperados, provocando uma atenção maior do leitor que precisa encontrar um caminho de significação ainda não explorado. Além de se deparar com a utilização da linguagem verbal diferente do uso cotidiano, o leitor também se depara com a ficção, uma espécie de simulação da realidade, no sentido de que o texto constrói um mundo semelhante ao mundo real, sendo, no entanto, fruto da imaginação do escritor. Esse mundo pode abrigar seres fantásticos e, ainda assim, no momento da leitura, parecer um mundo de existência possível.

Percebemos, então, outra peculiaridade desse tipo de texto: ele nos torna participantes de uma realidade que não é a nossa, mas que, no momento da leitura, passa a existir. E isso acontece mesmo quando essa realidade figurada é maravilhosa, como podemos observar neste fragmento do conto Cinderela:

A rapariga saiu para o jardim a e lembrando-se do que a pomba lhe tinha dito, – Dóceis pombinhos, rolinhas e todos os passarinhos do céu, venham ajudar-me a escolher as lentilhas. Os grãos bons no prato, e os maus no papo. Duas pombas brancas, seguidas de duas rolinhas e de uma nuvem de passarinhos entraram pela janela da cozinha, e começaram a bicar as lentilhas. E muito antes de terminarem as duas horas, separaram as lentilhas. Entusiasmada, a menina foi mostrar o prato com as lentilhas escolhidas à madrasta.4

Tornamo-nos participantes do mundo apresentado no conto através de um processo de identificação em que emprestamos nossa mente para que o texto literário se realize e vivenciamos aquilo que, antes da leitura, era apenas letra impressa.

Como podemos observar, então, a leitura literária é produto das características do texto literário. Vejamos mais um conceito de literatura:

Dúbia, a literatura provoca no leitor um efeito duplo: aciona a sua fantasia, colocando frente a frente dois imaginários e dois tipos de vivência interior; mas suscita um posicionamento intelectual, uma vez que o mundo representado no texto, mesmo afastado no tempo ou diferenciado enquanto invenção, produz uma modalidade de reconhecimento em quem lê. Nesse sentido, o texto literário introduz um universo que, por mais distanciado do cotidiano, leva o leitor a refletir sobre sua rotina e a incorporar novas experiências.5

Por todas as características apontadas, a literatura exerce um papel importante na formação da criança e do adolescente. Mais do que um discurso que veicula valores e comportamentos adequados para a boa convivência social, ela é um espaço de liberdade e criatividade. Um estímulo à fantasia.

Para Sigmund Freud, criador de psicanálise, a criação de fantasias é uma parcela da atividade psíquica que se mantém, independentemente do princípio da realidade, e é submetida unicamente ao princípio do prazer. A fantasia é a expressão máxima da realidade psíquica (núcleo do psiquismo, registro dos desejos inconscientes). Regina Zilberman, grande estudiosa da literatura infanto-juvenil, concorda nesse aspecto quando afirma que:

Alojada no coração dos problemas de um indivíduo, a fantasia não pode ser escapista; nem as imagens que ela libera desligam-se do cotidiano ou da existência dos homens. A fantasia dá uma forma compreensível aos problemas do ser humano. A fantasia transfere essa forma para a literatura, e o leitor procura ali os elementos que expressam seu mundo interior.6

Assim, dar uma forma compreensível aos problemas humanos significa que, através de uma espécie de encenação imaginária, aquilo que antes era confuso ou sem forma pode ser compreendido. Por exemplo, o medo infantil frente ao desconhecido ganha a forma de criaturas assustadoras no conto maravilhoso.

1.4 Iniciação literária

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